A seguir, apresentarei a ficha que os docentes recebem durante a realização do Espaço do Educador. No arquivo do Museu constam aproximadamente 408 fichas (catalogamos para efeito deste estudo/análise 173 fichas desses quatro anos). Excluí – dentro dos critérios elaborados – as fichas de docentes de outras disciplinas, do segmento fundamental I e do ensino superior (apenas 1 ficha).
Essas fichas foram preenchidas entre os anos de 2010 e 2014. Desse total, 173 foram copiadas e analisadas. Portanto, essa amostra consta de fichas preenchidas exclusivamente por docentes de história e mapas mentais elaborados pelos mesmos durante as atividades de formação no museu.
Vejamos inicialmente a ficha:
Data que veio no Espaço: Turno:
1. Instituição:
2. Nome(s) representante(s)/disciplina(s):
3. E-mail/tel/celular a)
4. Data(s) da(s) visita(s)/turno 5. No pessoas: 6. Escolaridade/faixa etária
7. Marque uma opção: Qual o objetivo principal da visita?
( ) Desenvolvimento de projeto antes da visita. ( ) Desenvolvimento de projeto posterior à visita. Qual o título do projeto?
( ) Aprofundamento de tema trabalhado em sala de aula. Qual o tema?
8. Elaboração do roteiro da visita: descreva as exposições e/ou temas que necessitam ser destacados e/ou enfatizados durante a visita:
9. Observações sobre o grupo:
Há pessoas com necessidades especiais? Quais os tipos?
10. Você classifica o comportamento de seus alunos durante as visitas como:
( ) Muito bom ( ) Bom ( ) Regular ( ) Ruim
11. Há alguma observação sobre os alunos, professores ou sobre a escola, que você considera importante para ampliar o conhecimento da equipe de educadores do Museu?
12. Em que o Espaço do Educador contribuiu para você como profissional? (utilize o verso da folha)
13. Em que o Espaço do Educador contribuirá para a visita do grupo? (utilize o verso da folha) 14. Sugestões, reclamações, comentários... (utilize o verso da folha)
A análise da ficha me permite apreciar e avaliar os pontos fundamentais destacados pela equipe do museu na interlocução com os docentes: aproximação com o docente, conhecimento de pontos fundamentais de seu trabalho, recepção de sugestões e de necessidades apontadas pelo educador para o momento da visita, avaliação das contribuições do Espaço do Educador para a atuação profissional do docente e avaliação das contribuições do Espaço do Educador para a visita escolar. Permite perceber, por exemplo, que linhas de diálogo o museu visa estabelecer com os docentes no desdobramento de seu próprio trabalho educativo. Há dados relativos às expectativas dos docentes e às expectativas e projeções que os mesmos fazem diante de seus alunos (com ênfase, nesse caso, para as articulações temáticas que docentes e profissionais do museu podem criar). Notei que uma das questões refere-se ao comportamento dos alunos sob apreciação do docente, o que é revelador do peso dado pelo museu a esse aspecto que pode ser determinante de uma visita escolar e também das visões que os docentes constroem sobre o museu ou até mesmo da visualização da extensão de seu protagonismo nessa relação.
A análise das respostas dos docentes de história é bastante elucidativa. A questão número 7 solicita-se que o professor explicite qual(is) é (são) o(s) objetivo(s) principal(is) da visita, indicando o título do projeto, o tema, se o projeto será desenvolvido antes da visita ou após a visita e se há outros objetivos. Passo à análise das respostas encontradas nas fichas, com foco nas respostas a essa questão, em articulação com o que os docentes expressam visualmente por meio dos mapas mentais.
Um dos docentes responde à questão enunciando um dos pressupostos do projeto Espaço do Educador. Ele informa atuar numa escola de periferia de Belo Horizonte, Estadual. Responde à questão dizendo que o objetivo da visita é “conhecer espaços museais” (Ficha 09, 2012). Essa resposta sinaliza para um dos movimentos importantes na experiência dos docentes
com os museus: a visita a um museu elucida a dinâmica dos espaços museais, proporcionando o conhecimento inicial que auxiliará em visitas a outros espaços museais.
