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Para Schmitt, a escolha da estrutura de poder do Estado Moderno, na forma da observação da divisão organizada de poderes, traduz-se de uma “concorrência” entre eles, o que acaba por relativizar o próprio Estado e reprimir o domínio do político. Nas obras Teoria

da constituição e O conceito do político, principalmente, o autor trata do liberalismo como um sistema despolitizante e voltado para a preservação da liberdade privada, em prejuízo da dimensão pública.

O problema do pensamento liberal não é, para o jurista, propriamente o de organização do Estado, mas, sim, o fato de que a autonomia individual ocupa primordialmente as formas de existência da vida social.

A organização do poder público nas constituições liberais tem como escopo a limitação e o controle do Estado. Essa perspectiva se nutre, porém, para Schmitt, de uma desconfiança em relação aos seus possíveis abusos e há uma pretensão de evitá-los tornando calculável o seu exercício.

E neste passo vislumbra-se, talvez, uma formulação de Carl Schmitt que talvez não seja de todo alheia às tonalidades que a noção de biopolítica virá a adquirir no pensamento de Foucault e Agamben.

Nesse sentido, vale a transcrição, traduzida por Bernardo Ferreira63: “todas as atividades

estatais [...] se dissolvem em um funcionamento calculável (berenchenbares Funktionierem) e

63 FERREIRA, B. O risco do político. Crítica ao liberalismo e teoria política no pensamento de Carl Schmitt, p.

que se realiza segundo normas estabelecidas antecipadamente” (Verfassunglehere, 131). E acrescenta esse autor:

Quanto mais o Estado se vê submetido às possibilidades de cálculo de um sistema de normas previamente constituídas tanto mais ele tende a se transformar em um aparato técnico e pretensamente neutro. Thomas Hobbes, levado às suas últimas consequências o constitucionalismo liberal resultaria de uma [...] formalização e neutralização do conceito de “Estado de Direito” em um sistema de legalidade estatal que funciona de maneira calculável, sem consideração a conteúdos de fins ou de verdade e de justiça.

De fato, para o jurista, a ordem liberal parece prender-se a uma aporia e ele desenvolve essa ponderação à luz do conceito de Estado de Direito.

O Estado de Direito é o Estado que está sob a égide de lei. Essa ideia de dominação da lei negaria, para Schmitt, a necessidade de uma instância que atribuísse validade ao próprio texto legal. O domínio da lei, portanto, não encontraria o seu fundamento na autorictas do Estado, mas em uma verictas que antecede a própria ordem política. A autoridade do Estado, neste passo, remanesce secundária aos princípios jurídicos que a antecedem. Há, conclui o jurista, “um triunfo do direito sobre o poder”64 e, nesse quadro, a noção de autoridade como algo

identificado à existência de uma esfera pública-estatal e como condição de validade da ordem jurídica perderia a sua razão de ser.

A concepção da lei como norma geral teria como pressuposto o caráter universal, tanto da sua validade quanto da sua aplicação. Nada mais característico desse fato do que a crença, própria ao constitucionalismo liberal, tal como aponta Schmitt, de que haveria condições de “abranger, sem resíduos, todas as possibilidades de ação do estado em um sistema de

normações”65. Ao atribuir a esse sistema de normas a capacidade para predeterminar o futuro,

o liberalismo tenderia a desconhecer e recusar a própria ideia de soberania. E, justamente ao exemplificar esse argumento, Schmitt refere-se ao estado de exceção. Há uma recusa liberal da soberania ao conceituá-la juridicamente. Segundo Schmitt, o pensamento liberal acredita poder fixar antecipadamente as competências extraordinárias nesse contexto dos fatos, o que

64 Ibidem, loc. cit.. 65 Ibidem, p. 134.

torna o Estado de Direito refém do seu próprio conceito de ordem e “para os inevitáveis atos de soberania se desenvolve, então, um método de atos apócrifos de soberania”. Isso implicaria, pontua Schmitt,

a ficção (es wird fingiert) de que, primeiro, a constituição nada mais é do que um sistema de normações (normierungen) legais, segundo, de que esse sistema seja fechado, e, terceiro, de que ele “é soberano”, ou seja, não pode em ponto algum ser rompido ou sequer influenciado com base nas razões e necessidades da existência (existenz) política66.

