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II. BÖLÜM

4. KAYNAKÇA

Há certa dificuldade em se precisar o primeiro cineclube que surgiu em Belo Horizonte. Neste sentido, citando o crítico Paulo Arbex, José Américo Ribeiro indica que “o primeiro cineclube criado nesta cidade teria sido o Clube de Cinema de Minas Gerais, fundado em 1947”.174 Para Jacques Prado Brandão, “ainda existiam na cidade, desde 1939, o Clube de Carlitos e o Cine-Clube Belo Horizonte”.175 Elysabeth Senra de Oliveira também indica que o primeiro cineclube de Belo Horizonte surgiu na década de 40, o Clube de Cinema, porém, acredita que este cineclube foi fundado ainda durante a II Guerra Mundial. Neste período, destaca a autora, instala-se na capital mineira uma vaga cineclubística.176 Nas décadas de 50 e 60, entre outros, obtiveram maior repercussão e destaque o CEC (Centro de Estudos Cinematográficos), fundado em 1951, e o CCBH (Clube de Cinema de Belo Horizonte), fundado em 1959.

Centralizando suas argumentações no CEC, Elysabeth Senra de Oliveira acredita que o cinema, arte-fruto da industrialização, apodera-se do espírito crítico dos mineiros, canalizando para si atenções dos círculos artísticos-literários – o que vai de encontro

174

ARBEX, Paulo. In RIBEIRO, José Américo, op.cit., p. 27.

175 BRANDÃO, Jacques do Prado. Claquete – Jornal de cinema, v. 2, n. 9-10, agosto/setembro 1961, p.

4-7.

176

OLIVEIRA, Elysabeth Senra de. Uma geração cinematográfica: intelectuais mineiros da década de 50. São Paulo: Anablume, 2003, p. 42.

com a proposta dos primeiros cineclubes surgidos na França – e também jornalístico- intelectuais.177 Os pequenos salões fechados dos cineclubes transformam-se, de acordo com a análise da autora, “em palco de memoráveis debates e polêmicas que terão como pano de fundo o clima do pós-guerra. Movimentos cinematográficos, como o neorealismo italiano, significavam uma abordagem a fundo da realidade social de países como a Itália que havia passado pelo fascismo e pela guerra”.178 É a partir da convivência nos cineclubes que, segundo a autora, “surgem os críticos de cinema que tomarão conta do espaço cultural da cidade”.179

O CEC e o CCBH não se contentaram em manter suas atividades somente voltadas para a pura exibição e discussão de filmes; o propósito foi bem mais amplo. No CEC se reuniam também adeptos do comunismo e do existencialismo sartreano, enquanto no CCBH se reuniam católicos que primavam pela difusão de um cinema que estivesse de acordo com a moral católica, inclusive defendendo a princípio a cotação moral e a censura de alguns filmes que se mostravam contrários a este princípio. Em uma segunda fase, o CCBH promove também cursos de educadores cinematográficos e revê, em parte, a sua posição diante da censura cinematográfica.

Trazendo consigo a síntese das ideias morais e políticas de seus integrantes, foi nas revistas produzidas sob os desígnios destes cineclubistas que encontramos os registros de suas posturas sobre o cinema e o contexto, estabelecendo concepções sobre filmes ideais a serem assistidos ou censurados pelo público em geral, ou até mesmo a serem usados como propaganda ideológica.

Neste sentido, nos valemos da análise de Tânia Regina de Luca sobre a importância dos estudos sobre os periódicos para a historiografia, sobretudo, quando a autora argumenta que:

177 Ibidem, loc.cit.

178

Ibidem, loc.cit.

É sabido que os periódicos têm sido frequentes objetos de estudos dos historiadores culturais, pressupondo-se, sobretudo no caso específico das revistas, que estas se constituem na maioria das vezes em projetos coletivos e, assim sendo, podem nos fornecer pistas a respeito da leitura do passado e do futuro que foi compartilhada por seus propugnadores.180

O movimento cineclubista de Belo Horizonte, de meados do século passado, desempenhou também um importante papel no que tange à difusão das teorias, escolas, linguagens e críticas cinematográficas então consolidadas. Tal propagação se manifestava principalmente por estas revistas produzidas por e/ou em colaboração com estes cineclubes, que traziam o cinema associado a várias temáticas.

