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B. Siyasi Partilerin Seçim Kampanyası Gelir ve Giderlerinin Açıklanması

1) Kamuyu Aydınlatma Yükümlülüğü

No início de outubro já existe uma constante movimentação em torno das Covinhas, cuja aproximação da data da festa faz intensificar-se. Embora seja notório que esse período mobilize mais pessoas, por meio de algumas estratégias e do fluxo de freqüentadores que tende a se acentuar, existem operações que antecedem a todos esses movimentos e, por vezes, os definem. Para explicá-las preciso contextualizá-las no trabalho de campo e por isso faço um breve retrospecto.

Já havia se passado quatro anos desde que eu conhecera as Covinhas e começara a freqüentar a festa. Algumas coisas já me eram “naturais” e transpiravam pouca novidade. Além das histórias novas de milagres que eu sempre ouvia, de algumas mudanças na organização da festa e dos movimentos e interesses de alguns sujeitos, especialmente Seu Bento e o padre, que cada vez se revelavam mais nítidos, nenhuma notícia recente me vinha do campo. Provavelmente porque não encontrara ainda uma fonte que ma relatasse.

No fim de 2009, quando muito do trabalho já estava encaminhado e não havia mais planos de voltar a campo, algumas questões com respostas parciais me impulsionaram a percorrer mais uma vez aqueles tantos quilômetros que separam Natal das Covinhas. Não descobri nenhum segredo, tampouco alguma revelação bombástica, mas encontrei um elo para uma questão que ainda não havia se fechado por completo entre as inquietações suscitadas pelo trabalho de campo: como é que a festa ganhava as proporções que a vi atingir, com o fluxo de pessoas de outras cidades que a freqüentavam, contando com estratégias de divulgação tão singelas e pouco sistemáticas como aquelas que eu havia levantado a priori?

Não conhecia artifícios de divulgação do culto que não fossem aqueles inscritos nos padrões tradicionais de comunicação de pequeno alcance, resultante das interações face-a-face. Essa estratégia, embora ao longo dos anos pudesse alcançar um raio de abrangência razoável nas cercanias de onde se processa o culto, precisaria de outros elementos que justificassem sua eficiência em continuar fazendo crescer o número de participantes que vêm ao santuário. Não obstante, a proximidade, a circulação de informações e um prestígio social continuamente em produção poderiam até esclarecer essa adesão local ao culto.

Mas não parava por ai. Para além daquela pergunta, como se explicava uma expansão do culto para novas fronteiras? O que nesses lugares fomentaria a aspiração pelo culto, estabelecendo-o como referência que movimenta romarias anuais no dia da festa? Será que só o boca-a-boca desinteressado seria capaz de ter repercussão a ponto de criar disposições para a formação de grupos que se deslocam com custeio privado a fim de participar de uma festa local direcionada para “santas nativas” ?

As respostas para essas questões suponho tê-las encontrado a partir da conversa com uma senhora de Itajá, município localizado no Vale do Assu, distante 200 km do santuário. Dona Antônia me disse que há muitos anos vem às Covinhas, pois é comadre de Seu Bento e desde que ele começou aquela devoção ela freqüenta o lugar. Sem maiores pretensões, a anciã me repetiu muitas das histórias que já havia ouvido várias vezes, contudo, quando perguntei a razão de ela vir de tão longe para a festa Dona Antônia me forneceu as coordenadas de algo que até então eu desconhecia.

Existia um grupo organizado que vinha de Itajá para prestigiar a festa já há certo tempo e, pelo que me pareceu na conversa, Dona Antônia foi a articuladora dessas romarias em sua comunidade desde o início. Seu fervor cristão e a crença no poder das Meninas lhe motivavam a vir às Covinhas e divulgar a ação daquelas santas por toda parte. A estratégia posta em ação por Dona Antônia não se diferenciava muito daquelas que se replicam entre os diversos grupos de outras comunidades que anualmente se dirigem à festa, salvo pela presença circunstancial de Seu Bento no processo de mobilização para a viagem.

