• Sonuç bulunamadı

À primeira vista talvez a duradoura e alta reputação da profissão jurídica ingle- sa torne surpreendentes as mudanças da última década. De acordo com esti- mativas de 2010, o Reino Unido possuía a maior porcentagem do mercado de prestação de serviços jurídicos europeu, contabilizando 26% do total das recei- tas europeias, enquanto a Receita Média Por Advogado (‘Average Revenue Per Lawyer) foi estimada em torno de ¤ 212.000, bem acima da média europeia, que é de ¤ 110.270.6 Não obstante esse desempenho expressivo, parece haver

vários fatores impulsionadores de mudanças na operação e na regulação das profissões jurídicas.

Amplamente, a reforma do setor foi vista como uma resposta necessária às mudanças na forma como os serviços jurídicos são fornecidos, não apenas no Reino Unido, mas também a nível global. De modo crescente, a natureza das tarefas exercidas por muitos advogados no Reino Unido, e também em outros

importante papel para essas associações em termos de ‘tutela profissional’ da lei, e que a autonomia e independência coletiva da profissão jurídica foi vista, naquele momento, como um isolamento importante contra o poder do estado, e contra aqueles poderosos interes- ses que buscavam controlar esse poder. Veja M Weber Economy and Society: An outline

of interpretative sociology em G Roth and C Wittich (eds) (Univ. California Press Berkeley 1978) p.784-788.

5 Em particular, as mudanças em relação às Estruturas de Negócios Alternativos (ABS). Veja: Solicitors Journal, 2013. “US has ‘no appetite’ for ABSs, says new ABA president”, 30 de se- tembro <http://www.solicitorsjournal.com/news/legal-profession/legal-services/us-has- -no-appetite-abss-says-new-aba-president>; e Legal Futures 2011, “German lawyers call on Americans to join international stand against ABSs” 30 de Agosto de 2011. <http://www. legalfutures.co.uk/legal-services-act/alternative-business-structures/german-lawyers-call- -on-americans-to-join-international-stand-against-abss>

6 Veja C Decker and G Yarrow, 2012. “Assessing the economic significance of the professional

legal services sector in the European Union”. Regulatory Policy Institute Research Report. Agosto de 2012, p., 56-57.

lugares do mundo, ampliou-se a fim de incluir não apenas tarefas jurídicas téc- nicas, mas também atividades de consultoria mais amplas, como transações estruturais e o gerenciamento de risco de ‘acordos’ e de projetos.7 O Reino

Unido passou também por mudanças nas estruturas de prestação e métodos de ‘produção’ dos serviços jurídicos, que incluíam a remoção de restrições tra- dicionais, que impediam os advogados consultivos de fazer suas audiências em tribunais, assim como o maior uso da terceirização de algumas atividades para escritórios jurídicos que operam em outros países e jurisdições (como a Índia);8 e um rápido crescimento dos grandes escritórios multijurisdicionais.

Uma mudança mais geral, que estava ocorrendo tanto nos mercados de ser- viços jurídicos no Reino Unido como em outros locais, decorreu do desenvol- vimento de tecnologias da informação (TI). Como em muitos outros setores da economia, os avanços em TI, ocorridos durante as duas últimas décadas, transformaram o modo como os mercados de serviços legais operam e modifi- caram a forma como advogados de diversas áreas trabalham.9 Essa tendência

pareceu criar tanto oportunidades como desafios para a profissão jurídica e, de modo mais amplo, para o setor de serviços jurídicos. Para alguns, essas mudanças aparentaram levar a uma crescente comoditização dos serviços ju- rídicos, com o potencial de que com o tempo algumas partes do trabalho jurí- dico fossem vistas como um simples ‘produto da informação’.10 Entretanto, tais

mudanças são também vistas por outros como oportunidades em potencial, para práticas jurídicas que são multidisciplinares em suas perspectivas, e que estão disponíveis para adaptarem-se e capitalizarem a partir das mudanças que estão ocorrendo dentro da profissão.

Outro importante condutor de mudanças, particularmente para a estrutura regulatória, foram os achados registrados em várias críticas e pareceres sobre os serviços jurídicos na Inglaterra e no País de Gales. O catalisador dessas críti- cas talvez tenha sido um documento da Autoridade de Concorrência do Reino

7 Veja R Susskind (2008) The End of Lawyers (Oxford University Press), p 5.

8 Exemplos de tarefas que são terceirizadas incluem: revisão de documentos, transcrição legal, assessoria jurídica e serviços de publicidade jurídica. Apesar de ser sugerido que, crescentemente, tarefas de valores mais altos estejam sendo também terceirizadas. Algu- mas estimativas sugerem que o valor da terceirização jurídica na Índia cresceu de 7,500 a 32,000 no mesmo período. De acordo com a WTO: “Relata-se que companhias de Offshore

cobram mais do que US$25 por hora por trabalhos operários, e mais de US$90 por hora, por tarefas mais avançadas. Estima-se que um advogado indiano júnior receba um pouco mais que US$8,000 por ano, comparado com US$160,000 por um associado em uma ci- dade principal dos Estados Unidos.” Veja World Trade Organization (2010) ‘Legal Services’ Background Note Prepared by Secretariat, página 7.

