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I. Mevzuatla Aranan Şartlar

DE FLORBELA ESPANCA (1916 – 1930).

Grande parte da obra de Florbela Espanca está calcada no imaginário da região que testemunhou seus primeiros sonetos já como autora dos seus próprios caminhos, versejando a vida e o amor. Assim, em sua obra, o Alentejo sobressai como berço de suas aspirações e

inspirações poéticas, mas também como cenário de suas mundividências que deram origem algumas das mais belas e tristes composições do espólio da poeta. Percebe-se com muita frequência uma forte ligação a terra-mãe como fonte inesgotável de gestos e expressões das mais eróticas, metaforicamente ligadas à natureza, conotando as raízes, a origem e a vida. O Alentejo, seja em seus aspectos positivos ou negativos, será para sempre o ventre onde foi gestada a poesia de Florbela Espanca, pois é nessa terra onde fincam-se os sinais da sua passagem e memória, da sua vida, assim como da sua morte.

Percebemos que a paisagem e a natureza têm um destaque preeminente na obra de Florbela Espanca. No tratamento da paisagem, por exemplo, segundo a crítica literária, Concepcíon Delgado Corral63, Florbela trabalhou com duas linhas fundamentais de poesia: uma linha poética nacionalista e uma linha poética subjetiva. A primeira linha está diretamente relacionada com um sentimento lusitano. Como vimos anteriormente, em um contexto de guerras e de grandes dificuldades nacional, Florbela Espanca inicia sua produção literária, no qual se mostra influenciada pelos movimentos de divulgação nacionalista de cunho patriótico ufanista. Pudemos perceber também que dentro dessa linha de poesia nacionalista portuguesa, o eu lírico não só retomou os mitos e fatos do passado como exemplificadores deste último para o presente64, assim como exalta uma identidade lusitana através da paisagem e da natureza.

Por outro lado, ao longo da sua carreira de poeta, Florbela Espanca segue uma linha poética subjetiva cujo âmago de produção encontra nos seus mais profundos sentimentos, pensamentos, incômodos e transtornos, quase sempre personificados na natureza, sobretudo, na região alentejana (CORRAL, 2005, p. 270). O Alentejo não é meramente descrito no seu estado real ou pela sua beleza natural, antes ela se mescla a sentimentos amorosos, eróticos, afetivos e saudosistas do “eu” sobre a região, que atua como fio condutor e/ou meio pelo qual o eu lírico se expressa.

Meio-dia. O sol a prumo cai ardente, Doirando tudo… Ondeiam nos trigais D’oiro fulvo, de leve… docemente… As papoilas sangrentas, sensuais… Andam assas no ar; e raparigas, Flores desabrochadas em canteiros, Mostram, por entre o oiro das espigas,

63 Ver em: CORAL, Concepcíon Delgado. Florbela Espanca: asa no ar, erva no chão. Porto: Tartaruga, 2005. 64 Como, por exemplo, “Vozes do mar”, “Meu Portugal”, etc.

Os perfis delicados e trigueiros… Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador… Olhando esta paisagem que é uma tela De Deus, eu penso então: Onde há pintor, Onde há artista de saber profundo, Que possa imaginar coisa mais bela, Mais delicada e linda neste mundo!? 65

Florbela descreve o sol abrasador iluminando os campos de trigais com tato e ternura, realçando seu aspecto luminoso por toda sua extensão, como se revestisse a seara com uma camada delgada de amarelo-ouro, que cativa e deslumbra de forma resplandecente! Uma sensualidade casta, inocente e pura aparece na descrição da paisagem do campo, na união do sol quente com a terra e os trigais, dotando as flores da papoila de uma vivacidade e voluptuosidade delicada! As jovens mulheres em seu ar cândido e ingênuo são as próprias flores a desabrochar nos canteiros! ‘’Tudo é tranquilo, e casto, e sonhador… Olhando essa paisagem que parece uma tela… ’’. Mais uma vez Florbela Espanca compara o panorama Alentejano a um quadro, onde ela o pinta de forma romanesca, visionária e idílica, tão perfeito que é quase fantasioso e devaneador. Florbela manifesta o seu amor por essa paisagem cheia de matizes, tranquilidade e sutileza.

