A preocupação com a identificação e análise do processo pelo qual se dá a tomada do poder sobre os corpos, na sociedade ocidental, ocupará o centro das pesquisas de Foucault a partir de 1972.A sua analítica procurará retraçar a trajetória das diversas tecnologias de poder que se desenvolveram no Ocidente a partir do final do século XVI até constituírem uma sofisticada estrutura que envolve o homem contemporâneo. Esses diversos processos que acarretaram uma progressiva organização da vida social, por meio de meticulosos rituais de poder que têm como objetivo o corpo, deram-se por meio do que Foucault caracterizou como
biopoder.
O estudo dessa problemática se encontrará privilegiado nos dois livros de Foucault dos anos 70, Vigiar e punir e A vontade de saber, cumprindo um dos projetos avançados no texto programático dessa fase do seu trabalho: Nietzsche, a genealogia e a história.
Nessa trilha:
A genealogia [...] está, portanto, no ponto de articulação do corpo com a história. Ela deve mostrar o corpo inteiramente marcado, e a história arruinando o corpo155.
Na assertiva de Foucault no início de Vigiar e punir:
[...] o corpo também está diretamente mergulhado num campo político; as relações de poder têm alcance imediato sobre eles; elas o investem, o marcam, o dirigem, o supliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais156.
Para Foucault, nos dois corpos do rei, havia a garantia de sua soberania, mas que não se identificava com a sua singularidade somática. A relação entre soberania e disciplina foi
desdobrada pelo pensador no curso O poder psiquiátrico157 e para ele essa relação situava-se
justamente abaixo do que denominou singularidade somática. Por um lado, o corpo dos súditos é um corpo fragmentado e exemplo disso é o ritual do suplício: o corpo é dividido, desmembrado, desarticulado. Por outro lado, como se viu, o corpo do rei é um corpo duplo. O dispositivo disciplinar, no entanto, tem por objetivo a singularidade somática. Mais precisamente, o objetivo das disciplinas é converter a singularidade somática em sujeito de uma relação de poder e, desse modo, fabricar indivíduos. O indivíduo não é outra coisa senão o corpo assujeitado.
Ao constatar que “houve, durante a época clássica, uma descoberta do corpo como objeto e alvo do poder”158, Foucault buscou identificar as formas e procedimentos múltiplos pelos
quais se deu essa “ocupação” dos corpos. Por consequência, a constituição de um arcabouço teórico que possibilitasse a análise e, também, a identificação do nível em que se dá esse encontro poder/corpos marcará as suas preocupações. O que o interessará, entre outros assuntos, será destacar quais mecanismos, táticas e dispositivos serão progressivamente utilizados pelo poder na época clássica e como alguns deles, com certas transformações,
155 FOUCAULT, M. Microfísica do poder, p. 22. 156 Idem, Vigiar e punir, p. 77.
157 Idem, Poder psiquiátrico. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2006, p. 25-48. 158 Idem, Vigiar e punir, p. 177.
permaneceram até os nossos dias integrando a enorme parafernália do poder que envolve a sociedade contemporânea. Entre esses mecanismos se encontram as disciplinas, isto é, “esses métodos que permitem o controle minucioso das operações do corpo, que realizam a sujeição
constante de suas forças e lhes impõem uma relação de docilidade-utilidade”159.
O que observa Foucault é que, a partir do fim do século XVII, ao longo do século XVIII e especialmente no início do século XIX, desenvolveu-se e estruturou-se toda uma nova tecnologia de aproveitamento/utilização da força dos corpos. Tal tecnologia se organizará basicamente em torno da disciplina, isto é, de um processo técnico unitário pelo qual a força do corpo é com o mínimo de ônus reduzida como força política e maximizada como força útil, como diria o pensador em Vigiar e punir.
