O entendimento da bacia hidrográfica como um território acompanha as múltiplas dimensões do próprio conceito de território: substrato natural; econômico; cultural; político- administrativo; além de unidade físico-territorial para planejamento e gestão, onde se inserem as relações territoriais de poder, quer materiais, referente aos recursos naturais, quer imateriais, da economia, cultura, geopolítica. Ao adotar a bacia hidrográfica como unidade territorial de gestão, claramente adota-se a água, mas também a terra.
A bacia hidrográfica como unidade territorial se insere em outras unidades territoriais, como municípios, estados, países, sendo que os usos da terra e da água são passíveis de políticas de ordenamento territorial do Estado. Cabe ao Estado as políticas públicas de gestão e planejamento da água, entendida como recurso hídrico, insumo no processo de produção de mercadorias.
O território, no sentido de abrangência das bacias hidrográficas, pode ser analisado como produto das práticas sociais, além do reconhecimento do homem através do trabalho de modificação do ambiente natural pelo uso da água e apropriação da terra, das disputas geopolíticas, das relações de poder envolvidas pelos múltiplos usos dos recursos naturais numa bacia. Porto Gonçalves (2005) corrobora ao afirmar que a água deve ser pensada
enquanto território através da relação sociedade e natureza, e da apropriação dos recursos naturais, existindo aí relações de poder. Haesbaert (1997) também colabora com esta análise quando discute a visão de território a partir do vínculo sociedade e natureza (fonte de recursos), além de o território ser o substrato natural onde as relações de poder se delimitam e são exercidas.
Para a Agência Nacional de Águas (ANA, 2011c, p. 11), na publicação do Caderno de Capacitação em Recursos Hídricos, uma bacia hidrográfica é “[...] a região compreendida por um território e por diversos cursos de água”. Numa análise geográfica, observa-se a conceituação de território como substrato natural. O termo região, nesse contexto, refere-se apenas à área da bacia hidrográfica.
Cumpre ressaltar que o objetivo proposto na Tese, ao evocar o território como conceito nas discussões aqui sugeridas, abrange a área definida e delimitada geograficamente e administrativamente como unidade territorial para a gestão hídrica. A bacia hidrográfica é um território17 ocupado, arena de conflitos pelo uso dos recursos naturais e marcado por relações de poder em diversas escalas na bacia hidrográfica: escalas internas, como sub- bacias, ou externas, como a totalidade da área de um município. Adverte-se que o território político administrativo não está organizado por bacias hidrográficas. Destarte, a categoria fundamental usada no debate sobre a água como elemento da natureza e insumo no processo produtivo é o território. Concorda-se, assim, com Saquet (2007) na sua concepção sobre território no sentido de evocar as relações com a materialidade do ambiente natural e construído.
O território da bacia hidrográfica envolve fauna, flora, sociedade, política, economia, cultura. É um espaço social, pois todo território pressupõe um espaço social por suas dinâmicas no meio urbano e no meio rural (SOUZA, 1995).
Para Raffestin18 (1993) a água é motivo para relações de poder e conflitos mesmo em menores escalas de pequenas bacias hidrográficas, já que “[...] o controle e/ou posse da água são, sobretudo de natureza política, pois interessam ao conjunto de uma coletividade” (p. 231). Nesse contexto, o ciclo hidrossocial, segundo Swyngedouw (2004; 2009) abrange a circulação de água inserida também na circulação de capital e, desse modo, permeada por relações de poder. O autor discute o viés socialmente construído da escassez hídrica.
17 Na formação da Geografia Moderna, a concepção de Ratzel sobre território, sinônimo de solo, referia-se à condição material do Estado Moderno, formado pela tríade sociedade-estado-território. Desse modo, o território representava a arena de ação do poder do Estado.
Desse modo, faz-se pertinente problematizar que os conflitos ambientais estão ligados à disputa por recursos naturais, simbólicos e são a expressão das desigualdades e assimetrias das relações de poder, bem como de ações de mobilização e enfrentamento, em contrapartida. Nesse mote, as injustiças ambientais acompanham a falácia ideológica da responsabilização do consumidor individual, da reengenharia das responsabilidades, no caso da economia de água nas residências.
O acesso e uso da água e da terra definem particularidades dos territórios das águas, onde os modos de vida singulares e as lutas no território e pelo território buscam a garantia do direito às existências territoriais. Assim, debate-se o conceito de hidroterritórios19 (TORRES, 2007), definidos por particularidades de gestão hídrica. A autora também conceitua os hidroterritórios a partir dos seus usos e apropriação pelo mercado: hidroterritórios privados (mercantilizados); hidroterritórios de luta (resistência à mercantilização) e hidroterritórios das águas livres (que também resistem à mercantilização).
