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A pesquisa, ao apresentar a face de “Jesus Curador”, não deixaria de apresentar, mesmo que breve, a relação entre a Salvação e a Cura. Segundo Getui, “salvação e cura relacionam-se enquanto cada uma delas e ambas implicam uma restauração quando e onde houve ruptura, um regresso à totalidade, ao bem-estar, à saúde e à plenitude de vida”.713
Autores como Nuchtern deixam claro o que é cura e o que é salvação.
a salvação pode existir onde não existe cura. Cura pode existir onde não existe salvação. Salvação é oculta. Cura sempre pode ser constatada. Salvação é uma realidade relacional especial, cura uma possibilidade geral. Cura está potencialmente em toda parte, é possível em todos os lugares, ao passo que a salvação não é real em toda a parte, mas é real em determinada relação. Cura é ativamente factível, salvação é passivamente experimentável. Cura, entendida cristamente, pertence ao terreno da criação, onde o ser humano é colaborador de Deus. Salvação pertence ao terreno da redenção, que ainda está por realizar-se, mas que em imagens se pode experimentar na realidade da criação, na saúde e na doença.714
Uma perspectiva cristã africana da salvação e da cura tem que levar em conta a compreensão cristã e seu envolvimento nela, bem como a compreensão autóctone africana. Na visão de Getui, os dois sistemas de crenças têm muito em comum sobre o que a salvação e a cura implicam, e os obstáculos para a sua superação. As diferenças, se é que existem, estariam mais na ênfase.715 A autora afirma ainda que,
salvação e cura centram-se na apreciação e no respeito à vida como dada por Deus, assim como aquelas posses e valores que contribuem para a plenitude da vida, como a boa relação com Deus, a fertilidade da terra, a comida, as crianças sadias e as famílias, o respeito à dignidade humana, a segurança, a justiça, a saúde, a liberdade dos presos, o riso e a alegria, a esperança, a unidade, o emprego, a vitalidade e a espiritualidade profunda.716
Entendemos que muitas vezes esse ideal de vida é desafiado constantemente pela falta da plenitude da vida, ou é experimentado parcialmente devido à pobreza, fome, doenças, em suma,
713 GETUI, Mary. Salvação e cura: Uma formulação teológica africana. In: VIGIL, José M., TOMITA, Luiza E.,
BARROS, Marcelo (Org.). Teologia Pluralista Libertadora Intercontinental. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 293.
714 NÜCHTERN, Michael. Critica da medicina científica e o atrativo dos métodos de cura “alternativos” no mundo
Ocidental. In: Concilium. Petrópolis: Vozes, n. 278, set.1998/5, p. 36.
715 GETUI, Mary. Salvação e cura: Uma formulação teológica africana. In: VIGIL, José M., TOMITA, Luiza E.,
BARROS, Marcelo (Org.). Teologia Pluralista Libertadora Intercontinental. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 293.
pelas injustiças sociais causadas por governos corruptos e também por falta de políticas públicas eficientes que atendam a todos, em especial às populações mais pobres. Getui enfatiza mais estas razões. Segundo ela, “as razões pelas quais o ideal não se realiza são várias. Pode ser desde o desvio do plano divino à maneira como os indivíduos se relacionam consigo mesmos, com os outros e com o mundo inteiro, tanto o visível quanto o invisível.717
A compreensão cristã da salvação não se limita, mas enfatiza a conquista escatológica futura. O sistema africano de crenças vê a vida em sua totalidade, guiado pela importante consideração, presente nos mitos de origem e criação, de que a vida tem um começo, um objetivo e um destino dados por Deus.718
Os dois sistemas de crenças podem ser resumidos em que, a salvação não é limitada ao plano espiritual, mas se estende à vida inteira: ao psicológico, ao mental, ao emocional, ao social e até ao cósmico. Isso se aplica também à cura, que se refere não só ao bem-estar físico do indivíduo, mas também se estende à cura interna e à reconstrução das relações rompidas, e uma sadia relação com a natureza.719 Em Nyungwe a palavra cura = kupola,720 está relacionada à palavra salvar = kupulumuka.721 Daí que, quem busca a cura também busca a salvação. Os Ancestrais, o irmão mais velho e o medico tradicional, todos tem a tarefa de proteger e garantir mais vida para a comunidade. As comunidades africanas encontrarão em Cristo vida, e vida abundante. é da vida que se alegram as comunidades africanas, e essa vida plena se encontra em Cristo salvador que conduz seus irmãos para Deus.