Vinculadas aos imperativos econômicos e políticos de uma nova ordem que se impunha160, as disciplinas – técnicas já conhecidas na civilização ocidental, como, por
exemplo, nos conventos, nas oficinas e nas legiões romanas – passam a ser utilizadas
maciçamente. Fábricas, escolas, hospitais, hospícios, prisões etc., instituições fundamentais ao funcionamento da sociedade industrial capitalista, se estruturaram e têm como lógica de funcionamento as técnicas e táticas oriundas desse processo de disciplinarização. Por conseguinte, fica claro que nessa conjuntura se articula uma nova relação entre o poder e os corpos, como ele explica:
O momento histórico das disciplinas é o momento em que nasce uma arte do corpo humano, que visa não unicamente ao aumento de suas habilidades, nem tampouco aprofundar sua sujeição, mas a formação de uma relação que no mesmo mecanismo o torna tanto mais obediente quanto mais útil, e inversamente. Forma-se então uma política das coerções que é um trabalho sobre o corpo, uma manipulação calculada de seus elementos, de seus
159 Idem, Vigiar e punir, p. 126.
160 Em relação a essa nova realidade político-econômica que demandava a utilização das tecnologias
disciplinares, esclarece Foucault: “Esse triplo objetivo da disciplina responde a uma conjuntura histórica bem conhecida. É por um lado a grande explosão demográfica do século XVIII: aumento da população flutuante (fixar é um dos primeiros objetivos da disciplina; é um processo de antinomadismo); mudança da escala quantitativa dos grupos que importa controlar ou manipular [...]. O outro aspecto da conjuntura é o crescimento do aparelho de produção, cada vez mais extenso e complexo, cada vez mais custoso também e cuja rentabilidade urge fazer crescer. O desenvolvimento dos modos disciplinares de proceder responde a esses dois processos ou antes sem dúvida à necessidade de ajustar sua correção” (FOUCAULT, M., Vigiar e punir, p. 126).
gestos, de seus comportamentos. O corpo humano entra numa maquinaria de poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe. Uma “anatomia- política”: que é também igualmente uma mecânica do poder, está nascendo [...] A disciplina fabrica assim corpos submissos, exercitados, corpos “dóceis”161
Nesse momento de sua obra, há o privilégio da análise das técnicas de poder que se centram no corpo, como que o tratando como máquina, adestrando-o, amplificando a sua utilização, aperfeiçoando a extração do trabalho, integrando-o ao novo circuito da produção instaurado a partir do século XVIII. Nesse sentido, as análises de Vigiar e punir, em especial ao destacar a questão do panoptismo, isto é, “o princípio geral de uma nova ‘anatomia
política', cujo objeto e fim não são as relações de soberania mas as relações de disciplina”162,
marcam a emergência de uma nova forma de atuação do poder sobre os corpos: o poder disciplinar. O panóptico representa o modelo por excelência – utilizado nas prisões, fábricas,
escolas, hospitais etc. – dessa tecnologia de poder que se impõe ao longo do século XIX, e
que tem, para Deleuze, “por pura função impor uma tarefa ou uma conduta qualquer a uma multiplicidade de indivíduos, desde que ela seja pouco numerosa e o espaço limitado, pouco extenso”163.
A atuação do poder disciplinar apresenta aspectos distintos da maneira pela qual se articulava o poder político na Idade Média. Nessa época, pondera Foucault, esse poder
funcionava essencialmente por meio de símbolos e taxas – sinais de lealdade ao senhor feudal,
ritos e cerimônias, entre outros, e taxas, na forma de impostos, pilhagens e guerras164.
Diversamente, na Época Clássica (séculos XVII a XVIII) iniciou-se a estruturação de uma tecnologia de poder – que só estará plenamente desenvolvida no final do século XVIII – que teve referência em outras fundamentações. A tecnologia que funcionou em torno do poder disciplinar se sustentará mais em uma ação sobre os corpos e seus atos do que sobre os produtos retirados da terra. O essencial é operacionalizarem-se mecanismos que possibilitem
161 Idem, Vigiar e punir, p. 127. 162 Ibidem, p. 183.
163 DELEUZE, G. Foucault. São Paulo: Editora Brasiliense, 2005, p. 79.
164 FOUCAULT, M. L’impossible prison, recherches sur le systeme pénitentiaire au XIX siècle. Paris: Éd. Du
uma extração de tempo e trabalho dos corpos, relegando a um segundo plano as velhas formas de atuação que tinham na extração imediata de bens e riquezas seu objetivo primordial. Esse novo tipo de poder se exerce supondo mais um sistema minucioso de coerções materiais do que a figura de um príncipe soberano, no entender do pensador.
