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No início de abril, quando mercado e governo iniciaram o ataque especulativo a Lula, a moeda americana estava cotada a R$ 2,30 e no dia 16 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições, alcançou a cotação de R$ 3,92. No mês de junho a autoridade monetária já havia perdido o controle sobre o mercado e, ao seu final, quando o PT oficializou o seu candidato e o seu programa de governo, o dólar oficial havia chegado a R$ 2,82. O Banco Central teve uma contribuição decisiva para isso. Ao antecipar para junho normas que entrariam em vigor em setembro, que obrigavam a contabilização dos títulos de fundos de investimento pelo valor de mercado, e não pelo valor de face – a chamada “marcação a mercado” –, o BC e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) expuseram um mercado “encharcado” por uma estratégia da autoridade monetária de forçar o alongamento de Letras Federais do Tesouro (LFTs) mediante uma operação de venda casada com swaps cambiais. Bancos e empresas, ao procurarem proteção cambial em função das oscilações que já ocorriam nos preços do dólar, foram obrigados a adquirir LFTs que abarrotaram o mercado.

A remarcação dos fundos contabilizou, de fato, as perdas com essas operações, afugentando investidores. Com isso, o BC passou a ter mais dificuldade para vender LFTs – e devido ao grande volume colocado no mercado, o preço das letras, que já eram pós-fixadas, sofreu deságio pela primeira vez desde que foram instituídas, no governo José Sarney. Isso teve reflexos no mercado da dívida pública e dificultou ainda mais a rolagem de bancos e empresas brasileiros no mercado externo.

Houve uma grande polêmica à época: se o fator eleição foi o responsável pelo fracasso da atuação do BC no mercado de títulos públicos ou se decisões desastradas da autoridade monetária foram as causas reais da turbulência, mas este é um tema técnico e complexo que não cabe nesta análise. O que interessa são alguns fatos que o acirramento da crise, em junho, expõem.

Em primeiro lugar, constata-se que os dois jornais apenas vieram a valorizar a ação do BC, que resultou num excesso de LFTs no mercado e no seu descrédito como título “seguro”, depois que os fundos foram obrigados a fazer a “remarcação a mercado” e os prejuízos ficaram latentes. Até então, o “fator eleitoral” era tido, por ambos, como o

responsável único pelas turbulências que sacudiram o mercado nos meses de março e abril. As operações do BC vinham do segundo semestre de 2001, no auge do contágio da crise da dívida argentina.

“Naquele momento, o BC e o Tesouro colocaram grandes volumes de títulos cambiais para o mercado usar como hedge (proteção) contra a desvalorização do real. Porém, no afã de colocar estes papéis com prazos razoavelmente longos, o governo ofereceu taxas muito altas, segundo Pedro Thomazoni, diretor do Lloyds TSB (que vê causas econômicas e técnicas para a turbulência). Em um momento posterior, o governo ofertou LFTs (títulos pós-fixados de longo prazo) “casados” com swaps cambiais, e em seguida apenas swaps cambiais” (“Mercado atribui deterioração ao PT e ao BC”,

Fernando Dantas, OESP, 5/6/2002).

Segundo Luís Nassif, as operações casadas (que obrigavam a compra de LFTs de prazos muito longos, na aquisição de swaps cambiais) colocaram “mais LFTs do que o mercado comportava”. A operação “poluiu o papel, passando a atrelar a venda de dólar futuro – que tem risco cambial – com LFT, que é título da dívida pública”. “Quando se

deu conta de que esse ‘swap’ casado não funcionava, [o BC] passou a oferecer ‘swap’ puro (...), ao mesmo tempo em que entrava em operação o SPB (Sistema de Pagamentos Brasileiro), reduzindo a liquidez da economia e aumentando o risco do crédito.” Isso teria derrubado o preço das LFTs no mercado “e os primeiros movimentos de deságio provocaram prejuízos enormes e criaram nervosismo no mercado, levando as instituições a se desfazer mais do papel, derrubando ainda mais seu preço” (“O voluntarismo do BC”, Luís Nassif, FSP, 6/6/2002).

O mercado de títulos públicos, portanto, já amargava prejuízos decorrentes do “empoçamento” de LFTs antes mesmo de ser antecipada a regra de “remarcação a mercado”, no início de junho, e várias instituições bancárias já tinham contabilizado as perdas nos fundos DI. Os jornais, no entanto, nos dois meses que antecederam a remarcação obrigatória dos fundos, atribuíram em grande parte as turbulências a um efeito meramente político. Isso porque, nos dois jornais, se privilegiam, nas matérias informativas de finanças, as “expectativas” e opiniões de analistas, operadores, diretores e economistas de instituições financeiras, em detrimento dos fatos. Os fatos acabam sendo secundários diante das “expectativas”. A ideologia explícita nesse tipo de análise financeira supõe uma “vontade” autônoma do mercado, que acaba sendo a síntese da opinião das fontes consultadas naquele dia – e essa “vontade” orgânica, comum, é a

determinante dos movimentos financeiros. A alimentação de movimentos especulativos com a “vontade coletiva” do mercado acaba sendo o motor dos tais “efeitos de manada”, ou das profecias que se autocumprem.

