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İşveren Markası Ölçeğine İlişkin Geçerlilik ve Güvenirlik Analizleri 81

1. BÖLÜM

3.7. BULGULAR

3.7.2. Faktör Analizleri

3.7.2.1. İşveren Markası Ölçeğine İlişkin Geçerlilik ve Güvenirlik Analizleri 81

A descrição do fenômeno psicótico nas crianças com uma ideação delirante se assemelha à de um adulto. A partir da emergência de fenômenos elementares e de alucinações, constrói-se o delírio. Muitas vezes, as fabulações ideativas que não se organizam como um delírio dificultam o diagnóstico diferencial. Trata- se de uma criança muito imaginativa ou de um delírio? Que relação mantém com o que diz? É uma certeza psicótica ou uma crença dialetizável? A precisão diagnóstica a partir da linguagem – de acordo com a indicação de Lacan – se impõe tanto para a criança quanto para o adulto (TENDLARZ, 1997, p.19).

Vejamos o primeiro aspecto a destacar da relação com a linguagem. Quando Rogério conta suas estórias para a turma, a estória parece não ter fim e caminha em várias direções - como se não houvesse “meta” ou núcleo em torno do qual a fala se organizasse. Outro aspecto que Edna destaca é a emergência de zumbis e babaus em suas estórias. Primeiro iremos abordar a fala sem meta e no próximo tópico – dedicado à posição passiva e aos medos de Rogério – abordaremos a emergência dos zumbis e babaus.

Rogério se interessa por fragmentos, não seguindo o fio condutor da estória. Quando lemos uma estória, se detém em objetos que aparecem isolados, num funcionamento compactado. Um dia, lhe contei uma estória (A história de Malaquias)

. A passagem seguinte nos indica alguns aspectos de sua relação com a linguagem:

Rogério Olha lá, tudo é bolha, ó[...]a cabeça dele[...]‒

Caciana Tudo é bolha[...] você vê a cabeça dele? Tudo é bolha[...] Olha: os‒ livros[...] e as bolhas[...]

Rogério Ó[...] e aí[...] ó[...] tá olhando[...] tá vendo a bolha, olhando[...]‒ [Aponto para o personagem, um menino, e indico para onde ele olha]: Caciana Olha a bolha, ele olhando[...]‒

Rogério E isso [...] [aponta uma corôa].‒ ‒ Caciana É a corôa[...] que ele lia nos livros[...]‒ Rogério Tá olhando[...] ele[...] tá olhando o quê?‒ Caciana Você quer saber pra onde ele tá olhando?‒

[...] ‒

Caciana Eu acho que ele tá pensando na estória que ele leu[...] ele leu e tá‒ pensando na estória[...]

Rogério É[...] confirma com a cabeça[...] é[...]‒ ‒ ‒

Caciana Ele acendia uma vela[...] e segurava o livro pra ler uma estória[...]‒ pra ele sonhar[...] e quanto mais ele lia mais ele sonhava[...]

Rogério É[...] olha aí a boca dele[...] quando ele abria a boca[...]‒ Caciana O quê? O que acontecia quando ele abria a boca?‒ Rogério Eu disse quando ele tinha abrido a boca[...] aí?‒ Caciana Aí[...]? Não sei[...] O que aconteceu?‒

Rogério Também não sei[...] mas o que[...]‒

Caciana Tá escrito aqui no livro que ele leu a estória e ficou pensando em um‒ castelo.

Rogério E abriu a boca[...] e abriu a boca[...] e depois, quando abriu a boca e‒ depois[...] ele caiu de sono, né? Pensamento com a boca[...]

Caciana Pensamento com a boca? ‒

Rogério Parece que ele tá voando[...] a bolha[...]‒ Caciana É. Parece que ele tá voando[...]‒

Rogério ‒ Bolha vua[...] vua e até cai no chão[...] cai, ele sobe[...] mas espoca[...]

Caciana A bola voa e depois espoca?‒

Rogério Se tiver alguém, não (es)poca, se tiver ninguém aí (es)poca.‒ Caciana Se tiver alguém não espoca?‒

Rogério É[...] espoca se[...] é[...] se tiver alguém, não espoca[...] Como é?‒ Caciana Se tiver alguém não espoca[...] e se não tiver alguém[...] espoca[...]‒ É?

