3.KÜRESELLEŞME KAVRAM
5.2. KUTLUĞ ATAMAN;
Sabe-se que, diante das desigualdades econômico-sociais brasileiras, as ações de ID preocuparam-se inicialmente com a distribuição das TICs e consequentemente com a promoção do acesso à World Wide Web. Ainda que muitas iniciativas tenham encontrado dificuldades em relação a esse processo, principalmente as localidades rurais e interioranas, não há como negar sua importância e as pesquisas analisadas nesta tese são unânimes quanto a isso. Porém, perguntamos a esses estudiosos se o atual momento do processo de ID deveria manter esse foco: ainda hoje a estrutura de disponibilizacão/acesso à tecnologia é um problema para o avanço da ID? A mentalidade das ações ainda está presa à distribuição da
tecnologia ou avançou para o letramento/competência na capacitação, no uso? O QUADRO 22 – Foco das iniciativas atuais de inclusão digital mostra a opinião desses pesquisadores:
QUADRO 22
Foco das iniciativas atuais de ID
Preocupações atuais da inclusão digital Nº %
Predomina a distribuição da tecnologia (hardware,
software, conexão) 13 52
Considera que a etapa da distribuição da tecnologia foi alcançada, mas não identifica nenhuma outra ação além desta
6 24
Avança para questões de competência informacional 5 20
Não acompanha o desenvolvimento atual da ID 1 4
Total 25 100%
Elaborado pela autora, 2010
Para muitos entrevistados, a opinião sobre este questionamento remonta à época inicial das pesquisas que realizaram e, atualmente, nota-se certa descrença desses pesquisadores no desenvolvimento atual da ID. Por esse motivo os depoimentos serão mais detalhados nesse item, conforme apresentado abaixo:
a) Predomina a distribuição da tecnologia: inicialmente, as ações de ID tinham como preocupação a distribuição das TICs e, no entender de muitos entrevistados, 13 destes, 52%, não houve modificação nesse cenário – mesmo para os pesquisadores que defenderam suas dissertações/teses há mais de cinco anos. A ID tornou-se medida política, ou palanque, na palavra de alguns pesquisadores:
“Vejo a que o discurso inclusivo, em diversos contextos, resume-se a questão
do ‘estar presente’ ou ‘ter o equipamento’. As legislações que tratam do tema são excludentes e pouco claras quanto às ações que devem ser realizadas, quem são os responsáveis pela efetivação e quem fiscaliza seu cumprimento.” (Entrevistado 13)
“Eu acho que ainda não avançaram muito, acho que poderiam avançar mais,
talvez não haja uma preocupação ou um efetivo órgão que comente neste sentido. Parece que as coisas estão muito bem resolvidas, mas não é bem assim. Aqui nesta cidade que eu estou, por exemplo, inauguraram dois tele centros neste mês aqui. São cidades governamentais, do governo do estado de São Paulo e eu acompanhei a inauguração de uma e fiquei muito decepcionado com o discurso de abertura eu acho ciência, mais politicagem,
tipo discurso de que agora a gente vai fortalecer e as coisas do bairro vão se resolver parecem que somem os buracos do bairro, acabam com a dengue o lado visual resolve tudo. Infelizmente tem um discurso muito político na inclusão digital, infelizmente no Brasil, isso na política é tratado de forma maléfica, infelizmente.” (Entrevistado 26)
“Não existe. O discurso é muito bonito, ‘vai acontecer a inclusão digital, vai acontecer dessa e dessa forma…’ Quando você vai estudar a fundo, você
percebe que é só disponibilização de equipamentos. Quando eu chegava nos centros culturais, eles tinham um projeto de inclusão que é disponibilizar
câmera fotográfica, computadores de última geração… E aí você ia conversar
com o próprio funcionário, nem eles mesmos tinham habilidade para lidar com os equipamentos. E aí o que ia fazer? Que inclusão seria essa, que competência eles estariam formando aí? Mas o que isso agrega na vida da pessoa? Muito pouco. O que eles levam disso para vida cotidiana deles?
