A reportagem de uma página de Malu de 7 de julho de 2005 (p. 23) traz dicas sobre como as mulheres modernas agem para preservar o casamento.
Mais uma vez, o texto generaliza e, ao mesmo tempo, categoriza um certo “tipo de mulher”. Neste caso, constroem-se e se afirmam os estereótipos do que o senso comum admite como sendo as características e aspirações da “mulher moderna” e da “mulher de hoje”. Mais: figurativiza-se também o mundo no qual vive e ao qual aspira: “o casamento moderno”, com as características de como deve ser.
A figurativização segue a via em que os valores são tidos como inquestionáveis e a realidade é mostrada como sendo tal qual é, sem contradições. E, assim, faz com que pareça ser verdade essa figurativização.
Generalizar e individualizar são duas das características que marcam o senso comum. Assim, ao generalizar todas as mulheres sob a marca de “mulher moderna” ou de “mulher de hoje”, e o ideal de “casamento moderno”, o discurso “tende a reunir numa só idéia (...) coisas, pessoas e fatos julgados
semelhantes sem indagar se a semelhança não seria aparente” (CHAUI, 1996- 1997: 117). Mas ao mesmo tempo individualiza, separando e isolando os conceitos como se “não tivesse história, passado, um contexto no qual faz sentido. Por isso, cada juízo do senso comum é sempre um absoluto: ‘é isto’, ‘é assim’” (CHAUI, 1996-1997: 117).
Fica claro, aqui, que essa figurativização remete àquilo com o qual o co- enunciador vai querer se identificar e tentar corresponder: o ideal de mulher imposto pela sociedade capaz de cumprir com perfeição seu papel social.
ela entrevistou dezenas de esposas que, por tabela, ensinam você a driblar os problemas que mais balançam o relacionamento.
O discurso estereotipa o ator social (nomeando-o como “mulher moderna”) e mostra uma figura que se torna um sistema normativo de referência – no qual todos estão convidados a se moldar (DISCINI, 2003: 246).
É o que acontece, ainda, com outros ideais culturais transmitidos pelo texto. Como o estereótipo calcado na noção cultural de que é importante “preservar o casamento”, “driblar os problemas que mais balançam o relacionamento” e o ideal cultural revestido de natural de que é preciso estar casada ou se relacionando com alguém. Mais: joga com conceitos subjetivos mas tomados como se fossem universais, isto é, verdadeiros em todos os tempos e lugares (CHAUI, 1996-1997: 116). É o caso do “ensinamento”:
- Não briguem por tudo: “Quando me sinto irritada, me pergunto: ‘Isso é realmente importante?’. Agora, eu só brigo quando é realmente importante”, ensina Mandi.
Afinal, como distinguir o tamanho e grau de “importância” que algum assunto tem? E não discutir não seria uma forma de se calar diante de algo que incomoda? E se a imagem desse casamento moderno é, segundo a reportagem, aquele em que “ela e o marido possam trocar idéias e se incentivarem
mutuamente”, a mesma reportagem se desmente, ao evitar essa troca de idéias e sugerir o “calar-se”. É o que acontece, também, no ensinamento:
- Se você não pode ser positiva, seja neutra, aconselha a escritora, que conta como coloca isso em prática: “Uma coisa que aprendi com meu marido que sempre faz isso: no calor de uma discussão, chego perto dele e digo: ‘Não concordamos em relação a esse assunto, mas quero que você saiba que te amo demais’”
Aqui, colocam-se na mesma balança a discussão de uma idéia e de um sentimento – e se estigmatiza a idéia da mulher como aquela volúvel a um sentimento.
A ideologia, mais uma vez, aparece travestida de algo natural e não como criação ideológica para o mundo feminino. Constrói-se discursivamente um mundo pautado pelo simulacro do indubitável. Um modo de dizer que, ao silenciar a polêmica, confirma o acento único da voz (DISCINI, 2005: 287).
No nível narrativo deste texto, trabalha-se com a manipulação e a competência. Ao dizer o que devem-fazer, o discurso mostra, primeiro, o que querem-ser:
a escritora Mandi Norwood (...) conta o que as mulheres modernas esperam do casamento.
O casamento que a mulher de hoje quer é aquele em que ela e o marido possam trocar idéias e se incentivarem mutuamente.
E uma vez que não queremos ser vistas como ‘sexo frágil’, ele nos incentiva a exceder nosso potencial
Todos esses valores são carregados de valor do Bem. E, para alcançá-lo, basta seguir meia dúzia de regras.
O sujeito da competência é representado pela figura de mulher moderna e mulher de hoje como tendo o “saber” de entrar em conjunção com objetos desejáveis: casamento duradouro, relacionamento feliz. Esse sujeito tem ainda a
competência de ensinar a entrar em conjunção a esses objetos – e, consequentemente, ao entrar em conjunção com o objeto “relacionamento perfeito”, entra-se em conjunção, também, com o objeto de valor “mulher moderna”, fazendo com que o sujeito se transforme na mulher “bem realizada”. O destinador é o sujeito capaz de realizar as esperanças do destinatário, porque tem a competência do saber-fazer. É um ethos eufórico que fala “de cima” e, assim, manipula o destinatário. A estrutura modal do dever-fazer, denominada prescrição, rege a natureza do enunciado (GREIMAS & COURTÉS, s. d.: 283).
