2. AHİRET HESABI İLE İLGİLİ MUKAYESELER
2.2. Kitabı Sağ Tarafından Verilenler ile Sol Tarafından Verilenlerin Mukayesesi
No plano curricular acadêmico, há ainda muita resistência a mudanças na forma de ensino jurídico dogmático, que permanece focado nas disciplinas de proces- so (e, lateralmente, em direito material penal e civil).
A primeira tentativa de trazer ao Brasil um sistema de ensino que fugisse da tradicional aula magistral se deu em 1966, com a criação do Centro de Estu- dos e Pesquisas no Ensino do Direito (CEPED), no antigo estado da Guanaba- ra.3 A iniciativa propunha o estudo do direito a partir dos casos, e não apenas
da doutrina e da lei. Apesar de ter se encerrado após sete breves anos, até hoje sentimos os efeitos dessa experiência, que teve entre seus alunos advogados que hoje se tornaram referência da advocacia consultiva. No campo da regula- mentação de cursos, apesar de inúmeras reformas, o que mais salta aos olhos é o número de instituições existentes no Brasil: mais de 1.200 cursos jurídicos, nú- meros que nem de perto são encontrados em outros países. Para citar apenas um exemplo, os Estados Unidos possuem população maior que a nossa, uma economia mais expressiva, e em torno de apenas 200 cursos jurídicos.
Infelizmente, o número não é acompanhado por uma expansão no que diz respeito à qualidade. Muitos são cursos noturnos, isolados de instituições como universidades e centros universitários, sem condições de oferecer ao aluno um aprendizado de qualidade. A participação dos alunos nas atividades do Nú- cleo de Prática Jurídica, assistindo a audiências, atendendo a clientes, ou seja, aprendendo como se dá a atuação do advogado é praticamente inviabilizada.
3 Veja-se o artigo de Alfredo Lamy, “A Crise do Ensino Jurídico e a experiência do CEPED, de 1972, que pode ser encontrado em: http://www.cepeduerj.org.br/hist.htm#outrotexto.
A incipiência da formação dos graduados de Direito transparece de forma clara na grande reprovação que se vê nos últimos anos no exame da OAB.
Apesar da rigidez curricular estabelecida pela regulamentação vigente, a exigência de um projeto pedagógico com foco próprio tem permitido alguma flexibilidade aos cursos para dar uma formação diferenciada, por meio do ofe- recimento de atividades complementares, que devem ser integralizadas em determinado número de horas. Assim, o aluno pode participar de palestras, se- minários e outras atividades, aqui e no exterior, e ter esse tempo integralizado para a conclusão do curso. Essa flexibilidade curricular e o leque de atividades complementares colocadas à disposição ao longo do curso permitem ao estu- dante selecionar aquelas que mais agregarão e contribuirão para o seu futuro profissional.
Nesse sentido, voltamos à pergunta inicial: o que deve fazer o aluno e o jovem profissional para se qualificar como um advogado que possa ter uma prática internacionalizada?
A resposta, ainda que desenvolvida superficialmente no presente trabalho, é simples. O advogado brasileiro que pretenda se inserir e prosperar no novo cenário internacional deve ter as seguintes preocupações, no tocante à sua formação:
(i) ter educação jurídica sólida do ordenamento brasileiro e conhecimento cultural e jurídico consideráveis do ordenamento jurídico dos países de Com- mon Law;
(ii) dominar mais de um idioma (notadamente, o inglês, embora já seja um fator diferencial dominar outro idioma, além do inglês);
(iii) ser multidisciplinar: um bom advogado deve investir em educação complementar. Para citar um exemplo, advogados da área comercial devem do- minar contabilidade, economia e administração, assim como advogados de con- tencioso devem dominar técnicas de gerenciamento de risco. Além disso, todo advogado deve saber fazer uso das mais avançadas tecnologias de informática que atualmente estão à sua disposição e que podem contribuir, sobremaneira, para redução do tempo despendido com cada tarefa (e, por conseguinte, para o atendimento da necessidade de corte de custos de seus clientes).
Mas como endereçar estas preocupações e garantir a complementação de sua formação, ante a realidade da insuficiência curricular das faculdades de direito do país? Aqui vão algumas ideias.
Em primeiro lugar, nota-se o surgimento de grupos de alunos voltados para competições de caráter prático, como, por exemplo, as competições si- muladas de casos concretos. Na área da arbitragem, a mais frequentada por times de todo o mundo é a Vis Moot Court, realizada em Viena, no mês de abril. No ano anterior, por volta de setembro, o caso hipotético é lançado e os times
já escalados preparam os argumentos escritos em um caso no qual a situação hipotética diz respeito a uma compra e venda internacional, sob a égide da Convenção de Viena da Compra e Venda Internacional de 1980 (em vigor a partir de 1988 e hoje incorporada ao direito interno de mais de setenta países, com a entrada do Brasil a partir de abril de 2014). A solução da controvérsia apresentada deverá ser por arbitragem. Dessa forma, os times apresentam as diversas peças pertinentes ao caso na primeira fase. A segunda fase é a da de- fesa de cada ponto de vista em um tribunal simulado. Antes da rodada final, em Viena, tornou-se comum a realização de rodadas prévias com os diversos times locais, que hoje somam aproximadamente vinte grupos. No Brasil, escritórios de advocacia cedem seus sócios e suas instalações para essas rodadas prévias, que também ocorrem em Universidades. As horas despendidas nessas ativida- des podem ser utilizadas como horas de atividade complementar, integrando a formação do curso de direito. A experiência de discutir casos práticos, tra- balhar em grupo, fazer pesquisa com foco casuístico e a possibilidade de fazer memoriais escritos e sustentações orais, acabam compensando a aridez e o dogmatismo dos cursos jurídicos tradicionais. O aluno que participou dessas atividades durante o seu curso torna-se um profissional mais completo e tem sido cobiçado pelos escritórios de advocacia.
