Como disse, uma vez que a perspectiva das práticas constitui uma abordagem guarda-chuva, é necessário esclarecer qual das várias teorias sobre a prática será utilizada nesta pesquisa. Nesse sentido, optei pela etnometodologia, que orientou o levantamento do corpus e parte da análise dos resultados. É importante dizer que esta tese possui orientação etnometodológica, uma vez que leva em consideração elementos da etnometodologia em sua construção, mas não realiza um estudo puramente etnometodológico.
De acordo com Romero (1991), a etnometodologia surgiu a partir dos anos 1960 como uma possibilidade de fazer um novo tipo de sociologia, ou algo alternativo a ela, que buscava superar as fortes críticas dirigidas à sociologia naquela época, relativas, sobretudo, ao funcionalismo e conservadorismo parsoniano e à metodologia quantitativa tradicionalmente aplicada aos estudos sociológicos nos anos 1940 e 1950.
Para Bispo (2011), a etnometodologia é uma das principais abordagens influenciadoras dos Estudos Baseados em Prática, consistindo tanto em uma abordagem teórica quanto metodológica, o que exige esclarecimentos sobre ela nesta discussão teórica. Segundo Bispo, o estudioso que iniciou os estudos sobre a etnometodologia e se tornou a principal referência sobre o assunto foi o sociólogo Harold Garfinkel, que teve como base para a elaboração de suas ideias elementos do interacionismo simbólico de Mead e Blumer, da obra de Parsons sobre teoria da ação social, da fenomenologia de Husserl e de Schutz, e da obra de Wittgenstein sobre jogos de linguagem.
A etnometodologia de Harold Garfinkel, em especial, é caracterizada por Maynard e Clayman (1991) como estudos do trabalho capazes de descrever com precisão os cursos da razão prática e a ação incorporada, bem como de analisar os fundamentos envolvidos em determinado trabalho. Para esses autores, tal abordagem, quando adequadamente especificada, com detalhamento e profundidade, possui grande relevância por
incrementar a compreensão da organização social e da ordem envolvidas nas práticas cotidianas.
Através da abordagem etnometodológica de Harold Garfinkel, portanto, compreendo que os agentes sociais empregam métodos para “atualizar” as regras, interpretando e inventando a realidade social. Em outras palavras, a etnometodologia “[...] possui grande foco na compreensão da ordem vivida do grupo estudado a partir da produção, reprodução e modificação das práticas” (BISPO; GODOY, 2014, p. 119). A premissa da abordagem etnometodológica é que a ordem é uma conquista contínua de métodos empregados pelos membros de um grupo para produzi-la, e que só existe ordem quando existe um significado compartilhado entre esses membros (RAWLS, 2008).
O grande objetivo dessa vertente etnometodologia, de acordo com Bispo e Godoy (2014, p. 113) é “investigar os procedimentos que as pessoas utilizam para desenvolver as diferentes operações que realizam em sua vida cotidiana”. Dessa forma, o autor e a autora destacam que é possível, por meio da abordagem etnometodológica de Harold Garfinkel, analisar “as maneiras habituais de proceder que são mobilizadas pelos atores sociais enquanto membros de uma sociedade ou grupo”. As descrições da vida social corrente, possibilitadas pela etnometodologia, dão acesso, portanto, às atividades cotidianas enquanto fenômenos socialmente organizados (ROMERO, 1991).
Para Adamoglu de Oliveira e Montenegro (2012), a etnometodologia permite compreender os significados construídos socialmente a partir da compreensão dos indivíduos; entender a realidade a partir das questões de raciocínio prático cotidiano, optando pela via da intersubjetividade para superação do problema da primazia da ideia ou da matéria, o que permite aproximar-se daquilo que os próprios membros da vida cotidiana produzem interpretativamente e reconhecem como realidade; ou seja, entender que a realidade e seus significados se constroem na interação entre os indivíduos e no compartilhamento de linguagens e símbolos comuns.
A noção de intersubjetividade é uma contribuição de fenomenologia de Schutz que busca superar a sociologia interpretativa de Weber. Segundo Schutz, Weber acaba recaindo na noção parsoniana de ordem, pois leva a crer que o pesquisador lança um olhar objetivo ao ponto de vista subjetivo do indivíduo. Assim, por meio da noção de intersubjetividade compreende-se que embora cada indivíduo experimente o mundo social através de sua própria consciência, a compreensão do mundo social não deve ser privada, pessoal e única para cada indivíduo. “Pelo contrário, o mundo social é experimentado como
um mundo comum e compartilhado em que o indivíduo está pessoalmente envolvido” (ROMERO, 1991, p. 89).
