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1.2. GÜNDELİK HAYAT PRATİKLERİ

1.2.4. Gündelik Hayatta Kültür ve Kimlik Göstergesi Olarak Mekân

1.2.4.1. Kent

A metodologia utilizada nesta tese para a coleta dos dados do PA parte das ideias defendidas nos trabalhos de Massini-Cagliari (1995, 1999a, 2005), nos quais a autora inaugurou no Brasil uma nova proposta de análise para os fenômenos prosódicos no período arcaico de nossa língua, sobretudo àqueles relacionados ao acento.

Segundo Massini-Cagliari (2005), o fato de pouco se saber a respeito da prosódia do PA, uma vez que alguns autores (MAIA, 1997[1986]; MATTOS E SILVA, 1989; TOLEDO NETO, 1996) trabalharam prioritariamente com corpora em prosa e tiveram outros focos de estudo,torna bastante favorável o uso de uma metodologia que, por meio da escansão dos versos onde se encontram as ocorrências mapeadas, fornece subsídios (pistas) para o estudo da prosódia de um período da língua em que não se encontram mais falantes nativos vivos.

Sendo assim, justifica-se a escolha pelas cantigas medievais para compor o

corpus de pesquisa do PA, visto que

Quando se tem como objetivo a investigação de elementos prosódicos [...] de um período de uma língua quando ainda não havia tecnologia suficiente para o arquivamento e transmissão de dados orais, a

108 Deve-se ressaltar que a coleta de dados nas cantigas medievais foi realizada por meio das seguintes

edições críticas: a) a de Lapa (1998[1965]), para as cantigas de escárnio e maldizer; b) as de Mettmann (1986,1988,1989), para as Cantigas de Santa Maria; c) a de Michaëlis de Vasconcelos (1904), para as cantigas de amor; d) a de Nunes (1973[1926/1929]), para as cantigas de amigo.

poético para constituição do corpus não se coloca. Como os textos remanescentes em PA são todos registrados em um sistema de escrita de base alfabética, sem qualquer tipo de notação especial para os fenômenos prosódicos, fica praticamente impossível de serem extraídas informações [...] a respeito do acento e do ritmo do português desse período, a partir de textos escritos em prosa. (MASSINI-CAGLIARI, 1999a, p.142)

No entanto, Massini-Cagliari (1995, 1999a) afirma que, em relação a textos poéticos, principalmente com uma métrica fixa, ocorre o contrário, ou seja, a partir da observação de como o poeta trovador conta as sílabas poéticas e localiza os acentos em cada verso podem ser observados os padrões acentuais e rítmicos da língua na qual os poemas foram compostos. Sobre isto já afirmava Allen (1973, p.103): “metrical

phenomena cannot be ignored, since, especially in the case of dead languages, the relationship between poetry and ordinary language may provide clues to the prosodic patterning”109.

Para Abercrombie (1967, p.98), o ritmo da fala corrente é o fundamento do verso. Assim, fala e poesia não se distinguem tipologicamente quanto ao ritmo. Para esse autor, a única diferença entre o ritmo da fala e o da poesia é: na poesia, este se encontra organizado de maneira a produzir padrões recorrentes, que por sua vez são percebidos pelo leitor. Porém, na fala, isso não acontece.

Hayes (1995) também postula que há um paralelismo entre ritmo, música e poesia, como será observado na seção 5, de análises dos resultados.

Considerando os trabalhos citados, pode-se concluir que a escolha de textos poéticos para se estudar fenômenos prosódicos de uma língua, em seus estágios passados, se mostra eficaz e adequada.

Assim, a partir da escansão do poema em sílabas poéticas, podemos ver os limites das sílabas fonéticas. Por exemplo: por meio da escansão poética e da definição dos limites das sílabas fonéticas pode-se localizar os acentos poéticos e, consequentemente, o acento nas palavras, facilitando a investigação de sua estrutura prosódica e permitindo - no caso das formas adverbiais em -mente - formular hipóteses a respeito de esses nomes serem, no período arcaico do português, derivados (um acento lexical) ou compostos (dois acentos lexicais).

109“os fenômenos métricos não podem ser ignorados, uma vez que, especialmente no caso das línguas

poéticas nas cantigas medievais portuguesas. Segundo ela, o modo de se contar as sílabas é embasado em Castilho 1908[1850], algo que perdura até os dias de hoje:

O modo de se contar as sílabas poéticas adotado por Castilho (1850) é até hoje o mais utilizado para o português. Pode-se atestar este fato ao se folhear um manual didático qualquer, como, por exemplo, o de Goldstein (1987).