O ponto de partida da ideia liberal da lei estaria, dessa forma, na crença jusnaturalista de que as normas jurídicas “contêm um autêntico dever-ser, sem levar em conta a realidade do seu ser, ou seja, a realidade jurídico-positiva”67.

Essa condição mesma de que o direito possa abranger toda a ação do Estado, para Schmitt, significa uma recusa da própria ideia de soberania. A defesa liberal do “domínio da lei” toma como certa a possibilidade de substituir a soberania do Estado pela soberania da lei. A superioridade da lei em relação ao Estado pressupõe uma confiança no legislativo que acaba por subjugá-lo à liberdade privada dos indivíduos.

A ideia de um Estado Legislativo, um conceito teológico secularizado, como já se disse, é mais explicitada no livro Legalidad y legitimidad. Assim:

o legislador, e o procedimento legislativo por ele empregado, é o último guardião de todo o Direito (Rechts), a última garantia da ordem existente, a última fonte de toda a legalidade, a última segurança e a última proteção contra o que não é direito (Unrecht). O abuso do poder legislativo e do procedimento legislativo tem que permanecer, na prática, fora de consideração68.

Essa formalização da lei, para o jurista, a desvincula de um ideal de Razão e Justiça porque passa a depender da confiança na racionalidade e na justiça do legislador e do

66 SCHMITT, C. apud FERREIRA, B. O risco do político. Crítica ao liberalismo e teoria política no

pensamento de Carl Schmitt, p. 134.

67 FERREIRA, B., op. cit., p. 134. 67 Ibidem, p. 137.

procedimento legislativo. A análise de Schmitt sobre esse processo de esvaziamento e funcionalização do sistema de legalidade do Estado de Direito apresenta essenciais implicações nesta pesquisa.

Schmitt segue inicialmente o pensamento de Max Weber sobre a transformação da legitimidade em legalidade, mas registra que essa análise representa uma negação da própria legitimidade e ilustra a sua perspectiva na crítica ao positivismo jurídico para o problema da

validade da ordem legal. Com o positivismo jurídico, defende Schmitt69, o direito é despojado

de todos os elementos que asseguravam a sua validade extralegal. A identificação entre lei estatal e direito significaria a eliminação de todas as justificações associadas ao dever-ser da legalidade: as normas legais já não valem pela sua correspondência ao Direito, à Justiça ou à Razão, mas pelo simples motivo de que existem como realidade positiva. Dessa maneira, o problema da justificação da ordem legal se reduz à questão da validade de um “mero fato”.

Para o autor, a legalidade liberal, assim como a sua expressão extrema no positivismo jurídico, seria incapaz de qualquer justificação normativa da existência empírica. Com a redução da lei a “mero fato”, o direito se tornaria dependente de um tipo de pensamento que se mantém absolutamente objetivo (sachlich), ou seja, nas coisas (bei den Dingen)70. Daí a sua aproximação entre a concepção da legalidade liberal-positivista e o pensamento técnico- científico e econômico71.

No pensamento de Schmitt, a economia e o direito, no modelo jurídico do Estado de Direito, consideram a realidade a partir da lógica de uma imanência plena, na qual a ordem das coisas prescindiria de qualquer justificação. Essa seria, antes de tudo, uma ordem cuja razão de ser estaria dada em si mesma e que seria capaz de conter em si a totalidade das

situações concretas. Assim, à lei entendida como uma norma geral, impessoal – “que não

69 Ibidem, p. 143.

70 Idem, Romanticismo político, p. 27.

71 Parece ser essa igualmente a trilha de Agamben ao vislumbrar uma relação intrínseca entre juridicização e

economicização das relações humanas, conforme ele assinalou também na conferência que fez em Notre Dame, em 2009. AGAMBEN, G. La Chiesa e il Regno. 2011a. Disponível em: <http://www.giugenna.com/2011/02/18/agamben-la-chiesa-e-il-regno/>.

conhece nenhuma individualidade e tem validade, sem exceção, como lei natural”72 –, Schmitt

contrapõe a ideia de uma decisão pessoal, que extrai o seu fundamento de validade do “caso de exceção”, e não da possibilidade da sua aplicação universal.

