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4.1.3. Biçim ve Geometri
O processo de conquista da autonomia política do Brasil contou com a ativa e importante participação da fração dos grandes proprietários agrícolas articulados com o complexo exportador. Esta fração buscava conquistar maior autonomia comercial em relação a Portugal. Queria tomar para si os excedentes comerciais até então monopolizados pela Coroa portuguesa por meio do chamado “exclusivismo colonial”. Contudo, daquele processo não resultaria o rompimento com as estruturas econômica e social internas. O complexo cafeeiro adotou os mesmos princípios organizativos do sistema agrícola oriundo do período colonial: cultivo especializado (monocultura) em grande escala, desenvolvido em grandes propriedades com o concurso do trabalhador escravo, primeiramente, sendo este, posteriormente, substituído pela mão-de-obra imigrante34: “O último latifúndio típico a surgir das entranhas da sesmaria foi a fazenda de café. ” (GUIMARÃES, 1968, p.77).
Dessa maneira, vê-se que à conquista de uma plena autonomia, no campo político- administrativo, em 1822, não se seguiu a consolidação de uma estrutura de produção que importasse uma independência econômico-financeira ao Brasil. A manutenção de um modelo colonial de exploração e organização econômica concorreu de forma decisiva
33 “O resultado dessa política, reduzindo o Brasil à simples situação de produtor de alguns gêneros destinados ao comércio internacional, acabou por se identificar a tal ponto com sua vida, que já não se apoiava unicamente em nossa subordinação de colônia, já não derivava apenas da administração do reino. [...] Tanto não era apenas o regime de colônia que artificialmente mantinha tal situação que, abolido ele com a Independência, vemo-la perpetuar-se.” (PRADO JÚNIOR, 2011, p.131-132).
34 Tão importante quanto esta manutenção da organização produtiva, foi a consolidação da subordinação
econômica do país aos interesses comerciais dos ingleses, por meio de privilégios fiscais concedidos aos produtos britânicos como, também, por meio de empréstimos: “[...] As estruturas sociais e econômicas do mundo colonial ficaram intactas, como condição mesma, seja para controle do poder pelas elites senhoriais nativas, seja por causa das necessidades do mercado mundial, em relação ao qual a economia tropical preenchia uma função especializada, de natureza heteronômica.” (FERNANDES, 2008, p. 24-25)
para a integração, de maneira subordinada e dependente, do país no circuito econômico- comercial internacional. Assim, ocuparia uma posição secundária na divisão internacional do trabalho, enquanto nação especializada na fabricação de artigos primários para atender as demandas do mercado estrangeiro. A fragilidade desse modelo econômico, pautado na produção agrícola para a exportação, reside no fato de que seu fator dinâmico é o comércio, ou seja, o espaço onde se realiza a acumulação, a geração de excedente. Uma vez que as trocas eram realizadas fora do país, boa parte deste excedente ficava retida no exterior. Assim, no plano interno, a capacidade de investimento e o crescimento da economia ficavam à mercê das injunções externas, ou seja, oscilações no volume da demanda e no índice de preços, oscilações estas muitas vezes conduzidas pelos especuladores estrangeiros35.
A proeminência do café em nossa estrutura econômica gerou reflexos diretamente nos campos político e social. Com a ascensão do produto em nossa pauta de exportação, os setores sociais ligados à economia cafeeira transformam-se na elite social e política da nação. A crescente importância econômica e política do Estado de São Paulo, no cenário nacional, deve-se ao comércio cafeeiro. De acordo com Caio Prado Júnior, os principais acontecimentos nos campos da política, da economia e do social, da segunda metade do século XIX até os anos 1930, ligam-se diretamente aos interesses do complexo agroexportador, dominado este pelo café: tráfico interno de escravos, migração regional, imigração estrangeira, extinção do trabalho escravo. Da mesma forma, até mesmo a “[...] Federação e a República mergulham suas raízes profundas neste solo fecundo onde vicejou o último soberano, até data muito recente, do Brasil econômico: o rei café, [...]. ” (1985, p.167).