A região alentejana na poesia não representa fato, causa e consequência, mas expressões das sensibilidades que o sujeito poético confere ao espaço. A região está diretamente relacionada a um conjunto de elementos que compreende os sentidos, os sentimentos, os gestos e os modos que estão contidos na imagem do Alentejo. A descrição do Alentejo é o cruzamento da paisagem ao contexto do eu lírico em que foi produzida, combinando um jogo de forças presentes na sensibilidade do sujeito poético no momento que captou a imagem, marcos que mostram rupturas ou mudanças na apreensão do Alentejo. Afinal, as imagens, as cosmovisões e símbolos, são produzidos em determinados contextos históricos, seja pela engenhoca política pensada, seja pelas necessidades sociais e locais, seja pelo artifício da poesia ou da literatura.

Nesse sentido, a visão da região do Alentejo na maior parte da obra de Florbela Espanca é simbólica, no sentido que está atrelado às vivências, as experiências e, até mesmo, o próprio estado de ânimo do eu lírico. Outra imagem que aparece na obra de Florbela Espanca é, sobretudo, a de uma paisagem agredida, caracterizada pela rudeza e aridez, que se

identifica com seu estado de espírito de sequidão, de não saber o quê procurava, o quê sentia e o quê viveria.

Certamente, a realidade nas malhas de uma tristeza desconhecida, solapou o cotidiano e o imaginário da poeta. Nesse sentido, em suas poesias, Florbela expressa toda sua amargura e abandono através da vivência com a paisagem Alentejana, de como ela sente e se expressa através da paisagem.

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte A planície é um brasido… e, torturadas, As árvores sangrentas, revoltas,

Gritam a Deus a benção duma fonte! E quando, manhã alta, o sol posponte A oiro a giesta, a arder, pelas estradas, Esfíngicas, recortam desgrenhadas Os trágicos perfis no horizonte! Árvores, Corações, almas que choram, Almas iguais à minha, almas que imploram Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vede: -Também ando a gritar, morta de sede, Pedindo a Deus a minha gota de água! 66

A poeta abre o soneto com as palavras “horas mortas”, sugerindo um silêncio profundo, como se o tempo tivesse enregelado, como uma pintura de tela – expressão muito usada pela poeta ao se referir ao Alentejo –, dando uma dimensão atemporal e eterna, assim como os longínquos montes, onde ecoam os ventos e os cantos dos pássaros.

A descrição da planície brasida conota uma metáfora de inferno, onde as árvores gritam de sede no abismo de seu martírio. O Florbela identifica-se com as árvores alentejanas que choram mortas de sede. E na busca de viver, por parte das árvores, é a busca do absoluto por parte do sujeito poético. Geralmente, as árvores estão relacionadas com o símbolo da vida, sobretudo quando florescem e frutificam, mas, também, podem conotar a montanha devido à sua verticalidade, que são elementos da relação entre o mundo terrestre e o mundo superior. Nesse último sentido, a autora Concepción Delgado Corral, propõe que a árvore simbolize o eu lírico no seu desejo de transcendência, uma verdadeira luta entre o idealismo e o mundo da

terra (CORRAL, 2005, p 288). Que dizer, as árvores representam o desejo de elevação do eu lírico e sua visão idealista na procura da transcendência.

O soneto intitulado Árvores do Alentejo, dedicado ao professor Guido Battelli67, trás uma temática da natureza mórbida de uma forma marcante, mas muito singular em Florbela Espanca, que pinta com eloquência dramática a tragédia da seca que se alastrava seu Alentejo. Florbela personifica as árvores, incorporando nelas todo seu sentimento de angústia e de desespero. O próprio Guido Batteli chega a afirmar que o Alentejo, com a sua paisagem triste

e severa, com a sua vastidão imensa, com a sua luz fulgurante formou a alma e o espírito de Florbela Espanca68, da mesma forma que acreditamos que Florbela conformou uma nova imagem para o Alentejo, carregada de dor, de paixão e de saudade, vindo da mais profunda relação da sua essência com a natureza. A terra Alentejana ocupa um lugar raro, singular e único nos versos triste de Florbela, assim como ela conferiu sentidos e amoldou o seu Alentejo às suas percepções enternecidas.