Nessa trilha, Schmitt ainda considera que o mesmo movimento que transforma o direito no sinônimo da legalidade tenderia a esvaziá-lo do seu conteúdo e a despojá-lo da sua

capacidade de ordenação do real. Para o autor, quanto mais “a lei se tornou um instrumento

técnico destinado a tornar calculável o manejo do poder do Estado”, tanto mais o direito pôde

ser concebido como algo imanente ao funcionamento do sistema de legalidade73e, com isso,

o jurista acredita que o direito perde a sua abertura para a realidade concreta, pois vem a ser pensado como uma ficção normativista de um sistema de legalidade fechado, ou seja, da ficção de que seria possível abranger a totalidade das situações concretas no interior da ordem legal.

Por conceber o direito, assim, de uma forma autorreferente e por imaginar possível tornar a existência social racionalmente previsível, o sistema de legalidade do constitucionalismo liberal se mostraria incapaz de uma “configuração substancial da realidade histórica e social”74. Para o jurista, o Estado legislativo acabaria por se tornar presa do seu próprio

caráter abstrato e, neste passo, vulnerável à contingência da vida política, às exceções concretas e às situações anormais. E esse sistema de legalidade estaria diretamente associado a uma tendência de “mecanização da concepção do Estado”, a serviço da liberdade dos indivíduos.

Pondera ainda Schmitt: “a relativização do poder do Estado contida no ideal constitucional do Estado de direito anda par a par com a sua instrumentalização e, finalmente,

com a sua tecnificação”, traduz Bernardo Ferreira da obra de Schmitt sobre Hobbes75, “o que

72 SCHMITT, C. La dictadura, p. 105.

73 FERREIRA, B. O risco do político. Crítica ao liberalismo e teoria política no pensamento de Carl Schmitt, p.

144.

74 SCHMITT, C. La ditadura, p. 14. 75 FERREIRA, B., op. cit., p. 145.

acaba por implicar uma perda de característica essencial do Estado, vale dizer, a sua unidade

política, a sua dimensão soberano-representativa”.

Além disso, com o descrédito da metafísica da Razão e da Justiça, o conceito de lei,

característico ainda do constitucionalismo liberal, tenderia a tornar-se “neutro em relação ao

conteúdo”76, o que significa, pode-se dizer, uma negação do ideal de legalidade do próprio

Estado de direito.

O caráter neutro se caracteriza, para Schmitt, como essencial na ordem pública liberal no objetivo de garantir a autonomia dos indivíduos. A organização do Estado liberal limita-se, em suas constituições, a regulamentações organizacionais de procedimentos77. Essa seria a

garantia de que as formas do sistema de legalidade poderiam estar “abertos e acessíveis a

diferentes opiniões, direções, movimentos e objetivos”78. O mesmo movimento que neutraliza

e formaliza a ordem liberal pretende torná-la aberta e inclusiva. Essa forma de inclusão, para Schmitt, transforma o Estado em um órgão “insciente, que não estabelece diferenciações, agnóstico”79.

Para o pensador, a ordem liberal precisaria garantir a chance incondicional igualitária de todas as opiniões, direções e movimentos concebíveis para alcançar a maioria. Essa ideia, todavia, pressupõe para Schmitt que cada concorrente, uma vez no poder, respeitará o direito alheio de participar em igualdade de condições da competição política. E, dessa maneira, tão somente, é que se tolera a renúncia ao direito de resistência por parte da minoria derrotada. Em última análise, para Schmitt: “a legalidade liberal só se sustenta na medida em que encontra condições políticas favoráveis, isto é, condições que não ponham em xeque os seus

próprios princípios e a ideia de normalidade a eles associada”80.

76 SCHMITT, C. Legalidad y legitimidad, 1971, p. 53. 77 Ibidem, p. 27.

78 Ibidem, loc. cit.

79 FERREIRA, B. O risco do político. Crítica ao liberalismo e teoria política no pensamento de Carl Schmitt, p.

152.

