4.ÇAĞDAŞ SANAT-GÜNCEL SANAT-KAVRAMSAL SANAT
5.3. ŞENER ÖZMEN
A decisão dos pesquisadores em realizar suas pesquisas de mestrado e doutorado na CI também foi alvo de questionamento, afinal, foi perguntado: qual interesse poderia haver entre áreas tão distintas como a Estatística e as Ciências Militares para os estudos da ID na CI? Por isso, propôs-se ao grupo as seguintes questões: O que o motivou a estudar a ID no mestrado/doutorado em Ciência da Informação? Por que achou que essa era a área mais adequada? O QUADRO 14 – Razões para cursar o mestrado/doutorado em CI, ilustra a opção dos entrevistados por essa área do conhecimento:
QUADRO 14
Razões para cursar o mestrado/doutorado em CI
A escolha da CI como Área do Conhecimento Nº %
Por ser interdisciplinar a área de origem 7 28
Desejo de pesquisar o aporte da tecnologia em ações menos técnicas que a área de exatas e mais social como na CI
8 32
Convicção da CI como área apropriada para investigar
aspectos da ID 7 28
Familiaridade com pesquisadores da CI 2 8
Mero acaso 1 4
Total 25 100%
Elaborado pela autora, 2010
Os motivos que levaram os entrevistados a se interessar pela CI foram surpreendentes quando relacionados a graduados da área de exatas e visto como uma escolha elementar, se observados sob a ótica dos pesquisadores formados em Biblioteconomia. Abaixo, têm-se a explicação das categorias assentidas pela análise:
a) Por ser interdisciplinar à área de origem: para sete dos pesquisadores entrevistados, 28% do total, a CI foi o caminho natural de estudo e pesquisa pela familiaridade com a área de sua graduação, como a Biblioteconomia e a Comunicação, por exemplo. Outros pesquisadores creditam à interdisciplinaridade da CI o possível preenchimento de lacunas teóricas e a efetivação da transdiciplinaridade quando trabalhada junto a suas áreas de origem, conforme os relatos abaixo:
“Para mim é complementar: a comunicação não pode viver sem a informação.
Por ser comunicóloga de formação, bacharel em comunicação social, com duas habilitações na área, eu fiz a especialização em gestão na comunicação, eu fiz o mestrado na comunicação em si no âmbito da cultura, comunicação e cultura, e lá mesmo eu já entendi, eu preciso da informação: eu já tenho um, falta o outro. E até tem brigas homéricas, tem brigas históricas, entre a Ciência da Comunicação e a Ciência da Informação. São divididas e são irmãs ao mesmo tempo, são as gêmeas que foram separadas no nascimento e ficou essa imagem. Mas é uma brincadeira que faço. Na verdade, as ciências da Informação e da Comunicação, eu não consigo vê-las separadas. São ciências distintas, mas elas se complementam, desde que haja humildade científica também para que você possa fazer isso delas.” (Entrevistado 1)
“Na realidade penso que os diversos contextos nos quais estamos inseridos
respiram conhecimentos e teorias da educação. Como ensinar? Como aprender? Por que não chegam à informação? Por que não a compreendem? Enfim... Vi na CI a possibilidade de trabalhar de forma inter/transdisciplinar exatamente no que acreditava e acredito ter realizado um trabalho interessante para ambas as áreas: Ciência da Informação e Educação, em especial para a questão do ensino a distancia.” (Entrevistado 13)
“A minha base, eu venho da Biblioteconomia e eu quis continuar o estudo lá.
[...] Eu quis continuar um caminho, essa que foi a motivação maior de continuar na Ciência da Informação.” (Entrevistado 27)
b) Desejo de pesquisar o aporte da tecnologia em ações menos técnicas que a área de exatas e mais social como na CI: boa parte dos pesquisadores que possuem formação acadêmica em nível de graduação na área das Ciências Exatas, oito pesquisadores, ou seja, 32% destes, relataram total ou parcial desconhecimento sobre a CI. A justificativa para a escolha do curso, então, é baseada na falta de opção de cursos de mestrado e doutorado da própria área de origem (Ciência da Computação, Estatística, Processamento de Dados), que contemplassem aspectos menos técnicos e mais sociais. Pela abrangência da CI enquanto área do conhecimento, que necessita manter estreito diálogo com inúmeras disciplinas, conforme apresentado anteriormente, esses pesquisadores se sentiram confortáveis para tecer aí suas investigações:
“Eu nem sabia o que era Ciência da Informação [...] eu sou da área de
informática, mas eu não sou técnica. Trabalhei como gerente de projetos quase que o tempo todo desde a minha formação. Então, eu procurei na área de Ciência da Computação e eu achei tudo muito técnico, muito mesmo o mestrado de lá. E aí me falaram da Ciência da Informação. Eu fui ao
Departamento [de CI], achei interessantes os temas, condizia mais com o que eu trabalhava.” (Entrevistado 3)
“Na época que eu entrei lá [no mestrado], ainda como aluno especial, eu não
tinha a menor ideia do que era a CI, esses temas aí de inclusão digital, temas mais voltados para o social, eu não conhecia. Na graduação na área de Informática isso é relegado a segundo plano. Então eu fui conhecer lá.” (Entrevistado 11)
“Como eu já estava ocupando no banco uma diretoria de informática, eu já
estava um pouco mais afastada, quer dizer... não é que eu não estivesse afastada, mas eu não estava assim tão ligada na parte técnica, estava muito mais na parte gerencial, na parte de projetos e tal. Então eu não estava assim querendo nada bit byte mais não. Uma coisa menos técnica... Então o que me levou à Ciência da Informação foi esse conhecimento com pessoas [que já haviam cursado a CI], conversas, achei interessante o que eles me relatavam.” (Entrevistado 20)
“Eu comecei a pesquisar dentro da UFMG áreas relacionadas à tecnologia.
