1. BÖLÜM
3.7. BULGULAR
3.7.4. Katılımcıların Kurumsal Sosyal Sorumluluk Algı Düzeylerinin
Dissemos que, diante de um livro de estória, determinadas palavras detém Rogério e funcionam como palavras que irão “implodir” o texto. Se a estória caminha em uma direção de sentido, esse sentido é implodido pela emergência de um objeto monolítico, que estanca o deslizamento da cadeia significante. O fio da meada – do sentido ancorado em uma representação-meta – se perde e Rogério segue a associar em várias direções. No fragmento já apresentado, primeiro surge a bolha, que agencia por um tempo as associações, depois a boca aberta parece fixar-se sem sentido (então associa... aí ele caiu no sono, né?) e, depois, a boca é abandonada com o retorno da bolha. A bolha se articula a aparições e desaparecimentos: “se tiver alguém, não (es)poca, se tiver ninguém aí (es)poca / Aí lá no final ele saiu da bolha..., né? aí chega né... aí ele fechou e morreu... aí ele ficou vivo... aí saiu... aí depois... saiu... foi...”.
O processo de construção da leitura e da escrita está modificando essa relação mais dispersa com a linguagem, permitindo que Rogério escute uma estória e depois a reconte sem perder o fio da meada. Rogério irá se apresentar, aos poucos, menos vulnerável à aparição de significantes que implodem a cadeia significante, inviabilizando a produção de sentido. Por outro lado, para estes objetos, Rogério poderá conferir um lugar a partir de suas produções, que serão acolhidas e ordenadas segundo as leis da língua. A produção escrita irá tomar os objetos monolíticos, fragmentos “tomados” da fala do outro, e permitir sua reinserção em uma rede.
A escrita não envolve apenas a dimensão da comunicação, mas a escritura como processo. Quando observamos o efeito de estabilização que a escrita pode promover, nos aproximamos dos procedimentos que envolvem a escrita para além do seu uso com vistas à comunicação. Como o
sujeito trabalha com a língua? Essa pergunta, que permite interrogar sobre como o sujeito faz um corpo, é também a pergunta que nos leva aos modos de “escrever” na psicose.
No texto “De uma questão preliminar de todo tratamento possível da psicose” (LACAN, 1956/1988), Lacan situa a psicose a partir da ausência de um “ponto de basta” que permitiria a amarração entre o eixo sintagmático e paradigmático na rede significante (LACAN, 1956/1988). Amarração, como vimos com Leclaire (1991), entre o eixo do significante e do significado. O significante é “acústico” e pode assumir sentidos diferentes de acordo com os cortes que incidem sobre a cadeia. O termo acústico refere-se à posição do sujeito e não à materialidade do som. Em relação à alucinação essa precisão é fundamental, pois a alucinação verbal não é redutível a um sensorium particular nem a um percipiens que lhe daria unidade. Lacan questiona os dois lados da moeda: a noção de “auditivo” - afirmando que se trata apenas de ouvir e não da materialidade do som (por isso a alucinação não é auditiva, mas verbal) - e a noção de um sujeito que atribuiria unidade ao que ouviu, pois o sujeito não é uno. Lacan atenta para “a diversidade de subjetividades envolvidas na visada do perceptum” (LACAN, 1956/1988 p.538). O perceptum pode ser abordado, por exemplo, como cadeia que produz sentido ou como composição fonética, tonal, musical.
À diferença na abordagem do perceptum corresponde uma diferença na posição do sujeito diante da fala, diante da cadeia significante. Quando a síntese subjetiva confere significação à fala, o sujeito se mostra, necessariamente, “passivo”, aquele que “ouve” (todo e qualquer sujeito). Como observa Lacan, o sujeito sucumbe a uma sugestão: a cadeia lhe atravessa como uma fala que vem de fora, que lhe é exterior. Essa posição diante da fala é justamente a do psicótico: a fala não vem de dentro - vem de fora, autonômica. Lacan mostra que essa posição do psicótico faz parte de uma lógica que rege o funcionamento da linguagem. Ou seja: qualquer sujeito é tomado pela cadeia significante, quando ela produz efeitos de significação, como “ouvinte” sugestionado. No entanto, alguns sujeitos irão operar uma distância dessa sugestão e outros não. Como? Lacan irá abordar nesse texto o que depois irá articular como semblante. Ele diz que o sujeito só escapa dessa fala reduzindo o outro a porta-voz de um discurso que não é dele ou de uma intenção que ele mantém reservada. O discurso, então, é o que se estrutura quando uma “intenção” se mantém reservada, quando aquele que fala não se mostra, apresentando uma fala de acordo com seu “lugar”. Aqui podemos ver a relação com o Outro que, quando fala, não exprime “o que quer”: o sujeito até captura uma significação, mas resta o insondável para além do que se diz.