Para Lígia Osório Silva (1996, p. 117), os grandes proprietários rurais, após a Independência, não encaravam a regulamentação jurídica do domínio privado da terra como questão candente, em razão da continuidade da estrutura produtiva herdada do período colonial, baseada no trabalho escravo e na exploração extensiva36. Resistia-se,
35 De acordo com Nelson Werneck Sodré (1990, p. 253), da continuidade deste sistema de organização
produtiva resultou a debilidade e a fragilidade da economia nacional, visto a sua dependência em relação ao mercado e capital estrangeiros. Visto que o sistema econômico estava totalmente voltado para a produção para a exportação, tal condição gerava uma necessidade crescente de aquisição de gêneros e produtos não fabricados aqui para atender às demandas de consumo da população. Dos desequilíbrios no saldo de nosso comércio exterior, em razão da desigualdade entre o valor dos produtos de exportação e os de importação, resultavam a queda da taxa cambial e déficits nas finanças externas. Para contornar as dificuldades financeiras, recorria-se aos empréstimos estrangeiros e investimentos externos, estes últimos atraídos pela grande possibilidade de retorno financeiro.
36Uma vez resguardada a estrutura produtiva herdada do período colonial, base da supremacia econômica
assim, às profundas modificações na organização econômica de forma a ajustá-la às transformações ocorridas em escala mundial resultantes da expansão capitalista no continente europeu. O comportamento da fração latifundiária, em relação à propriedade da terra, seria modificado quando da extinção do tráfico internacional de escravos, em 185037.
Com a promulgação da Lei Euzébio de Queiroz38, nesse mesmo ano, a organização do trabalho transformou-se em questão candente, fazendo recrudescer as discussões referentes à adoção de outras formas de exploração da mão-de-obra e seu impacto no eixo principal da economia nacional: a lavoura de exportação. A supressão do comércio escravista fazia despontar, no horizonte, a abolição do trabalho escravo. Visto que grande porção do território brasileiro ainda não havia sido ocupada e explorada, constatava-se que não seria difícil, ao trabalhador nacional, e mesmo ao imigrante, apropriarem-se de uma dada porção de terra e nela desenvolver uma agricultura de subsistência, o que seria desastroso para a lavoura do café, ciosa em garantir uma extensa oferta de mão-de-obra e de terra. Desta forma a formação de um exército de mão-de-obra, disponível para a grande propriedade cafeeira, esteve intimamente relacionada à
processo de ocupação do território. Com a extinção do regime de sesmarias, em 1822, a aquisição de terras far-se-á, a partir de então, por meio da sucessão familiar, doação e, principalmente, pela apropriação mediante posse, ganhando esta caráter hereditário e alienável. De acordo com Raymundo Faoro (2012, p. 464), tal é a configuração que apresenta o panorama fundiário do país após o fim do sistema sesmarial: predomínio inconteste da grande propriedade e a existência de grande número de indivíduos que, tolhidas as suas possibilidades de ascensão à condição de proprietários, vegetam sob a dependência em relação aos grandes proprietários. Desta forma, vê-se que, no Brasil, o regime de sesmarias não serviu aos seus propósitos originais, ou seja, ao cultivo e aproveitamento produtivo do solo. Ao contrário, prestou-se, uma vez desvirtuado em seus propósitos iniciais, à consagração da posse da propriedade enquanto “status”, valor simbólico de poder.
37 No Nordeste açucareiro, assiste-se a uma forma peculiar de desenvolvimento. A grande propriedade
agrícola nesta região sentirá negativamente os efeitos da extinção do trabalho escravo. Diante da natureza periclitante da economia regional, decadente após o encerramento do ciclo áurico do açúcar e o deslocamento do centro econômico nacional para a região sudeste-sul, a grande lavoura entrará em fase de desagregação. Da decadência do engenho, nascerá a usina, mais moderna e complexa que aquele, cuja matéria-prima, a cana, será fornecida pelos antigos proprietários dos engenhos. Contudo, a grande propriedade não desaparece do horizonte econômico nordestino: “Notável particularidade do advento das usinas no fim do século XIX é o gigantismo do latifúndio canavieiro. Sua fome de terras não encontra limites. Compra os velhos engenhos banguês e os aposenta. O que lhe interessa é a terra. E a usina vai estendendo ilimitadamente seus domínios”. (FACÓ, 2009, p.30).
