VII. ÖZELLİKLER
2. Müktesep Hak Özelliği Sorunu
A experiência de transformação do manicômio trouxe-me insights que o estudo da teoria já assinalava, mas que apresentaram outras facetas quando roçaram a pele até arder, colocando do avesso e abrindo diante de mim o interior da instituição até que suas vísceras aparecessem.
Embora já tivesse vivido a experiência de Santos como uma longa tempestade que irrigou novas percepções acerca da realidade, esta nova experiência portou-se mais como um rápido tufão que, mesmo provocando desordens de todo o tipo (em especial as desordens ou os atordoamentos das subjetividades), foi mantida sob certo controle, por onde então foi sendo possível, como em Santos, dotar a prática de sentido.
Algumas lições ensinadas pelos vários autores que aqui foram citados – como a de Foucault, que diz que a melhor forma de estudar o poder é partir do estudo do seu exercício concreto, descrevendo as tecnologias de poder, e a de Basaglia, que aponta para a construção da idéia de um homem abstrato com necessidades abstratas, distanciado de suas necessidades reais e traduzido pelas ideologias da ciência – serviram como pistas para trilhar o caminho de elaborar uma crítica ao manicômio, a partir da descrição de seus efeitos concretos num determinado contexto.
O método que utilizei para criticar o manicômio foi a descrição de algumas facetas da realidade: aquelas das relações de poder, que mascaram as necessidades reais dos internos submetidos a internação psiquiátrica.
Como disse em outro momento, o método utilizado nos debates que se realizaram no contexto da intervenção foi o de mostrar, a partir da descrição das condições gerais do hospital, o que o homem pode fazer do homem, lançando mão de uma ciência legitimada socialmente que reproduz em suas instituições uma dupla e contraditória função.
Haveria várias formas de interpretar os fatos vivenciados e narrados neste diário, que falam de como era aquele hospital por dentro. Esta é apenas uma delas.
Sei que a verdade, ou os efeitos da verdade, podem produzir determinadas relações de poder. E, nesses termos, como um exercício de poder, este trabalho pretende ser também uma forma de alerta, contrariando em alguns momentos o que se tornou secularmente hegemônico no campo da psiquiatria.
O cuidado em saúde mental pode se dar de forma a tornar complexos os fenômenos e a enriquecer a existência das pessoas.
É isso que se espera de um novo saber e de uma nova prática sempre em movimento: que não se petrifiquem em doutrinas e ideologias que sufoquem a criação, cristalizando identidades para um exercício de poder como uma tautologia, um fim em si mesmo.
Não se trata da negação da doença, mas de tornar a experiência existencial que ela engloba um fenômeno complexo. Não se trata de negar a psiquiatria, mas de estimulá-la a se abrir às outras disciplinas, a se tornar uma disciplina complexa e
criativa, baseada nas necessidades concretas de seus pacientes, nas contradições concretas da realidade.
É verdade que esta é apenas uma forma possível de ver a questão da assistência psiquiátrica e da relação com o fenômeno do sofrimento psíquico grave.
A reforma psiquiátrica em andamento também provoca resistências, fazendo conviver movimentos a favor e contra. No Brasil e na Itália (onde a perspectiva de trabalho e o efetivo nível de implantação da reforma psiquiátrica nas diversas regiões são diferentes entre si, gerando vários tipos de questionamento), a reforma psiquiátrica sofre questionamentos de variados matizes. A meu ver, os mais importantes são, sem dúvida, os que apontam para o risco de se reproduzir a simples desospitalização e o abandono dos pacientes e de suas famílias. No caso italiano, ainda, a crítica feita por alguns setores sociais para buscar a melhoria dos serviços de saúde mental, e a efetiva implantação da reforma psiquiátrica, também são importantes e peculiares. Isso porque, no âmbito das diferenças entre as regiões, ainda há em alguns lugares uma fragilidade dos procedimentos de inclusão, das políticas intersetoriais, uma insuficiência da sustentação econômica e política, o que leva a diferentes formas de regressão, inerentes a um processo que visa ao enfrentamento efetivo com o hospital psiquiátrico e à restituição da loucura à cidade (Rotelli, 2000 apud Nicácio, 2003).Todos esses questionamentos são legítimos e fazem manter aceso um alerta, uma vez que várias propostas históricas de reabilitar o caráter terapêutico da psiquiatria através de um conjunto de serviços comunitários parecem ter enfrentado muitos problemas (Rotelli, De Leonardis, Mauri, 1990)49. Esse risco é muito presente e sempre existente. Dependerá muito, a meu ver, das perspectivas de trabalho dos serviços e das ações de saúde mental, além de sua suficiente sustentação econômica e política, a construção de uma outra relação de cuidado com a pessoa que vive o sofrimento psíquico. Assim, a efetividade de uma mudança não está dada de pronto, assim que possam ser produzidos serviços comunitários. O desafio é complexo e parece exigir respostas sempre em movimento.