Lacan prossegue observando que, se o sujeito pode se sugestionar pela fala que “ouve” sem produzir separação, como se ela lhe comandasse, “mais impressionante ainda é a relação do sujeito com sua própria fala” (LACAN, 1956/1988, p. ). Quando o sujeito fala, ele pode não se escutar “como ele mesmo”. Ele pode se escutar “como um outro”. Quando afirmamos que alguém não pode falar sem se ouvir esse fato é puramente acústico, pois se fosse psíquico estaríamos afirmando que o sujeito é uno e não se divide pela linguagem. Então, diante da cadeia significante, o sujeito se divide. Isso traz algumas consequências, como ser sugestionado pela fala do outro como se fosse sua, ou ouvir a própria fala como se fosse de um outro.
Se o sensorium é indiferente na produção de uma cadeia significante (o que define o significante não é sua matéria, mas seu funcionamento), três proposições são possíveis: 1) A cadeia significante se impõe “por si” em sua dimensão de voz. Ou seja: a cadeia se impõe como voz independente de ser “acústica” (basta que elementos funcionem diferencialmente compondo uma cadeia com efeitos de significação). 2) A estrutura da cadeia significante determina a atribuição subjetiva, pois se ela é distributiva (apresenta diversas vozes) o sujeito na posição de percipiens também é diverso e não uno.
Lacan recorre a um exemplo: um “delírio de observação” que confere forma, que é desenvolvido a partir de um “sentimento de intrusão”. Sem retomar todos os elementos do exemplo, vamos nos deter no que a mulher ouve: “Porca!”. Lacan lhe pergunta o que se proferiu nela antes de escutar “Porca!” e ela responde que murmurou: “Eu venho do salsicheiro”. A questão é que ela profere a frase, mas... a quem ela se dirige? A frase, se dirige a quem? E de onde vem a frase? Quem a profere? A frase deixa em aberto a designação do sujeito falante, como acontece com palavras do código que só adquirem sentido através das coordenadas da mensagem (atribuição, datação, local de emissão).
Essa incerteza encontra uma solução com a aposição da palavra “porca”. De uma separação “sem epílogo”, ela ficara com a convicção de que a família do ex-marido se propunha a “picá-la em pedacinhos”. Articulando, temos: “Eu venho do salsicheiro... - Porca!”. Encontramos aí a mesma estrutura de expressões como “Eu te como... - chuchuzinho!”, “Estás todo derretido... - gato!” (LACAN, 1956/1988, p. 541). Diante de uma frase que profere como se não fosse sua, uma frase imposta onde o Eu não indica o emissor (Eu venho do salsicheiro), é preciso produzir um complemento que indique para quem a frase se dirige: “-Porca!”. É do outro que recolhe a voz que lhe diz “Porca!” e lhe situa como destinatária de uma mensagem.
É a estrutura da fala que se desvela na psicose, onde apreendemos “expostos” os
fenômenos de código e de mensagem (LACAN, 1956/1988, p. 543). Os fenômenos de código podem ser encontrados nas vozes da língua fundamental (Grundsprache) de Schreber; língua que se caracteriza pela grande riqueza de eufemismos (SCHREBER, 1903/2010). A língua fundamental é descrita por Schreber como “um alemão arcaico, de forma autêntica por seus traços de nobre distinção e simplicidade” (LACAN, 1956/1988, p. 544). Temos nos fenômenos de código as locuções neológicas, definidas assim por sua forma e emprego. A forma é de palavras compostas segundo uma “outra” língua ou uma outra forma de operar com a língua. O emprego se aproxima do que os linguistas nomearam “mensagens autônimas”, onde o objeto de comunicação é o próprio significante e não o que ele significa. Assim, esses fenômenos apresentam as conexões do significante, os procedimentos significantes, apartados do conteúdo da mensagem. Schreber, por exemplo, dizia que os raios e os nervos divinos “devem falar”. Falava da “natureza” dos raios e nervos: eles devem falar e possuem a propriedade de anexar-se e desanexar-se. As alucinações compartilham da forma e do emprego neológicos. Outros fenômenos de código são os vazios de significação, onde um significante fica solto, é apresentado sem referência a uma significação. A “intuição” é o avesso dessa ausência, quando uma certeza vem no lugar do vazio (uma significação sem qualquer dialética).
