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Estado para a Camllia,

para o

senhor patriarcal. Duas conseqüências teriam

advindo desta meotalidade:

a) O

interesse local passara

a

predo

minar sobre os interesses gerais, e b) o brasileiro

se toroara refratário às leis e princípios

que não

se

corporificassem

na figura

concreta de um chefe. Se o "corooe-

42

Estado Novo: Ideologia e Poder

lato" e o "caudilhismo" foram fenômenos advindos do localismo, o conta· to direto entre o governo e o governado fizera COm que o brasileiro se habi· tuasse "a uma fonna concreta, íntima, pessoal de dominação" (FeL, p. 102). Esta mentalidade política teria pennanecido, e seu traço predomi· nante, o "espírito cordial", marcado toda a vida do homem brasileiro. Este "homem cordial" de que nos fala Almir de Andrade se aproxima da concepção desenvolvida por Sérgio Buarque de Holanda em Raizes do Brasil. As relações prim:irias, pessoais, advindas do tipo de colonizaç!o te· riam marcado a cordialidade. lO Não é a bondade do homem que estaria em jogo, mas O espírito de camaradagem. Este não equivaleria ao senti· menta de fraqueza: os feitos históricos teriam comprovado a energia e a bravura do homem cordial. Mais uma vez Canudos, através da pena de Euclides da Cunha, surge como exemplo paradigmático. Almir reconhece

que 011<$ traços podem apresentar as

pe

ct

o

s desvantajosos, tendo em vista O ap

a

recimento de novas necessidades. Entretanto, diferenciando-se de Sérgio lhIarque, .. otimista em relação aO po,,{vel

aproveitamento

racional dos travos psfcológicos do homem brasileiro, desde que usados em uma orfen· tação consciente. Sua p"'tensllo

é

usá�os como fundamento de uma dou·

trina política para o Estado Novo e como base das relayões entre governan· tes e governados, tornadas pessoais pelo estilo de Vargas.

Na análise da história política do Brasil, Almir de Andrade repassa o Império, a Primeira República, a Revolução de 30 e principalmente o novo regime de 37. Sua interpretação não se atém a fatos políticos vivenciados nos anos 30, nem ao debate de fórmulas políticas concretas para o Estado. São as grandes interpretayões, como os ensaios de Oliveira Viana e de Alberto Torres, que ganham relevo em sua análise. Em seu livro n[o há menção à

R

evol

ução

Paulista de 32, ao crescimento do integralismo, ou

à

[ntentona Comunista de 35, utilizada como uma das justificativas para ad.e· cretação da Carta de 37. A seu ver, sa-o as raízes culturais, o localismo e o personatismo que legitimam o novo regime e a figura de Vargas.

Nem volta .0 p�do,

o

período imperial

é

analiJado po<ílivamen­ le. O Império

sempre ,fora

reaUm e brunelro: . tendência localista •

reglo­

oallsta

que .>tInla era contrabalançada p.lo poder ceo!<lIl. As

prcv;ocl8i .

munielpios eram respeitados, mM o pmtigio e a autoridado imperial uni· ficovam e corrigiam os excessos. O podtr moderador, .únbolo do esp/rito de fo

r

ça

e

'ol.nlncls, se enoantrava encarnado na pessoa do mo=a. Esta

vaJorizaçlo da vida política brasileira do �cuJo XIX parece encontrar g

r

ande ressondncla nos

a

nos 30. Autor.s que defendem poslçlles pol{t!CaI .s mal. distlnlu se n:en.onIJam ao avaliar I ex

pe

rillncla Imperial. Podemos citaI Alcindo Sodré, em A gênese da desordem (1933) e Virgínia Santa Rosa, emA desordem (1932). Ambos concordam quanto ao papel salvador do Império, capaz de manter um m/nimo de uniformidade de coSlumes e de sentimento nacional. Estes autores, entretanto, apresentam propostas

I

Tradição e Po/ftica 43

totalmente distintas em relação ao momento que vivem. Santa Rosa criO. ca o regionalssmo e o federalismo, e defende a vigêncsa de um governo for. te capaz de se sobrepor aos partidos políticos. Já Alcsndo Sodré defende a oligarquia e o programa da Aliança Liberal; propOe a permanência do presi­

dencialssmo e o funcionamento dos partidos - garantsdores da democracia -, e critica a política dos tenentes após a Revolução de

1930.

As qualidades do regsme imperial não teriam ssdo mantsdas pela República. Esta sofrera "influências alienigenas, que vieram modificar O ritmo tradicional da nossa evolução politica"

(FCL,

p.

1 1 1 ).

Os homens que fizeram a Revolução de

1 889

não tinham apresentado uma verdadeira compreenslo da realidade nacional. Sofriam snfluêncsas da literatura polí­ tica francesa e norte-americana e levaram a liberal-democracia às suas últi­ mas conseqüências: a descentralszação federalista radical. O desacordo entre os principias (idealismo republicano) e as condsções mentais e estruturass do povo teria desencadeado a falência do regime. A República sofria dos males de raiz, perdsa o contato com as tradições da politica colonsal e imperial.

Em

1 930,

pela primeira vez, teriam sido abalados "os alicerces desse regime de importação ideológica"

(FCL,

p.

1 1 9).

