• Sonuç bulunamadı

Kadın Kooperatiflerinde Paydaşlar .1 Iç Paydaşlar

Kooperatiflerinin Ortaya Çıkışı

SOSYAL GÜVENCENIN OLMAMASI (AKTIF) (N=63)

3.6 Kadın Kooperatiflerinde Paydaşlar .1 Iç Paydaşlar

Ao lado das pré-compreensões implícitas da doença, que são mais vivenciadas que pensadas e que não se apresentam sob a forma de sistema, de acordo com Laplantine, existem em todas as sociedades modelos interpretativos construídos, teorizados, configurados ou “feitos em casa” por diferentes culturas.333 Assim, a sociedade nyungwe tem seus próprios especialistas que

estabelecem os critérios do normal e do patológico, da possessão maligna a ser extirpada e da possessão benigna a ser cultivada. Esses especialistas são os médicos tradicionais.

Atualmente existe em Moçambique a AMETRAMO (Associação dos Médicos Tradicionais de Moçambique), fundada em 1982 e obteve o seu reconhecimento legal em 1998. Ela tem por objetivo a constituição de um espaço de reivindicação social pelo reconhecimento e promoção da medicina tradicional.334 A mesma para além de ter o seu estatuto, tem também um conselho fiscal como um dos órgãos diretivos que tem como função o controle administrativo, isto é, fiscalizar a atuação dos seus membros e velar pela aplicação dos princípios éticos da medicina tradicional.335

A organização dos médicos tradicionais tem sido importante para a conquista de novos espaços de reconhecimento oficial, num jogo duplo entre a legitimidade tradicional e a racional, espelhando o aproveitamento, por parte da medicina tradicional, dos espaços de poder criados pelo Estado.336

332 MENESES, Maria Paula G.. “Quando não há problemas, estamos de boa saúde,: para uma concepção

emancipatoria da saúde e das medicinas”. In: SANTOS, Boaventura de Souza e SILVA, Silva Tereza Cruz (org.). Moçambique e Reinvenção da Emancipação Social. Maputo: editor Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2004, p. 85.

333 LAPLANTINE, François. Antropologia da Doença. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1991, p. 33.

334 MENESES, Maria Paula G.. “Quando não há problemas, estamos de boa saúde, sem azar nem nada: para uma

concepção emancipatoria da saúde e das medicinas”. In: SANTOS, Boaventura de Souza e SILVA, Silva Tereza Cruz (org.). Moçambique e Reinvenção da Emancipação Social. Maputo: editor Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2004, p. 100.

335 Idem, p. 101. 336 Ibidem

Não obstante, nos perguntamos, por quê numa sociedade profundamente medicalizada as pessoas recorrem ainda aos médicos tradicionais? A pergunta exige de nós uma explicitação do que é que são os médicos tradicionais e qual a sua função social.

Os médicos tradicionais são especialistas nas doenças dentro do universo africano e ao mesmo tempo são o ponto de auxílio no restabelecimento do equilíbrio na pessoa.337 Equilíbrio e ordem são faces do mundo e do existir humano e devem ser continuamente fomentados, garantidos ou repostos.338 Assim, as pessoas procuram o médico tradicional para buscar uma proteção a mais, um reforço no caso das mulheres que procuraram a médica Ameria.339 Depois de tentativas de engravidar frustradas na biomedicina, elas buscaram um reforço a mais na medicina tradicional, um espaço concomitante e não uma substituição.340 Neste sentido, não há conflito entre receber tratamento na biomedicina e ao mesmo tempo fazer uma terapia alternativa. Apenas há uma busca de reforço, uma sem excluir a outra. É esse comportamento heterodoxo de uma clientela médica real que se torna objeto de questionamento, indagação, investigação e reflexão para nós. A clientela, ela mesma, busca respostas, soluções do problema, do sofrimento e da doença que lhes aflige em espaços alternativos.341

Esse comportamento heterodoxo está presente em muitos povos e não apenas entre os nyungwe. Altuna afirma que, “sob a aparência de preocupações mesquinhas que enchem manifestamente a trama da vida quotidiana, encontra-se no fundo da alma banto uma aspiração, uma atração irredutível para um reforço de vida infinita. Todo o reforço de vida se encontra implicitamente encerrado nesta nostalgia”.342

Por isso, não se pode atribuir como causa desse comportamento heterodoxo à falta de instrução, à baixa escolaridade, à ignorância ou a desinformação a quem busca reforço no Médico Tradicional. Entendemos que há, muitas vezes, falhas no próprio sistema de atendimento à saúde

337 MENESES, Maria Paula G.. “Quando não há problemas, estamos de boa saúde, sem azar nem nada: para uma

concepção emancipatoria da saúde e das medicinas”. In: SANTOS, Boaventura de Souza e SILVA, Silva Tereza Cruz (org.). Moçambique e Reinvenção da Emancipação Social. Maputo: editor Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2004, p. 85.

