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I. BÖLÜM

4.5. Araştırma Bulguları

4.5.3. Hipotez testleri

4.5.3.1. Model Dışındaki Hipotez Testleri

A questão de pesquisa indagou como ocorre o desenvolvimento da carreira dos Mestres da Cultura do artesanato no âmbito da economia criativa cearense. A questão baseou- se na suposição geral de que o desenvolvimento profissional destes sujeitos pode ser compreendido pela perspectiva empreendedora e analisado por meio dos conceitos de ciclos e estágios de carreira.

Para a análise dos resultados, estabeleceu-se que, para ser considerado empreendedor, o artesão deveria conciliar as duas identidades ou papéis em sua carreira: a de artesão ou artística e a de empreendedor. A primeira está relacionada à criação, à expansão de portfólio de produtos e à inovação em termos de técnicas, materiais e peças, no sentido de capturar oportunidades e atender às necessidades do cliente. A segunda aborda os aspectos gerenciais da atividade como o controle e o aumento da produção sem descaracterizá-la, a comercialização dos produtos, os conhecimentos de mercado e outros fatores necessários à gestão de um empreendimento.

Inicialmente, os resultados apontam que a carreira dos artesãos pode ser analisada e compreendida por meio dos conceitos de ciclos ou estágios de carreira, ou seja, os sujeitos analisados passaram por outras experiências profissionais antes de tornarem-se artesãos definitivamente. Assim, suas trajetórias profissionais envolveram transições entre determinadas ocupações ao longo de suas vidas, embora o número de ciclos de carreira não seja elevado, como supõe a teoria. Esse interesse por outras atividades profissionais ocorreu tanto por vontade própria (Espedito Seleiro e Dona Nice), como por outros fatores como a necessidade de sobrevivência e escassez de oportunidades de trabalho. Ressalta-se, no entanto, que a atividade artesanal apresenta-se como o ciclo de carreira mais duradouro, no qual, inclusive, ocorreram uma série de mudanças, principalmente quanto à inovação na produção de novas tipologias de peças, o que significou uma evolução no desenvolvimento da carreira do interior do ciclo correspondente ao artesanato.

Em relação à carreira empreendedora, verificou-se que Mestres apresentam algumas características da mesma. Dentre os elementos comportamentais, os sujeitos apresentaram características como: a necessidade de realização (Espedito Seleiro e Pedro Balaieiro), a necessidade de autonomia (Espedito Seleiro e Dona Franscisca), a necessidade de criar e inovar (Espedito Seleiro, Maria Cândido, Dona Francisca, Pedro Balaieiro e Dona Nice), a propensão para assumir riscos (Espedito Seleiro, Maria Cândido, Dona Francisca, Lúcia Pequeno e Pedro Balaieiro), forte comprometimento pessoal (Espedito Seleiro, Maria Cândido, Dona Francisca, Lúcia Pequeno, Pedro Balaieiro e Dona Nice) e intensa identificação com a atividade (Espedito Seleiro, Maria Cândido, Dona Francisca, Lúcia Pequeno, Pedro Balaieiro e Dona Nice). Os artesãos mostraram-se ainda persistentes e tolerantes à ambiguidade, diante dos problemas que enfrentaram.

Além disso, apresentaram ainda carreiras com baixos níveis de estruturação, previsibilidade e apoio e também mostraram-se multifuncionais, já que a maioria participa de todo o processo produtivo, desde o trato inicial com a matéria-prima até a venda das peças.

Constatou-se ainda que os sujeitos apresentaram algumas características da inclinação profissional criatividade empreendedora, sobretudo o desejo de criar novas peças e a necessidade de autonomia, as quais se refletiram na evolução dos trabalhos desenvolvidos, principalmente por aqueles que migraram do artesanato utilitário para o decorativo. Neste sentido, a inovação se apresenta de maneira sutil, por meio da evolução das peças produzidas, que criam ou expandem os mercados desses artesãos, a partir dos mesmos materiais utilizados. Por outro lado, destaca-se que os Mestres analisados não demonstraram forte interesse por acúmulo de riquezas ou pela criação de novos empreendimentos.

No entanto, destaca-se que o comportamento empreendedor dos artesãos tomados como sujeitos desta pesquisa está voltado para a atividade artesanal propriamente dita e não para os aspectos relacionados à gestão de um pequeno empreendimento. Assim, constata-se que os artesãos privilegiam a identidade de artesão ou artista em detrimento da empreendedora, responsável pela produção e comercialização dos produtos.

Deve-se destacar ainda que, por apresentaram baixos níveis de capacitação, o que torna difícil a sua inserção no mercado de trabalho e a ausência de outras oportunidades relacionadas a empregos ou ocupações, os artesãos tomados como sujeitos desta pesquisa parecem inserir-se no grupo de empreendedores involuntários ou por necessidade. Além disso, pelos problemas enfrentados pelos mesmos, percebe-se que muitos permanecem na informalidade e não conseguem concretizar o potencial econômico de seu trabalho.

Finalmente, as teorias sobre desenvolvimento de carreira atribuem papel importante aos acontecimentos (gatilhos) que impelem o sujeito a novas incursões profissionais – processos sucessivos de encerramento e início de ciclos de carreira. A teoria empreendedora, de outra parte, atribui grande importância à inovação de produtos e serviços como motores do desenvolvimento de carreira. Em ambas as situações, o acaso ou oportunidade se apresentam com freqüência, promovendo mudanças e renovação, alinhando-se à noção de serendipidade1,

1 A serendipidade é o fato de obter grandes descobertas de forma inesperada, seja como o resultado de um acidente e sagacidade, ou como uma consequencia de um comportamento exploratório mais generalizado e não específico (AUSTIN, 1978). O termo serendipidade chegou à ciência moderna por meio do fisiologista Walter B. Cannon, que o introduziu aos americanos em seu livro The Way of an investigator, lançado em 1945. Cannon defendia que a capacidade de tirar proveito do acaso é a marca de um grande cientista. A palavra serendipidade,

interpretada, neste contexto, como oportunidades que surgem no decorrer da vida profissional, produto do investimento pessoal anterior ou que surgem como alternativas inesperadas.

No artesanato, a considerar os seis casos estudados, prevalece mais uma espécie de determinismo2, onde as atividades criativas são absorvidas ainda na infância (Espedito Seleiro, Dona Francisca, Lúcia Pequeno, Dona Nice) ou no princípio da vida adulta (Maria Cândido e Pedro Balaieiro), por influência de pessoas próximas e familiares (Espedito Seleiro, Dona Francisca, Lúcia Pequeno) ou pelo autodidatismo (Maria Cândido e Pedro Balaieiro). Por outro lado, apenas um caso (Dona Nice) se afirma no artesanato a partir de atividade de treinamento, realizada ainda na infância.

Assim, o acaso não se constitui elemento preponderante para a compreensão do desenvolvimento de carreira destes artesãos, exceto no que se refere ao entendimento de uma atividade criativa não impulsionada por princípios mercadológicos convencionais e sim pelo eventual contato com promotores artísticos e comerciais de centros urbanos mais desenvolvidos que ampliam, de modo mais ou menos consistente, as alternativas de mercado desses artesãos.