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2.3. Marka Denkliği

3.1.5. Kişisel Değerler

A entrevista com Tati Quebra Barraco ocupa seis páginas da Marie Claire de fevereiro de 2005 (pp. 44 a 49). Com o título “Cinderela Funk”, a matéria é sustentada a partir de valores duais e de comparações com o outro. Levar uma

cantora de funk às páginas de Marie Claire pode parecer, a princípio, uma abertura para o conhecimento do diferente. Mas esse diferente não é trazido para “perto”, ao contrário, é visto pelas lentes de um outro mundo – do mundo da Marie Claire. Aqui, nota-se sempre a separação entre dois lados, com limites definidos, e Tati Quebra Barraco é vista como o “outro com o qual não se quer identificação”72. Em todo o texto, há a afirmação e a reafirmação de que a

entrevistada é esse “outro”, um outro que circula entre os dois mundos – o que surpreende ao supostamente quebrar a barreira das separações. Tati não ocupa o posto de “herói” e, apesar dessa livre circulação entre dois mundos, a marca da fronteira e de pertencimento a apenas um mundo é constantemente ativada. Nota-se isso logo no texto de abertura, que antecede a entrevista em pingue- pongue: “Tati se dá ao luxo de recauchutar o visual”; “mas não abre mão de

viver entre os seus” (grifos da autora). Ou seja: se ela se dá ao luxo, é porque, de

algum modo, recauchutar o visual não está entre as atividades que ela pode fazer; principalmente porque ela “vive entre os seus” – o espaço aqui demarca o pertencimento a certo grupo. O discurso, aliás, recorre ao espaço para marcar o diferente. Também no texto de abertura, a repórter explica:

Mas não abre mão de viver entre os seus, na comunidade. Foi lá que Marie Claire a encontrou.

(grifo da autora)

O uso do advérbio de lugar “lá” marca a separação dos mundos de Marie Claire e de Tati Quebra Barraco. Ao instaurar um local longe, o texto instaura a desconexão entre os mundos, e ainda garante à leitora que Tati pertence a um espaço distante.

A marca do diferente também está nas perguntas feitas à Tati. Exemplo:

MC O que é muito tempo sem fazer sexo? Tati E você não sabe? Nunca ficou sem?

Enquanto a pergunta instiga que se está falando com alguém diferente, que tem outros valores, a entrevistada tenta apagar as fronteiras ao dizer que são iguais – tirar um estigma de que para ela seria diferente.

A reportagem trabalha a partir de um recorte do mundo baseado na diferença entre ricos e pobres, enquanto o nível profundo do discurso é baseado em valores antagônicos: subúrbio x cintilantes elites; escracho x acanhada; favela x socialites, violento x protegida. Assim, a personagem de Tati Quebra Barraco é construída por meio desses antagonismos, da inscrição da diferença. A imagem da mulher trabalhada aqui é recheada de ambiguidades: Tati é acanhada, mas foi mãe aos 13 anos.

Durante toda a entrevista, a repórter tenta construir a personagem de Tati Quebra Barraco a partir da modalização do “ser” – uma modalização da ordem veredictória, como tentativas de definição da entrevistada. Pelo menos seis perguntas recorrem a isso diretamente:

MC Você é namoradeira? MC Você é religiosa? MC Você é romântica? MC Você é brigona?

MC Vocês são fiéis no casamento? MC Como você era antes do sucesso?

Essas tentativas de definição recorrem, ainda, a uma tentativa de tirar a competência sobre o saber-ser/saber-fazer da entrevistada:

MC Você sabe quem ela foi? (sobre Leila Diniz) MC Você viu o filme Cidade de Deus?

MC Você sabia dos riscos? (de engravidar) MC O que você faz com seu dinheiro?

Assim, a repórter está, a toda hora, instigando sobre os conhecimentos de Tati Quebra Barraco. Admitindo que se instaura um ethos discursivo que fala “desde cima”, com um tom que confere autoridade (e um tom que constrói uma cenografia de que a repórter sabe do que está falando pois, entre outros aspectos, ela foi à favela realizar a entrevista), essas questões demonstram uma constante dúvida acerca dos conhecimentos da cantora sobre a cultura e sobre um mundo que, na verdade, não é o dela, pois são adotados a partir de valores que sustentam o mundo da mulher-ideal de Marie Claire: ser romântica, ter namorado (com certos limites de quantidade), ter sucesso, saber o que fazer com o dinheiro etc. As questões não tentam, em nenhum momento, entender o mundo de Tati a partir do mundo dela, quebrar essa barreira de pertencimento a mundos distintos e instigar novos olhares. É mais fácil generalizar e partir para o óbvio. “As mídias acham-se, pois, na contingência de dirigir-se a um grande número de pessoas, ao maior número, a um número planetário, se possível. Como fazê-lo (...) a não ser distribuindo no mundo inteiro as mesmas simplificações e os mesmos clichês? (CHARAUDEAU, 2006: 19)

Marie Claire, então, generaliza o mundo das mulheres na pergunta:

MC Você está dando voz às mulheres, invertendo o

machismo do funk?

Tati Não. Eu falo por mim, mas não pelos outros.

Não é porque moro aqui que estou respondendo pela comunidade. Elas são elas e eu sou eu.

A tentativa de gerar generalizações limita a visão de mundo e faz com que o discurso se esqueça de que o ser humano é singular. Tentar categorizar grupos é uma constante no discurso midiático, até como forma de simplificar uma mensagem, o que, muitas vezes, faz com que se corra o risco da superficialidade. Caso da questão que coloca a entrevistada como porta-voz das questões das mulheres, como se todas tivessem os mesmos problemas e inquietações, como se todas tivessem os mesmos objetivos. A resposta da entrevistada, no entanto, quebra com essa regra ao lembrar da individualidade dos sujeitos. É interessante notar essa questão como forma mesmo de diferença

de mundos: talvez essa generalização baseada em “valores burgueses” não faça sentido e não tenha atingido cultural e socialmente Tati, que enxerga o mundo de outra forma – neste caso, de uma forma mais clara e até mais profunda: ela entente as questões como próprias de cada indivíduo, não como aspirações gerais nem parece querer ser líder de um grupo – algo que, para o modelo-ideal de mulher Marie Claire, é ligado ao sucesso e tratado como um valor eufórico.