A questão é se o futuro da educação jurídica e dos profissionais do direito con- tinuará dentro dessas linhas. Há uma possível convergência na superioridade do novo advogado global cosmopolita, formado em faculdades de direito com professores em tempo integral, que são também estudiosos interdisciplinares sofisticados, que receberam treinamentos práticos em clínicas e outras técni- cas oferecidas pelas escolas, cujo foco se deu mais na solução criativa de pro- blemas do que na regurgitação estática de códigos e suas exegeses formais. Mas esses desenvolvimentos não são absolutamente dados.
Aqui estão alguns desafios hipotéticos a essa evolução em direção à edu- cação jurídica “moderna” e às “melhores práticas” que ela indica. Um deles é que a tendência depende de uma globalização e uma legalização que não eram e não são inevitáveis. Ela dependeu, pelo menos inicialmente, da hege- monia global americana no período pós-Guerra Fria, o que incrementou o papel dos advogados e dos tribunais no Estado e na economia nacional e interna- cionalmente. A legitimidade dessas regras do jogo relativamente novas — que fornecem potenciais oportunidades para advogados ganharem novos poderes nacionais — está relacionada à legitimidade da hegemonia americana. Poten- ciais desafios poderiam mais obviamente vir de novos poderes econômicos,
notavelmente da China, à medida que novos poderes possam ampliar seus uni- versos para dentro das regras do jogo, para a política e a economia globais.
Em segundo lugar, essa evolução pode ser desafiada por mudanças nas regras do jogo dentro dos Estados Unidos. A Guerra ao Terror, assim como a Guerra Fria, convida a um controle que se estabelece menos por regras legais, e mais pelo poder militar. Durante a Guerra Fria, a política estrangeira dos Es- tados Unidos dividiu o mundo essencialmente em pró-comunista ou anticomu- nista, inimigos ou aliados, e a divisão básica utilizou como trunfo a ideologia dos Estados Unidos a favor da promoção das democracias liberais e do estado de direito. Se a ordem global passar a ser baseada em um estado de segurança nacional, o valor das leis pode decair, o que enfraquece a legitimidade global das regras jurídicas.
Fora dos Estados Unidos, as novas faculdades particulares de direito e, especificamente, as faculdades ditas globais não vão, necessariamente, ter su- cesso em todas as suas ambições. As faculdades relativamente tradicionais, com ensino formalístico, baixo comprometimento dos alunos e professores de meio período estão ainda, em muitos países, bem incorporadas como um lugar central do campo jurídico local. Elas continuarão a existir e possuem recursos para desafiar as novas abordagens. Elas podem ser desafiadas em termos na- cionais, por exemplo, com a argumentação de que as novas escolas e reformas negligenciam a aprendizagem legal nacional chave — tendo o código como centro — ou se renderam à hegemonia e aos grandes negócios globais, ditados pelos Estados Unidos. Dentro de países nos quais o sistema de aprendizado orientado para certas famílias permanece como central para a construção de uma ordem de advogados de elite no estilo inglês, há diferentes desafios con- trapondo-se àqueles que tentam acumular o prestígio de professores de direito e o respeito à disciplina jurídica com uma orientação mais global.
Outro desafio, que examinamos em outros lugares, poderia vir de uma assimetria dentro da ordem jurídica global. As regras econômicas do jogo, que se fecham em princípios neoliberais, tais como o comércio relativamente livre e a propriedade intelectual altamente protegida, podem se desenvolver assi- metricamente. O sucesso no aspecto econômico pode promover um contraste em relação à institucionalização relativamente fraca dos direitos humanos e às possíveis restrições sobre o poder do estado e corporativo (Dezalay e Garth 2014). Dentro dos Estados Unidos, a ordem jurídica depende de um equilíbrio entre o direito corporativo e o interesse público, e a questão é se esse tipo de equilíbrio é, ou será, válido para sustentar uma ordem jurídica global. Se as mu- danças parecerem planejadas apenas para favorecer o poder corporativo, po- derão ser desafiadas mais facilmente. O foco de muitas das reformas no ensino jurídico, quase que exclusivamente em direito púbico e escritórios de direito
corporativo, é consistente com esse desafio. À medida que as escolas de direi- to ensinam e produzem conhecimento sobre os direitos humanos, direito hu- manitário, crimes de guerra e similares junto a campos jurídicos corporativos, elas ajudam a construir uma credibilidade mais abrangente. Mas, novamente, isso não é garantido.
Há também um possível desafio populista, refletido nos debates atuais so- bre educação jurídica, dentro dos Estados Unidos. No momento, quase todas as faculdades de direito americanas participam e competem em um mercado que é liderado pelas faculdades de direito de elite. A produção de conhecimento in- terdisciplinar vem de toda parte, e novas abordagens virão frequentemente de fora das faculdades de elite, podendo criar oportunidade de que o autor dessa nova abordagem receba um convite para transferir-se para uma faculdade de elite. A recessão, uma possível crise de longo prazo na contratação de escritó- rios de direito corporativo e os altos custos do ensino jurídico provocaram um ataque às escolas de direito que não produzem números substanciais de ad- vogados corporativos. Existe uma pressão evidente na criação da Força-tarefa da Ordem dos Advogados Americana sobre o Futuro da Educação Jurídica, para que as faculdades que não são de elite desenvolvam uma educação mais “sem excessos”, o que inevitavelmente significaria menos foco na produção de conhecimento, especialmente no conhecimento interdisciplinar e na educação jurídica focada em clínicas; e talvez um comprometimento mais fraco com pro- fessores em tempo integral e pesquisadores, em oposição à contratação de professores de meio período. Uma forte ênfase na educação jurídica orientada a produzir advogados equipados apenas com um domínio básico do direito formal e alguma experiência prática poderia enfraquecer o ideal americano do advogado como um solucionador de problemas de elite — ensinado até mesmo em faculdades de direito nas quais a realidade das futuras carreiras dos alunos são mais mundanas.