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AHLAKIN TEMELİ BAĞLAMINDA MEVLÂNA`YI YENİDEN OKUMAK

1. Mevlâna’ya Göre Ahlakın Temeli

Em Vigiar e punir Foucault marca a significação da questão do governo na sua obra: “para dizer as coisas claramente: meu problema é saber como os homens governam (eles mesmos e os outros)”189.

Dessa maneira, o poder passa a ser trabalhado numa outra perspectiva: é o governo de si e o governo dos outros – que obviamente pressupõem e estão inscritos nas relações de poder – que constituirão o cerne do trabalho de Foucault até a sua morte.

Um texto central nessa perspectiva é A governamentalidade, de 1978190. Nele, o autor lança os princípios desse tipo de análise que lida com “o problema de como ser governado, por quem, até que ponto, com qual objetivo, com que método, e assim por diante”.

Com efeito, Foucault faz o inventário do surgimento, a partir do século XVI, de toda a literatura – estreitamente vinculada ao príncipe de Maquiavel, quer por oposição, quer por recusa – que trata da arte de governo. Essa teoria, contudo, não se resumiu a mero exercício acadêmico. As concepções da arte de governar estiveram ligadas desde o século XVI ao desenvolvimento do aparelho administrativo da monarquia territorial. Trata-se do aparecimento dos aparelhos de governo, como o filósofo menciona nesse mesmo trabalho.

A arte do governo, explica o pensador, rompe com a tradição da teoria jurídica da soberania fundamentada no governo do território, afirmando que “o governo é uma correta disposição das coisas”191.

189 Ibidem, loc. cit.

190 Idem, A governamentalidade, p. 277.

É importante frisar que a arte de governar se articula em torno de um tema importante à análise política: a razão de Estado, e aí não no sentido moderno do termo, mas naquele relacionado à racionalidade da atuação estatal.

De fato, esse tema, pesquisado por Foucault no final dos anos 70, não deve ser confundido com a ideia de razão de Estado como aquilo que justifica o desrespeito das regras formais do jogo político em nome de um interesse superior, em que estão, em geral, presentes o arbítrio e a violência. O sentido dado pelo autor se articula sim com uma noção de arte de governo, tematizada frequentemente ao longo do século XVII e início do XVIII.

Essa discussão de Foucault a respeito da governamentalidade ocorre no momento em que se dá a mudança mais drástica no projeto genealógico. Se durante os anos 70 as preocupações estiveram concentradas em reflexões de caráter eminentemente político, de 1978 até a sua morte, em 1984, a ética ocupará, basicamente, a sua atenção. Nesse sentido as pesquisas sobre a governamentalidade marcam uma transição: do governo dos outros – e aqui incluídas todas as investigações sobre o poder – para o governo de si. Assim, é o continente da Ética o tema dos dois últimos livros de Foucault, O uso dos prazeres e O cuidado de si.

Com efeito, o estudo do filósofo sobre a Antiguidade não privilegiará os mecanismos de constrangimento, nem as insidiosas técnicas utilizadas à submissão dos corpos e almas. As pesquisas acerca da maneira como, no século IV a.C., na Grécia, e nos séculos I e II d.C., em Roma, as condutas sexuais eram objeto de ponderações de natureza ética se encontram em um cenário bem diferente das problematizações anteriores de Foucault. Há a passagem a um exame das práticas empregadas no governo de si. Não se estudam mais os efeitos do poder no processo de subjetivação dos sujeitos, mas, sim, as técnicas usadas no governo de si.

É possível que essa passagem para um universo tão diferente de pesquisa explique o fato de que Foucault não se deteve por muito tempo nas investigações atinentes à governamentalidade. Além do texto já mencionado acerca dessa questão, há poucas referências. Os anais de curso do Collège de France dos anos de 1977-1978 destacam também essa investigação:

Em seguida foi analisada, a respeito de alguns de seus aspectos, a formação de uma “governamentalidade política”, isto é, a maneira pela qual um conjunto de indivíduos se encontra implicado, de maneira cada vez mais marcada, no exercício do poder soberano. Estas transformações importantes são assimiladas nas diferentes “artes de governo” que foram redigidas, no fim do século XVI. Ela é ligada sem dúvida à emergência da “Razão de Estado”. Se passa de uma arte de governar cujos princípios eram pedidos emprestados das virtudes tradicionais (sabedoria, Justiça, liberdade, respeito às leis divina e aos costumes humanos) ou das habilidades comuns (prudência, decisões refletidas, cuidado de estar cercado dos melhores conselheiros) para uma arte de governar cuja racionalidade tem princípios e seu domínio específico de aplicação no Estado192.