Um dos professores, vinculado a uma Escola Municipal de Belo Horizonte, objetiva que os seus alunos saibam da importância dos museus. Dentre aspectos relacionados aos conteúdos e metodologias utilizadas pela instituição, ele evidencia esse objetivo: “Conhecer a metodologia de trabalho dos arqueólogos; identificar os fósseis encontrados em Minas Gerais; conscientizar os educandos da importância dos museus”. (Ficha 17, 2012). Ressalto, nesse caso, a remissão ao conhecimento dos fósseis de Minas Gerais e ao trabalho de profissionais que precedem ao trabalho do museu, como no caso dos arqueólogos. Em diálogo com a outra fonte de pesquisa mobilizada nesta reflexão, não seria nesse caso, o museu, um ambiente socioeducativo que
Figura 35 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: acervo do autor: 2014
possibilitaria – como na afirmativa da ficha 17 – , “descobertas” e novos “conhecimentos”? Outros docentes vinculam os objetivos da visita ao aprofundamento temático do trabalho realizado na escola, como o que expressam oito deles vinculados a escolas municipais e estaduais de Belo Horizonte e região (Fichas 12, 13, 14, 19, 21, 23 e 58, 2012): “O objetivo da visita é o aprofundamento do trabalho em sala de aula”. Nas fichas 28, 33 e 34, 2012, consta
uma variante dessa questão. Os docentes anunciam que o objetivo principal da visita é “Aprofundamento de tema trabalhado em sala de aula”, anunciando a pré-história, a diversidade animal e a evolução como temas, além de “o pleistoceno e os fósseis” e “o trabalho do historiador e a pré-história”. Nesses casos, o museu é acionado como âncora para aprofundamento temático do que se aborda em sala de aula, com objetivos vinculados a conteúdos mais convencionais do currículo escolar. Um professor atuante em rede estadual comenta que a visita “reforçará todo o conteúdo ensinado e oportunizará momentos interativos que são importantes para consolidar o conhecimento” (Ficha 26, 2012). Nesse caso específico, embora o professor continue considerando que o objetivo fundamental da visita seja o de reforço do conteúdo, ele leva em conta a oportunidade da interação que, a seu ver, é considerada fundamental para consolidação do conhecimento. Sendo assim, ele compreende que o museu proporciona um dos componentes fundamentais do conhecimento, que são os momentos de interação entre diferentes sujeitos.
Outra variante dessa mesma resposta é encontrada na Ficha 40, 2012, na qual o docente diz que a visita proporciona “O melhor conhecimento dos espaços para os alunos e conseguir dar ênfase ao que já está sendo trabalhado em sala de aula”. Nesse caso específico, chama a atenção o fato de que o docente considera que o museu permite enfatizar conteúdos que já estão em curso. Na ficha 41, 2012, também se verifica mais uma variação, com a consideração de que “O objetivo da escola é propiciar ao aluno o contato com o que ele já estudou no livro didático”. Nesse caso, a visita ao museu é compreendida como o local de contato com o que o livro didático apresenta de forma textual, mas que é visualizado, experienciado no museu de forma mais concreta. O museu, assim, assume um lugar de concretude face aos conteúdos escolares dispostos em livros, textos e explicações. Como se verifica na ficha 43, 2012, a visita permite “Viver a prática dos conteúdos trabalhados em sala”, o que é corroborado na ficha 48, 2012, em que o docente diz que “a visita me ajudou a perceber que o mais importante a visitar o museu é a consciência de que a prática é de fundamental importância para a aprendizagem”. Um outro docente, ficha 45, também anuncia essa dimensão, mas completa com uma dimensão experiencial, dizendo que a visita é como “um complemento do conteúdo abordado, como vivência”. Podemos assim pensar, também em diálogo com os mapas mentais elaborados durante as atividades do espaço do educador, que o museu é,
Figura 36 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: acervo do auto. 2014
“história vivida” entre diferentes sujeitos em diferentes temporalidades?
Um dos docentes, frequente também em 2012, vindo de uma Escola Municipal de Contagem, apresentou perspectivas mais ampliadas para a visita ao museu, expandindo, inclusive, a proposição mais frequente de que o sentido principal da visita é aprofundar o trabalho de sala de aula. Em sua ficha pode-se ler:
“A partir do conhecimento empírico por meio de uma visita ao museu, observando a exposição de antepassados, o Estudante terá condições de levantar hipóteses sobre o objeto que ele deseja conhecer, despertar no estudante e professores o interesse pela memória científica; abrir espaço em sala de aula para que outros conteúdos além dos formais possam surgir e ganhar legitimidade. Estimular a criatividade, utilizando uma linguagem diversificada; conhecerem um ambiente fora do contexto de Nova Contagem; promover projetos de investigação cientifica” (ficha 22, sem data). E, dessa forma, também podemos inferir – sempre em diálogo com os mapas mentais – que o museu pode ser concebido nas apropriações e sentidos dos docentes como um,
Figura 37 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: autor. 2014.
“um presente”?
Há, nesse texto, várias questões importantes já anunciadas neste capítulo. Um primeiro ponto diz respeito ao que o docente enuncia acerca do museu como um projeto a partir do qual os estudantes terão condições de levantar hipóteses sobre o objeto que deseja conhecer. Considera-se o estudante como sujeito de pesquisa e de desejo face ao museu, pontos fundamentais para criação de uma visita escolar instigante e marcada pelo desejo de conhecimento. O uso das expressões “interesse”, “criatividade”, “hipótese” e “desejo” marcam esse depoimento. Ele considera que o museu proporciona o uso de uma linguagem diferenciada e que é possível abrir o espaço da sala de aula para outros conteúdos “além dos formais”, expandindo a relação museu-escola para além da confirmação ou aprofundamento dos conteúdos convencionais abordados na escola, ou seja, a possível percepção da escola com suas “janelas abertas” para outras dimensões e/ou limiares. Assim, a relação com o museu é também momento do educador realizar expansões na realização curricular, introduzindo outras temáticas e outras formas de aprendizagem e de relação com o conhecimento.