Os fenômenos de mensagem se apresentam nas cadeias interrompidas, na frases partidas que não permitem que uma mensagem se complete. Como observa Lacan, essas mensagens partidas compõem uma “prova de resistência” entre o sujeito e seu interlocutor divino:
A voz do parceiro, com efeito, limita as mensagens em questão a um começo de frase, cujo complemento de sentido não apresenta, além do mais, dificuldade para o sujeito, exceto por seu aspecto agastante, ofensivo e, na maioria das vezes, com uma inépcia própria a desencorajá-lo. A valentia que ele demonstra, ao não faltar para com sua réplica, inclusive para desmontar as armadilhas às quais ele é induzido, não é o menos importante para a nossa análise do fenômeno. (LACAN, 1956/1988, p. 546)
Schreber ouve “Agora eu vou me...” e completa com a réplica “render-me ao fato de que sou idiota”. Ouve “Nisso eu quero...” e completa “pensar bem” (SCHREBER, 1903/2010). A frase se interrompe onde terminam os termos-índice, termos que indicam (no código) a posição do sujeito a partir da própria mensagem. A parte “léxica” da frase é a que não aparece, fica elidida, e o sujeito então a acrescenta com sua réplica. A réplica acrescenta as palavras que o código define por seu emprego. Nos fenômenos de código e nos fenômenos de mensagem Lacan nos convida a atentar para a “predominância da função significante”. Na psicose, esses 197
fenômenos apresentam “as conexões internas do significante na medida em que estruturam o sujeito” (LACAN,1956/1988, p. 547). Os fenômenos distribuem-se entre aqueles que apresentam um código composto de mensagens sobre o código e aqueles que apresentam uma mensagem reduzida àquilo que, no código, indica a mensagem.
Código e mensagem aparecem desarticulados, expondo justamente o fato de que, na linguagem, sua articulação não tem nada de natural. Lacan indica a fineza de Schreber quando se refere a uma “concepção um tanto idealizada que as almas faziam da vida e do pensamento humano” e quando diz que acredita haver “chegado a intuições sobre a essência do processo do pensamento e do sentimento do homem de fazer inveja a muitos psicólogos” (LACAN, 1956/1988, p. 545). A fineza de Schreber se refere ao fato de imaginar que não deve extrair os conhecimentos da natureza das coisas, mas a partir de uma análise semântica.
Essa forma de abordar a psicose, a partir de uma análise no nível da linguagem, é responsável por uma reviravolta que substitui uma leitura da psicose como “déficit” por uma leitura que começa a observar que o sujeito psicótico se relaciona de uma forma absolutamente diferente com o fenômeno da linguagem. Essa forma não é deficitária por lhe faltar algo, ou seja, o fato de que o significante do Nome-do-Pai não seja inscrito não produz uma deficiência. As consequências dessa não inscrição se fazem sentir em outro plano: o sujeito parece abordar os procedimentos linguísticos de uma forma crua ou exposta. Daí as soluções ou a problemática da cura serem consideradas pela psicanálise no plano de um saber fazer com a linguagem e, cada vez mais, de um saber fazer com o real.
Lacan, na esteira de Freud, parte da concepção de que a metáfora delirante permite uma suplência da metáfora paterna. A cura é pensada a partir de um trabalho de construção dessa metáfora. Avançando, Lacan vai prosseguir na direção desse trabalho, mas o registro do real vai ocupar cada vez um lugar proeminente em suas elaborações. Assim, além da filiação suplente em jogo na metáfora - que o sujeito se faça um nome ou um lugar - a cura passa a ser vista como um trabalho que o sujeito realiza sobre o real.
A função da escrita vai ser pensada, inicialmente, tomando a metáfora como operação fundamental a partir da qual podem se estabilizar os eixos do código e da mensagem. Leclaire (1991) diria: com a metáfora os efeitos de estabilização se devem a uma relação mais estável, menos solta, entre o significante e o significado. A metáfora delirante permitiria ao sujeito inscrever um ponto a partir do qual se produziriam os efeitos de significação. O Nome-do-Pai não funcionaria recalcado, ordenando as significações, mas exposto, fruto de um artifício.
Saturno, por exemplo, pode passar a ordenar o mundo: todos os sinais que advém do outro, todos os pressentimentos do sujeito, podem encontrar significação a partir de saturno. É o contexto simbólico que exige o Pai, não o pai real, mas um significante puro que possa fazer funcionar a metáfora.
Por isso o pai simbólico é o pai morto: ele não pode ser encarnado, pois trata-se de uma função significante. É a própria função significante que está vedada ao sujeito na psicose: “A verwerfung será tida por nós, portanto, como foraclusão do significante. No ponto em que, veremos de que maneira, é chamado o Nome-do-Pai , pode pois responder no Outro um puro e simples furo, o qual, pela carência do efeito metafórico, provocará um furo correspondente no lugar da significação fálica” (LACAN, 1956/1988, p. 565).