Descubra como as mulheres modernas agem para preservar o casamento
ela entrevistou dezenas de esposas que, por tabela, ensinam você a driblar os problemas que mais balançam o relacionamento
Assim, o destinatário crê no destinador – ele crê-ser o destinador aquele capaz de realizar seus desejos, e, assim, fazer com que entre em conjunção com seu objeto de valor. Aqui, a felicidade, “efeito de sentido decorrente da conjunção com o objeto-valor ou, ao menos, no saber sobre sua possibilidade, deve estar ligada à confiança, pois só a confiança no fazer do outro permite saber sobre a possibilidade de conjunção” (BARROS, 1990). Essa confiança marca o caráter imaginário do simulacro fiducitário – que, aqui, é formado pelo ethos pré-discursivo do discurso jornalístico, que supõe a exposição de fatos e do retrato da verdade.
O eu da enunciação é, também nesse exemplo, um eu pressuposto, no qual o narrador não se projeta no enunciado. É um narrador implícito e que não diz eu, regra do discurso jornalístico que contribui para firmar um simulacro do sujeito ausente e não-comprometido (DISCINI, 1996: 213). Há, por exemplo, o emprego de nomes com traços de generalização para o preenchimento semântico do sujeito das orações, e o emprego recorrente da terceira pessoa com o aparente alheamento das pessoas enunciativas eu-tu em relação ao enunciado.
(...) como as mulheres modernas agem para preservar o casamento
O casamento que a mulher de hoje quer é aquele em que ela e o marido possam trocar idéias e se incentivarem mutuamente.
Pesquisas revelam que as esposas que se masturbam (...)
“Usar a terceira pessoa em lugar de qualquer outra é objetivar o enunciado, é esvaziar a pessoa e ressaltar a persona, é enfatizar o papel social em detrimento da individualidade” (FIORIN, 2002: 100). É generalizar para investir na objetividade.
No texto analisado há a presença de discurso reportado, em que há a citação, pelo narrador, do discurso de outrem. Assim, a palavra de um especialista é citada em uma perfeita integração sintática, “de modo a que não se perceba nenhuma outra demarcação, além da tipográfica, entre discurso citante e o citado” (FIORIN, 2002: 81), característica típica de textos jornalísticos, em que a escolha das citações e a colocação em determinado contexto é feita pelo enunciador, o que revela, assim, seu ponto de vista. O surgimento de um novo narrador, em uma debreagem interna, serve para criar um efeito de sentido de realidade, “pois parece que a própria personagem é quem toma a palavra e, assim, o que ouvimos é exatamente o que ela disse” (FIORIN, 2002: 46).
Apesar de o enunciador não instaurar um eu e, assim, não se mostrar no discurso, há, no entanto, a instauração de um tu.
Descubra como as mulheres modernas agem para preservar o casamento (você)
ensinam você a driblar os problemas que mais balançam o relacionamento.
Quando se dá a voz à especialista, o discurso reportado também instaura o tu:
Lembrem-se de que vocês são iguais: não se desvalorizem mutuamente porque um ganha mais do que o outro, por exemplo.
Se você não pode ser positiva, seja neutra
Tanto na voz do narrador quanto na debreagem interna, o efeito que a que se propõe é o de cumplicidade com o enunciatário, em que o ele torna-se um tu e o genérico fica particularizado (FIORIN, 2002: 101).
A instauração do eu aparece no discurso reportado, na voz da especialista que conta sua própria experiência. Assim, ao instaurar o eu, o que é individual passa a ser compartilhado:
Agora, eu só brigo quando é realmente importante (...) no calor de uma discussão, chego perto dele e digo (...) (eu)
O discurso reportado abandona, assim, a não-pessoa genérica para estabelecer um eu e um tu instauradores da subjetividade. A criação de um efeito de sentido de realidade se dá pela experiência da especialista, dotada de competência pois é “editora-chefe das revistas femininas norte-americanas Cosmopolitan e Mademoiselle” e “entrevistou dezenas de esposas” modernas.
Como um discurso jornalístico, há a existência de um ethos pré- discursivo, com as expectativas do co-enunciador, ou seja, um ethos que prima pela verdade e exposição verídica dos fatos.
No texto de Malu, há uma mistura de objetividade com cumplicidade, para, assim, chegar ao efeito de verdade. Lembrando que, para o efeito de verdade, o importante é parecer verdadeiro – o simulacro de um dizer
verdadeiro renova o pacto de confiança entre enunciador e enunciatário, para que se legitimem o próprio dizer e o dito. A instauração de eu-tu não abala a competência do destinador porque os lugares estão bem marcados: o ethos é dado como senhor das normas prescritivas e firma o olhar que parte dos altos eufóricos para os baixos disfóricos (DISCINI, 2005: 287). A corporalidade e o caráter do ethos são mostrados por um conjunto de representações sociais valorizadas – estereótipos nos quais a enunciação se apóia e, por sua vez, contribui para reforçar.
A cenografia, aqui, assume um caráter professoral, e a imagem do fiador como especialista, experiente e, ele mesmo, um ícone da mulher moderna, legitima o enunciado que ensina como agir para ser, também, uma mulher moderna com um casamento estável.