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1. BÖLÜM

2.5. İŞVEREN MARKASININ İŞLETMEYE SAĞLADIĞI FAYDALAR

Para Bleuler, um dos aspectos mais importantes da esquizofrenia é a ausência de modulação afetiva: “sua alegria não nos contagia e seus gritos de horror deixam-nos frios”. A expressão afetiva se apresenta artificial, teatral, “maneirista” (termo que comparece até hoje nas diretrizes diagnósticas segundo a CID-10: “presença de maneirismos”). A abulia, a apatia e a falta de perseverança indicam a abolição do desejo ou sua tendência à zerificação, assim como a ausência de representação-meta, de desejo.

Essa ausência de modulação, espécie de flutuação da expressão afetiva, se relaciona, por sua vez, com a ambivalência – que constitui o quarto termo que Bleuler propõe para especificar a esquizofrenia. A ambivalência se especifica pela coexistência de opostos nas expressões afetivas. O modo como Bleuler a descreve nos remete aos efeitos da ausência de uma afirmação primordial – Bejahung – que vem ocupar o lugar do desejo do Outro:

Uma paciente – diz Bleuler – que havia matado seu filho, que ela amava porque ele era seu, mas que odiava porque ele era de um homem a quem ela não amava, se encontrou após esse feito em um estado em que chorava de desespero com os olhos e ria com a boca”. Eis uma manifestação da ambivalência esquizofrênica. O amor e o ódio aparecem simultaneamente com o mesmo ardor: o paciente quer comer e ao mesmo tempo se recusa a comer, afirma uma frase e em seguida a utiliza na forma negativa. A ambivalência expressa a ausência de contradição própria do inconsciente, no qual os opostos de equivalem (Quinet, 1999, p. 94).

Se não há afirmação primordial, com a consistência que confere a toda afirmação, não pode haver também negativa consistente. Nessa situação, uma afirmação sem peso é feita e uma negativa também sem peso é feita posteriormente. Quando falamos do peso ou da consistência queremos indicar o peso de uma afirmação em relação à qual não pode haver negativa sem que haja contradição. Sem esse peso as afirmativas e negativas deslizam, o sujeito afirma uma coisa e seu contrário, chora com os olhos e ri com a boca. Os significantes se equivalem: não há hierarquia, oposição, registro de contradição.

O imaginário é responsável por conferir à postura e à fala, na esquizofrenia, um caráter imitativo. Um paciente, por exemplo, dizia gostar de mulheres, mas também podia relacionar-se com homens desde que fossem “redondos” e “lisinhos” (sem pêlos). Mulheres e homens eram nomeados (e diferenciados, portanto) a partir de atribuições imaginárias: mulheres são redondas e lisinhas, então homens podem equivaler a mulheres desde que apresentem-se redondos e lisos. Da mesma forma, a posição do sujeito do lado do homem é sustentada da mesma forma: ele é homem “com H”, musculoso, “galinha”, todos estes significantes com os quais etiqueta o lado dos homens. Esse funcionamento do imaginário se relaciona também com o espelhamento descrito por muitos psiquiatras e retomado por Kraepelin e Bleuler:

Estes movimentos chamados “flexibilidade cérea”, para uns catalepsia, ecopraxia para outros, são bem conhecidos nas investigações de natureza hipnótica; revelam sempre perturbações especiais da vontade em que agrupamos as diferentes manifestações sob o nome de Befehlsautomatie39

(KRAEPELIN, 1905/2007, p. 19).

Como se observa, outros aspectos comuns na descrição de pacientes esquizofrênicos lhe são como que derivados: a ecolalia, a ecopraxia, a ecomimia, a postura artificial ou maneirista. Este automatismo, onde o sujeito faz “como se” ou “como outro” (made in Outro como diz Quinet), é para Lacan uma tentativa de cura. Como podemos elaborar esta afirmação de Freud? Como vimos, se não há representação-meta que signifique o sujeito para outra representação, o sujeito fica sem ponto de ancoragem que lhe situe em algum lugar. O funcionamento “como se” ou a “colagem imaginária” permitem que o sujeito se localize tomando a imagem do outro como suporte. Esse procedimento não é privilegio dos esquizofrênicos, mas o que os especifica, nesse caso, é que este procedimento é hipertrofiado, ou seja, a sustentação imaginária é hiperbolizada 39 “A palavra Befehlsautomatie é difícil de traduzir. De acordo com J. Postel, para H. Ey, corresponde à

'sugestibilidade' […]. Trata-se muitas vezes dessas respostas em espelho que são: ecomimia, ecopraxia e ecolalia. Esse comportamento reactivo sobretudo motor leva Divry, no seu escrito sobre a catatonia de 1928, a traduzir o termo por 'sugestionabilidade motora'” (KRAEPELIN, 1905, 2007, p. 19-20).

em detrimento da identificação que, no traço, tem seu peso. Mais uma vez o que ocorre é uma espécie de flutuação do sujeito por imagens sucessivas, sem que nenhuma ofereça potência de captura.