9 Entre as mudanças estão o uso de salas de dados, movimentações eletrônicas para proces- sos, e transcrições ao vivo no tribunal, etc

10 Veja, por exemplo: R Susskind (2008) The End of Lawyers (Oxford University Press). B Ko- bayashi, and L Ribstein (2011) “Law’s Information Revolution” Arizona Law Review, Vol. 53, página 1169.

Unido (o Departamento de Comércio Justo11), de 2001, sobre Competição Pro-

fissional12, que concluiu,13 entre outras coisas, que muitas das regras e regulações

sobre as profissões jurídicas eram excessivamente restritivas, incluindo limita- ções de entrada, de conduta e de métodos de fornecimento do serviço,14 e que

por isso resultavam em uma má relação custo benefício para os consumidores. Em um parecer de julho de 2003, sobre concorrência e regulação no mercado de serviços jurídicos, o Departamento para Assuntos Constitucionais concluiu que a estrutura regulatória existente estava ‘obsoleta, inflexível, extremamen- te complexa e insuficientemente justificada ou transparente’.15 Um ano depois,

em sua influente crítica sobre a estrutura regulatória para serviços jurídicos na Inglaterra e no País de Gales, David Clementi concluiu que o ‘sistema atual é falho’, que não havia princípios ou objetivos claros fundamentando a regulação do setor, e que o sistema regulatório ‘tem pouca consideração com os interes- ses dos consumidores’.16Além disso, Clementi acreditava que apesar das signi-

ficativas mudanças nas práticas de negócios dos advogados, as estruturas de negócio pelas quais os serviços jurídicos eram prestados não mudaram ao longo de um período de tempo considerável, e que algumas das estruturas atuais de negócios eram restritivas. Seguindo a crítica de Clementi, o Departamento para Assuntos Constitucionais escolheu o tema ‘consumidores’, publicando um Rela- tório Branco intitulado: O Futuro dos Serviços Jurídicos: colocando os consumi- dores em primeiro lugar (The Future of Legal Services: Putting Consumers First), que estabelecia uma agenda para a reforma da regulação e a prestação dos

11 Nota da revisora: o termo original é UK Competition Authority (the Office of Fair Trading) que não tem a mesma estrutura e funcionamento que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) e, por isso, não foi traduzido como similar. Optamos também por fazer a tradução literal, para comércio justo, de modo a não confundi-lo com livre comércio. 12 Nota da revisora: o termo original era Competition in the Profession.

13 Office of Fair Trading, 2001. Competition in the Profession.s Relatório do Diretor Geral de Comércio Justo. Esse estudo foi precedido por uma crítica anterior sobre Competição nas Profissões pela OECD, veja OECD, 1999. Competition in Professional Services OECD Policy Roundtable. Veja também Institute for Advanced Studies, 2003. Economic impact of re-

gulation in the field of liberal professions in different Member States. Report for European

Commission DG Competition.

14 Os profissionais, incluindo as profissões jurídicas, foram sujeitos a várias investigações fei- tas pelas Autoridades de Concorrência do Reino Unido. Um relatório de 1986, feito pelo Diretor Geral de Comércio Justo, examinou criticamente como os escritórios de direito são organizados. Veja Office of Fair Trading, 1986. Restrictions on the Kind of Organization

Through Which Members of Professions May offer their Services.

15 Veja Department of Constitutional Affairs, 2003, Response to the Consultation Paper: In the

Public Interest; e Department of Constitutional Affairs, 2003. Competition and Regulation in the Legal Services Market — A report following the consultation in the Public Interest. Julho

de 2003.

16 D Clementi, 2004. Review of the Regulatory Framework for Legal Services in England and

serviços jurídicos.17 Entre as propostas, estava a criação de uma nova estrutura

regulatória, baseada em um novo regulador estatutário, o Conselho de Serviços Jurídicos (Legal Services Board) e um Departamento de Reclamações Jurídicas (Office of Legal Complaints). Além disso, o Relatório Branco definiu propostas para o desenvolvimento de Estruturas Comerciais Alternativas (Alternative Bu- siness Structures), que permitiriam que os escritórios pudessem fornecer servi- ços jurídicos organizando-se a partir de diferentes estruturas de negócios. Isso levou à aprovação do Ato dos Serviços Jurídicos, de 2007, que, como discutido na seção quatro de forma mais detalhada, modificou significativamente a es- trutura para a regulação de serviços jurídicos fornecidos na Inglaterra e no País de Gales, permitindo que advogados e não advogados associem-se para fundar escritórios de advocacia e que não advogados possam ter escritórios ou estar envolvidos no gerenciamento destes.