Para Foucault, a razão de Estado não é o imperativo a partir do qual se podem ou devem balizar todas as outras regras. Ela é, na verdade, a nova matriz de racionalidade segundo a qual o príncipe deve exercer sua soberania governando os homens. Não se trata da virtude soberana da justiça ou daquela do herói de Maquiavel.

Como afirmou Michel Senellart, a governamentalidade constitui uma “figura original do poder, articulando técnicas específicas de saber, de controle e de coerção”193, as quais

somente se tornaram possíveis segundo uma “racionalização, historicamente definida, das relações de poder”194.

A análise da governamentalidade abarca, em suma, em um sentido muito amplo, o exame do que Foucault denomina as artes de governar. Essas artes incluem, em sua máxima

extensão, o estudo do governo de si – a ética; o governo dos outros – as formas políticas de

governamentalidade; e, por fim, as relações entre governo de si e governo dos outros. Nesse campo estariam incluídos: os cuidados de si, as diferentes formas de ascese, o poder pastoral, as disciplinas, a biopolítica, a polícia, a razão de Estado e o liberalismo195.

192 Idem, Resumo dos Cursos do Collège de France. Tradução Andréa Daher. Rio de Janeiro: Jorge Zahar

Editora, 1997, p. 82-83.

193 SENNELART, M. A crítica da razão governamental em Michel Foucault. Tempo Social, Revista de

Sociologia. São Paulo, v. 7, n. 1-2, out. 1995, p. 2.

194 Ibidem, loc. cit.

É preciso, dessa forma, desenhar uma breve sistematização da genealogia da governamentalidade196, para, a partir daí, desenvolver os conceitos lançados por Foucault

nesse trajeto.

A análise foucaultiana da ação governamental se deterá nesse momento sobre: 1) a ideia cristã do poder pastoral; 2) a razão de Estado; 3) o dispositivo da polícia.

O exame do pastorado seguirá, dessa forma, como o primeiro item a ser alinhavado. A crise do pastorado, a partir do século XVI, inaugura uma nova política que Michel Foucault denomina governamentalidade. Por meio desse neologismo, o pensador retrata uma mentalidade nova camuflada nos conselhos de O príncipe, de Maquiavel. A articulação das noções de pastorado cristão e do conceito de governamentalidade traduz a constituição de um sujeito específico que constantemente passa pelo crivo de análises meritórias e punitivas, sendo assujeitado por redes contínuas de obediência e violência. Na modernidade, essa rede é desempenhada pela polícia, como conceito de técnica de governo, própria do Estado, que cuida das dominações técnicas que esperam uma intervenção estatal.

O príncipe, dessa maneira, deveria dominar as táticas manejando o funcionamento da estrutura econômica, política e administrativa do Estado.

No curso Segurança, território, população, o pensador se debruçará sobre essas práticas governamentais e a criação de racionalidade política que, além do modelo jurídico, incide sobre a população.

A razão de Estado é o segundo item e abordará a pedagogia do príncipe, que, no advento do Estado Moderno, não prescindirá da polícia, mas agregará a necessidade do conhecimento

196 A adoção da estrutura que sistematiza a governamentalidade em poder pastoral, razão de Estado e dispositivo

da polícia segue apenas uma opção de compreensão desta pesquisadora da análise foucaultiana deste momento de suas investigações. As concepções do pensador a respeito da disciplina e biopolítica já foram tratadas ao longo deste capítulo e, somente por essa razão, foram excluídas agora do amplo campo do que Foucault considera as artes de governar. O liberalismo e o neoliberalismo, incluídos igual e amplamente nas artes de governar, serão comentados no final deste capítulo.

de uma economia política. Após esse item, seguem-se as considerações sobre o dispositivo da polícia.