717 GETUI, Mary. Salvação e cura: Uma formulação teológica africana. In: VIGIL, José M., TOMITA, Luiza E.,
BARROS, Marcelo (Org.). Teologia Pluralista Libertadora Intercontinental. São Paulo: Paulinas, 2008, p. 295.
718 Idem, p. 294. 719 Ibidem
720 MARTINS, Manuel dos Anjos. Elementos da língua Nyungwe, gramática e Dicionário nyungwe-
Portugues-Nyungwe, Editorial Além-Mar, Calçada Eng. Miguel Pais, 9-1200, 1ªEdição 1991, p. 380.
CONCLUSÃO
Os quatro capítulos que resultaram nesta dissertação foram fruto de uma longa trajetória, que a princípio parecia difícil, mas foi possível chegar até à face atual da pesquisa, graças a diversas fontes.
A presente pesquisa só pode ser entendida melhor tendo presente que o povo pesquisado faz parte dos povos africanos que sofreram os efeitos negativos e violentos da colonização. Negativos, na medida em que o povo viu seus filhos sendo levados como escravos, queimados, mortos e massacrados brutalmente pela dominação colonial portuguesa. Efeitos violentos na medida em que os direitos humanos fundamentais dos povos africanos foram violentados: o direito à vida digna, à língua, cultura, religião próprias; o direito à liberdade de expressão; de viver de acordo com as tradições de seus ancestrais; o direito à independência. Tudo isso foi violentado e ao povo foi imposta uma língua, cultura, religião ocidentais em nome da civilização. Que civilização é essa que se nega a aceitar o outro na sua alteridade? Que civilização é essa que nega as diferenças e busca homogeneizar o mundo a partir do seu ponto de vista? Que civilização é essa que desqualifica outros povos, tendo-os como primitivos, pagãos ou como povos sem história? É a ocidentalidade no seu dualismo que busca separar a realidade matematicamente, ignorando outras dimensões do ser humano.
Ficou estampada na história da África o comportamento infantil e imaturo de um povo, o povo cristão ocidental que quis governar o mundo a partir do seu gosto e sua perspectiva. A maturidade de um povo pode ser avaliada pela capacidade que o mesmo tem de se relacionar com os outros. Depois de todas as tentativas perpetradas pelos ocidentais colonizadores de querer destruir as culturas africanas e modos de vida baseados nas tradições ancestrais, os povos africanos ainda preservam e vivem a sua cultura, porque cultura é ação viva na mente do povo. E o povo africano não acabou. Sendo ação, o povo cria e consequentemente simboliza. O povo criou laços com os vivos e laços indestrutíveis com seus ancestrais. A essa relação o povo sabe dar sentido e isso molda a sua identidade baseada nas tradições de seus ancestrais.
É nessa teia de significações que vemos que a cultura de um povo é algo sério. Fechar um povo em currais como se fosse cabrito, para melhor controlar e soltar na hora que se quer, demonstra claramente a atitude imatura de um povo que não soube valorizar as diferenças como riqueza e desperdiçou experiências sociais das quais poderia ter aprendido muito. Em todo o primeiro capitulo a pesquisa buscou elucidar este desperdício social e apontar que o povo
africano nyungwe tem sim a sua cultura que é viva e atuante o tempo todo, assim como tem a sua própria cosmovisão. A descolonização da mente africana visa o resgate da autoctonicidade do que é próprio e típico da áfrica e reivindica reconhecimento e respeito diante das sociedades ocidentais, que sempre ignoraram a cultura africana. É por ser viva que apesar de toda violência, os ocidentais colonizadores não conseguiram acabar com a cultura africana.
