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1 .

I ntrodução

Em novembro de

1937

instaura·se no país um regime político que afirma inaugurar uma experiência única na história do Brasil. Assim, o Estado Novo, ou o novo Estado Nacional, procura articular uma política ideoló· gica que assinale toda a grandeza de sua inovaç[o e que legitime seu for· mato político-institucional perante todos os atores relevantes do sistema. Com este objelivo, mobiliza uma série de recursos específicos que assegu· Iam a produção e a divulgação de um certo conjunto de idéias que confoI' mam o seu projeto polílico.

Trata·se, portanto, de um momento em que a ideologia política re· vela, de forma nítidll, • teia de relações existentes entee ideologia e podee em um dado contexto histórico.

A

clareza desta relação vem situar e reava· li.r • importância da dimensão político-ideológica em uma determinada configuração do poder, bem como ressaltar o esforço dos atores dominan­ tes em organizar e exercer o poder, tendo em vista o estabelecimento de mecanismos para a obtenção do consentimento dos mais amplos setores sociais. Neste sentido, a elaboração e a comunicaçlo de uma ideologia política legitimadora é tao fundamental para o controle do comportamen­ to político dos atores dominados quanto para assegurar a coesão no inte· rior dos próprios grupos dominantes.

O

discurso político-ideolÓgico ela­ bocado no período do Estado Novo seria voltado paea os atores do sistema político como um todo, identificando-os e traçando as relações soei ai! de poder que entre eles se estabeleceriam.

• Os temas e reflexões presentes neste artigo e no que se 5egue deverão ser desenvol­ vidos em meu trabalho de tese de doutoramento. ora em curso, para o lnstituto Uni­ versitário de Pesquisas do Rio de Janeiro.

110 Estado Novo: Ideologia e Poder

Naturalmente, Já se tomou uivt:il ressaJtBI a lmportÕI1cio da diman

·

sao ideol6gica n. configUI8Çl1o de um dado pro

j

eto pol1tico. Porém,

O

reconheclrmnto deste fato asswno panlcular Int.",.se quando DOS ar .. · tamos

d

e um' "cooccpç«o emIll8cioJÚlt.

" de Ideologia,'

se

g

undo a qulll um con

J

un

l

o d. signJfic�dO$ 6 identificado e ap

r

opóado por determinados otoru, para om seguida

�r

difundido em cenos cont.x

l

os ospec(flcos. NesLa conccpçilo, a ideolo

gi

a

é

LraLada como a mera percepçúo e manlfes· taçDo do que Já .xi!1e. emergindo como um f.to • posterlorl no plOcesso poHuico

global.

No

entanto,

é preciso aflrmá·la como recUrSO de poder

fu

n

damental aO esfolço de alllculaç�o, nào só do que já .xiSle, mas

sobre·

tudo daquilo que se deseja que exista. Dar consrituír". em o

bje

to pnvl' legiado pa,.. • revel.

ç

lío de

projelOs

polit1co�; daI lambém seu papei ativ()

na implemeDtaçiO de tais prO

j

etos.

A

Ideologia política ilS!wne, néSlB

perspcoriva, a dírnens!o de um falo constitutivo da pr6pria ordem

p

olftlca que se deseja construlr/legltiffi8I.'

No caso do Estado Nóvo

,

eslas

reOexOc1

devem ser consideradas .0

lado Ue duas espécies de observaçõet. E.n prune

i

ro lugar, porque o Est.do

Novo nfo poderia ser canc

l

enza

d

o como ponador de uma "doutrina

oficial" compacta, Isto �, homogênea I ponto de .ranar diversid.dt:s

.ele·

vantes. Ao contririo, o que se verifica é . presença de

varlaçOes significa·

uvas que trod"""m um certo ec

l

etiomo em suas propon.u. No enLanto,

."ediumo. que

seja

passlvol

encontrar,

na seio

de.t1l1

propDSUlS, um COCl'

ju

nt

o de l�t

.. central capu de call1ctertzar um determinado p

r

o

j

eto poli·

tlco-ldeol6gico.

Em segun

d

o IUgiU, porque 4 prodUÇIO e a divuigaçAo deste projeto

lIaduziu�se,

d

e

ntre outras Inle/alivllS, peia montagem de um importante 6rgão insutucional: O Departlll11eoto de Imprensa e Propeganda

(DIP).

Esta poderosa agência supervisiona os mais vanados Instrumentos de co­ munJcaÇllo de massa, além de encarregar-se da produÇllo e da dlvulgaç�o

do noticiário

oficial. Su.s seis seçOes demonstram bem o grau de IlIler· vençUo do Eslado Novo nos processos SOCilll$ de comunlcaç�o:

pr

opaganda;

r"díodifus�o: cinema e tea

l

lo; turisno; imprensa: .ervlço� Buxillaru, como financlamento do pro

j

etos etc. O

DIP,

portanto

,

maleriaUu o gIandc e.for· ço empreendido, durante o. Estado Novo, para controlar os instrumentos necessários

à

construção e ímpiementação de um projeto político.ideoló. gico que se afirmasse como socialmente dominante.

