Para uma compreensão mais ampla do processo de escolarização dos alunos considerados pobres em Minas Gerais no início do século XX e, além disso, para o entendimento dos motivos que levaram o Estado a organizar mecanismos de incentivo para que esse grupo social fosse frequente na escola pública, o estudo sobre a organização da caixa escolar relacionado ao projeto republicano de educação no período pode ser esclarecedor.
Nesse sentido, é necessário iniciar este estudo esboçando, mesmo que brevemente, alguns dos objetivos políticos e sociais da escola pública nos anos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, uma vez que uma ruptura completa não é verificada apenas com a transição do Regime Imperial para o Regime Republicano no ano de 1889.
A bibliografia referente ao tema tem destacado alguns pontos-chave no entendimento da organização escolar como, por exemplo, a preocupação com o processo de legitimação da República enquanto regime, a construção de elementos de coletividade e identidade, a disseminação de valores que estivessem coerentes com algumas projeções de futuro como ordem pública, modernização, progresso e responsabilidade pela nação, que
permitissem ao Brasil “entrar no ritmo da história”12
. Para Ianni, no plano social e político
em 1888-89, o Brasil tentou entrar no ritmo da história. Aboliu a Escravidão e a Monarquia, proclamando a República e o trabalho livre. Liberou forças econômicas e políticas interessadas na agricultura, indústria, e comércio. Favoreceu a imigração de braços para a lavoura, povoadores para as colônias em terras devolutas e artesãos para a indústria. Ao mesmo tempo, jogava na europeização, ou no branqueamento da população, para acelerar o esquecimento dos séculos de escravismo. Recebeu, inclusive, o que não imaginava, em termos de ideias sociais, propostas sindicalistas, anarquistas, socialistas e outras. Houve uma ampla fermentação de ideias e movimentos sociais, principalmente nos centros urbanos maiores e nas zonas agrícolas mais amplamente articuladas com os mercados externos (IANNI, 2004, p. 20).
12 A transição do Regime Imperial para o Republicano, no Brasil, ocorreu de maneira processual. Estudiosos
do tema consideram que não se pretendia uma grande transformação na sociedade, o que poderia acarretar na desordem pública. Além disso, tem-se considerado que há permanências entre um regime e o outro. No que se refere ao sistema político, podemos citar o estudo de Flores (2013); Carvalho, J. (1998); e Viscardi (2012).
As questões levantadas na citação acima, como a formação de braços trabalhadores e a inserção desses novos grupos na sociedade de maneira ordeira, dependeriam da articulação de dispositivos de controle, e da formação de uma nova mentalidade social, assentada em ideais de progresso e modernidade. Além disso, “era preciso contar com um mecanismo de difusão da nova proposta política, da ideologia republicana, que propiciasse a identificação da população com o sistema de poder, levando à afirmação desse poder e ao desaparecimento das simpatias monarquistas que ainda persistissem” (NETO, 2011, p. 424).
De acordo com Araújo (2012), o termo República representa o oposto de privado. Na ótica do autor, a República no Brasil, inaugurada um século depois da Revolução Francesa e da Norte-Americana, teve seu processo de amoldamento ainda no século XIX. Ao analisar o Manifesto Republicano de 1870, o pesquisador seleciona no documento
algumas “palavras de ordem”, as quais reproduzo abaixo:
defesa dos direitos da nação, soberania do povo, homens livres subordinados ao interesse da pátria, liberdade civil e política, democracia, patriotismo, críticas aos privilégios de religião, de raça, de sabedoria e de posição, vontade coletiva do povo brasileiro, eleições livres, liberdade de consciência, liberdade econômica, liberdade de imprensa, liberdade de associação, liberdade de ensino, liberdade individual, princípio federativo, autonomia das unidades federadas, o papel das municipalidades em relação ao princípio federativo, governo representativo, soberania nacional, liberdade democrática, necessidade de uma assembleia constituinte, instauração de um novo regime, partido republicano federativo (ARAUJO, 2012, p.119).
Essas “palavras de ordem” evidenciam os principais temas e questões colocados à
época do que se esperava na adoção do regime republicano de governo13.
Pode-se considerar que a implantação do regime republicano de governo no Brasil foi revestida por debates que se iniciaram antes da proclamação. De acordo com Carvalho, J. M. (1998), diversos referenciais de republicanismo estavam postos e em disputa, e os brasileiros teriam que optar por aportes políticos que apresentassem o tipo de república mais adequada à realidade da nação, ou às expectativas para ela.