Aproximadamente 30 dias antes da festa Seu Bento costuma ir até Itajá, onde se hospeda na casa de sua comadre. Por lá ele realiza visitas nas casas de alguns moradores que tanto podem lhe ser apresentados por Dona Antônia como por outros romeiros que já foram às Covinhas. Durante o encontro, Seu Bento narra sua história e a do santuário, além de apresentar os muitos casos de milagres operados pelas Meninas. Concluída a “divulgação”, Seu Bento passa ao momento de “captação”, no qual ele pede aos interlocutores que colaborem com “esmolas35” para obras/manutenção do

santuário ou para a aquisição de presentes para ser distribuídos na festa. Na mesma visita, ele convida as pessoas a participar da festa, incentivando-as assim a fazer romaria até as Covinhas.

Embora a atuação de Seu Bento demonstre pelo menos três enfoques distintos, o desempenho delas é indissociável. Divulgação, captação e mobilização fazem parte de uma mesma estratégia conhecida como comissão. A prática de comissão consiste na organização de um calendário de visitas a residências e propriedades com vistas à

exposição de alguma ação e à arrecadação de fundos em prol dessas atividades36. Na comissão, os encarregados realizam um trabalho corpo-a-corpo, em conversas envolvendo pequenos grupos de parentes e vizinhos que se encontram num local de conversação doméstica como o alpendre de casa, a calçada ou o terreiro. A conversa é encaminhada numa linguagem familiar, com relações bastante próximas e afetivas, nas quais os interlocutores são interpelados pelo nome ou por vocativos que estabelecem ligações pessoais como “cumade”, ”cumpade”.

Nas condições gerais que esteiam a prática, “sair em comissão” pode resultar em saldos de diversas espécies, desde dinheiro a animais ou gêneros alimentícios, além do que quando ela se realiza em áreas de comércio os produtos podem assumir uma variedade ainda maior. A razão para essa amplitude se relaciona com o fato de que as pessoas quando se dispõem a colaborar, podem fazê-lo ofertando o que tem. Nessas situações, contudo, são requeridas estruturas logísticas para o recolhimento das doações, as quais acredito não existirem no caso de Seu Bento. Dessa forma, sua coleta é exclusivamente pecuniária, sob a forma de esmolas.

Ainda sobre a noção de comissão, esta pressupõe a incumbência personalizada de alguma tarefa, cujos executores perfazem o papel de comissários. Essa terminologia não é uma expressão nativa, utilizada pelas pessoas para definir o emissário que faz as visitas, entretanto, sua condição é alvo de reconhecimento público. Assim, instituído pela praxe da ação, as pessoas passam a identificar aquele que faz a comissão como seu representante legítimo.

Na comissão existe ainda o aspecto da recursividade, haja vista que as ações que ela representa em geral têm caráter contínuo, portanto, pressupõem uma espécie de repetição cíclica. Com isso, à medida que a comissão se estabelece enquanto prática circular, ela também costuma ser acompanhada da formação de uma rede de relações de cooperação. Nessa, passam a estar posicionados os doadores tradicionais, além de outros que são percebidos como potencialmente assimiláveis. Em Itajá, pelas palavras de Dona Antônia, fazer comissão para as Covinhas me pareceu uma prática já instituída

36 Ainda que não tenha encontrado referências em outros trabalhos acerca desse exercício, creio ser essa uma estratégia razoavelmente disseminada pelo menos em áreas rurais do Estado do RN, pois tenho conhecimento de sua prática há mais de 40 anos na região do Potengi.

e que acontece com uma regularidade esperada: “quando vai chegando aqueles dias, ele [Seu Bento] não deixa de ir, viu? E as pessoas ajuda muito a ele por lá”.