Mas, em minha opinião, a questão hospitalar ainda é um ponto central que deve ser enfrentado, no Brasil como em outros lugares. Foi essa a realidade que eu quis trazer à tona, e compartilhar neste diário.
CONCLUSÃO
A proposta inicial desta dissertação era fazer uma reflexão sobre temas atuais da reforma psiquiátrica, como a questão da inserção no trabalho e a questão do território, tendo em vista minha participação no projeto de saúde mental desenvolvido na cidade de Santos a partir de 1989.
Houve um desvio de rota quando recebi um convite para ser o interventor federal num hospital psiquiátrico em uma cidade do interior do Nordeste, no ano de 2005. Esse novo desafio trouxe-me novas questões acerca do lugar que o hospital psiquiátrico ocupa socialmente na atualidade, levando-me a pensar que tal discussão poderia também ser útil para os processos de desinstitucionalização em andamento na reforma psiquiátrica brasileira.
Tomando como tema o processo de desconstrução desse hospital psiquiátrico, preparei um texto para apresentar à banca de qualificação, composto por um “diário de bordo” e vários outros capítulos mais teóricos. Era uma boa quantidade de material que ainda necessitava de uma organização mais sistemática.
Ao apresentar esse texto à banca, recebi várias sugestões de modificação e coloquei em prática as seguintes:
• Transformei o diário em eixo central, intercalando em forma de notas as principais questões teóricas, de modo a destacar a experiência vivenciada e a evitar a separação entre a prática e a teoria;
• Inseri fotografias, para trabalhar com os recursos da imagem;
• Introduzi o relato de momentos da experiência em Santos, de forma que se pudesse identificar sua influência sobre a forma como se direcionou a intervenção;
• Dei maior destaque às contribuições de Franco Basaglia, já que os pressupostos da desinstitucionalização foram também fortes balizadores da experiência desenvolvida tanto em Santos como no caso aqui apresentado.
Embora a perspectiva teórica e prática da desinstitucionalização esteja sujeita a críticas e resistências, optei por tê-la como eixo central por entender que ela traz uma importante contribuição no questionamento e no enfrentamento prático da existência do
hospital psiquiátrico. Sem desconsiderar as dificuldades e os desafios que essa perspectiva tem enfrentado mesmo no âmbito italiano, ela é sem dúvida a mais próxima da perspectiva do trabalho desenvolvido durante a intervenção, permitindo assim estabelecer um interessante diálogo. Por ser uma experiência que de fato pôs em questão o hospital psiquiátrico, produzindo toda sorte de novos desafios, ela teria muito a dizer à experiência de desconstrução ocorrida no hospital sob intervenção.
Outro eixo teórico destacado foi o pensamento de Michel Foucault, que representou uma ruptura sem precedentes no campo da discussão sobre a loucura. Sua inserção como um teórico nesse campo diferencia-se de todas as outras perspectivas dos autores que ocupavam um lugar de técnicos da área de saúde mental, tanto dos ingleses da antipsiquiatria, como dos próprios italianos da psiquiatria democrática, abrindo questões que ainda estão por ser trabalhadas.
E, por fim, preocupado em não simplificar o objeto deste estudo, fiz algumas referências à contribuição de Edgar Morin acerca da questão da complexidade, como um tema que percorre indiretamente o corpo deste trabalho. Além de atender tal preocupação, a noção de complexidade ajuda aqui a enfatizar que não é possível lidar com o fenômeno da loucura de uma forma reducionista e fragmentada. Lidar com um fenômeno complexo como esse exige respostas complexas, que abram novas possibilidades de entendimento e de interação entre diversas disciplinas, constituindo assim novos diálogos com a própria experiência do sofrimento psíquico.
Trabalhei com a hipótese de que o hospital psiquiátrico segue hoje uma nova lógica do abandono, que substituiu a lógica disciplinar presente na origem do hospital psiquiátrico e da psiquiatria. Essa lógica do abandono constituiu-se pouco a pouco, em conexão com os novos parâmetros de desregulamentação (Bauman, 2003) que vêm modificando as referências existenciais na sociedade contemporânea. Os obstáculos para se estabelecer compromissos e contratos de longo prazo são uma das marcas fundamentais de nossa época. A desregulamentação traz implicações também no papel e na função das instituições, no funcionamento das empresas, nos aparatos forjados historicamente para dar sustentação aos padrões existenciais da modernidade, pautados na centralidade do trabalho assalariado e do consumo de mercadorias (Kurz, 1999b).
