Alguns autores consideram que a América Latina protegeu seus mercados por um tempo demasiadamente longo, sendo esta uma das justificativas para o seu fraco desempenho após a liberalização.
Objetivando investigar as razões que levaram os LDC a não apresentarem um desempenho satisfatório, o que contraria aquele previsto na teoria, a adoção de medidas protecionistas pelos países desenvolvidos foi considerada como uma dessas supostas razões. A tabela 2.5 corrobora essa suposição, pois fica patente o aumento substancial das tarifas. Há de se salientar que alguns produtos apresentaram tarifas consideradas abusivas.
Tabela 2.5 - Tarifas praticadas pelos principais países de destino das exportações agrícolas após a Rodada do Uruguai.
Destino das Exportações
Posições tarifárias - alíquotas superiores a 12%
(Porcentagem)
Número de posições tarifárias com tarifas superiores a 100% Produtos com tarifas abusivas União Européia 45 33 > 200%: carnes, suco de uva Japão 40 146 > 300%: manteiga, trigo, amendoim, arroz Estados Unidos 19 26 > 100%: amendoim, tabaco, derivados do tabaco Canadá 11 68 > 200%: leite em pó, manteiga, queijo Fonte: Elaborado com base na Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento/Organização Mundial do Comércio (UNCTAD/OMC), The post-Uruguay Round Tariff Environment for Developing Country Exports: Tariff peaks and tarrif
escalation (TD/B/COM.1/14/Ver.1), Genebra, 28 de janeiro de 2.000; apud CEPAL (2002).
As restrições do balanço de pagamentos equivalem às restrições orçamentárias da teoria microeconômica. Neste caso, a importação está limitada ou restrita à quantidade que o país exporta. Rodrik, 1988; Sachs, 1987 e Taylor, 1988 consideraram que a liberalização do comércio pode agravar o balanço de pagamentos e os problemas fiscais, nos países em desenvolvimento, conforme relatado e comprovado em trabalhos mencionados anteriormente.
Em relação à taxa de câmbio os principais resultados são os de que uma taxa sobrevalorizada onera indiretamente os exportáveis e importáveis
levemente protegidos e favorece os nontradables e importáveis, protegidos pela vinculação às restrições não tarifárias, (EDWARDS, 1989b). As flutuações na taxa de câmbio real provocam efeito adverso sobre as exportações, uma vez que criam considerável incerteza, (CABELLERO & CORBO, 1989). Uma característica comum e central dos estudos de Bhagwati-Krueger (1978) e Michaely et al. (1991) é a importância da desvalorização na política de liberalização, pois a desvalorização real reduziria os aluguéis das alocações de licenças de importação, na presença de restrições quantitativas. Os efeitos positivos das exportações sobre o produto são provavelmente mais imediatos mediante a combinação entre uma desvalorização real e uma melhoria das políticas das exportações do que entre uma desvalorização real e a liberalização das importações (LOPEZ, 1989).
Alguns autores questionam o grau de importância que foi creditado à liberalização. Segundo Martin (2003) a expansão do comércio internacional dos LDC, nas décadas de 1950 e 1960, resultou muito mais da redução da proteção dos DC, onde primeiramente eles eliminaram as cotas e posteriormente reduziram as tarifas, do que de políticas adotadas pelos LDC.
Para Sachs (1987), a liberalização do comércio representou papel importante nas economias orientadas para o mercado, porém ele questiona se a liberalização é um componente necessário para o sucesso dessas estratégias. O argumento central dele era de que o sucesso dos países asiáticosi, em grande parte, decorreu do papel ativo do governo na promoção das exportações em um ambiente no qual as importações não tinham sido completamente liberalizadas, porém dentro de um equilíbrio macroeconômico e, especialmente, de equilíbrio fiscal.
Segundo Pack (1988) as taxas de crescimento mais altas encontradas nas economias export-oriented não constituiu um reflexo do aumento do fator produtividade em razão da falta de elementos conclusivos que liguem o crescimento da produtividade com o regime de comércio. Para ele, o crescimento está conectado com a habilidade das economias export-oriented em absorver a transferência dos fatores (tais como trabalho) de setores de baixa produtividade para setores de alta produtividade, sem reduzir os termos do comércio nos setores altamente produtivos.