38 De acordo com Caio Prado Júnior (1959, p.58), a carência de braços representou, quando da extinção do
tráfico de escravos, em 1850, um sério obstáculo para a grande propriedade agrícola. Desde então, formas alternativas como, por exemplo, o tráfico interno e a adoção do trabalho livre, com o concurso do trabalhador imigrante, foram experimentadas como forma de garantir mão-de-obra para o setor agroexportador. Segundo o pensador marxista, toda ação oficial que se empreendeu no campo da imigração e da ocupação territorial foi norteada principalmente pelas necessidades da grande propriedade.
transformação da terra em mercadoria, a partir da promulgação da Lei nº 601 de 18 de setembro de 1850, conhecida como Lei de Terras39:
O país inventou a fórmula simples da coerção laboral do homem livre: se a terra fosse livre, o trabalho tinha que ser escravo; se o trabalho fosse livre, a terra tinha que ser escrava. O cativeiro da terra é a matriz estrutural e histórica da sociedade que somos hoje. Ele condenou a nossa modernidade e a nossa entrada no mundo capitalista a uma modalidade de coerção do trabalho que nos assegurou um modelo de economia concentracionista. Nela se apoia a nossa lentidão histórica e a postergação da ascensão social dos condenados à servidão da espera, geratriz de uma sociedade conformista e despolitizada. Um permanente aquém em relação às imensas possibilidades que cria, tanto materiais quanto sociais e culturais. (MARTINS, 2010, p.10).
De acordo com Lígia Osório Silva (1996, p. 175), a implementação da Lei de Terras permitiu ao governo imperial tomar para si as rédeas da questão imigratória e da ocupação territorial, cabendo ao poder público a regulamentação do direito de propriedade das terras e a localização dos espaços devolutos. Contudo, segundo a referida autora, a atmosfera de conciliação que pairava quando da escrita da lei40, fez com que fosse concedido à autoridade provincial o poder de capitanear o processo de “demarcação e medição” dos territórios ocupados. Assim, visto que a localização dos espaços devolutos ocorreria após a discriminação dos domínios particulares, o governo imperial, embora a lei lhe facultasse maiores poderes, permaneceria à mercê dos ocupantes das terras e dos poderes locais:
39 Segundo Lígia Osório Silva, o cerne da política de terras elaborada pelo governo imperial era a
delimitação dos espaços devolutos. Uma vez discriminados os territórios devolutos, estes seriam utilizados para a implantação de um programa de colonização de onde se angaria recursos para patrocinar a transferência de mão-de-obra imigrante para o Brasil. Contudo o sucesso de tal programa estaria à mercê da interrupção da prática das posses, o que não ocorreu. Além disso, o processo de demarcação das áreas devolutas não logrou êxito. Tal demarcação ficava na dependência da iniciativa dos posseiros em regulamentar a situação de seus domínios. Uma vez discriminados os domínios particulares, far-se-ia a localização das terras devolutas. Porém, a forte resistência apresentada pelos posseiros em adequar-se às exigências da lei e regulamentar as suas posses, colocou por água abaixo a realização do programa de colonização baseado na pequena propriedade e a regulamentação da propriedade privada da terra. (SILVA, 1996, p. 335).
40Lígia Osório Silva ressalta o caráter “conciliatório” apresentado pela Lei de Terras. Esse caráter fica
explícito quando ficou estabelecido, na referida lei, “[...] que as posses poderiam ser legitimadas do tamanho que fossem, sem restrição da data de ocupação, e ainda se concedia outro tanto de terreno devoluto contíguo”. (1996, p. 144).
Outra determinação da lei na qual fica patente sua marca conservadora e conciliatória é a permissão de manutenção da posse, mesmo quando o indivíduo descumprisse os requisitos para regularizar a propriedade. Mesmo não podendo gozar das prerrogativas legais, continuaria ocupando o território caso tivesse desenvolvido cultivo do solo e constituído moradia. Não seriam proprietários, não poderiam realizar comércio com as terras, nem as entregar como garantia, mas não seriam expropriados. Além disso, a lei não regularizou a cobrança de tributo territorial.