Os objetivos dos colaboradores destas revistas variavam no sentido de ampliar os horizontes da linguagem, crítica e teorias do cinema ou na intenção de se introduzir posturas políticas ou moralizantes aos respectivos leitores, por meio de uma proposta de “educação cinematográfica”. Destacaremos neste trabalho as características destas revistas quando tratarmos especificamente destes dois cineclubes.

A crítica como ensaio literário, político e cultural, conforme entende Elysabeth Senra de Oliveira, marcou a atuação dos intelectuais do CEC no espaço público.181 A autora comenta que, no contexto, “os intelectuais eram atrelados ao Estado, e, além disso, grande parte dos articuladores do CEC dedicaram boa parte de suas vidas à atividade jornalística”.182

Percebemos também que, por parte do CCBH, a crítica também se constituiu por meio de ensaios, porém, em muitos casos, com a intenção de se promover o discurso oficial da Igreja Católica voltado para o cinema, neste caso, produzidos por intelectuais atrelados à Igreja.

180

LUCA, Tânia Regina de. Periodismo cultural: a trajetória da Revista do Brasil. In ABREU, Márcia; SCHAPOCHNIK, Nelson (orgs.). Cultura Letrada no Brasil: objetos e práticas. Campinas: Mercado das Letras, 2005, p. 296.

181

OLIVEIRA, op.cit., p. 53.

Assim sendo, Elysabeth Senra enfatiza que:

se por um lado, o cineclube funcionava como um ponto de encontro

de pessoas que compartilhavam um mesmo “segredo”, isto é, o

conjunto de signos cinematográficos, os jornais e revistas constituíram a outra face, a face pública do que se passava nas discussões dentro daquela sala fechada, antecedida por um filme projetado no escuro.183

Admitindo ter realizado um “breve” levantamento histórico do cineclubismo, restrito às décadas de 1950 e 1960, e à cidade de Belo Horizonte, José Américo Ribeiro percebe a riqueza daquele movimento cultural e ressalta alguns temas que estiveram presentes nas discussões e debates que permearam as teorias cinematográficas do período, como o neorealismo italiano, o cinema americano, o cinema brasileiro e a Nouvelle Vague.184

O autor tem como objetivo compreender os fatores que contribuíram para o surgimento de uma produção cinematográfica em 16 milímetros, amadora, em Belo Horizonte na década de 60 do século passado, procurando demonstrar como esta produção possui uma ligação intrínseca com o cineclubismo da cidade. Américo Ribeiro parte do pressuposto de que a dicotomia entre católicos e leigos que aparecia no cineclubismo e nas revistas especializadas desde a década de 50 se cristalizou nos filmes produzidos nos anos 60 em Belo Horizonte.185 Ele afirma que um estudo específico e mais aprofundado sobre estas revistas precisa ser feito.186 É nosso propósito também contribuir para isso.

Assim sendo, o autor nos apresenta alguns importantes núcleos de fomento à cultura cinematográfica em Belo Horizonte de meados do século XX, como o cineclubismo militante, o ensino e a difusão da linguagem fílmica, através da Escola

183 Ibidem, p. 63.

184 RIBEIRO, José Américo, op.cit., p. 60. 185

BARROS, apud RIBEIRO, op.cit., p. 18-19.

Superior de Cinema e associações direcionadas para o cinema experimental e ao exercício sistemático da crítica cinematográfica que, através de revistas especializadas, fez convergir para Belo Horizonte olhares de admiração e estímulo do Brasil e de várias partes do mundo.187

O direcionamento do olhar e a pretensão de se fazer difundir suas concepções de mundo parecem estar sutilmente contidos nos belíssimos textos presentes nestas revistas que circularam em vários espaços cinematográficos do período. Valendo-nos mais uma vez dos argumentos de Tânia Regina de Luca, as redações “(...) podem ser encaradas como espaços que aglutinam diferentes linhagens políticas e estéticas, compondo redes que conferem estrutura ao campo intelectual e permitem refletir a respeito da formação, estruturação e dinâmica do mesmo”.188

CAPÍTULO 3. A IGREJA E O CINEMA NO CINECLUBISMO DE BELO