338 CONCONE, Maria Helena Villas Boas. Cura e visão de mundo. In: Revista Kairós, Gerontologia. São Paulo: v.

6-n. 2, dez. 2003, p. 53.

339 Cfr. Entrevista a médica tradicional Ameria.

340 CONCONE, Maria Helena Villas Boas. Cura e visão de mundo. In: Revista Kairós, Gerontologia. São Paulo: v.

6-n. 2, dez. 2003, p. 47.

341 Ibidem

342 ALTUNA, P. Raul Ruiz De Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda: Edições do Secretariado Arquidiocesano

pública que se baseia em princípios universais de cunho cartesiano,343 que visa curar o humano aos pedaços, isto é, por partes. Segundo Nuchtern,

o pensar e o agir científico, também na medicina, andam lado a lado com o isolar os fenômenos do contexto geral em que estão situados. No distanciar-se da totalidade concreta e sensorial do ser humano e voltar-se para os elementos e para as causas, no medir e corrigir valores numéricos para o exame médico, voltamos a encontrar a formula de Bacon de “dissecar a natureza”. O concentrar- se sobre números e resultados reflete a convicção cartesiana de que dispor sobre a realidade física é também dominar a realidade. Já que real é aquilo que pode ser medido, ao médico da ciência interessa mais o resultado do que a sensação, o objeto mais do que o sujeito.344

Ora, esses princípios nem sempre são eficazes para a cura do ser humano como um todo. Nuchtern não exita em falar que essa visão aliena os pacientes de seu corpo e de sua saúde, seja fazendo com que eles passem a se compreender como maquinas e o resultado passe a lhes parecer mais importante do que o bem-estar; seja porque muitas vezes é menosprezada a sua força e a necessidade de sua cooperação no terreno da saúde e da doença.345 Mais ainda, o que não se enquadra no padrão do mensurável e do objetivavel corre o risco de ser considerado como irreal.346 Daí que, como conseqüência, o público heterodoxo busca alternativas mais disponíveis em terapeutas populares.347

Existem várias designações para os terapeutas tradicionais, a designação mais comum é a de n´anga,348 no sul de Moçambique; si’nganga ou nyabezi,349 no centro de Moçambique. Aquele

que apenas se dedica às curas é chamado de nyakulapa. O nome vem do verbo kulapa350 que

343 A visão que Descartes tem da medicina está imbricada com a filosofia do método. Trata-se de um projeto em que

desenvolve toda a sua teoria a partir do sistema racionalista e mecânico. Fundamenta-se numa visão antropológica do homem-maquina e dos processos puramente mecânicos resultantes da separação absoluta entre corpo, substância extensa, e alma, substância pensante. PESSINI, Leocir. Viver co dignidade a própria Morte. Reexame da contribuição da ética teológica no atual debate sobre a distanásia. 2001. p. Tese (Doutorado em Teologia Moral). Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, São Paulo. pp. 163-164.

344 NÜCHTERN, Michael. Critica da medicina científica e o atrativo dos métodos de cura “alternativos” no mundo

Ocidental. In: Concilium, Petrópolis, Vozes, n. 278, set.1998/5. p. 27.

345 Idem, p. 28.

346 NÜCHTERN, Michael. Critica da medicina científica e o atrativo dos métodos de cura “alternativos” no mundo

Ocidental. In: Concilium, Petrópolis, Vozes, n. 278, set.1998/5. p. 28.

347 CONCONE, Maria Helena Villas Boas. Cura e visão de mundo. In: Revista Kairós, Gerontologia. São Paulo: v.

6-n. 2, dez. 2003, p. 48.

348 JUNOD Henri A.. Usos e Costumes dos Bantos (Tomo II: vida social), Ed. Arquivo histórico de Moçambique,

Maputo, junho de 1996, p. 389.