[...] as oligarquias regionais não simpatizavam com a centralização administrativa e obtiveram nesse aspecto uma vitória. Conseguiram deixar nas mãos de uma figura local e inexpressiva, sujeita à pressões, portanto, a execução de uma tarefa da qual dependia todo o mecanismo de regularização da propriedade da terra. ” (SILVA, 1996, p. 169). Mesmo com a promulgação da Lei de Terras, a prática de ocupação de territórios devolutos, à revelia dos princípios legais, não foi interrompida, contando, para tanto, até mesmo, com a complacência do poder público: “[...] De fato, a apropriação ilegal de terras devolutas continuou desenfreadamente e o próprio governo imperial muitas vezes preferiu ignorar a política oficial de vender e cedeu gratuitamente terras públicas”. (SILVA, 1996, p. 180).
Visto que o sistema econômico do Brasil está estruturado, basicamente, na produção agrícola para o mercado externo, o sistema que regulamenta o acesso à propriedade da terra constitui um dos aspectos fundamentais que estão na base do desenvolvimento econômico do país41. O outro aspecto, ao qual aquele está diretamente ligado, é o “fator exportação”, a fase comercial de nosso sistema produtivo. É no âmbito do comércio que são definidas as orientações quanto à política econômica e à organização da exploração da terra. Assim, se a produção da cana-de-açúcar, a exploração aurífera e a pecuária expandem-se sob o sistema das sesmarias, o cultivo do café “[...] participa de outras influências, [...]”. (FAORO, 2012, p. 466). O latifundiário, que vive de rendas, deveria converter-se, assim, em empresário agrícola, com seus negócios atrelados aos grupos e a firmas comerciais e financeiras situados nos núcleos urbanos42.
41 A pequena propriedade ganhou vulto, incialmente por meio das colônias agrícolas que são implantadas
no país com a chegada da Corte portuguesa ao Brasil, em 1808. Ao longo do século XIX e, também, no século XX, as pequenas propriedades irão se expandir, principalmente na região sul: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A vinda e a instalação da mão-de-obra imigrante resultarão de ações governamentais visando a ocupação e povoamento do território como, também, de setores da sociedade civil ligados à produção para a exportação, desejosos de obter mão-de-obra para a grande lavoura. De acordo com Caio Prado Júnior (1985, p. 183), no contexto da extinção do tráfico, a questão da imigração e povoamento passa a primeiro plano. Retoma-se as iniciativas oficiais de povoamento, mas, paralelamente às colônias oficiais e às de iniciativa privada, ajustadas à um modelo de organização calcado na cessão de pequenas parcelas de terra dispostas conjuntamente, surge uma nova espécie de colonização: instalação dos colonos nas grandes propriedades, sob o regime de parceria. A seleção e instalação dos imigrantes nas fazendas, de acordo com o referido autor, recebeu o nome de “imigração subvencionada”, permanecendo o título “colonização”, ao antigo modo de fixação estrangeiros em lotes de terras reunidos conjuntamente. Este último, apresentar-se-á mais predominante na região sul do país e em partes do território do estado do Espírito Santo. Porém, dada a importância da produção agrícola para a exportação, no quadro econômico nacional, e o consequente domínio político das frações ligadas ao complexo cafeicultor, a fixação de estrangeiros como mão-de-obra nas lavouras de café foi mais intensa e numerosa.
42 Para Nelson Werneck Sodré (1990, p. 267), examinada de forma criteriosa, a classe dominante brasileira,
ao longo da segunda metade do século XIX, apresenta uma composição heterogênea. Pode-se nela identificar dois grupos: o que está articulado ao comércio externo e o que está alijado do setor exportador. Fundamental para essa divisão foi o declínio econômico do açúcar e do algodão e a consequente perda de
Com a dinamização da produção agrícola, a partir da ascensão econômica do café, a grande propriedade rural entra em um ciclo de expansão e, diante de sua importância econômica e de sua influência política, passa a exercer forte pressão sobre os pequenos proprietários e posseiros:
[...] conquanto subsistisse ainda grande número de pequenos posseiros, de 1830 a 1850 e mesmo mais tarde, tornou sua posição gradativamente subalterna, na medida em que a riqueza do município se concentrava nas mãos dos proprietários da grande lavoura. Prensados entre as grandes fazendas, dedicaram os pequenos sitiantes suas atividades à produção de mantimentos. (FAORO, 2012, p. 467).
