2.3. Bilgi
2.3.2. Mimari Tasarımda Bilgi
Os homens acreditaram por longos anos, que eram conhecedores de si mesmos e das coisas que haviam sido criadas por eles. Contudo, ao longo da história, algumas grandes feridas narcísicas foram sendo abertas. Sigmund Freud foi um dos pensadores que contribuiu para “lesionar” essa ilusão humana quando descobriu o inconsciente. Descobriu-se também que a criança – o ser angelical eleito pelos adultos –, fonte de amor e meiguice, é agressiva, tem inveja, impulsos destrutivos, sente ódio. A psicóloga infantil, Melanie Klein, trouxe importantes considerações sobre este aspecto ao estruturar sua teoria sobre o desenvolvimento infantil, salientando que aspectos como agressividade, inveja, destrutividade compõem a tenra vida infantil.
Ao longo de sua trajetória, a criança vive alguns traumas, algumas “violências”, que, antes de serem maléficas, são extremamente importantes para o seu desenvolvimento, para a estruturação de sua personalidade. Vive o trauma do nascimento, o desmame, a marcha, a fala, a castração, o complexo de édipo, dentre outras situações conflitivas. Portanto, a constituição do sujeito é feita a
partir das contradições, dos conflitos, das violências simbólicas que, indubitavelmente, todos vivem.
Sanches (2001, p.63) diz que,
A travessia da criança pelos caminhos do desenvolvimento é assim, permeada por uma sucessão de violências simbólicas que culminam no Complexo de Édipo e decorrente internalização dos preceitos morais, a qual impele o indivíduo à busca de satisfação fora do círculo familiar, psicologicamente, corresponde à instituição do superego infantil.
As primeiras fases do desenvolvimento da criança são de extrema importância para o equilíbrio emocional. Winnicott (1971, p.266) ressalta a importância familiar para um desenvolvimento adequado. Quando o lar não supre as necessidades básicas da criança, este tende a buscar fora: “a criança cujo lar não conseguiu dar-lhe um sentimento de segurança procura fora de casa as quatro paredes que lhe faltaram [...] procura uma estabilidade externa, sem a qual enlouquecerá”. De acordo com Winnicott (1971), o lar, a casa, a família são sustentáculos para a criança. E quando este lar, ao invés de proteger, violenta?
A violência física doméstica contra a criança sempre ocupou espaços em jornais, revistas e literaturas. O interesse científico por este tema surgiu a partir da publicação, nos Estados Unidos, de um trabalho realizado por F. Silverman e H. Kempe, em 1962. Os autores denominaram como Síndrome da Criança Espancada, aquelas que tinham menos de três anos e que apresentavam hematomas subdurais. Enfatizaram a discordância do discurso dos pais na tentativa de descrever o fato com os exames clínicos. Já nos idos de 1960, apontavam para a resistência médica para tratar tal questão (GUERRA, 1998, p.72).
[...] os radiologistas americanos desde a Segunda Guerra Mundial já estavam intrigados com o surgimento de casos de crianças com hematoma subdural, acumulação de sangue na base do crânio, fraturas recentes de ossos longos, curadas ou em processo de cura. Eles sabiam que as ações das crianças não poderiam ter provocado tal tipo de problema, chegando gradualmente, portanto, à conclusão de que elas
estavam sendo vítimas de um processo de violência por parte de seus pais.
A partir desse trabalho, a visão sustentada era a de que os pais apresentavam distúrbios emocionais, por isso a violentavam. É feita, então, a proposta de realizar terapia com os pais “doentes”, visando dar a estes condições para exercerem seus papéis. Este era um modelo médico analisado sob o ângulo de causa-efeito. A causa era a doença dos pais, o efeito era a agressão. Tratar dos pais, portanto, seria o meio de cura. A terapia era voltada para a re-paternagem, durava cerca de 18 meses a 3 anos. Não era imputado ao agressor nenhum tipo de penalização, pois, caso contrário, poderia haver prejuízos para o tratamento (GUERRA, 1998).
Nesse contexto, a medicina assume a incubência de investigar tais ocorrências. “O médico de tornou o guardião moral definindo o que era normal, adequado ou desejável: ele se investiu de poderes inquisitorais para descobrir as coisas erradas a serem corrigidas” (GUERRA,1998, p.73).
É na década de 70 que outras áreas do conhecimento apropriam-se de tal problemática, a partir de diferentes visões, com novas considerações e abordagens de tratamento. No Brasil, foi no ano de 1973, em São Paulo, o primeiro caso descrito pela literatura nacional de uma criança espancada. A partir daí, alguns são registrados dando prosseguimento a uma atuação mais abrangente da violência física doméstica.
Como já descrevi, é a partir da década de 80 que a infância no Brasil ascende em importância, com discussões referentes ao bem-estar da criança. A sociedade civil começa a organizar-se para contemplar questões referentes ao então chamado “menor”. O Estado, com suas propostas, fez valer planos e ações voltadas para a infância. Aos poucos, maiores sensibilizações vão acontecendo e novas intervenções são feitas (SANCHES, 2001).
Atualmente, a criança brasileira adquiriu direitos, de “[...] proteção à vida e à saúde” (BRASIL, 1990, artigo 7º), mas embora haja garantia legal para a vida, muitas sucumbem ante aos maus-tratos, às lesões, ao sofrimento físico e emocional.
Pais estupram e mantêm relações sexuais com suas filhas sem que a mulher/mãe reaja, pois seu parceiro se constitui chefe da casa. Filhos são espancados, torturados, tendo em vista a prática de uma educação autoritária/violenta que deverá desde cedo transmitir regras, valores e comportamentos de submissão aceitos em nossa sociedade. Mulheres se submetem a estupros de seus maridos por se encontrarem em posição inferior a estes. E neste círculo vicioso as pessoas vão se matando, destruindo relações fundamentais para a construção do homem enquanto ser digno, cujo bem maior é o direito à vida. (ROURE, 1996, p.62)
Romper o ciclo, eis a função de todos aqueles que se envolvem com esta problemática. Nenhuma prática se constitui isolada, antes porém necessita da fusão de várias outras pertencentes a diferentes campos do conhecimento, formando assim um todo.