Como dissemos, o trabalho de estabilização vai sendo articulado também pela via do real. Nesse sentido a noção de letra passa a ocupar um lugar fundamental no entendimento da função da escrita na psicose. Interrogando a história das escritas, Lacan retomará a ideia de uma origem da letra a partir do apagamento da imagem. Esse apagamento é comum à fala e à escrita e Lacan se alinha aos autores que questionam a anterioridade da fala em relação à escrita. A fala surgiu antes da escrita? Ou fala e escrita compõem operações que se articulam ao mesmo tempo na história? A escrita surge como representação da fala? E como entender as escritas que já se apresentaram como decantação de traços que não tinham função de comunicação, mas de nomeação? Rego (2005) mostra como a interlocução de Lacan com Derrida (ainda que em vários momentos permaneça implícita) irá levar o primeiro a interrogar radicalmente essa tese geral de que a fala que precedeu o surgimento da escrita. Lacan, em determinado momento, propõe a escrita como uma função latente na linguagem (Rego, 2005).
No seminário A identificação (1961-62), a letra é tomada como equivalente do traço unário que irá presidir o funcionamento do significante. A letra é apresentada como puro traço - pura marca que nada significa - e o significante partilha dessa natureza da letra, diferentemente do signo que significa algo para alguém. O nome próprio é considerado em seu funcionamento de letra na medida em que o nome e a letra se relacionam com a “emissão nomeante” (LACAN, 1961-62). Para Rego, Lacan entra nessa discussão interessado em demonstrar qual é a linguagem que estrutura o inconsciente:
A fórmula ‘o inconsciente é estruturado como uma linguagem’ deixou em aberto a questão de qual linguagem seria esta, uma vez que é uma entre outras. Esta é uma linguagem que é uma escrita, na medida em que o que define uma
escrita é “o isolamento do traço significante”. Foi a partir do inconsciente tal como pensado por Freud, em primeiro lugar, no Projeto e, em seguida, em “A Interpretação dos Sonhos”, que a escrita insinuou-se na linguagem. (...) Sem o inconsciente, a escrita e a linguagem permaneceriam como campos separados. (REGO, 2005)
Ainda segundo Rego (2005), quando Lacan traduz o einziger Zug de Freud por traço unário, sua tradução acentua não o fato de ser apenas um traço que o sujeito toma do outro para se identificar (e não dois ou três), mas o unário que se refere ao surgimento do sujeito como um 1. Tomado pela caligrafia chinesa e pelas inscrições sobre ossos, Lacan observa uma “diferença qualitativa” e uma “diferença significante”. Os traços de fato são diferentes uns dos outros (não são semelhantes em sua forma) mas não é nisso que se funda a diferença significante. A diferença qualitativa se funda na semelhança ou na dissemelhança já a diferença significante indica a diferença em estado puro. Em outras palavras, o significante só funciona como pura diferença - ele nada evoca. A relação com a coisa foi apagada nesses traços ou bastões que nada significam isoladamente: “O bastão ou o traço unário é tão mais distintivo quanto mais se apaga tudo o que o distinguiria (ou identificaria com base na semelhança ou dissemelhança) exceto o ser um traço. É a alteridade radical. A ausência quase total das diferenças qualitativas ajuda a revelar isso” (REGO, 2005).
A repetição passa a ser tomada mais do lado de uma ausência, como atualização do que não se apresenta, e não como atualização que presentifica uma experiência de satisfação. Quando o sujeito repete, não repete para encontrar, mas repete “causado” por algo que não se apresentou, por algo que, impossível, faz o sujeito retornar e revirar a linguagem em seu entorno: “Algo se passou na origem – todo o sistema do trauma – e produziu-se algo com a forma A e a repetição vai fazer ressurgir este A” (LACAN, 1961-62, lição 5). Observe que se A é um significante que funciona como letra, como traço, a repetição implica no retorno de uma marca que veio “nomear” o sujeito, mas também no retorno de um impossível que Lacan nesse momento liga ao “trauma” que se situa na origem... do sujeito. O traço unário estaria na base de uma “missão escritural” que institui a submissão do sujeito à letra.
Lacan se alinha aos autores que questionam a precedência da fala sobre a escrita45 e recorre
aos seixos de Mas d’ Azil (signos geométricos do período paleolítico) para afirmar que nesses signos “há manifestações, traçados que não tem outra característica que não ser significantes” (LACAN, 1961-62, lição 5). Não são imagens nos signos de Mas d'Azil nem nos ideogramas. O
45 Sir Flinders Petrie, por exemplo, pesquisou as letras e sua pré-história não-fonética. Février apresentou os signos
geométricos e sua pré-história não-figurativa.