Os hidroterritórios representam a realidade total ou parcial de uma bacia hidrográfica. A própria herança mediterrânea do povo brasileiro em relação às simbologias das águas, à função de reguladora social, às diferentes demandas e disponibilidades, às desigualdades historicamente construídas, às possibilidades de apropriação, reforçam a bacia hidrográfica como um território e suas relações de poder.
Observa-se que a água não é uma mercadoria por não ser oriunda da força de trabalho e os sujeitos que se enquadram nos hidroterritórios privados não têm posse sobre a água, apenas direito de uso quando houver concessão de outorga. A terra, sim, possui título de posse. Os conflitos de gestão acirram-se pelas demandas e disponibilidades de uso e todos são hidroterritórios de resistências, já que os usos da água e da terra de uma bacia hidrográfica (o hidroterritório em si) são múltiplos e díspares. Entretanto, esse debate não exclui a questão do tratamento mercantilizado da água, que engloba a falta de acesso ao bem público e a venda de água envasada, bem privado.
Fracalanza (2002) ratifica que qualquer análise que objetive definir os usos da água numa bacia hidrográfica deve ser remetida às observações do espaço relacionado à própria bacia. Portanto, “[...] a configuração territorial permite, em um dado momento temporal, a
19 Ressaltam-se também os Agrohidronegócios e as pesquisas do CEGET na FCT-UNESP, com o Professor Thomaz Junior, e do GETEM na UFG, Campus Catalão, com o Professor Marcelo R. Mendonça. Os Agrohidronegócios se referem às monoculturas para a produção de energia, como a cana-de-açúcar e a soja, aliadas ao represamento dos rios, também para o setor energético e para os irrigantes latifundiários, assegurando as condições de produção e acumulação do capital. Os territórios em disputa estão imbricados na questão do reordenamento territorial do Agrohidronegócios, tendo como mote água e terra transformadas em mercadorias.
delimitação das possibilidades de uso dos recursos hídricos existentes em uma região” (p. 08). A conformação territorial e a existência social, ainda para a autora, são apreciadas tendo a bacia hidrográfica como unidade de estudo.
Nesse contexto, além do território, conforme Martins e Valencio (2003), as territorialidades numa bacia hidrográfica, sub-bacia, ou ao longo de um curso de água, referentes aos meios e modos de vida, dependem não só da água como recurso natural, mas também da água como base física para o trabalho de sujeitos como ribeirinhos e pescadores artesanais. Assim, do conceito de território, origina-se o conceito de territorialidade, com os meios e modos de reprodução da vida, e, ainda, o conceito de lugar, no sentido de pertencimento, de espaço vivido, de construções simbólicas de identidade (BOUGUERRA, 2004; SHIVA, 2006; VALENCIO, 2007; GARJULLI, 2002).
Entretanto, Garjulli (2002) também reconhece aí um imbróglio entre o lugar/espaço vivido e as instituições, num dado recorte territorial, pois cada um possui lógicas intrínsecas:
[...] Não existe qualquer tipo de identidade social que corresponda aos limites da bacia hidrográfica. A diversidade de atores que estão trabalhando na sua gestão possui percepções espaciais calcadas em outras referências territoriais; a referência da bacia terá necessariamente que ser construída e disputada com as unidades e percepções já existentes. No entanto, a maioria dos comitês dá pouca importância ao aspecto da construção simbólica da bacia (GARJULLI, 2002, p. 40).
Há, portanto, uma porção territorial para fins de gestão hídrica: a bacia hidrográfica, uma área delimitada naturalmente pela drenagem e a topografia, e uma porção territorial que abrange o espaço vivido de povos, as territorialidades que já existiam antes do locus de gestão. Ao abranger os povos e suas territorialidades, não significa que estes povos se sintam identificados com a delimitação da bacia hidrográfica a ponto de participarem diretamente do fórum de decisões que é um comitê de bacia.
A bacia hidrográfica como território para planejamento e gestão hídrica no Brasil ganhou força a partir de 1980. As pesquisas sobre as potencialidades e problemas pedológicos refletiram na criação de instrumentos de ordenamento territorial, como planos e normas, conforme observa Botelho e Silva (2004). O Programa Nacional de Microbacias Hidrográficas, instituído pelo Decreto N.º 94. 076, de 5 de Março de 1987, objetivava, de forma descentralizada, estimular a prática e o manejo da conservação dos recursos naturais com a participação dos produtores rurais para aumentar o uso sustentável da produção e da produtividade no campo. Assim, a fixação da população no campo seria maior. As pesquisas
sobre qualidade da água alicerçaram a legislação hídrica e a importância da implementação de sistemas de saneamento básico.
O território brasileiro foi dividido em 12 Regiões Hidrográficas, numa macroescala, a partir da Resolução Federal N.º 32, de 15 de Outubro de 2003, pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH) em: Tocantins-Araguaia; Atlântico Nordeste Ocidental; Parnaíba; Atlântico Nordeste Oriental; São Francisco; Atlântico Leste; Sudeste. Sendo que as Regiões