13 Araújo (2012) considera essas locuções como um ponto de partida através do qual se estruturaria o
movimento republicano no Brasil, mas, além disso, devem ser consideradas como uma tomada de posição, concepção política ou mesmo um programa.
De acordo com Constant (1980), o modelo francês republicano, dentre outros elementos, assemelhava-se à democracia na Antiguidade - o que chamou de liberdade dos antigos. No Brasil, o modelo liberal seguido estaria mais alinhado à liberdade dos modernos. Esses dois referenciais, apesar de não excludentes14, partem de premissas diferenciadas no que concerne ao papel do cidadão na organização e desenvolvimento da sociedade como será discutido a seguir.
A república de modelo francês ou, mais especificamente, o modelo da Primeira República Francesa era caracterizado pela participação ativa e coletiva dos cidadãos, a exemplo da polis grega. Esta
era a república da intervenção direta do povo no governo, a república dos clubes populares, das grandes manifestações, do Comitê da Salvação Pública. Era a república das grandes ideias mobilizadores do entusiasmo coletivo, da liberdade, da igualdade, dos direitos universais do cidadão (CARVALHO, 1980, p 19).
Nesse sentido, a coletividade deveria ser colocada em destaque em detrimento de vontades individuais. A concepção de cidadania francesa pressuporia, portanto, autonomia dos cidadãos para atuar na esfera pública, e uma ativa participação nas decisões e ações do Estado.
De outra forma, o modelo de república de inspiração liberal norte-americana, alinhada aos preceitos da chamada liberdade dos modernos, era por essência representativa. O cidadão da sociedade moderna, industrializada, não se ocuparia da política, deixando a cargo de seus representantes fazê-lo. Sua função política estava intimamente ligada ao seu papel no progresso da sociedade, ou seja, as ações funcionais que pudesse exercer para garantir o desenvolvimento do grupo, da sociedade, do Estado. Nesse referencial marcado pelo individualismo, pelo utilitarismo, pelo federalismo, pelo liberalismo, o conceito de público seria a soma dos interesses individuais, no qual o interesse privado deve preponderar sobre o coletivo (RESENDE, 2003).
A organização da educação mineira, no interior dos anseios republicanos, não deve ser vislumbrada como parte constitutiva das premissas de apenas um desses referenciais. Mais especificamente, a opção pelo modelo liberal norte-americano não excluiria
14 José Carlos Araújo considera que “é permissível afirmar-se que a república dos antigos seja diferente da
república moderna”. Para o mesmo, as origens da república no Brasil remontam a discursos vinculados já na
primeira metade do século XIX, ou mesmo no final do século XVIII, com os ideais preconizados pela Inconfidência Mineira, ou pela Guerra dos Mascates no início do século citado. Cf.: (ARAÚJO, 2012).
pressupostos de participação da população no desenvolvimento da sociedade, o que estaria mais alinhado aos moldes franceses15.
Ao analisar o projeto de educação e as ações educacionais do Estado em Minas Gerais, podemos verificar características desses dois referenciais. Vemos uma atuação muito forte do Estado mineiro na organização da educação e, aliado a isso, um movimento de chamada da população a auxiliar nos projetos do governo. Cuidar da educação do povo seria, portanto, uma questão de preservação dos direitos e liberdades individuais de todos. Manter os grupos sociais na escola representaria também a manutenção da ordem pública e a transmissão dos valores e saberes legitimados pela sociedade.
É possível verificar as premissas acima nos discursos sobre educação em Minas Gerais. No ano de 1911, foi publicado no Jornal Minas Gerais o relatório do Secretário do Interior ao Presidente do Estado. No trecho referente à instrução primária, Delfim Moreira começa sua fala com as seguintes palavras:
As necessidades físicas morais e intelectuais do homem, o desenvolvimento notável observado na ordem política e social da nacionalidade e do Estado e o progressivo desdobramento do trabalho em suas diversas manifestações econômicas, tornando cada vez mais intensas e complicadas as relações sociais, fundamentam a necessidade absoluta de instruir e educar o povo para todas as emergências da vida atual e futura e colocam o problema educativo na primeira plana, como questão vital de uma nação16
Ainda no mesmo relatório, o Secretário de Instrução pública expressava o empenho do Estado em difundir o ensino primário e, para tal, solicitava o apoio tanto dos municípios
quanto o “concurso da iniciativa privada”.