A disciplina, para Foucault, parece ser, portanto, uma técnica, um dispositivo, um mecanismo, um instrumento de poder e se caracteriza pelo exercício em uma série de espaços do corpo social. Podem-se destacar como princípios básicos os seguintes aspectos: é uma arte de distribuição espacial dos indivíduos, exercendo-se pelo controle não sobre o resultado de uma ação, mas sobre seu desenvolvimento. Trata-se de uma técnica de poder que implica uma vigilância perpétua e constante dos indivíduos, além de, igualmente, exercer um controle do tempo.
Assim é que, se essa discussão sobre a relação do poder sobre os corpos e a caracterização do poder disciplinar está nitidamente presente no período de 1974 e 1975, com o lançamento de A vontade de saber, em 1976, pode-se falar de uma mudança.
Michel Foucault não abandonará a ideia do poder disciplinar, mas a articulará com outra tecnologia, destacada nas análises dos anos subsequentes, ou seja, o biopoder, que se distinguirá do poder disciplinar em alguns aspectos, entre eles o fato de que essa nova forma de poder considerará “uma outra função [...] gerar e controlar a vida dentro de uma
multiplicidade desde que ela seja numerosa (população), e o espaço estendido ou aberto”165.
Embora o objetivo das análises ainda seja o corpo, agora é o corpo da população que será ressaltado. Foucault chamou essa tecnologia, própria às sociedades ocidentais, de biopoder.
Em suas palavras:
O segundo [o biopoder], que se formou um pouco mais tarde, por volta da metade do século XVIII, centrou-se no corpo-espécie, no corpo transpassado pela mecânica do ser vivo e como suporte dos processos biológicos; a
proliferação, os nascimentos e a mortalidade, o nível de saúde, a duração da vida, a longevidade, com todas as condições que podem fazê-los variar; tais processos são assumidos mediante toda uma série de intervenções e controles reguladores (uma biopolítica da população) [...] A velha potência da morte em que se simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente, recoberta pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida166.
Não se tratava, portanto, de descrever um fenômeno histórico do passado, mas de compreender o cerne da vida política contemporânea, motivo pelo qual Foucault anuncia em
A vontade de saber, que o homem “durante milênios permaneceu o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política; o homem moderno é um animal, em cuja política, sua vida de ser vivo está em questão”167.
Em outras palavras: ao descrever a dinâmica do exercício do biopoder, Foucault enunciou um diagnóstico a respeito da política e seus dilemas no presente.
Dessa forma, a partir da articulação da existência de um novo objeto à atuação do poder –
a população, com suas regularidades: taxa de natalidade, mortalidade, longevidade etc. –
estrutura-se toda uma nova tecnologia do poder.
É importante registrar que essa nova tecnologia, para Foucault, não implica o abandono da ideia e utilização do poder disciplinar; pelo contrário, os dois – poder disciplinar e
biopoder – se integram para um controle e gestão mais efetivo dos corpos. Apenas uma nova
área e forma de atuação do poder nas sociedades ocidentais são postas a nu pela análise do autor com a noção de biopoder.
A preocupação da investigação dessa realidade é marcante nos anos de 1976 a 1978. Se há somente uma breve descrição do biopoder no capítulo quinto de A vontade de saber, os cursos do Collège de France, nesse período, fornecem algumas indicações sobre essa problemática.
166 FOUCAULT, M. História da sexualidade I. A vontade de saber, p. 131. 167 Ibidem, p. 134.
Pode-se observar que a questão do biopoder parece ter sido a menos trabalhada por Foucault: à exceção dos textos já mencionados, é escassa a referência a essa discussão. No texto Em defesa da sociedade, Foucault tratou da questão da utilização do modelo guerreiro como possibilidade de inteligibilidade das relações de poder, como já se registrou. É no curso de 1978-1979, Nascimento da biopolítica, que basicamente se tem informações, já que nele Foucault privilegiou a análise em termos da governamentalidade e no estudo da racionalidade liberal. No curso de 1977-1978, Segurança, território e população, há uma esclarecedora passagem acerca dessa questão da população, objeto do biopoder.