Em segundo lugar, a experiência no exterior, tanto na área acadêmica como na área profissional, é um estágio que não pode faltar. Um mestrado em país estrangeiro, aliado à oportunidade de trabalhar em escritório de outra tra- dição jurídica e outros costumes tem contribuído para uniformizar as práticas profissionais e permitir que o advogado brasileiro entenda melhor como fun- ciona os outros sistemas jurídicos. E essa é uma via de mão dupla. Nos últimos anos, também advogados de outros países têm vindo estudar na pós-gradua- ção do país e participar de treinamentos em escritórios de advocacia nacional. É imprescindível para o advogado que pretenda trabalhar em negócios internacionais ou representar clientes de interesses internacionais, adquirir sen- sibilidade e conhecimento mínimo de outros sistemas jurídicos. Precisa, sobre- tudo, estar atento à cultura jurídica como um todo.
Por exemplo, no âmbito dos negócios internacionais, é comum às partes selecionarem a lei de Nova Iorque como aplicável, e esta cidade como sede da arbitragem. Essa escolha não é aleatória. E é imprescindível ao advogado saber por quê. Entender as peculiaridades do sistema da common law e as prerrogativas da legislação de Nova Iorque para o ramo do Direito comercial é fundamental para aqueles que pretendam se especializar em contratos interna- cionais. Por outro lado, se escolhida a via arbitral, é necessário que o operador do direito se dê conta de que a escolha da sede da arbitragem tem papel pre- ponderante nas características do procedimento que irá se desenvolver.
Novamente, há diferenças marcantes entre as práticas dos profissionais educados na tradição do direito civil e do direito consuetudinário. Não obs- tante haja similaridades entre a arbitragem realizada no Brasil e nos Estados Unidos, especialmente quando se trata de uma arbitragem institucional, v.g., com a utilização do Regulamento da Câmara de Comércio Internacional (CCI), a diferença cultural entre a tradição da common law e da civil law pode implicar diferenças na prática processual aplicável no processo arbitral e na conduta das partes. Ainda a título de exemplo, se a lei de Nova Iorque foi escolhida, os árbitros, ainda que de nacionalidades diferentes, precisam de formação jurídica versada naquela lei. Ainda que as regras arbitrais responsáveis pela condução dos procedimentos não desça a detalhes, a lei aplicável escolhida acaba por impor aos demais a observância do sistema que lhes é peculiar: ênfase no sis- tema de provas baseado no discovery (produção de provas), regras sobre a obrigação de compartilhar documentos e depoimentos, regras para inquisição direta de testemunhas, uso extensivo de expert witnesses etc., que podem ser mal assimiladas (e, portanto, cumpridas de forma incipiente) por advogados com formação baseada na civil law, que não têm conhecimento da extensão dessas obrigações (e das sanções a que ficam sujeitos se não as cumprirem).
Por fim, assegurar uma formação multidisciplinar não é tarefa das mais fáceis e exige o comprometimento do advogado com uma educação contínua, em geral posterior aos anos dedicados à faculdade de direito. Como, no Brasil, o tempo dedicado à faculdade já é dividido com o estágio, a obtenção de di- ploma em outra cadeira do saber representa tarefa hercúlea. Assim, a multidis- ciplinaridade é geralmente alcançada por meio de cursos de especialização em nível de pós-graduação. O advogado recém-formado, que já tenha uma noção da área do direito em que pretenda seguir carreira, deve certamente procurar especializar-se em campos que lhe sejam úteis e que lhe garantam um diferen- cial no momento da contratação. Uma série de instituições, nacionais e inter- nacionais, oferece atualmente ampla gama de cursos, nas mais variadas áreas.
Conclusão
Do estudo empreendido, concluímos que a profissão jurídica está sofrendo substancial transformação rumo a um aumento de sua complexidade, hoje não mais restrita ao concurso público e ao prosseguimento de um escritório fami- liar, também abrindo a possibilidade de trabalhar em uma corporação ou em firmas ou boutiques de advocacia. A remuneração passou a ser atrativa e ten- dente, no médio e longo prazo, inclusive a ultrapassar a das carreiras públicas. Para aproveitar estas novas oportunidades profissionais, a formação para o advogado do século XXI deve prepará-lo para trabalhar em mais de um sis- tema jurídico. O domínio de mais de um idioma e de noções básicas em áreas
complementares, tais como administração, economia e contabilidade é, igual- mente, essencial.
Referências
Alfredo Lamy, “A Crise do Ensino Jurídico e a experiência do CEPED”, de 1972. Disponível em: <http://www.cepeduerj.org.br/hist.htm#outrotexto>.