Rogério É, né? [...] Eu acho que é desse jeito[...]‒ [Prossegue]:

Rogério Né? Da outra[...] da outra bolha, né? Ele tava dentro da bolha[...]‒ que[...] que[...] que[...] não pode tirar ele[...] né? Aí lá no final ele saiu da bolha[...] né? Aí chega né[...] aí ele fechou e morreu[...] aí ele ficou vivo[...] aí saiu[...] aí depois[...] saiu[...] foi[...]

Durante a leitura da estória, Rogério se refere de modo mais insistente à bolha e à boca, que por sua vez promovem associações à cabeça e ao olhar. A bolha, de início, aparece na afirmação “olha lá, tudo é bolha”, que se faz seguir da observação: “olha[...] a cabeça dele”. Logo depois: “ele olha[...]a bolha”. A imagem do livro traz um menino com bolhas na cabeça e outros objetos com os quais imaginava. Rogério interroga: o quê ele tá olhando? Não sabe[...] Quando digo que a estória diz que ele está pensando, Rogério diz: “e abriu a boca[...] e depois, quando abriu a boca e depois[...] ele caiu de sono, né? Pensamento com a boca[...]”. Aqui vemos

a associação entre a boca, o sono, e então “pensamento com a boca”. Ele havia falado da boca e eu havia falado que ele – o menino da estória - estava pensando. Parece ter-se associado boca e pensamento. Segue e diz “bolha vua[...]”. A bolha voa, cai, espoca. Formula: “se tiver alguém, não espoca, se tiver ninguém aí espoca[...]”. Quando interrogo esta formulação, Rogério faz outra associação: “ele tava dentro da bolha[...] que[...]que[...]que[...] não pode tirar ele[...] né? Aí lá no final ele saiu da bolha[...], né? Aí chega né[...] aí ele fechou e morreu[...] aí ele ficou vivo[...] aí saiu[...] aí depois[...] saiu[...] foi[...]”.

A relação de Rogério com a linguagem é marcada pela presença de palavras “que não remetem a um efeito de sentido, mas a um vazio de significação” (TENDLARZ, 1997, p. 20). Quando lê estórias, sente-se atraído por objetos que rolam ou circulam, como na estória de uma bola – pela qual se interessou - que circula, sendo “arremessada” por uma sequência de animais. Na esquizofrenia, há uma vacância entre os restos recolhidos da fala do outro e seu relançamento que pressupõe o entrelaçamento entre significante e significado. Daí algumas palavras serem recolhidas e ficarem à deriva, sem arrimo no sentido. Rogério fica siderado por estas palavras, que repete, repete, mas esta repetição não avança a cadeia e a palavra parece se fechar nela mesma. Se a criança corta a cadeia significante fazendo operar aí um intervalo, o que acontece é que entre a fala de um e de outro há enigma. O que vem do Outro não pode ser reproduzido sem falha, havendo sempre uma dessimetria entre o que a criança recolhe do Outro e o que produz do seu lugar. Na psicose, se há compactação ou solidificação entre S1 e S2, vamos observar uma problemática em torno da emergência dessa fala que se produz com “falha”. É a própria falha entre o Outro e a criança que se encontra abolida, o que reafirma o ponto em que estamos a insistir: na psicose, a organização subjetiva do sujeito não conta com a inscrição da falta como ocorre nos sujeitos neuróticos.

Na psicose não há questão, se considerarmos a vertente de “extração” que pressupõe toda questão. Se há questão, há interpretação. O neurótico interpreta e como efeito de interpretação há algo que cai entre o real e a face imaginária da interpretação. O neurótico é aquele que reconhece uma “perda” entre o real e a cobertura imaginária. E o reconhecimento desta produz, no mesmo ato, uma função de ligação, de costura, entre significante e significado. É porque o neurótico faz operar sobre o real uma perda que pode, dialeticamente, dispor de uma função de engate, de amarração para ligar os registros e para articular significante e significado.