Em suma, a crença da possibilidade de uma ordem inclusiva no Estado de direito liberal tem como premissa a ideia de que a vida social é essencialmente pacífica, o que denota a sua incapacidade, insiste Carl Schmitt, na diferenciação entre amigo e inimigo, na negação do político.

É importante ainda para esta pesquisa a análise do autor sobre o parlamentarismo, na medida em que, segundo ele, esse sistema está marcado pela imagem de que as instituições liberais e as ideias que lhe servem de fundamento já não seriam capazes de dar conta da realidade política surgida com as democracias de massa.

Os dois princípios centrais do parlamentarismo, para Schmitt, são a discussão e a publicidade, dos quais se imagina a obtenção da verdade e da justiça. Assim, a discussão pública é a concretização de um autogoverno da sociedade e as resoluções do parlamento, a expressão da vontade geral. A discussão permite, dessa maneira, uma mediação traduzida por normas gerais, justas e racionais que regulam o conjunto da vida estatal. A publicidade, por outro lado, nasceu da necessidade da contestação do segredo das monarquias absolutistas.

Essas ideais centrais do parlamentarismo são as premissas de Schmitt em sua crítica à democracia nesse sistema. Logo após a publicação da Teologia política, o autor escreve A

situação intelectual do sistema parlamentar atual. A crise das bases filosóficas do parlamentarismo, nessa obra especialmente tratada, reside no fato de que as democracias de massa realmente existentes, com suas organizações partidárias transformadas em máquinas eleitorais e seus Parlamentos em palcos de barganhas de interesses raramente confessáveis,

tornaram esses dois objetivos (publicidade e discussão) peças de ornamento81.

Neste passo, o Parlamento não representa verdadeiramente a vontade geral como inicialmente concebido. As definições mais importantes se realizam em comissões parlamentares e no interior de partidos políticos, sendo o sistema parlamentar um instrumento

81 SCHMITT, C. A crise da democracia parlamentar. São Paulo: Editora Scritta, 1996, Apresentação de Cícero

técnico e “culturalmente cego”82, porquanto não confere autoridade política às suas decisões.

O Parlamento está, por isso, desprovido de seu “ethos de convicção”83.

A soberania do Estado, nesse contexto, dá lugar à soberania dos grupos sociais e a unidade política surge dos acordos e compromissos que tais grupos sociais estabelecem entre si, submetendo-se a regras meramente contratuais, e não de caráter público.

A relativização liberal da unidade política, na percepção de Schmitt, acabaria por liberar o potencial de conflituosidade da vida social, sem êxito para extrair dele a força necessária para criar uma situação normal. A fragmentação de que resultam estes grupos sociais seria uma das manifestações mais claras da renúncia liberal ao risco e à responsabilidade de uma decisão e, por conseguinte, uma expressão da sua incapacidade de dar forma à natureza potencialmente informe da existência política84.

Na análise da crise da ordem liberal construída por Schmitt – e Agamben dará especial

atenção a este ponto – que existia em potência como que se atualiza em ato, de tal forma que, com a associação entre democracia de massa e princípios liberais, a situação de exceção tende

a se tornar o estado normal da vida política, posto que os tempos atuais não são de normalidade mas, ao contrário, o de consolidação do estado de exceção como regra, de acordo com o que se verá em item próprio.

A avaliação dessa “concreta situação constitucional do presente”85, ou seja, um estado de

exceção permanente, forja para Schmitt o seu conceito de Estado total, associado claramente a uma crise do monopólio estatal do conceito do político.

Vale o destaque no texto próprio de Schmitt:

82 Ibidem, p. 4 e 5. 83 Ibidem, loc. cit..

84 FERREIRA, B. O risco do político. Crítica ao liberalismo e teoria política no pensamento de Carl Schmitt, p.

220.