A poeta esmaece na imagem agredida alentejana, mas, ao mesmo tempo, ressurge como uma fênix das cinzas da terra campestre com toda sua rudeza, ressalta a região alentejana como terra que serviu de moldura sua infância e juventude, inscrevendo uma forte identidade local:

Enche o meu peito, num encanto mago, O frêmito das coisas dolorosas… Sob as urzes queimadas nascem rosas… Nos meus olhos as lágrimas apago… Anseio! Asas abertas! O que trago Em mim? Eu oiço bocas silenciosas Murmurar-me as palavras misteriosas Que perturbam meu ser como um afago! E, nessa febre ansiosa que me invade, Dispo a minha mortalha, ó meu burel, Eu já não sou, Amor, Soror saudade… Olhos a arder em êxtase de amor

67 Convidado para ministrar a disciplina de História da Literatura Italiana no departamento de Letras da

Universidade de Coimbra, com quem Florbela estabeleceu uma cumplicidade especial. Battelli apoiava e incentivava a produção da poeta. Battelli organizou um conjunto de poesias inéditas a que deu o nome de

Juvenília (1931), precedido de um estudo crítico. Depois saiu uma segunda edição de Charneca em Flor, com

outro livro como apêndice, organizado por Battelli, que intitulou Reliquiae (1931), um conjunto composto de sonetos isolados encontrados pelo professor depois da morte da poeta, mas que não foi preparado para publicação pela autora.

68 BATTELLI, Guido. O sentimento da natureza na poesia de Florbela Espanca. In: Juvenília. Lisboa: Colares

Boca a saber a sol, a fruto, a mel: Sou charneca rude a abrir em flor! 69

A última distinção do conceito de terra na obra florbeliana é representada pela charneca, que dá título ao seu último livro de poesia escrita ainda em vida, Charneca em Flor (1930-póstumo). Essa imagem agredida da charneca, conjunto de plantas arbustivas incultas e queimadas pelo sol ardente de sua terra, provoca um feitiço encantador e fascinante no eu lírico que emerge como revelação de uma forte emoção e/ou um abalo estremecido pelas mágoas e ressentimentos, donde, ali mesmo, renascem as rosas e apazígua a imensa dor que emanam do peito do eu lírico. Um elemento tão singelo da paisagem alentejana como a urze, também tem vida e está personificado. A charneca simboliza a própria Florbela e o sol o amante a queimar em fogo e paixão suas plantas. Nesse sentido, a charneca aparece como interlocutor do próprio eu poético: urze queimada a nascer rosas. Parece-nos que as rosas, símbolo tradicional que representam a própria pureza e espiritualidade e, quando associada à primavera, as rosas ressurge com uma identidade de alegria, d e claridade e de beleza.

A sua terra idílica também é adornada por plantas que pertencem a uma espécie intermediária a erva e o arbusto, como os rosmaninhos, plantas aromáticas com flores de tonalidade violeta, numa perfeita união de diferentes sensações. Como uma boa simbolista, discípula de Baudelaire, Florbela valoriza não só as sensações visuais, ressaltando as mais variadas cores da paisagem alentejana, assim como as odoríferas, acentuando o gosto pela fragrância de suas ervas. Percebe-se a presença do poder evocativo dos fortes perfumes que exala de sua terra, conotando a própria sensualidade vinda das ervas daninhas e flores selvagens do Alentejo. Nesse sentido, as flores do seu Alentejo representam a imagem do amor, hora de alegria, hora de tristeza, mas, sobretudo a fugacidade e a desilusão do amor e da vida quando associadas a distintas cores.