Na ficha 39 o docente explica que um dos objetivos da visita é “a visualização dos alunos”. Nesse caso, o professor enuncia um dos pontos cruciais da relação dos escolares com museus, que é a oportunidade de experimentar cenários de visualização ricamente estruturados. Na ficha de n. 35, o professor enuncia que o Espaço do Educador é importante para ele em função de ser uma oportunidade de sair da escola, sendo aquele, também, o primeiro contato com um museu para realização de trabalho formativo, o que é também confirmando por outros docentes.
Cabe salientar que, como desdobramento das ações formativas realizadas no Espaço do Educador, além do preenchimento da ficha, os educadores elaboram um mapa mental no qual expressam sua relação com o museu, sua compreensão acerca do papel e função social daquele museu. (Ficha 01, 2010).
No acervo em que se encontram as fichas, há anotações isoladas e também fichas preenchidas sem muitas informações ou dados. Dentre esse material, ao referir-se aos alunos, um docente que frequentou o Espaço do Educador em 2012, expressou “Os alunos ficaram encantados.” Essa face do encantamento é uma das mais tocantes no que se refere a esse museu em específico.
Como já salientado anteriormente, os mapas mentais podem ser vistos como outra fonte de análise nesta reflexão. Sua elaboração se deu durante as atividades, como salientado por Diniz (2011, p. 7), e, portanto, anteriormente ao preenchimento das fichas. Apresento outros mapas mentais que foram identificados nesta pesquisa e, que, de certa forma, dialogam com a noção de polifonia, de uma educação museal em uma via de mão-dupla, de um ensino de história para uma educação crítica e humanística, e nas concepções de epistemologias da prática, não perdendo de vista que os sentidos atribuídos são dos educadores/docentes de história.
Os sentidos atribuídos pelos docentes de história ao museu mais especialmente nos mapas mentais articulam-se ao que eles dizem nas fichas, mas com algumas peculiaridades que também se afirmam em função da linguagem visual dos mapas, um recurso expressivo muito potente. Nesses desenhos, podemos verificar, dentre outras questões, que:
Figura 38 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
1) O Museu é/pode ser considerado como fonte do saber para os todos os sujeitos envolvidos. Posso supor, pela bi-direcionalidade das setas, que os sujeitos também são fontes de saber?
Figura 39 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: acervo do autor. 2014.
2) Os museus são idealizados como ambientes em que se promovem variados sentidos de conhecimento, de saber, como, por exemplo, de “luz”. Esse desenho também expressa expectativas do docente, idealizações e projeções produzidas pela Escola e por sujeitos na vida social, do museu como fonte de iluminação. Posso supor que o sujeito, nesse caso, também seria a fonte de iluminação para o museu?
Figura 40 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
3) Esse mapa mental expressa sentidos fundantes nesta disciplina/campo do saber que foram experimentados pelos educadores por meio do Espaço do educador e na atividade da elaboração dos mapas mentais. Esse desenho expressa não exatamente o Museu como espaço físico, mas traz à centralidade o sujeito em sua relação com o museu, a partir de três componentes fundamentais da disciplina.
Figura 41 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: acervo do autor. 2014.
4) Nos sentidos atribuídos ao museu pelas diversas vias, trilhas e portais que constituem essa prática nesse ambiente polifônico, múltiplo e fruitivo onde se realiza o conhecimento, a interação, a diversão, a imaginação e o compartilhamento. Chama à atenção a abertura visual, convidando ao exercício cognitivo e afetivo multirreferenciado, expressando a potência formativa, atrativa e socializadora dos museus. Levando-se em conta o fato de que esse desenho foi elaborado por um docente de história, é digno de nota o fato de que ele apontou um elemento formativo da aprendizagem histórica em sala de aula, como o conhecimento, também evidenciando a interação, a diversão, a imaginação e a partilha como constitutivos dessa relação que os sujeitos estabelecem com o projeto museal.
Figura 42 – Mapa mental sobre o museu da PUC Minas.
Fonte: acervo do autor. 2014.
5) O museu como a prática do que foi visto em sala (escola, teoria). Nessa acepção, encontra- se reforçada a noção de que a escola seria fonte de teorias e o museu um ambiente de práticas, concepção que, aliás, expressa-se, também, como observei, por meio das produções textuais dos docentes. Essa identificação do museu como ambiente de prática se, por um lado, expressa a potencialidade visual e tridimensional dos museus, por outro lado, pode ser também um signo de que a escola se distanciou de situações em que a prática também se realiza. De todo modo, esse mapa mental do docente pode ser muito valioso para análise dos desafios da formação docente.