Assim, em difícil situação ficaram os pequenos produtores e os trabalhadores agrícolas que não dispunham de terras, tragados pela expansão do setor agroexportador que os colocou na dependência do grande proprietário:
[...] O lavrador sem terras e o pequeno proprietário somem na paisagem, apêndices passivos do senhor territorial que, em troca da safra, por ele comercializada, lhes fornece, em migalhas encarecidas, os meios de sustentar o modesto plantio. As precárias choupanas que povoam o latifúndio abrigam o peão, o capanga, [...], servo da gleba sem estatuto, sem contratos e sem direitos. (FAORO, 2012, p.477).
Nesse sentido, o principal legado do regime de sesmarias consistiu na manutenção de um quadro fundiário marcado pela concentração da propriedade rural, pelo não aproveitamento de grande faixa de terras em poder dos grandes proprietários e pela relação de dependência que se estabeleceu entre estes, os pequenos produtores e os trabalhadores rurais sem terras. O “sentido” mercantil que ainda orientava a vida econômica nacional fez, como outrora, esmorecer a agricultura de subsistência.
A expansão da produção cafeeira no Brasil, diante do incremento da demanda e dos preços do café, no mercado mundial, fez com que o país, ainda na primeira metade do século XIX, se transformasse no principal fornecedor do produto em escala internacional. A partir da segunda metade do referido século, inaugura-se uma fase de considerável progresso econômico no Brasil, subsidiado pelo desenvolvimento das forças produtivas internas. Assim, há a fundação de vários empreendimentos industriais, instituições bancárias, comerciais e de seguros, além de empresas de navegação e viação urbana, de iluminação, de exploração aurífera. Além disso, há a expansão da malha
posição destes produtos na pauta de exportação do país. Desta forma, no interior do círculo social dominante vislumbra-se tanto a ascensão da fração ligada à produção e ao comércio do café, concentrada na região central e sul do país, quanto a estagnação e o declínio da fração desligada do setor exportador, presa aos regimes de produção escravista ou servil, mantendo seu status de produtora de açúcar ou algodão. Este segundo grupo, localiza-se nas regiões norte e nordeste.
ferroviária. A acumulação capitalista que resulta neste desenvolvimento econômico é proveniente, em sua maior parte, da lavoura cafeeira. Há que se ressaltar, também, a ativa participação do capital estrangeiro, em especial, do inglês, no desenvolvimento dos setores de transporte e de serviços. Tal progresso fora reclamado pelo próprio complexo cafeeiro, em constante expansão, como, também, constituiu resposta aos desdobramentos que a expansão do capitalismo industrial, na ordem internacional, acarretava no país43.
Alberto Passos Guimarães (1968, p.102-103) ressalta o caráter ambivalente que a economia cafeeira apresentou, em sua expansão, quanto à promoção do desenvolvimento do País, em bases capitalistas. Assim, ao mesmo tempo que proporcionou condições para a modernização do Brasil, o complexo cafeeiro concorreu para a manutenção da grande propriedade, enquanto principal unidade de produção, no sistema econômico nacional, sustentando, dessa forma, um quadro agrário marcado pela concentração fundiária e pelo monopólio da propriedade da terra:
[...] contribuiu, [...], para a acumulação de riquezas, para a implantação em torno de sua área de um importante sistema de transportes, incrementando ferrovias e rodovias; concorreu para o crescimento da rede bancária e para o desenvolvimento industrial. [...]. Mas, por outro lado, constituiu-se, a grande fazenda cafeeira, o principal baluarte da sustentação da estrutura latifundiária semicolonial e semifeudal, arcaica, anti-social e antieconômica que hoje representa um dos principais entraves ao desenvolvimento de nosso país. (GUIMARÃES, 1968, p. 102-103)44
43 Caio Prado Júnior pondera que ao mesmo tempo em que a lavoura cafeeira constituía a principal fonte
de divisas para o país, o sistema econômico pautado, principalmente, na produção agrícola para o mercado internacional, representava o principal fator de fraqueza, debilidade e estagnação econômica. Fonte de prosperidade ao mesmo tempo que simbolizava a base de nossa debilidade e constante instabilidade financeira. Assim, embora tenha vivido um relativo desenvolvimento das forças produtivas durante o período imperial, não logrou o país assegurar constância e solidez no campo monetário, o que resultou no fraco e descompassado ritmo que a evolução econômica do Brasil apresentou desenvolvimento de nossa