A ação do BC, portanto, foi um fato que passou ao largo das análises sobre as turbulências do mercado – embora este fosse um fato que chegou até a ser discutido entre a autoridade monetária brasileira e o FMI, segundo o jornalista Celso Pinto:

“Todos concordam que parte da culpa pela atual confusão foi a forte venda, pelo BC, de títulos públicos (LFTs) de longo prazo, a partir de fevereiro, ‘casada’ com a venda de ‘swaps’ (proteção contra desvalorização no mercado futuro). O excesso de LFTs longas provocou deságio do título, o que levou o BC a antecipar a regra de marcação a mercado dos fundos. Houve prejuízos para os cotistas, fortes resgates e desconfiança em relação à dívida interna. O que poucos sabem é que o BC foi obrigado a vender LFTs ‘casadas’ com ‘swaps’ por exigência do FMI. Foi a única forma do Fundo aceitar que o BC operasse no mercado futuro de derivativos. Só em maio o BC conseguiu convencer o FMI, a duras penas, a vender apenas o ‘swap’, descasado da LFT, mas aí já era tarde demais e a ciranda da confusão já havia sido acionada” (“A desvalorização sem teto definido”, Celso Pinto, FSP,

27/6/2002).

Quando o fato veio à tona, criou-se quase que uma guerra ideológica entre os dois veículos, um governista e outro de linha editorial mais crítica – e essa guerra tornou-se visível não apenas nos espaços editoriais e de opinião, mas nas matérias informativas. A Folha de S. Paulo concentrou suas análises sobre as “turbulências” financeiras na vulnerabilidade do país – e essa visão tirava das costas do PT todo o peso da crise financeira e a jogava para os governos Fernando Henrique Cardoso, artífices da fragilidade financeira. A dívida pública tornou-se o centro dos debates. Do outro lado estava o Estado de S. Paulo, que sustentou em editoriais, muitos artigos e várias matérias que a dívida pública já era um dado antes de FHC assumir, e portanto ele não teria responsabilidade sobre ela – o governo administrara bem os passivos, só não havia tido tempo de resolvê-los de forma satisfatória.

Qualquer que fosse a posição política do jornal, no entanto, o fato é que ambos, em suas matérias de finanças, foram porta-vozes de pressões – agora, não apenas ao PT, mas ao próprio Banco Central. Neste mês, o BC voltou ao FMI, encurtou consideravelmente o perfil da dívida interna e foi obrigado a fazer intervenções no mercado de títulos da dívida externa, contaminado pela crise com os títulos da dívida

mobiliária. Os jornais reproduziram a “expectativa” – agora, não apenas de que um eventual governo Lula pudesse dar um calote, mas que o futuro governo, qualquer que fosse o candidato vitorioso, não tivesse condições de cumprir os compromissos da dívida. No auge da turbulência, o próprio mercado passou a especular sobre a necessidade de uma “renegociação” – que os agentes lêem como “calote” – antes mesmo do final do governo FHC.

O acirramento da crise influiu também de forma decisiva no cenário da política interna. Para o governo, relativizar o efeito Lula sobre o mercado seria reconhecer que havia errado na condução da política monetária. Embora tenha atenuado o “discurso do medo”, passou a usar a pressão sobre a oposição para arrefecer os ânimos do mercado. A lógica expressa no discurso da equipe de governo era a seguinte: independentemente de quem fosse a culpa das turbulências – e elas, segundo a equipe econômica, diziam respeito exclusivamente às incertezas eleitorais: a marcação a mercado dos fundos apenas havia potencializado o fator político –, o medo da vitória de Lula acirrava os ânimos do mercado. A partir de então, o ministro Pedro Malan e o presidente do BC, Armínio Fraga, aumentaram suas pressões para que o PT recuasse em suas decisões programáticas e oficializasse compromissos que tornassem Lula palatável ao mercado.

Embora o mercado não tenha aberto mão de arrolar o fator eleitoral como causa de más “expectativas”, mantendo Lula sob pressão, a motivação técnica da crise sem dúvida prevalecia sobre a razão política. Prova disso é que, depois da marcação a mercado dos fundos, as reações do mercado se descolaram das pesquisas de opinião. No dia 25 de junho, por exemplo, um dia depois do anúncio de duas pesquisas, CNT Sensus e Vox Populi, que apontavam Serra num folgado segundo lugar e com reduzida distância do candidato petista, que continuava em primeiro, o dólar subiu 1,55%; no dia seguinte, mais 2,20%, atingindo a cotação de R$ 2,82, a maior do mês.

O intenso clima de risco econômico, no entanto, foi avaliado, pela campanha de Serra, como o responsável pela melhora de seu desempenho nas pesquisas. O governo e seu partido foram tomados de uma esquizofrenia: Serra intensificou o discurso de que o Brasil estava condenado à “argentinização” se elegesse um oposicionista; Fernando Henrique recuou de seu discurso eleitoral, embora com alguns descuidos; e Malan e Armínio Fraga se envolveram na cruzada de obrigar o PT a mudar oficialmente os

documentos partidários. “Carta ao Povo Brasileiro” é do dia 23 de junho – e não conseguiu acalmar por mais de 24 horas o mercado. No dia 29, Lula foi referendado oficialmente pelo PT para disputar a Presidência da República e o PT apresentou seu programa oficial de governo, com os expurgos que o mercado exigia. O dólar, no entanto, bateu em R$ 3,92 entre o primeiro e segundo turno das eleições.

CAPÍTULO 4

Belgede 12.RA>IKARS 1 YAYINLARI (sayfa 34-37)