Muito pouco.” (Entrevistado 27)
“Muito do que tem se feito na ID fica somente na compra de equipamentos,
montagem de laboratórios e só, administrados por qualquer pessoa sem formação. Ou seja, fica só na tecnologia. Isso não leva o indivíduo a melhorar sua condição de vida.” (Entrevistado 29)
“O foco das políticas públicas ainda é a distribuição de tecnologia e a
preocupação de acesso a informação via internet. Muitos locais ainda não têm acesso a internet. No Brasil, de modo geral, isso ainda levará um tempo.” (Entrevistado 31)
“A infraestrutura... A pessoa pode até ter computador, mas não tem rede que
dá acesso. Principalmente nessas áreas mais afastadas [...] não adianta você ter computador porque não há acesso, sinal.” (Entrevistado 30)
“Eu acho que não houve avanço não. Pelo que eu leio pelo que eu vejo, é um
assunto até muito falado, mas eu não vejo muito, nenhuma atitude, nenhuma mudança em relação a isso. O computador continua caro, a banda larga continua cara. [...] eu acho que os telecentros continuam ineficientes, eu não vejo melhora nem nenhuma atitude para melhorar não. O que eu vejo é muita conversa.” (Entrevistado 19)
“Eu acho que [a tecnologia] é a maior preocupação. Esse tipo de coisa é chato
porque virou plataforma política distribuir computadores em escolas.” (Entrevistado 12)
“Não foi superada, mas não é o maior problema. É o mais fácil, eu acho. E às
vezes não acontece por falta de empenho mesmo, não sei. Mas é a mais fácil você conseguir patrocínio e parcerias para disponibilizar computadores não é a mais difícil; a mais difícil é a formação das pessoas que vão usar aquele computador de forma útil para elas.” (Entrevistado 15)
b) Considera que a etapa da distribuição da tecnologia foi alcançada, mas não identifica nenhuma outra ação além desta: ao todo, seis pesquisadores, 24%, acreditam que a ID já está direcionada para além do ferramental das TICs. Porém, a mesma ainda não sabe o caminho que necessita percorrer para incluir efetivamente a sociedade e contribuir para seu pleno desenvolvimento:
“Eu acho que hoje já está tão claro que só distribuir equipamento não funciona
que o pessoal tem até vergonha de dizer que distribui equipamento e dá curso de informática básica. A gente já superou essa fase. Mas entre o discurso e a prática, existe um delay [...]. Eu acho que essa consciência está melhorando, mas ainda tem muito que caminhar para que efetivamente esses programas incluam." (Entrevistado 5)
“Qualquer projeto de inclusão digital precisa de um mediador, precisa de uma
metodologia para transferência da informação. Os projetos, na maioria das vezes, não têm isso. [...] na minha avaliação, o governo gasta muito com a inclusão, não é falta de dinheiro, mas não gasta bem, precisa aprimorar esses projetos de inclusão digital [...]. Hoje, nós não temos uma política de inclusão digital consistente.” (Entrevistado 11)
“Alguns indicadores que eu utilizei, talvez [inaudível] assim evoluíram
bastante. Por exemplo: número de usuários de internet, aumentou muito não é. A questão do acesso em si, em termos de usuários sim, mas as dificuldades para o acesso ainda são muito grandes. Uma coisa que é fundamental para o acesso à internet é a questão do link não é? Nós temos hoje muitas cidades brasileiras, principalmente as pequenas cidades, que não têm até hoje banda larga. Então, como é que você quer ter inclusão digital em uma cidade onde você tem que acessar internet pagando por minuto de acesso? Em algumas situações, pagando interurbano. Não tem condições de falar em inclusão digital dessa forma.” (Entrevistado 11)
“Na prefeitura em que eu trabalhei a política de inclusão digital eles têm
consciência de que precisam trabalhar mais a questão dos conteúdos. Eles não usam o termo ‘competência informacional’, mas essa questão de as pessoas saberem como usar a internet, eles têm consciência de que precisam disso, mas eles não têm nenhuma iniciativa para mudar isso.” (Entrevistado 25) c) Avança para questões de competência informacional: o aspecto mais
importante e praticado atualmente na visão de cinco entrevistados, 20%, é o avanço da ID para questões que envolvem a criação de competências e capacitação no acesso e uso da informação em benefício do indivíduo e da comunidade à sua volta:
"Eu acho que deve ser mais nas competências. Mas o acesso ainda não é
completo, sobretudo nos países latino-americanos. É necessidade, é uma obrigação, todo mundo ter acesso às tecnologias, mas não é o objetivo. [...] O acesso já passou a um segundo plano: o foco agora é gerar uma habilidade, uma competência com esse acesso que eu dou." (Entrevistado 6)
“Acompanho, ate por força de oficio, o desenvolvimento desse processo,
apesar de não estar academicamente envolvida. Para mim houve um grande equivoco quando da implantação da SI no Brasil. Todo o esforço foi centrado na informatização da sociedade e o equipamento passou a ser o cerne da SI enquanto a informação ficou em segundo plano. A maquina deixou de ser um meio para se tornar um fim. [...] Atualmente já é possível se identificar um movimento nessa direção, onde a CI tem papel importante por meio da
aprendizagem informacional e metodologias de mediação da informação.”
(Entrevistado 24)
“Competência informacional é um dos grandes pulos da inclusão digital. Claro
passou desse primeiro passo, o primeiro momento era a questão técnica, as pessoas não tinham computador, não tinham internet, agora a gente já superou a questão técnica, agora é saber que eu tenho as ferramentas, mas o que faço com elas? Competência informacional é que daria para trabalhar isso, que daria resposta, uma inclusão de fato.” (Entrevistado 28)
“Já avançaram. Tem muita coisa através da capacitação, atividades que
realmente possam permitir ao usuário algum tipo de desenvolvimento. Algumas iniciativas do governo também trabalham a questão da capacitação, tem cursos à distância, então já tem uma preocupação maior.” (Entrevistado
22)
d) Não acompanha o desenvolvimento atual da ID: apenas um pesquisador, 4%, não opinou a respeito desse questionamento por não acompanhar o momento atual da ID.
Maciçamente, a maioria dos entrevistados não visualiza outra iniciativa de ID que não a já entediante distribuição de tecnologia. Outro grupo não observa avanço nas questões práticas da ID, principalmente as que ultrapassem seu estágio inicial da pura e simples distribuição da tecnologia – que ainda perdura. Essa constatação é fruto, muitas vezes, da ineficiência do poder público em construir políticas de ID efetivas e o avanço das lan houses em detrimento aos telecentros são exemplo nítido dessa realidade. O que se espera da ID é que a mesma capacite o usuário na busca, no acesso e no uso da informação que poderá transformar a sua realidade social. Essa ação não se torna realidade de imediato e o contexto no qual o sujeito está inserido muitas vezes não o qualifica para o alcance dessa meta pelo próprio esforço. A mediação, no caso, é primordial para sua concretização.
4.2.12 Contribuições da pesquisa para a trajetória pessoal, profissional e acadêmica do