Por outro lado, a partir da discussão trazida por Gilles Deleuze (Deleuze, 1992) sobre a sociedade de controle e sobre as novas formas de controlar os comportamentos baseadas não mais no confinamento e na segregação, mas em certa capilaridade da
vigilância e do controle, pude defender a idéia de que, embora se dêem através de uma forma inerte de abandono, as formas duras de combate aos desvios pela segregação, representadas também pelo manicômio, são complementares e fundamentais para o funcionamento das formas flexíveis de controle.
Embora não tivesse condições de produzir um aprofundamento teórico sobre a questão do que chamei de lógica do abandono, acredito que, indiretamente, o próprio transcorrer do relato pôde trazer à luz muitas das características pertencentes a essa lógica. Assim, no decurso do relato é possível identificar as características dessa lógica do abandono. Essa é, a meu ver, uma das formas de explicar um conceito: através da descrição de algumas de suas características e de seus processos.
Enfrentei algumas dificuldades no transcorrer deste trabalho. A primeira delas foi o fato de eu estar totalmente imerso na experiência. O relato foi composto por impressões pessoais, advindas de um dos participantes diretamente envolvidos no processo, uma vez que vivi a história relatada no papel de interventor federal na instituição. Trata-se, portanto, de um viés possível entre muitos, fruto da imersão do observador em seu objeto de pesquisa. Se, contudo, esse fato traz dificuldades adicionais, porque não é simples considerar e avaliar nossas próprias condutas e nossos pensamentos, pode tornar-se também uma boa condição para abordar o fenômeno estudado de uma forma complexa, evitando a assepsia que corre o risco de fragmentar e simplificar o objeto de estudo. Afinal, a própria presença do observador em determinado campo de relações parece já produzir novas configurações. E, para mim, esse fato importante deve ser levado em conta, e não negado.
Outra dificuldade encontrada foi a de conseguir generalizar uma reflexão em torno do hospital psiquiátrico, partindo de uma realidade particular. Para superá-la, procurei centrar minha análise nessa experiência particular, tomando os devidos cuidados antes de generalizá-la. As referências teóricas utilizadas ajudaram-me a entender os processos internos ao hospital, seu sentido, suas funções, seus dispositivos de funcionamento, permitindo obter também algum nível de generalização. Se foi possível chegar a algo de geral, isso se deveu ao fato de o hospital psiquiátrico estar imerso num campo de saber em que se inscreve o paradigma psiquiátrico. O fenômeno expresso – o modo de funcionamento do hospital que sofreu a intervenção – apresenta- se, portanto, como uma das possibilidades do próprio discurso da psiquiatria.
Por fim, faltou uma reflexão mais aprofundada sobre o vínculo entre a questão da desregulamentação e a questão psiquiátrica. Faltou aprofundar os novos caminhos que o discurso e a prática psiquiátrica vêm tomando como alternativa para seguir seu caminho em busca de legitimidade social e científica. Aqui poderiam entrar as novas tecnologias e investigações científicas expressas pela neurociência e pela psicofarmacologia. Não houve espaço neste trabalho para aprofundar essa discussão (pois o foco era analisar o hospital psiquiátrico enquanto dispositivo da psiquiatria) e eu tampouco teria condições teóricas para fazer dele um eixo de discussão. Acredito que outras pessoas estejam mais habilitadas a empreender tal investigação.
Algumas das questões levantadas, entre as quais a que aponta para os efeitos da presença de uma sociabilidade construída em torno do trabalho e da mercadoria e sobre a própria noção do cuidado no âmbito da reforma psiquiátrica, poderão ser aprofundadas em novos trabalhos, estes sim a serem empreendidos por mim.
A intenção deste trabalho era de que ele pudesse servir como contribuição prática e teórica aos projetos de desinstitucionalização em andamento no processo de reforma psiquiátrica brasileira.
Espero que os problemas e os desafios apontados possam ter demonstrado a importância que a questão hospitalar, como tema de discussão, mantém ainda hoje no campo da saúde mental. Essa é uma questão que ainda precisa ser enfrentada com seriedade hoje, considerando todas as implicações, contradições e desafios que traz à tona.