O papel de Dona Antônia, como articuladora local, contribui na produção da rede de contatos, uma vez que é ela que apresenta Seu Bento aos moradores, além de acompanhá-lo durante sua peregrinação pela comunidade. Segundo ela, da mesma forma como todo mundo no Itajá a conhece, ela própria também conhece muita gente. Disso resulta que Dona Antônia funciona como agente privilegiado na mediação das relações que se processam naquela localidade.

Além de Itajá, Dona Antônia me acrescentou que embora nunca tenha acompanhado Seu Bento em outras comissões é de seu conhecimento que ele as realiza noutras localidades. Essa informação se tornou preciosa, pois, enfim, pude colar pedaços que dispunha, mas que não sabia onde se encaixavam.

Numa fala de Seu Bento, em resposta a algumas acusações proferidas pelo padre durante a homilia e noutros momentos da missa, ainda no ano de 2007, ele fez questão de agradecer a ajuda/esmolas dos romeiros de diversas comunidades. Durante o discurso ele listou mais de uma dezena de lugares, especialmente sítios e distritos, mas mencionou municípios como Mossoró, Serra do Mel, Pau-dos-Ferros, Martins e Portalegre. Àquela altura, deslocada do contexto de sua fala que se reportava sutilmente a uma experiência pregressa, entendi equivocadamente que os agradecimentos eram voltados para os que ali estavam, procedentes dessas localidades e que o tinham ajudado naquelas condições presentes.

Com as informações de Dona Antônia, voltei à precária gravação do discurso que havia conseguido coletar e percebi com maior nitidez que todos esses eram lugares por onde ele havia passado em comissão antes da festa. Diferentemente do que pensava até então, descobri todo um esquema relativamente organizado e estabelecido de contatos e visitas que articula lideranças e pessoas em muitas comunidades da região, mas também fora dela: “Nós sai por aí na garupa de uma moto, andando por ai, pegando carro por aqui, por aculá, pedindo”(Seu Bento, Depoimento público, 2007). Naqueles dias que antecedem a festa, portanto, existe um calendário firmado e articuladores posicionados, geralmente parentes e compadres, que organizam previamente o campo para a atuação de Seu Bento.

Considerando que a prática das comissões institui um padrão de relações mais sistemáticas e organizadas do que aquelas fortuitas que se produzem no santuário, sobretudo no dia da festa, é possível pensá-la como explicação razoável para a expansão do culto. Por meio das comissões, Seu Bento divulga o lugar e as Meninas, além do que cria através das esmolas um elo entre os doadores e o santuário, transformando-os em rumeiros37.

Em última instância também, para além das relações humanas, o ato de ajudar as Covinhas estabelece uma parceria entre o doador e as Meninas. Possibilitando, com isso, o início de uma relação mais duradoura que se efetiva por meio da continuidade na colaboração e da romaria.

Além do esforço pessoal de Seu Bento em realizar as comissões, outras formas de articulação semelhantes também podem colaborar nesse mesmo sentido, proporcionando com isso uma espécie de capilaridade, cuja ação singular daquele comissário não consegue alcançar.

Em 2007, quando estive no santuário em período não festivo, além de novas conversas com Seu Bento pedi-lhe permissão para fotocopiar algumas das cartas deixadas pelos devotos na capela e que eu sabia ele costumava guardá-las. Com a presteza que sempre me atendeu durante toda a pesquisa, Seu Bento colocou-se a recolher nos quatro cantos de sua casa pequenas epístolas e alguns bilhetes com mensagens singelas e testemunhos diversos.

Numa dessas, a maior de todas, se seqüenciavam no texto a reprodução de passagens bíblicas, o relato de uma graça e a especificação da forma de sua contraprestação. A carta me chamou atenção não tanto pelo tamanho ou pelo formato, que explicitamente se preocupava em estabelecer todas as condições e cláusulas do acordo firmado entre o agraciado e as Meninas. Mais do que isso, o dado sugestivo era o da constituição de uma espécie de rede de arrecadação que se consorciava no esforço de contraprestação do milagre. Reproduzo abaixo o trecho onde o devoto registra o contexto da graça e o voto firmado:

37 Rumeiro, para além da noção de romeiro que pressupõem deslocamento, peregrinação, é uma categoria acionada por Seu Bento para definir todos aqueles que colaboram com o santuário sob a forma das esmolas. Assim, alguém pode ser rumeiro sem nunca ter ido às Covinhas.