Todas as contraposições até agora habituais, baseadas no pressuposto de um Estado neutro, que apareceram na sequência da diferenciação entre Estado e sociedade e são apenas casos de aplicação e paráfrases dessa diferenciação, deixam de existir. Separações antitéticas como Estado e sociedade, Estado e cultura, Estado e educação e, além disso, política e economia, política e escola, política e religião, Estado e direito, política e direito, que têm um significado quando correspondem objetivamente a grandezas ou esferas concretas e separadas, perdem o seu sentido e ficam sem objeto. A sociedade tornada Estado transforma-se em um Estado de economia, de cultura, de assistência, de bem-estar, de providência; o Estado tornado auto-organização da sociedade e, portanto, não mais separável dela, se apodera de tudo o que é social, isto é, tudo o que diz respeito à vida comum dos homens. Não existe mais nenhuma esfera em relação a qual o Estado possa observar uma neutralidade incondicional, no sentido de não intervenção. Os partidos, nos quais os diferentes interesses e tendências da sociedade se organizam, são a sociedade tornada um Estado de partidos, e porque existem partidos determinados economicamente, confessionalmente, culturalmente também não é mais possível que o Estado se mantenha neutro em relação ao econômico, confessional, cultural. No Estado tornado auto-organização da sociedade, não existe nada que não seja, ao menos potencialmente, estatal e político86.

De fato, o conflito político como condução normativa da vida social parece ser central às preocupações de Carl Schmitt. Essa temática não trata de uma derivação da ordem de princípios normativos abstratos que, em última análise, é para ele um dos eixos da crítica a normativismo liberal. Manejar o conceito de condução normativa da vida envolve não só o problema do conflito político e da decisão, mas também o tema da forma jurídico-política e da representação. Envolve a ideia de uma configuração da existência social capaz de transcender a sua realidade imediata e lhe conferir uma direção específica.

Com objetivo, dessa forma, ainda no âmbito do pensamento de Schmitt, de elaborar a problematização da soberania, é oportuna uma breve consideração da sua obra intitulada

Catolicismo romano e forma política87.

86 Ibidem, p. 222.

87 SCHMITT, C. Catolicismo romano e forma política. Lisboa: Hugin, 1998. De fato, a estrutura racional da

Igreja Católica tratada por Schmitt na representação de um pensamento técnico-econômico possui desdobramentos para o escopo desta pesquisa, ainda que não aprofundados tanto em Michel Foucault e Giorgio Agamben em razão de um necessário recorte mais adiante explicitado.

De fato, esse texto se detém na crítica do jurista à imanência da técnica e da ordem liberal e permite um maior entendimento de seus conceitos de soberania, decisão e político. A partir da discussão de Schmitt sobre o catolicismo é possível considerar como a sua ponderação sobre o liberalismo é indissociável de uma reflexão sobre o mundo moderno.

Para Carl Schmitt, em um mundo crescentemente dominado pela lógica instrumental da técnica moderna, a Igreja Católica seria a verdadeira portadora de um princípio de uma forma jurídica e uma ideia política. Na sua concepção, isso ocorreria sobretudo porque a Igreja seria a mais acabada expressão de uma complexio oppositorum Ao contrário da experiência moderna da realidade, que acentua as diferenças entre os indivíduos, no catolicismo, os contrários se encontrariam reunidos em uma espécie de unidade capaz de abarcar as mais diferentes oposições, sem reduzi-las, no entanto, a uma síntese qualquer. A nota que distingue, de fato, a complexio católica seria, antes de tudo, a sua capacidade de formação da realidade88.

Nas precisas palavras do autor:

considerada do ponto de vista da ideia política do catolicismo, a essência da “complexio oppositorum” romano-católica reside em uma superioridade especificamente formal sobre a matéria da vida humana, como nenhum Império até hoje conheceu. Aqui se alcança uma configuração substancial da realidade histórica social, que, a despeito do seu caráter formal, se mantém na existência concreta, plena de vida, e, no entanto, é racional na mais alta medida89.

O catolicismo, segundo Schmitt, é dotado de um racionalismo característico por ele

denominado “pensamento técnico-econômico”. A despeito, assim, da sua dimensão

dogmática e sobrenatural, a Igreja Católica se distinguiria por um “racionalismo institucional e jurídico”. Trata-se, para ele, de “uma capacidade de conformação da realidade humana que,

88 Ibidem, p. 16. 89 Ibidem, p. 14.

ao contrário do racionalismo técnico, não se traduz em simples domínio e utilização da matéria”90.

De fato, a peculiaridade da racionalidade jurídica do catolicismo estaria em uma maneira de pensar interessada na condução normativa da vida social dos homens. Isso porque o