Portanto, deve-se ressaltar que, para realizar a segmentação dos versos e marcarmos as sílabas tônicas, foram utilizados em todas as escansões apresentadas nesta tese alguns manuais de versificação portuguesa e de estudos de poética trovadoresca (CASTILHO, 1908[1850]; CUNHA, 1961[1956]), os quais, por meio do estabelecimento de regras de versificação, auxiliaram na elaboração de uma metodologia que revelasse o mais proximamente possível o ritmo do português medieval. Sobre a poética medieval, foi consultada a edição de Tavani (2002) da Arte de

Trovar, a Poética fragmentária que serve de introdução ao Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa, uma vez que esta obra é o único tratado de versificação galego-

portuguesa contemporâneo aos trovadores. Entretanto, por estar incompleta, nada traz sobre a forma correta de escandir as sílabas poéticas naquela época.

A partir deste momento, apresenta-se qual a sequência de ações adotadas para o mapeamento dos dados. Primeiramente, foi feita a leitura de cada uma das cantigas e marcadas as ocorrências dos advérbios em –mente, como é possível observar a seguir:

(69)

Cantiga de amor 307

Amor, non qued' ou amando, nen quedo d'andar puuhando como podesse fazer

per que vossa graç' ouvesse, ou a raia senhor prouguesse. Mais pêro faça poder,

contra mia 11 desaventura non vai amar, nen servir; nen vai razon, nen mesura; nen vai calar, nen pedir.

e praz-me de seer vosso; e sol que a mia senhor non pesasse meu serviço, Deus non me dess' outro viço! Mais fazend' eu o melhor,

contra mia desaventura non vai amar, nen servir; nen vai razon, nen mesura; nen vai calar, nen pedir. Que-quer que mi-a min gracido fosse de quant' ei servido,

que mi-a min nada non vai, mia coita viço seria, ca servind' atenderia

gran ben; mais est' é meu mal: contra mia desaventura non vai amar, nen servir; nen vai razon, nen mesura; nen vai calar, nen pedir. Porque sol dizer a gente do que ama lealmente:

«se s'én non quer enfadar, na cima gualardon prende,» am' eu e sirvo por ende; mais vedes ond' ei pesar:

contra mia desaventura non vai amar, nen servir; nen vai razon, nen mesura; nen vai calar, nen pedir.

II

||Mais pois me Deus deu ventura d'en tan bon logar servir,

atender quero mesura,

ca me non á de falir.||

(MICHAËLIS DE VASCONCELOS, 1904, p.614-615)

Durante a marcação das ocorrências de advérbios em –mente, encontramos

alguns casos que nos chamaram a atenção logo no início do mapeamento, como é possível verificar em (70):

Cantiga de Santa Maria 195; versos 143-146 “Vida e deserta;

de que será certa quando vir aberta-

mente que nascia”

(METTMANN, 1988, p.232)

O exemplo110 anterior já nos trouxe, logo na etapa do mapeamento dos dados, evidências para considerarmos as formas adverbiais analisadas neste estudo como independentes, uma vez que mostra que na ocorrência “abertamente”, a base “aberta” está em posição de final de verso e rima com as outras palavras em final de verso, como “deserta” e “certa”.

Após esta etapa, foi feito o mapeamento das formas adverbiais em –mente e

realizada a escansão do verso no qual cada ocorrência aparece, como pode ser constatado no exemplo abaixo:111

(71)

Cantiga de amor 307; versos 31-35

(MICHAËLIS DE VASCONCELOS, 1904, p.614-615)

Ao observar o exemplo acima, percebe-se que os acentos poéticos revelam a acentuação linguística das formas em –mente. Ao se localizar no final do segundo verso, a ocorrência “lealmente” tem possibilidade de rima com a palavra “gente”, fato este que

110 Na seção 5, serão analisados outros exemplos que apresentam o mesmo comportamento deste.

111 Os números no final de cada verso correspondem à localização das sílabas tônicas em seu interior.

Este exemplo será melhor analisado na próxima seção desta tese. “Por/que/ sol/ di/zer/ a/ gen/te 2-3-5-7 do/ que/ a/ma/ le/al /men/te: 2-3-5-7 «se/ s'én/ non/ quer/ en/fa/dar, 1-3-4-7 na/ ci/ma/ gua/lar/don/ pren/de,» 2-4-6-7 a/m' eu/ e/ sir/vo/ por/ en/de” 2-4-7

CAGLIARI; CAGLIARI, 1998).

Por fim, após o mapeamento e a escansão dos versos onde se localizavam os advérbios estudados, foram organizados quadros e tabelas de tais ocorrências, como mostra o anexo 1.

4.2 Metodologia utilizada para a coleta de dados no Corpus do Português e nos