Dessidiu tentar uma saída em busca de cura que lhe arremidiace a sua situação.

Porcurou os médicos diverssas vezes para se consultar mais mesm assim o medicamento não dava serto:

No dia 12 de outubro de 2007 êle veio visitar as meninas das Covinhas pela primeira vez. Ela vio a multidão de muitas pessoas e vio quer naquela capela alir distante da cidade de Rodolfo Fernandes tinha um mistério muito grande mandado por nosso superior. O senhor Jesus Cristo. Chegou alir na localidade das Covinhas justamente onde se avia-se sepultada as meninas das covinhas por volta as 12 horas do dia e se ajuelho-se na terra quente e pediu umas graças as meninas das covinhas se ficase boa da infermidade que ela vnha sofrendo diante do nosso superior e salvador Jesus Cristo sair pedindo umas contribuições para as meninas da covinhas.

A promessa foi feita assim! 1 VOTO

Para pedir as pessoas de bom coração qualquer contidade em dinheio seijas quanto for.

As pessoas que colaborarem, com Jesus e as crianças vão lhe abençuar.

Terminado o prazo de recadar, dá um pouco do dinheiro para o padroeiro São Francisco das Chagas, que fica na capela do sítio racajú município de Riacho da Cruz/RN.

Tirar o dízimo das ofertas para o Sagrado Coração de Jesus na cidade de Riacho da Cruz

- o restante das ofertas para as meninas das Covinhas.

Seqüencia o texto uma “prestação de contas” que relaciona a arrecadação, os contribuintes e a forma de sua aplicação:

*Sagrado Coração de Jesus Valor do dízimo: = total R$ 14,00

Padroeiro São Francisco no Sítio Aracajú RN Também recebeu o valor em dinheiro: R$ 18,00

O restante para as meninas das covinhas = o valor em dinheiro de:

R$ 100,35 2,00 102,35 O nome das pessoas são:

São as seguintes: quer está na lista a seguir: [Seguem várias assinaturas]

Analisando o fragmento é possível perceber que para além da dimensão subjetiva registrada comumente nas cartas, e que aparece na primeira parte desta, o que a missiva traz de elemento diferencial é sua forma de contraprestação. Nela estão implicados esforços que articulam a promessa num circuito maior de relações do que aquelas de foro do sujeito ou de suas relações próximas, parentais. Tal como Seu Bento, o devoto que redige a carta pôs em curso uma espécie de comissão, com estratégias semelhantes àquelas usadas em Itajá.

As informações do discurso de Seu Bento e o relato de Dona Antônia me permitiram associar as ações registradas na carta como participante do circuito ampliado das comissões, haja vista que conhecedor da limitação de seu alcance, Seu Bento costuma pedir aos romeiros que o ajudem na sua obra. Assim, sempre que uma pessoa ou grupo visita o santuário - e eu mesma passei por isso - é sensibilizada a colaborar com as Covinhas. Essa colaboração pode ser do “tamanho que for”, e mesmo quando não seja possível ao interlocutor sozinho colaborar ele pode pedir a outros que ajudem.

Num primeiro momento compreendi que a ajuda era aquela de caráter imediato, que os visitantes costumam oferecer durante suas visitas. A descoberta das redes de colaboração, no entanto, me revelou que havia estratégias mais dinâmicas e eficientes que potencializam a divulgação e a arrecadação, difundindo-as capilarmente nas comunidades próximas, mas também conquistando novos horizontes. Assim, o que aparece no discurso como condição de uma providência divina, revela as estratégias muito mais concretas e singulares. Faz delas, também, mais eficazes a ponto de permitirem que o culto ultrapasse suas fronteiras iniciais.