O

objetivo deste texto é examinar a construção de lal projeto em uma de suas dimensOes fundanentais à articulaçao da proposta política global do Estado Novo. Ela diz respeito à concepç!o verdadeiramente

"

revolucionária

"

da fórmula institucional a

d

otada pelo novo regime. que passa a se autodefinir como uma democracia social.

O

novo sentido do ideal democrático sintetiza o cerne do projeto do Estado Novo, conduzin· do as explanaçOes na dupla direção do passado e do futuro revolucioná.

o Redescobrimenro do Brasil 1 1 1

dio do Brasil. Projetar o Estado Novo - afirmar sua essência inovadora

-

Implicava

conruulr o nov .. modelo politico do paú;

o

futuro a que

ele se deltlruarla. Neste esforço, • ideologia concebe a realidade que de­

ve ser constru/da a partir de esquemu interpretativos o diagnósticos que

afiflmun sua legitimidade f.ce • um passado tamo recente qUllnt .. "",li

remOIa. Projelor mm noVo Estado é buscar sua legitimidade. mo é. In. cmrsionad por sma odigem, pod seus inícios revolucionários. Um novo prin­ c(pio não se faz sem histÓdia, poss o traçado da origem é também mma valia pada o passado. Por isso, construir um novo modelo de Estado é também reescrever a história do país, é debrmçar·se sobde o passado naquele sentido mais profundo em que ele significa tradição e suspensão/permanên. cia do tempo. Pdojetar o fmtmro é escdever o qme deve acontecer através daqmslo que já aconteceu.

O presente é mm ponto de sntedseção em que a

histódia é constiturda pela seleção da presença do passado no futudo.

A este esforço se entdegarão snúmeros daqueles que escrevedam sobre o Estado Nacsonal. Aqms nos lsmstademos apenas a examsnar os arligos pu­ blicados em mma das revistas mais smportantes da época: a Cultura

P

o/fti· ca. Dado qme estamos fmndamentalmente snteressados em ressaJtar os esxos centdais do projeto político·sdeológico que então se articula e, mais asnda, preocupados com a defmição/concepção de democdacia que neste mo· menta se elabora, julgamos ser coedente o exame da prodmçfo desta devis­ ta. Em pdsmesdo lmgar, porque se tdata de uma publicaçlo de cunho oficial, subordinada ao OIP, que pode ser considerado uma das prsncipais fontes de produçlo da ideologia do regime.

O

exame do matersal dsvulgado pela

Cultura Polir;ca

revela, neste sentido, um dos exemplos mais bem acabados da proposta polítsca do Estado, uma vez que esta publicação tinha' por objetivo esclarecer e dsvulgad pada O público as transformações qme o país atravessava por obra das iniciativas governamentais. Em segundo lugar, podqme os artigos ar publicados - emboda gmardando inúmedas especifici­

dades e mesmo difedenciações - eram frmto de mma seleção feita por um elemento responsável, que os integrava ao codpo da revista em determina· das seções, antecedidos pod notas introdutórias explscatsvas e sumários.' Desta fodma, os artsgos constituem um conjunto qme. ao longo dos quatro anos em que a revista existe, podem ser analssados a partsr de sma temática orientadoda central, gmardando-se cedta dsstâncsa das marcas específicas ' de seus autores. Estes, por sinal, chegam a conststmir um certo núcleo de colabodadores que, repetidamente, padtscipam da devista.

Tal pdocedimento - qme ressalta convedgêncsas nas concepções de amtores dsversos - é facilitado pelo fonoato e pela natudeza da publscação, o que já não sedsa possível se a análise estivesse centdada na produção de obdas individuais maiodes, qme sediam verdadeiramente descaracterizadas caso não se fizesse um exame minucioso das diferenças que marcam o pen­ samento de sems autores entde si e em diversos momentos de sua prodmção.

1 1 2 Estado Novo: Ideologia e Poder

f neste sentido, e com estas limitações, que procuraremos traçar o significado revolucionário que foi atribuído ao projeto político - definido como eminentemente democrático - do Estado Novo. Qual é o novo sig­ nificado desta antiga palavra?

O

que é a democracia do Estado Novo e por

que ela se apresenta como revolucionária? 2.

Revolução e questão social

2. 1 Revolução de 30 e Estado Novo

A proposta de f

u

ndaç.!:

o

de um

novo

I!slndo, "verdadeiramente

naoional e

humilllO", é a 811l1lde tbnlta do diSCUTIa po

li

tico dos anos

pós·37.

A imo portância e • grandeza. de IJIJ propona dfo a ela, na ÓUca d.

seus

defenso­ res, O .

s

tatuto de um novo começo !\li história do pars. A fundaç.!:o/cons­

t

itu

i

çlO de

uma ordem polltio. conSClltane.

com a,

r.ais potencialldndes.

nec.�ldades e

aspirações do povo brasil.lIo significaria um autêntico

r.·

descobrimento do Brasil.

Os acontecimeotos de novembro

de 1937 mateTializam a possibili·