38 Lopez (1989) atribuiu os efeitos positivos das exportações sobre o produto mais à combinação entre desvalorização real do câmbio e melhoria das políticas das exportações do que entre a desvalorização real e a liberalização das importações. Bhagwati apud Jayme (2002) considerou que o bem-estar de uma nação
poderá ser reduzido como resultado do crescimento econômico por meio do progresso técnico. O efeito da redução do bem-estar poderia ser função da deterioração dos termos de troca, que produz um efeito sobre o consumo; ou seja, na presença de distorções, a abertura comercial pode ter efeitos empobrecedores e redutores do bem-estar.
Analisando os resultados obtidos decorrentes das reformas dos LDC, Thomas & Nash (1991) salientaram que a motivação para a reforma da política de comércio para as economias que mantiveram restrições protecionistas ancorou-se na falta de acesso ao progresso tecnológico externo, causado pelo seu isolamento, resultando em uma perda de competitividade das economias e restringindo as oportunidades de exportação. Este isolamento fez com que as economias ficassem, de certa forma, divorciadas da economia internacional, encontrando grandes dificuldades de ajustes, em face dos aumentos do preço do petróleo e de choques externos. A grande dificuldade de resposta destas economias isoladas é em relação à mudança nos termos de comércio. Quando os termos de comércio são adversos em virtude da restrição e da inflexibilidade do regime de proteção, as economias são incapazes de aumentar as suas exportações rapidamente e têm um escopo pequeno para substituição de importação eficiente, resultando em grandes deficits e desequilíbrios macroeconômicos. Além disso, estudos do Banco Mundial mostraram que as indústrias que receberam altas proteções durante relativamente longos períodos eram ineficientes, enquanto indústrias eficientes, notadamente exportadoras, receberam relativamente pouca proteção.
Segundo os autores, os LDC não deram a atenção necessária às reformas institucionais e de infra-estrutura para a promoção das exportações. As fracas e inflexíveis políticas públicas (legislação trabalhista, regulamentação de entrada e saída dos mercados, controle sobre os investimentos externos, dentre outros) levaram a que o ajuste na mudança da estrutura de inventivos não apresentasse velocidade de ajuste desejada, o que afetou a mobilidade dos fatores
de produção, comprometendo os resultados esperados. Um aspecto de importância fundamental e pouco enfocado nos trabalhos foi o aumento da proteção nos mercados internacionais, depreciando os preços internacionais e bloqueando o acesso aos mercados, principalmente dos produtos agrícolas, aliado à falta de credibilidade de vários governos, que é um dos requisitos necessários para a implementação de uma reforma de fundamental importância. As principais conclusões do estudo mostraram que os resultados (ganhos) esperados das reformas de comércio dependem, fundamentalmente, da estabilidade macroeconômica do país, e da avaliação da repercussão das reformas sobre o deficit fiscal.
Rodrik (1999) apontou três razões principais para o fraco desempenho da América Latina ante as reformas promovidas.
A primeira refere-se ao emprego, que se tornou, no geral, menos seguro, reduzindo o bem-estar do Pais, acompanhado da redução da renda real e do aumento do desemprego, que também diminuem o bem-estar.
A segunda refere-se à alta volatilidade do capital. As políticas macroeconômicas passam a depender dos investidores de curto prazo, além do fato de que os instrumentos, tais como política fiscal e de taxa de câmbio, se tornaram dominados pela necessidade de administrar os fluxos de capitais e não podem mais ser o alvo da estabilidade doméstica. A maior mobilidade do capital implicou uma mudança da idiossincrasia do risco no país, de mobilidade de capital para imobilidade do trabalho.
A terceira está relacionada com as instituições políticas e sociais, que não têm respondido adequadamente em relação à segurança econômica. As evidências
cross-national sugerem que sociedades com maior abertura política e participação
são melhores para ajustarem-se aos choques externos, apresentam uma volatilidade econômica mais baixa e geram uma inflação menor (RODRIK, 1998). Conseqüentemente, a institucionalização da democracia deveria produzir, eventualmente, resultados econômicos mais estáveis e reduzir a insegurança na região. As instituições participativas na América Latina apresentam grande número de fraquezas, apesar da transição da região para a democracia.