349 ANJOS MARTINS, Manuel dos. Elementos da língua Nyungwe, gramática e Dicionário nyungwe-Portugues-

Nyungwe, Editorial Além-Mar, Calçada Eng. Miguel Pais, 9-1200, 1ªEdição 1991, p. 288.

significa curar, distinguindo-o do nyabezi que pode fazer as duas coisas, tanto o bem como o mal. Estes nomes referem-se ao homem ou a mulher que prática terapias curativas, comumente chamado de curandeiro/a. Dentro do universo africano, há uma distinção bem clara entre curandeiro (nyabezi, denominação nyungwe) e feiticeiro (nfiti). O curandeiro ele está associado específicamente à cura, à prática do bem, enquanto que o feiticeiro está mais voltado para as práticas do mal, muitas vezes é uma pessoa temida pela sociedade por causa de seus atos. Este, como diz Monteiro, é secundariamente responsável pelas curas quando estas envolvem trabalhos de “contrafeitiço”.351

Queremos reconhecer que o vocabulário português é muito limitado para descrever a ação destes especialistas. No entanto, o termo que usaremos no nosso trabalho será o de Médico Tradicional, porque as terapeutas entrevistadas fazem parte da categoria daqueles que se dedicam unicamente à cura (anyakulapa). Desta forma, entendemos que o Médico Tradicional é aquele homem ou mulher de olhar penetrante352 que cura, conhece a força dos remédios e a maneira de como curar com o auxílio do saber de espíritos ancestrais.353

Todos os médicos tradicionais acreditam que receberam esse dom e chamada através dos espíritos dos antepassados para aprenderem a serem médicos para a cura, e essa aprendizagem implica um período muito difícil, rodeado de dor e sofrimento.354 Rosny comunga a mesma idéia ao falar do exercício de um poder. Segundo ele, “a prática popular se baseia no ´poder` do prático considerado como um ´dom`, não natural, mas recebido, enquanto a medicina biomédica se baseia num ´saber` adquirido na Faculdade”.355

Os médicos tradicionais são os terapeutas que sabem lidar melhor com as doenças ditas “tradicionais”, isto é, doenças com uma pesada carga emocional, pois eles trabalham com o corpo

351 MONTERO, Paula. Da Doença à Desordem: A magia na Umbanda. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1985, pp.

30-31.

352 GWEMBE, Ezequiel Pedro SJ.. Os Antepassados e Jesus Cristo. In: Os Antepassados e sua veneração.

Moçambique: Centro de Formação de Nazaré, Actas da 2ª Semana Teológica, Arquidiocese da Beira 3-8 fev.1997, p. 142.

353 MENESES, Maria Paula G.. “Quando não há problemas, estamos de boa saúde, sem azar nem nada: para uma

concepção emancipatoria da saúde e das medicinas”. In: SANTOS, Boaventura de Souza e SILVA, Silva Tereza Cruz (org.). Moçambique e Reinvenção da Emancipação Social. Maputo: editor Centro de Formação Jurídica e Judiciária, 2004, p. 88.

354 Ibidem

355 ROSNY, Eric de. Doença, cura e saúde nas culturas tradicionais, ponto de vista etnológico. In: Concilium,

e com os espíritos, espíritos esses que “ocupam o corpo” e causam diversos problemas aos pacientes.356

O médico tradicional desempenha uma tarefa dupla, a divinatória e curativa, assente numa concepção mais ampla da doença, percebida a dois níveis: como fenômeno social, isto é, como uma alteração profunda da vida quotidiana e enquanto fenômeno físico, isto é, como manifestação de acontecimentos no corpo de uma pessoa. A função divinatória procura tratar as causas que originaram o mal, prescrevendo meios para solucioná-la. Enquanto que a função curativa procura eliminar os sintomas físicos.357

Segundo Evans-Pritchard, o adivinho é também um mágico, isto é, na condição de adivinho ele indica os bruxos e, como mágico, ele impede-os de fazer o mal.358 Estas duas funções são complementares, pois concorrem para o restabelecimento pleno do doente. Para o médico tradicional, curar significa remover todas as impurezas ou desequilíbrios da vida do paciente. Sendo assim, cada tratamento termina normalmente com uma cerimônia de purificação, prevenindo-se contra situações semelhantes no futuro.359