Como vimos, a representação-meta presente em todo pensamento é tributária do significante-mestre (S1) como significante que representa a incorporação do Nome- do Pai no

lugar do Outro. A ausência de S1 na esquizofrenia tem como resultado a dispersão dos significantes. À dispersão dos significantes corresponde a dispersão dos membros, dos órgãos do corpo, do pensamento. Rogério, quando escuta uma estória, quando ouve alguém falar ou quando fala, sofre o efeito da emergência de determinadas palavras: são palavras que lhe fazem “parar” e depois seguir em outra direção de acordo com associações que não estão referidas ao “norte” do assunto.

Uma palavra, portanto, pode modificar o curso das associações na fala, assim como um acontecimento, um objeto, pode modificar o curso do pensamento. Por isso a dispersão descrita pelas professoras. Se não há ponto de ancoragem que permita à fala organizar-se em torno de um centro, os efeitos vão desde a fala ininterrupta até a suspensão do pensamento. Rogério, justamente, ora fala sem parar, seguindo em várias direções, ora faz um branco, uma espécie de suspensão da palavra e do pensamento. Observam-se também esses “retornos” de alguma coisa que não consegue ser dita, daí os autores indicarem que uma significação fica sem nome. É como se ele tentasse dizer algo, mas lhe faltasse palavras, ou melhor, que seja uma palavra e não outra, isso não é certo. Como se, ao contar uma experiência, alguém pudesse contá-la com tantas palavras que já não sabe qual palavra “pegar”, “fisgar”. Quando conversa com algum amigo em sala, diz a todo instante: “Como é?”. Ele diz que vai falar e quando vai falar, há uma suspensão, então diz: “Como é?”. Fica então olhando para o interlocutor e a conversa continua quando o interlocutor “oferta” uma palavra. Daí ele segue produzindo associações com a palavra que o interlocutor disse. Como geralmente segue as associações sem relação com o que estava sendo dito antes, ocorre de alguma palavra lhe fazer voltar ao ponto anterior (ao tema anterior) e então o efeito é de surpresa, de exclamação: “Ah!” ou “Apois!”. E segue às vezes falando: “Eu tava dizendo né...”. Mas quando vai fechar novamente um sentido, volta: “O quê? O que era mesmo? Que tu disse?”.

Encontramos em Rogério essa modalidade de relação com a linguagem em que o signo é “profundamente desnaturado” (LECLAIRE, 1991, p. 98), onde os significados parecem não encontrar um referente estável que confira à palavra sua estabilidade. No personagem da estória Rogério recolhe o “abrir a boca” e fica siderado. Faz a todo instante referência à boca. Depois fala do “pensamento com a boca”. Analistas de crianças fazem uma referência particular à representação do corpo como uma grande borda, uma boca, o que corresponde à noção mesma do aparelho psíquico com estrutura de borda. Também aparece o “comer” nas estórias de babau e nos sonhos que Rogério conta. Freud formula fases da organização da libido anteriores à

constituição do eu, em que as zonas erógenas atuam de forma autonômica, sem articulação em torno de um primado. Aqui não há “um corpo” que suporta e articula as zonas erógenas, mas pontos de emergência pulsional que têm a estrutura de borda por onde se apreende o objeto. A boca, órgão privilegiado desde o nascimento, irá funcionar como paradigmática do que, na relação com o objeto, funciona na lógica da apropriação ou da devoração. Comer implica a destruição e a incorporação do objeto, funcionamento que expõe a lógica de um confronto em que um dos termos desaparece, sendo incorporado pelo outro termo que então resta único. Aparecer, desaparecer, espocar... Assim como a bolha espoca, Rogério faz “explosões”, coisas que espocam, quando gira o lápis.

Nos chamou atenção a predominância da ordem visual na relação que estabelece com os objetos. Quase todo o tempo Rogério fica com “seus” objetos: o lápis, que gira, faz voar e espoca; a ponta de sua blusa, que olha enquanto balbucia sons que não chegam a formar palavras. Diante dos livros, se liga muito às gravuras, em relação às quais quer ouvir o nome ou uma ação que lhe corresponda. Não se relaciona com a narrativa, mas com os nomes e ações de forma separada. Mas esses nomes e ações sofrem uma “compactação” - parecem constituir, em si, um mundo. Deles Rogério pode extrair muitas associações e ficar só ali, sem seguir a estória adiante, como vimos no fragmento acima.