Destaca-se:
Assim, começa a aparecer [...] o problema da população. Esta não é concebida como um conjunto de sujeitos de direito, nem como um grupo de braços destinados ao trabalho; ela é analisada como um conjunto de elementos que de um lado se aproxima do regime geral dos seres vivos (a população depende então da espécie “humana”: noção nova à época, distinta da noção de “gênero humano”) e de outro, pode dar lugar às intervenções concentradas (por intermédio das leis, mas também das mudanças de atitude, da maneira de fazer e de viver que podem ser obtidas pelas campanhas)168.
É possível afirmar-se uma mudança de ênfase no trabalho de Foucault, posto que o nível de atuação do poder focalizado – diferentemente do poder disciplinar – apresenta-se em outro plano. Nesse momento, o objeto de análise é a forma de poder que se situa e exerce no nível da vida, da espécie, da raça e dos fenômenos maciços de população, como ele mesmo afirma
em A vontade de saber169. Se a disciplina considerava os fenômenos individuais, o foco do
autor passa a ser os fenômenos de massa, em série e de longa duração.
Aqui já se consignou a recusa de Foucault ao conceito tradicional de Estado como instância suprema de organização e coordenação de todo o poder. Mas era necessário, ante a nova perspectiva analítica da população, um novo léxico adequado para tratar do problema de gestão calculada e administrada da vida do corpo social.
168 Idem, Segurança, território, população. São Paulo: Martins Fontes, 2008, p. 77-78. 169 Idem, História da sexualidade I. A vontade de saber, p. 129.
É dessa forma que o pensador, seguindo o fio de sua análise, introduz a discussão da
biopolítica – assim entendida como uma tomada de poder sobre a vida que já não objetivava
marcar seu “poder sobre a vida pela morte que tem condições de exigir”, signo do velho poder soberano, mas, em suas palavras, com a biopolítica “o direito da morte tenderá a se deslocar ou, pelo menos, a se apoiar nas exigências de um poder que gere a vida e se ordenar em
função dos seus reclamos”170. E, ainda, em outro trecho de A vontade de saber, ele afirma que
a velha potência da morte que simbolizava o poder soberano é agora, cuidadosamente,
recoberta pela administração dos corpos e pela gestão calculista da vida, como já se consignou.
Ao mesmo tempo em que Foucault repele o emprego do termo Estado, o seu deslocamento, o suporte e a superveniência do velho poder soberano pela biopolítica tornam
registrada uma nova dinâmica de exercício de políticas estatais171.
A biopolítica, na genealogia do poder de Michel Foucault, pode-se dizer, foi a descoberta de uma nova forma de exercício de políticas estatais, como se disse, e em nada semelhante ao exercício clássico da soberania.
Essa distinção vem muito marcada no último capítulo de A vontade de saber – Direito de
morte e poder sobre a vida. O direito de vida e de morte, para Foucault, é um direito assimétrico. Quer dizer, o soberano só o exerce, no caso, seu direito sobre a vida, exercendo seu direito de matar ou contendo-o; só delimita seu poder sobre a vida pela morte quem tem condições de exigir, dirá o pensador. O direito, assim, que é formulado como “de vida e de morte” é, de fato, o direito de causar a morte ou deixar viver. A vida, dessa maneira
170 Ibidem, p. 128.
171 É interessante anotar que, tanto para André Duarte como para César Candiotto, o conceito de
governamentalidade pode mesmo derivar de um exercício da biopolítica. Foi seguindo a via dessa terminologia, explica o primeiro, que Foucault passou a analisar o liberalismo como conjunto das práticas de governo. Estas, por certo, se referiam a um Estado que se foi constituindo por meio de sua atuação administrativa cotidiana, mas permitiam ao pensador francês fazer uma abstração do conceito de Estado em seu caráter de universalidade concreta e de pressuposto de toda e qualquer discussão em filosofia política. DUARTE, A.M. Vidas em risco:
crítica do presente em Heidegger, Arendt e Foucault. Rio de Janeiro e São Paulo: GEN/Forense Universitaria, 2010, p. 225. CANDIOTTO, C. A governamentalidade política no pensamento de Foucault. Revista de Filosofia Unisinos. Disponível em: <http://www.revistafilosofia.unisinos.br/pdf/169.pdf>.