Cinco conceitos são essenciais para a compreensão das práticas por meio da etnometodologia de Harold Garfinkel, de acordo com Bispo e Godoy (2014), Bispo (2011), Adamoglu de Oliveira e Montenegro (2012) e Romero (1991):
a) A prática, no sentido de realização e experiências cotidianas de um grupo. Esse conceito sugere que a principal preocupação da etnometodologia são as práticas corriqueiras da vida cotidiana, partindo muitas vezes daquilo que é tido como senso comum para a análise de crenças, hábitos, atividades, etc.;
b) a indicialidade se trata da linguagem em uso, ou seja, dos diferentes significados possíveis da linguagem, a depender do contexto em que é empregada. A questão da indicialidade chama a atenção para como os agentes, em determinado contexto, constroem visões de mundo por meio da criação de expressões que invocam a noção comum sobre o que é e o que constitui sua realidade social;
c) a reflexividade se trata do efeito da prática ao longo do tempo, ou seja, as propriedades racionais reconhecíveis por parte dos indivíduos a partir do senso comum que eles têm das coisas nos seus contextos de interação;
d) a relatabilidade, ou accountability, se refere à forma como o grupo justifica as atividades e condutas por meio de uma reflexividade consciente, que pode ser minimamente descrita por meio da linguagem. É o processo de explicação mediante o qual as pessoas dão explicações ao mundo e o modo como os agentes descrevem, analisam, criticam e idealizam situações específicas;
e) a noção de membro se refere àqueles que são do grupo, e não apenas estão nele. Esse pertencimento à coletividade pressupõe um estoque de conhecimentos compartilhados sobre o mundo social que permite aos indivíduos agir da maneira que é esperada em determinadas situações.
A figura a seguir reúne os cinco conceitos da abordagem etnometodológica em uma estratégia de análise que orientou a realização da presente pesquisa empírica.
Figura 2 – Estratégia de análise e interpretação de dados à luz da etnometodologia
Fonte: BISPO; GODOY (2014).
Analisando esses conceitos, percebe-se que, conforme afirma Gouldner (apud ROMERO, 1991), a parte verdadeiramente importante do mundo social é praticamente invisível e considerada algo tão familiar e natural que passa despercebida. A proposta da etnometodologia de Harold Garfinkel é justamente desmascarar a cotidianidade do seu manto de invisibilidade, expor sua fundamentação cultural, delatar sua presença (ROMERO, 1991).
De acordo com Bispo (2011, p. 48):
A riqueza da contribuição da etnometodologia para a abordagem das práticas está em valorizar as ações cotidianas dos atores sociais de modo a jogar luz para as práticas como a principal referência de compreensão dos fenômenos produzidos coletivamente, além de destacar a importância da intersubjetividade e da dimensão tácita inerente nas relações humanas e que nos ajudam a compreender o aprender, o conhecer, o agir e o organizar social.
Sendo assim, compreendo que esta abordagem é a que melhor se adequa ao fenômeno em estudo, pois permite entender as práticas em seus elementos fundamentais, e a forma como os agentes sociais as (re)constroem constantemente. Logo, realizei a coleta de informações em campo utilizando orientações da etnometodologia enquanto método por acreditar que ela dá subsídios para a compreensão da dinâmica da vida cotidiana e dos
significados construídos pelos indivíduos (RAWLS, 2008; BISPO; GODOY, 2014; ADAMOGLU DE OLIVEIRA; MONTENEGRO, 2012).
Por entender que, para a etnometodologia, a ordem social é produzida pelos participantes de uma coletividade, sendo uma produção local, algumas recomendações metodológicas são fundamentais, de acordo com Romero (1991). Para ele, os cenários sociais devem ser tratados como realizações práticas, e os agentes estudados devem ser tratados como investigadores práticos. Portanto, o investigador social deve se abster de adotar qualquer postura sobre o que as ações e os acontecimentos são, deixando que os membros decidam tais questões.
Maynard e Clayman (1991) argumentam que a etnometodologia de Garfinkel fornece um lembrete importante aos pesquisadores sociais, segundo o qual sempre há “mais e outros” aspectos nos fenômenos da vida cotidiana a serem analisados. Tais aspectos não podem somente ser hipotetizados, imaginados, ou reduzidos a “práticas” ou “métodos” de qualquer sorte. Dessa forma, os recursos organizacionais da vida cotidiana só podem ser alcançados por meio de contato com os membros de uma sociedade, da apreciação dos seus cursos de ação, e do envolvimento do pesquisador em suas tarefas mundanas.
É nesse sentido que Rodrigues e Braga (2014, p. 123) afirmam que
O ponto de vista etnometodológico privilegia, por isso, os estudos empíricos, a observação de campo das práticas sociais naturalmente ocorrentes, o interesse pela vida cotidiana e pela interação espontânea da conversa, a utilização das noções e das categorias de ator social, de quadros da experiência, de saberes do senso comum partilhado.
Seguindo tais esclarecimentos e atentando para as sugestões de Bispo e Godoy (2014), que propõem que uma coleta de informações baseada em etnometodologia deve considerar observação participante, conversas informais, entrevistas individuais ou coletivas, diário de campo e análise de documentos, todos envolvendo autorreflexão, conforme figura abaixo, utilizei a etnometodologia enquanto método para compreender as práticas que constituem as relações de trabalho com cultura popular no Agreste pernambucano, buscando dar voz aos agentes pesquisados em suas práticas.
Figura 3 – Etnometodologia enquanto método
Fonte: BISPO; GODOY (2014)
A seguir, apresento os métodos de coletas de informações utilizados nesta pesquisa.