A relação com a palavra também constitui uma tentativa de cura na medida em que o superinvestimento nas palavras compensa a desertificação do mundo. O investimento nas palavras seria uma resposta do sujeito ao retraimento da libido. Nesta perspectiva o funcionamento da linguagem já se apresenta como saída do sujeito, como trabalho realizado, diferente das perspectivas que tomam o funcionamento geral do sujeito como patológico. O que estamos indicando como superinvestimento nas palavras se refere ao aspecto que abordamos anteriormente quando Freud observa que, na esquizofrenia, encontramos uma predominância do que tem a ver com palavras sobre o que tem a ver as coisas. Quinet fala dessa tentativa de cura através do superinvestimento nas palavras: “as palavras são tentativas de etiquetar os objetos para lhes dar existência no significante. Trata-se de significantizar o real fazendo lista, reconstituindo o Outro do simbólico, tal como encontramos na reconstrução do mundo por Artur Bispo do Rosário com sua arte de letras” (QUINET,1999, p. 98).

Outro aspecto a ser abordado é o uso das palavras para criar diferença, para situar algo que está aqui e não está lá. Em última instância é do próprio sujeito que se trata, como um paciente que diz que vai ser como os “homens de concurso”. Além do funcionamento “como se”, apreende-se aí uma utilização das palavras que servem para situar o próprio sujeito: como “homem de concurso” ele se filia a um nome que tem efeito coletivizador. O sujeito se inclui no enxame [essaim] , no grupo dos homens de concurso. Estando neste grupo, não está em outro; apreende-se aí a lógica do significante com sua face de presença e ausência. Os “homens de concurso”, como se vê, ocupam um lugar de peso, organiza ao redor de si outros significantes e, por isso mesmo, funcionam como significante em relação ao qual o sujeito se filia. Este é um trabalho árduo, que precisa ser sustentado dia por dia, daí o psicótico ser um trabalhador incansável. Se seu lugar não está afinal tão assegurado, é preciso trabalhar para garanti-lo, como se diz, a cada dia.... O significante que organiza, que unifica, é responsável pela unificação do próprio corpo e sua introdução em um discurso:

A partir de sua entrada no discurso o homem pode encontrar a função de seus órgãos. [...] O processo de significantização como tentativa de cura na esquizofrenia inclui o corpo próprio, tal como aparece no panô do corpo humano de Bispo em que ao lado da figura humana representada por um clóvis, encontramos “preciso destas palavras, escrita”. A imagem do boneco

não basta, as palavras são necessárias não apenas como fala, mas também como escrita. Daí encontramos sua série: “lábios língua – voz – falar cant / frontal / supercílio / clavicular / arteria / coração da pressão / o sangue nas virilhas / as amigulas / tosse / veias / contura-torax / de estrutura / hematomas / aspecto masculino / garganta grita” (Castelo Branco, 1998). A reconstrução do dicionário do corpo com as palavras, ou melhor, de um corpo simbólico, é necessária para que o sujeito tenha um corpo e que este funcione como tal, ou seja, que ele não seja um amontoado de órgãos dispersos sem corpo (QUINET, 1999, p. 102).

Quanto à relação com o outro – semelhante – podemos figurar por S e A os dois sujeitos (o sujeito e o outro) da relação intersubjetiva. Mas precisamos incluir outro elemento nesta relação: o eu. Situando-se do lado da ordem imaginária, o eu não se confunde com o sujeito, que responde do lado da ordem simbólica. O eu, lugar das identificações imaginárias do sujeito se opõe então ao sujeito da ordem simbólica:

É um fato clinicamente indubitável [...] que o psicótico encontra-se na maior dificuldade a respeito de sua própria subjetividade, assim como da subjetividade do outro. Com efeito, a comunicação só é possível na medida em que, quando falo (pelo órgão do meu eu) reconheço que sou eu que falo enquanto sujeito, na medida em que assumo as palavras pronunciadas por mim; igualmente, quando presto atenção no discurso do meu interlocutor sem geralmente levá-lo ao pé da letra, ajusto suas palavras à medida da subjetividade que lhe empresto esforçando-me para reconhecer a intenção mais ou menos controlada que o anima. [...] Com, efeito, não apenas, como afirma a linguagem comum, ele não sabe o que diz, mas sobretudo não reconhece o que diz e, como ele mesmo relata, “isso fala” nele; que não saiba ou não reconheça seu dizer não significa que não compreenda o que está assim articulado (LECLAIRE, 1991, p. 108).

Na paranoia teríamos uma relação entre dois eus, entre dois imaginários, e o imaginário é o registro da especularidade, da dualidade sem saída, por isso mortífera. Se há a exclusão do descentramento que o eixo simbólico engendra, temos então um eu que enfrenta outro eu, numa lógica estruturada na exclusão de um dos termos: “ou o eu do sujeito ou o eu do outro”. Esta luta mortal é a própria lógica da relação persecutória, que vimos apresentada nas suas linhas fundamentais no filme Cisne Negro40. No delírio paranoico, o sujeito é falado: não escolhe ou

conduz a linguagem, mas é possuído por ela.

Na esquizofrenia, o sujeito excluiria o aspecto imaginário e formal e trabalharia de forma exclusiva no nível do valor simbólico. O esquizofrênico excluiria qualquer identificação imaginária estável. O trabalho, nesse caso, consistiria em produzir alguma identificação 40

Filme dirigido por Darren Aronofsky (2011).

imaginária, ou seja, produzir algo no nível do eu.