entendida, era apenas uma concessão do poder constituído. Deixando de exercer seu direito de impor a morte, o poder soberano garantia a vida. Tratava-se aí do poder soberano adaptado à figura de uma sociedade na qual o poder se exercia por meio de um confisco, apoderando-se de bens, dos corpos e da própria vida dos súditos.
É preciso anotar, porém, que Foucault não afirma que foi no século XVIII que pela primeira vez a população surgiu como objeto de atuação do poder172. Já na Antiguidade
clássica, em Roma, observou-se a existência de políticas públicas visando à regulamentação da dinâmica populacional, por meio de leis estimulando casamento, isenção de impostos para famílias numerosas etc. Porém, no século das Luzes, a população começa a ser estudada, analisada e esquadrinhada por uma série de políticas que apresentam como suporte as ciências do homem que se constituem nesse século, como a demografia e a medicina social.
Com a constituição da biopolítica, porém, vale dizer, com a entrada da vida no âmbito das preocupações políticas, a partir da metade do século XVIII e, sobretudo, ao longo do século XIX, operou-se um relevante deslocamento no próprio modo de exercício do poder pelo Estado: haveria ele de continuar dotado da capacidade de impor a morte, mas a sua lógica de
atuação se transformaria em um “poder que gera a vida”173. O poder soberano clássico, nessa
trilha de pensamento, já não se definia mais por uma prerrogativa de matar; agora era o próprio direito de matar que se encontrava subordinado ao interesse inicial de fazer viver mais e melhor, ou seja, de estimular e controlar as condições de vida da população. Nesse divisor de águas, mesmo quando cabe ao poder soberano o mister de impor a morte, esse fato se dá agora em nome da preservação das condições vitais da população, e não mais em seu nome.
172 Como explica Foucault: “Certamente o problema da população sob a forma: ‘seremos nós muito numerosos,
não suficientemente numerosos?’, há muito tempo colocado, há muito tempo que se dá a ele soluções legislativas diversas: impostos sobre os celibatários, isenção de impostos para as famílias numerosas, etc. Mas, no século XVIII, o que é interessante, em primeiro lugar, é uma generalização destes problemas: todos os aspectos do problemas população começam a ser levados em conta (epidemias, condições de habitat, de higiene, etc.) e a se integrar no interior de um problema central. Em segundo lugar, vê-se a este problema novos tipos de saber: aparecimento da demografia, observações sobre a repartição das epidemias, inquéritos sobre as amas de leite e as condições de aleitamento. Em terceiro lugar, o estabelecimento de aparelhos de poder que permitiam não somente a observação, mas a intervenção direta e manipulação de tudo isto. Eu diria que neste momento começa algo que se pode chamar de poder sobre a vida, enquanto antes só havia vagas incitações descontínuas para modificar uma situação que não se conhecia bem” (FOUCAULT, M. Microfísica do poder, p. 234-275).
Há nessa separação uma importante nota: se antes o poder soberano exercia seu direito sobre a vida na medida em que podia matar de tal modo que nele se consubstanciava o “direito de fazer morrer ou de deixar viver”, a partir do século XIX se impôs a transformação
decisiva que deu lugar à biopolítica como uma nova modalidade de exercício de poder174, que
passa a ser um “poder de fazer viver e deixar morrer”175.
Nesse percurso, ao Estado interessa estabelecer políticas de caráter higienista e eugênica no objetivo do saneamento da população e, bem como, da depuração de infecções internas. E reside aí o grande paradoxo: do caráter humanitário da melhoria das condições de vida da