A visão de mundo no segundo capitulo se relaciona diretamente com saúde, doença e cura, neste caso a capacidade reprodutiva no terceiro capitulo, como também a visão de mundo se relaciona com o sagrado. A pesquisa revelou-nos que, há diferentes formas de percepção coletiva e individual da causa da doença e da resposta terapêutica. Neste sentido, a antropologia como o estudo da lógica dos comportamentos permite apreender melhor o que tem de original nas práticas terapêuticas tradicionais em relação à medicina dos hospitais, aquém dos fatores históricos e culturais. Ao tratar a questão da doença metodologicamente encontramos o modelo etiológico que busca explicar a causa da doença e o modelo terapêutico que busca através dos atores sociais, soluções originais, distintas e irredutíveis, para responder ao problema da doença. São modelos explicativos que tentam dar certa ordem e sentido a acontecimentos, referindo-os a uma concepção de universo subjacente a uma cultura específica e ao que julga ser a realidade. Assim, no caso de muitas etiologias populares, as relações humanas são consideradas como as mais básicas de todas as realidades, e como conclusão de que os modelos explicativos refletem uma imagem subjetiva e personalizada, ou seja, doença e morte se referem a problemas de relacionamento interpessoal, bem como a características negativas como é o caso da inveja, raiva, mau olhado, a infertilidade aparente, o ciwindo e o likankho. Neste sentido, a biomedicina é considerada objetiva, impessoal e baseada em processos fisiológicos, fornece pouco sentido pessoal ou social à experiência de doença.
Como é que as pessoas falam culturalmente daquilo que lhes aflige? Definir saúde e doença não é tarefa simples e longe está de ser exercício meramente teórico. A pesquisa revelou- nos que a percepção de saúde e doença varia de uma cultura para a outra e envolve outras lógicas e avaliações sociais. Apesar de as perguntas e preocupações serem as mesmas, as respostas variam muito de uma sociedade para a outra. Portanto, as dimensões sociais são importantes para definir a doença.
A doença não é apenas um desvio biológico, mas é também um desvio social. Por isso, a cura, da mesma forma, deve ser entendida antes de tudo como um acontecimento social, e não
individual. Para lidar com a doença, todas as culturas produzem um saber médico para superar o sofrimento e a aflição e as formas de lidar com ela dependem dos modos de entendê-la ante o corpo e o mundo.
A medicina ocidental tem dificuldade em lidar com os problemas de sentido apresentados pelos que sofrem. A saúde e o sentido da vida das pessoas não podem ser produzidos tecnicamente e nem podem ser fabricados. O pensar e o agir científico na medicina, buscam isolar os fenômenos do contexto geral em que estão situados. Distancia-se da totalidade concreta e sensorial do ser humano e volta-se para os elementos e para as causas, no medir e corrigir valores numéricos para o exame médico. Há uma preocupação em concentrar-se sobre números e resultados que reflete a convicção cartesiana de que dispor sobre a realidade física é também dominar a realidade. Já que real é aquilo que pode ser medido, ao médico da ciência interessa mais o resultado do que a sensação, o objeto mais do que o sujeito. Ora, o ser humano não pode ser tratado como objeto, ele tem sentimentos. O ser humano ele não é ora o organismo e ora o psiquismo. Ele é inteiro e total. Quando adoence, não é um pedaço dele que está doente, mas é o humano inteiro que está enfermo.
É a partir da cosmovisao que entendemos que o ato de estar saudável é um ato relacional e não apenas individual. Estar doente pode significar a falta de comunhão e desarmonia com os ancestrais; a falta de cumprimento de uma prescrição a respeito deles. Gozar de boa saúde significa estar em comunhão com os vivos e com os ancestrais, os guardiães e protetores da família, donde a cura física vem a ser uma consequência. A cura nos moldes africanos do povo nyungwe é integradora. A pessoa nunca é tratada e curada por partes, mas é a pessoa inteira que entra no processo terapêutico. A ocidentalidade baseada no cartesianismo busca separar a doença do indivíduo no tratamento. A atenção está nas doenças, acarretando grande dificuldade em lidar com os sentidos da pessoa. A partir da cosmovisão entendemos igualmente que o sistema africano de vida é um sistema baseado em mediações.