Florbela reconhece a grandeza da natureza não só nas coisas impressionantes – céu, estrelas, lua, sol, montes e charnecas –, assim como nas coisas mais singelas que compõem seu Alentejo. No diário pessoal da poeta não deixa de estar presente o seu amor pela natureza, pela charneca bárbara e pelos jardins e bosques cheios de flores. Tudo na natureza é grande, puro, cheio de cores, de perfumes, de sons e de texturas:

Eu que tenho esgotado todas as sensações artísticas, sentimentais, intelectuais (…) não esgotei ainda, graças aos deuses, o arrepio de prazer, o

estremecimento de entusiasmo, este élan quase divino, para tudo o que é belo, grande e puro: flor a abrir ou tinta de crepúsculo m raminhos de árvore, ou gota de chuva, cores linhas, perfumes, asas, todas as pelas coisas que me consolam do resto. Serei eu uma panteísta?70

Como vimos ao longo das explicitações de alguns versos do espólio florbeliano, a terra é um elemento muito presente em sua poesia, assim como a sua personificação com a natureza aparece quase que constantemente71. A personificação é um traço característico dos componentes da sua paisagem. Em sua obra aparece claramente uma linha panteísta em tons saudosista, que chama atenção sobre a função espiritual dos elementos da natureza, os quais transmitem o encanto e a beleza da paisagem. Nesse tom saudosista, Florbela vê a paisagem em expressões transcendentes:

Tarde de brasa a arder, sol de Verão Cingindo, voluptuoso, o horizonte… Sinto-me luz e cor, ritmo e clarão De um verso triunfal de Anacreonte! Vejo-me asa no ar, erva no chão, Oiço-me gota de água a rir, na fonte, E a curva altiva e dura do Marão

É o meu corpo transformando em monte! E de bruços na terra penso e cismo Que, neste meu arder panteísmo, Nos meus sentidos postos, absortos Nas coisas luminosas deste mundo, A minha alma é túmulo profundo

Onde dorme, sorrindo, os deuses mortos!72

A poesia intitulada Panteísmo, é dedicada de forma bastante sugestiva ao Boto de

Carvalho, já que o título do soneto evoca a corrente filosófica pela qual só admite como Deus o todo, a universalidade dos seres73, no sentido que absolutamente tudo e todos compõe um

único Deus como uma unidade abrangente. Assim, desde o título, o soneto propõe que a natureza seja vista e percebida como uma divindade, na qual a natureza e Deus são idênticos.

70 ESPANCA, Florbela (autora); CORREIA, Natália (prefaciadora). Diário do Último Ano: seguido de um põem

sem título. 2ed. Portugal: Editora Bertrand, 1982, p. 41.

71 Por exemplo: “Esparsos”, “Não ser”, “Eu” e “Esfinge”.

72 EAPACA, Florbela. Panteísmo. In: Sonetos. Rio de Janeiro: Bertrand, 2010, p. 139.

O panteísmo surgiu a partir de uma corrente do neorromantismo em Portugal que, segundo José Carlos Seabra Pereira74, foi a confluência mental de um ambiente marcado pela desassossego do eu moderno, desenvolvendo um plano do espiritualismo e, quase sempre, da religiosidade, porém distinto da doutrina católica ortodoxa. Assim, em um contexto de inquietação espiritual marcante do final do século XIX e início do século XX – provocado pelas rupturas políticas, sobretudo, com a emergência dos novos símbolos da república, do crescimento urbano com os novos comportamentos diante da aceleração das tecnologias –, o panteísmo surge como uma espécie de religião75, no qual se baseava no estado emotivo do transcendentalismo fundamentado no ambiente de campo, de serra, de mar, de crepúsculos Alentejanos, etc, desenvolvendo uma poética em oposição à industrialização (FARIAS, 2012, p. 47).

Dessa forma, a concepção de um mundo sagrado e não profano que os neorromânticos atribuíam a poesia tinha por objetivo garantir um plano otimístico para Nação (Análise Social,1983, vol. XIX, p. 15). Assim, a produção literária na sociedade portuguesa no início de século XX, voltou-se para a corrente do neorromantismo com tonalidades saudosista nacionalista, desdobando-se numa ligação direta com a paisagem regionalista e tradicionalista lusitana.

Em todo espólio florbeliano, a poeta declara abertamente sua veneração pelo campo, até deixa entender que o considera superior a cidade, como bem podemos observar no conto

O aviador, donde descreve a cidade como um formigueiro e as pessoas como formigas76. No entanto, isso não significa que Florbela não goste da cidade. Lisboa e a universidade foram suas maiores ilusões, palco dos grandes acontecimentos do período, assim como centro das efervescências culturais. Cidade cosmopolita e estrangeira que fascinava Florbela Espanca, assim como a fascinava todas as correntes da arte e da literatura que a capital importava da Europa, entre as quais a poeta internalizou o próprio neorromantismo, decadentismo, saudosismo, lusitanismo e, assim, dedicando-se a intonar suas poesias continuamente até o fim da sua vida.