O processo de aquisição da leitura e da escrita, fundamental na série em que se encontra, promoveu algumas mudanças que apresentaremos logo adiante. Com os amigos, retomando à ordem visual que parece predominar, as brincadeiras que mais lhe interessam são as que tomam o corpo de forma privilegiada (futebol, pega-pega, as lutas entre os meninos, etc). Não se interessa por brincadeiras de “faz de conta”, não compreende o que se passa. Veremos que o seu faz de conta se apresenta de uma forma particular - não como faz de conta exatamente, mas como estórias “reais” de babaus e zumbis.

A experiência da realidade de um objeto pressupõe que este seja imaginado e simbolizado. O imaginário, sozinho, não institui movimento dialético ao objeto - o que só pode ser conferido pelo simbólico que então o situa, localiza. O simbólico investe o objeto de um valor (portanto, o valor é necessariamente simbólico) e o imaginário investe o objeto de forma, de contorno. A comunicação pressupõe o relato da experiência na articulação dos dois registros. Rogério nos mostra como a relação com a linguagem pode não contar com a vertente imaginária do objeto. A realidade, como consequência, fica desprovida de forma, limite, peso. Há uma espécie de flutuação das palavras: elas podem apontar em tantas direções que ao fim não dizem nada, não

“fecham” sentido algum.

Façamos, então, uma distinção: quanto à ordem visual, estamos afirmando que os objetos se apresentam sem ligação ou com a ligação frouxa, como no processo primário. Os objetos são tomados e se associam sem formar sentido ou pensamento. Como o lápis que voa, se choca com outro e espoca; como a bola, que sobe e espoca; como a boca, que leva à pensamento com a boca, mas não “fecha” uma afirmação, uma frase. A fala de Rogério apresenta mais palavras- objeto que circulam, vão e vem, e não palavras inseridas em uma ordem que conduz a uma afirmação. Por isso falamos de uma prevalência da ordem visual: queremos indicar um funcionamento regido pelo fluxo livre e pouco secundarizado da palavra. A relação com a palavra, por sua vez, já mostra um trabalho porque permite que uma parcela do objeto seja investida, que é justamente a parcela da representação de palavra.

Já a ausência de imaginarização quer dizer que o fluxo das palavras não forma, não confere contorno, borda, limite, portanto, não permite que um pensamento se feche ou que um sentido seja produzido sob a ação de uma barra. Significações abrem outras significações numa cadeia sem fim, daí a diferença entre a significação e o sentido ser importante na abordagem da esquizofrenia. A significação fálica é a significação que se torna possível quando uma afirmação, Tu és, vem “no lugar” de algo que se apresenta, antes, no real:

A significação fálica, ao mesmo tempo em que suscita o efeito de verdade, aponta aí mesmo para algo irredutível que não se deixa apreender numa ilusão totalizante. […] Por mais que se diga, há algo que não vem à luz, algo que falta para ser articulado, que é articulável mas escapa à articulação. Há qualquer coisa que insiste como enigma, alguma coisa que não se confunde nem com a proposição, nem com o objeto ou estado de coisas que ela designa, nem com o vivido, a representação ou a atividade mental daquele que se expressa na proposição, nem com os conceitos ou mesmo as essências significadas. Essa alguma coisa é o sentido. (SOUZA, 1991, p. 15).

O sentido se relaciona com a significação como “a mais”, para além dela, o que torna a significação não-toda, parcial. O sentido é fruto do não-sentido, tem com o não-sentido uma relação interior e necessária, pois “o não-senso, por não possuir nenhum sentido particular, abre- se à multiplicidade de sentidos possíveis, produzindo-o em excesso, se opondo assim não ao sentido, mas à sua ausência” (SOUZA, 1991, p. 16). Na fala de Rogério as palavras abrem-se para múltiplas significações, mas significações que não levam a um lugar, que não são ordenadas a partir de um centro. De tantas significações o que resta é a impossibilidade mesma do sentido, o que mostra que o excesso de sentido é o avesso do não-senso. Não há sentido que se sustente, 173

pois não há “contorno” ou “bordejamento” nessa avalanche de significações.