Uma coisa eu sabia: eu não queria a área da computação, porque eu já estava há muitos anos nessa área, eu não queria entrar por aí de novo. Minha formação foi de eletrônica, de técnico, depois eu fui para processamento de dados [...] aí eu sabia que computação eu não queria. A eletrônica, eu não
queria mais, porque já são mais de vinte anos de profissão nessa área, então…
Eu queria uma coisa mais social. Eu cogitei uma psicologia, uma sociologia, e aí depois eu encontrei alguma coisa na Ciência da Informação. Eu vi as linhas de pesquisa Sociedade e Informação, Gestão da Informação, isso começou a me chamar a atenção.” (Entrevistado 22)
“Sempre me identifiquei muito mais com os aspectos sociais das TICs do que
da tecnologia propriamente.” (Entrevistado 31)
c) Convicção da CI como área apropriada para investigar aspectos da ID: o conhecimento sobre a área em momento anterior ao ingresso no mestrado foi crucial para sua escolha tendo em vista a convicção preexistente de se estudar o objeto de análise da CI, a informação, mesclando-se o contexto social e tecnológico, sendo esta a menção de sete pesquisadores, 28% destes:
“Na verdade eu comecei a ter contato com essa questão da inclusão digital na
faculdade. Em 2001 abriu o primeiro telecentro comunitário de São Paulo, abriu o primeiro aqui em Porto Alegre também, era um projeto da prefeitura e chamaram os professores do curso de Biblioteconomia para darem um treinamento para os monitores. Resolvi trabalhar nesse projeto. [...] E aí foi apaixonante para mim. A Biblioteconomia, para mim, sempre pareceu uma coisa muito técnica, e quando eu comecei a ter contato com essa questão humanizou essa coisa de trabalhar com uma questão social, uma coisa que sempre me interessou e aí eu encontrei ali um nicho na Ciência da Informação para trabalhar.” (Entrevistado 25)
“Devido a presença crescente das novas tecnologias digitais voltadas para o
ensino e aprendizagem e a área da Ciência da Informação tem toda essa abrangência.” (Entrevistado 8)
d) Familiaridade com pesquisadores da CI: a influência exercida por conhecidos que possuíam certa vivência na CI foi determinante para a escolha da área no mestrado de dois pesquisadores, 8% ao todo. Esse convívio esclareceu os ditames da área e os incentivou a incorporá-la às atividades acadêmicas ou profissionais dos entrevistados, dado sua amplitude interdisciplinar.
e) Mero acaso: a escolha ao acaso pela Ciência da Informação foi inusitada para apenas um dos entrevistados pela pesquisa, 4% da amostra.
A considerável diversificação para a escolha da CI como a área apropriada para tratar as questões da ID demonstra que, à exceção do mero acaso, houve conhecimento prévio do entrevistado sobre a área para que o mesmo a aferisse como a ideal para seus estudos. Os pesquisadores convictos dessa premissa foram, em número, os mesmos que a escolherem pelo caráter interdisciplinar. Outro destaque é a influência de pesquisadores que podem repassar o interesse pela área a outros estudiosos, motivando-os a conhecer a CI a ponto de iniciarem nela suas investigações. No caso dos pesquisadores graduados em Computação e Processamento de dados, o desejo de trabalhar com a tecnologia era eminente, embora não em totalidade. Por isso, foram atraídos para a CI graças a sua função social justamente por ela humanizar os aspectos tecnológicos a que esses pesquisadores estavam acostumados. Por essas razões diferenciadas, percebe-se que a CI é um campo que ainda pode influenciar e ser influenciado por muitas outras disciplinas como as identificadas anteriormente na FIGURA 12 – Conhecimento interdisciplinar no uso da tecnologia (página 135), construindo para si e para as demais sólidos conhecimentos acerca da intervenção tecnológica na sociedade.
4.2.4 Critério utilizado para a escolha da instituição de ensino onde cursou o