Contudo, parece-nos que só o campo preenchia e satisfazia seu universo. Como a própria poeta fala, sentia-se mais pura nesta pureza imensa, mais limpa, mas lavada de

74 Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

75 Encabeçado, sobretudo, por Teixeira de Pascoaes e seus seguidores fiéis.

culpas do que se tivesse nascido agora77. Esse trecho retirado do texto intitulado por “Carta

da Herdade”, dirigida a um amigo longínquo e querido, que aparece pela primeira vez em julho de 1930 na revista “Portugal Feminino”, na qual se estrutura em forma de carta, Florbela fala da sua charneca de forma idílica, da sua rudeza e da sua tristeza, aspectos esses que vimos recorrentemente se identificar, exaltando a cor e a vida da charneca, manifestando o amor pela natureza e os animais.

Nesta direção, podemos perceber nas poesias de Florbela Espanca uma manifestação e internalização da paisagem em tons panteístico de maneira muito peculiar e subjetiva. A extensão do território é percebida por Florbela como um lance de vista, onde o sol é um símbolo erótico em relação à terra, como também desperta a existência e a abundância. O sol a pino brilha como chama de fogo a delimitar toda longínqua planície ondulante até os confins do horizonte alentejano, como uma forte intensidade de luz difusa, da qual o eu lírico sente o ritmo de suas ondas penetrar seu ser em cor e luminosidade, como a vibração e êxtase dos versos de Anacreonte, poeta lírico grego que cantava as musas e Dionísio, que entonava os prazeres do amor e do vinho.

Na segunda estrofe, Florbela revela desejos contraditórios, hora de ascensão, de sublimação e de exaltação a uma dignidade, hora de aferro a terra <Vejo-me asas no ar, ervas

no chão (…) É o meu corpo transformando em monte!>. O corpo do sujeito poético é o

monte, que ainda que seja elevado, tem suas raízes na terra. Por vezes o monte representa o sensualismo e o erotismo do corpo feminino, assim como também simboliza a elevação. Os desejos de elevação, simbolizados na altura do monte e nas asas, correspondem uma luta e/ou um pensamento paradoxal entre dois mundos, entre o mundo imaginário e o mundo terrestre, entre o idealismo e os elementos mais comuns da realidade cotidiana.

No contexto em que o centro do coração de Portugal estava em decadência, emergindo o neorromantismo com o objetivo de reavivar a alma lusitana, confrontando a realidade a partir do devaneio melancólico, da evocação nostálgica e a recuperação de um tempo passadista coletivo através de um historicismo nacionalista. A saudade foi um ponto de partida central na recusa de uma ordem do tempo presente decadente, industrializado e moderno, para fundar uma nova ordem baseada nos costumes, nas tradições e nos códigos de um passado. A saudade, portanto, foi uma forma de evocar o passado glorioso de Portugal, redesenhando os contornos cotidianos sonhados para uma Nação e o seu povo. Assim como,

77 Ver em: PEIXOTO, José Luís. Florbela Espanca: A Charneca ao Entardecer. Vila nova de famalição: Quase

pode-se dizer que a corrente neorromântica, a qual Florbela está inserida, constituiu-se na confluência do tradicionalismo e do nacionalismo literário na forma e no conteúdo.

No entanto, para além de uma narrativa regionalista tradicionalista pragmática, emergente no início de século XX, Florbela construiu o seu Alentejo inspirado na saudade dos seus mais profundos e puros sentimentos e afetividades experimentados na região que acolheu os melhores anos de sua vida. Florbela destaca o sensualismo e a voluptuosidade na imagem da terra alentejana, assim como ressalta uma imagem mística panteísta em que, numa tonalidade saudosista, Florbela vê a paisagem em termos transcendentes, como uma testemunha viva da divindade78. Nesse sentido, ao longo de toda obra de Florbela Espanca, fala-se dessa imensa terra que a rodeia. Em ocasiões manifesta-se devoção à terra de Portugal,