Daí que o povo africano ao fazer a releitura da cristologia, não encontra nenhuma dificuldade em ter Jesus Cristo como o grande mediador entre a humanidade e Deus Pai. Os ancestrais africanos são mediadores, o irmão mais velho é mediador, assim como o médico tradicional é também mediador. Ancestral, irmão mais velho e médico tradicional, essas categorias aplicadas a Jesus, em nada contradizem a fé cristã do povo africano, pelo contrário, constituem a forma mais ideal de apresentar Jesus com o primeiro de todos eles, é Ele o modelo
de vida a ser seguido e imitado. É a forma de dizer que Jesus não é um estranho, mas realmente “um entre nós”, ele faz parte da comunidade. É uma visão que em nada contradiz as tradições bíblicas, pois no Antigo Testamento Deus é também visto como membro do clã, como aquele que está na origem das doze tribos, há tenda e casa para Ele.
Jesus é o cumprimento de todas as promessas almejadas pelos ancestrais. Quando o médico tradicional cura, ele não está fazendo nada mais do que participar daquele mandamento deixado pelo Cristo, o Proto-Ancestral (Lc 10, 8-9) “Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, curai os doentes que nela houver e dizei: „O Reino de Deus está próximo de vós”. O ato de curar é uma missão que Jesus deixou a nossos ancestrais; é a maneira de tornar cada vez mais presente a presença do Reino de Deus entre os africanos. É a forma de viver o Reino de Deus aqui e agora. Daí que quem busca a cura, está buscando também libertação de tudo o que constitui ameaça para a força vital e a salvação. A nova releitura da Cristologia na África nos ajuda a entender que Cristo pode se tornar visível através dos atos de cura dos médicos tradicionais, pois ai está também o “ide e fazei discípulos todas as nações”. Mt 28,19-20. É nova releitura porque ela não é ocidental, mas sim africana.
Culturalmente, o anúncio de Cristo na África significa a aliança entre Deus e o povo africano e Cristo é o Grande Mediador. O anúncio de Cristo na África não é uma violência às culturas africanas, se foi no passado, hoje não precisa mais. O anúncio de Jesus na África vem recompor a cultura; vem dizer que essa cultura pode ser dignificada, sem com isso pretender que todas as situações sociais se resolvam, pois estas dependem da vontade política dos governantes.
Portanto, a relação mais próxima que houve entre aquele cristianismo apresentado pelos cristãos ocidentais e o colonialismo, como também as atitudes e as ações missionárias, tiveram uma decisiva influência nas teologias africanas emergentes. Estas buscam apresentar um Jesus não europeu, não branco e muito mais ainda um Jesus que não é estranho aos africanos, um Jesus irmão mais velho dos africanos, modelo universal e sendo modelo, é o Proto- Ancestral não apenas dos africanos, mas de toda a humanidade por via soteriológica. Outros povos lhe recusaram hospedagem, mas a áfrica lhe concedeu. Por isso Ele tem cabana na África e não é um forasteiro, mas membro da comunidade.
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geral 16 anos e atualmente técnica de instrumentação há 6 anos. Casada e mãe de Dois filhos. Trabalha no hospital rural do Songo.
JOFRE, Laurinda Chereni. Nascida aos 2 de agosto de 1964, Beira, enfermagem geral durante
19 a atualmente e técnica de anestesia, ou seja está no ramo da anestesiologia há 4 anos. Divorciada e mãe de um filho. Trabalha no hospital rural do Songo.
SNDOCA, Eulária. Nascida aos 21 de outubro de 1959, casada e mãe de três filhos. Funcionaria
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