Na visão de Almir de An­ drade, é fácsl destruir um regime, o difícil é descobrsr um regime novo e eficiente que o substitua. Assim, depois da revolução teria predominado um ambiente confuso, agitado por uma onda de paixões regionalistas e par­ tidárias. A Constituição de

1934

só fizera agravar os males da de

1 89 1 .

Mantivera a máquina politica que havsa falido, reforçando·a com o enxerto de vársas ideologias estranhas, sem qualquer coerêncsa ou unidade. Para que as aspirações renovadoras de

30

não perecessem, fizera-se necessársa uma reviravolta política. E esta tersa vindo do próprso governo, com o

10

de novembro.

Msl novecentos e trinta e sete representaria a volta às origens1 à tradi­ ção da polítsca brassleira, baseada no equilíbrio entre a tolerâncsa e a força, tão t!pico do brasileiro. Tolerância sem fraqueza e força sem arbitrso, exa­ tamente os traços que representariam o espirito do "homem cordial".

A hsstória de que nos fala Almsr de Andrade refere-se li singularidade das relações socsais do homem brasileiro, marcada por traços que, segundo o autor, não sofreram alterações ao longo do tempo. As relações sociais constituiriam a tradição a ser respeitada. Almir se propOe a tarefa de rela­ cionar a tradição com uma propos.ta política, integrando uma à outra. Nes­ te cenário, que se notar a importância de Vargas como intérprete dos ideass e dos sentsmentos da época. As qualsdades excepcionais de Vargas se revelariam na sua capacidade de ser o intérprete de valores que se encon� trariam subjacentes na vida brasileira. A tradição, o "espírsto cordsal", seria o fundamento do novo regsme e da legstimsdade çl.o governo. Assim, para Almir de Andrade, a valorização da pessoa de Vargas encontra respaJ-

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Estado Novo: Ideologia e Poder do na mentalidade poUtica brasileira. que sempre pessoalizou o mando. Apoiando-se nos dsscursos de Vargas, procura mostrar como se restabele­ ceu o contato entre as tendêncsas sociais e as ativsdades do governo. A tra· dição polftica teria sido reintegrada pela "elimsnação dos intermedsários". Teria havido uma aproximação mmor entre o governo . o povo.

"Na verdade V.rgllS era um homem excepcionae por seu e$p(rilO de eqÜidade, Jutllça. tolerância, cordialidade ( .

.

. )

.

EstaS qualidades � que lor· nam o Estado Noyo aquUo que foi: um regine que. embor� discrlcionll·

no,

era

mals democrntko do que muito. que se .ucedetam"," Para Almi •• o que dlfe.encla o Estado Novo du experiências fascislas é exalBmente •

maneira de prallcar e interpreta. a autoridade. "Vargas tinha contato dire­

to. pelo menos doutrlnariam<Ultc, com quaequer pessoa

( . . . ). O

espírito d. GetúeiQ era f.xor o governo dlrelo, ele ouvia .s reivindscações. as mtra· va o executava de acordo com as exigências dos intere ... s populares. B evldeme que um regime d

e

sta natureza nlro se pode converter om doulrlna poIIUc.: depende dó homem. da qualidade pessoal do governante

.

" Esta Inlerpret ação. que Almir de Andrade hoje defende, de que o '<gsme de

1937 n&õ se põde COnverter em doulrina política. MO leva em conla que a pes!IOallzação do mando -por

representar

a meolalidade poJltlca brasilel· ra -fOI Incorporada â doutrino pol(tlca do Estado Novo de diferentes for. mas e por diversos autores.

Segundo esta tradição, que tem em Almir um de seus expoentes, é também a mentalidade polltica que não predispõe à criaçao de "corpos intermediários" entre os individuos e o Estado. Assim. era desnecessária a crioçao de qualquer tipo de partido ou mesmo de uma ettrutura corpora·

liva

par

• • repleSellta�lo polític

a

da sociedade.

Se

gundo Almlr. organizar corpor.çO.' nunca foi objetivo de Vargas. já que contrarla .. a perspectiva de gov

ern

o direto. O carll.er nacional, definIdo pelo espirito de tolerância •

• o homem cordial vlvenclado por Vargas teriam garantido a legitimidade e a eficácia do regime.

Ao vaJorizar o contato direto, a do poder, Almir deixa de propor formas organszacionais concretas o Estado brasilesro. O único lsvro onde as discute é O conceito brasileiro de "municfpio ", prepa· rado par� o 11 Congresso loteramericano de Municípios, realizado em se·

temb

r

o de 1941. este pequeno te�to. toma . ConstitulÇllo de

1937

co

m

o base para • definlÇliO das alríbulç()es e limitaÇ1)eS dos munrciplos br ... 1.1· ros. Entretanto, esse leXlO

UrM exposiÇlio do que

a

Constituição :!.locava

no. murucCpíos e, creio, MO desempenha um papel preponde.rantc no dls­

CutSO de Almir de Andrade.

O

munlcfpío é tetrul reeevante no Estado Novo.

OutrOs

aUlores dele viro...: OQJp .... na tentativa d. atUlÚizaJ e modemJ%JIt

Tradição e Po/(tica

45

4. Consideraçi5es finais

Este texto

coloca a figura de Almir

de Andrade como penenC4Dle ao qUA. dradf

d

e douuinadores do regime de

1937.

As foanulações desse aut

o

r

abrem espaço para

o

estudo dllS

nolaçoes ontre

a culturn e

a política no

es­