As atividades que se processam no santuário afora o período da festa se realizam em estrita dependência com a demanda da piedade particular. Assim, motivados por razões que na maior parte dos casos envolve o pagamento de votos e promessas, as pessoas vão ao santuário deixar algum objeto, fazer suas ofertas e realizar suas orações.
Salvaguardo em situações onde o pagamento da promessa envolva grupos maiores, articulando familiares e conhecidos, o mais comum é que a visita seja feita em pequenos grupos, de duas a cinco pessoas, em carros de passeio ou mesmo em motocicletas e numa única visita. A extensão desses grupos e a freqüência, mormente, dependem daquilo que se promete, uma oração ou uma novena, e das condições de contraprestação, por exemplo, se no momento do pagamento as condições financeiras são mais favoráveis ou não. Ainda sobre a quantidade de pessoas, quando o grupo é
relativamente grande, o número de carros pode se assemelhar a uma carreata-romaria. Mas, esses casos, embora já tenham acontecido, são fatos excepcionais.
Tanto Seu Bento34 como moradores da comunidade com os quais conversei, afirmaram ser rotineiro que pessoas tanto de Rodolfo Fernandes como de localidades próximas ou distantes venham pagar suas promessas nas Covinhas em período diferente da festa. A justificativa para as visitas intempestivas podem ser de várias ordens. Aquelas que me foram fornecidas podem ser classificadas sob três espécies: as que envolvem questões espaciais, as que expressam a diligência das Meninas e as que pressupõem um prolongamento temporal.
A primeira é também a mais mencionada, sobretudo, por Seu Bento. Nessas situações são relatados casos de pessoas oriundas de lugares distantes que enfrentaram longas e difíceis jornadas a fim de vir pagar uma promessa com as Meninas, das quais os visitantes já tinham ouvido falar por terceiros.
Em geral, são mencionados como lugar de origem os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, entretanto, também foram citados alguns Estados do Norte e do Nordeste. Ouvi ainda alusão “a pessoas que vieram do estrangeiro”, de países da América Latina, como Peru e Argentina. Em todos os casos, porém, é a distância geográfica que separa as Covinhas do lugar de origem dos romeiros que é usada como artifício retórico importante para a capitalização do culto e de suas personagens. A presença dessas pessoas funciona, e é assim explorada, como argumento para mostrar o quanto as Meninas são milagrosas e do quanto seu poder já se desenraizou da área local de difusão e abrangência do culto.
Ao motivo espacial segue-se outro, diria geograficamente especular. Os romeiros que moram em localidades próximas ao santuário, conhecedores do poder intercessor e milagroso das Meninas costumam fazer promessas para alcançar graças que carecem de certa urgência. Ao serem atendidos em seus pedidos, os devotos sentem-se compelidos a pagar suas promessas o mais rápido possível, sobretudo, quando ela não tem implicados elementos que requeiram um tempo de espera, como no caso das promessas feitas para se cumprir durante a festa. Nesses casos, figura uma lógica de reciprocidade imediata, que vê na demora da contraprestação uma espécie de
quebra de acordo, como se o devoto estivesse “enrolando o santo”. Assim, tal como atendidos com presteza, os devotos devem corresponder com atitude à altura das santas.
Nessa mesma categoria também podem estar os casos em que por alguma conjuntura seja mais cômodo ir ao santuário em dias não festivos e devido à proximidade espacial isso possa acontecer de forma mais flexível. Podem ser razões para isso alguma facilidade de deslocamento, como um convite de alguém que também vai para lá pagar promessa, ou alguma necessidade especial, como em situações de doenças, estado de saúde ou condições físicas que não permitiram, permitam ou permitirão ir às Covinhas no dia da festa.
Enfim, afora esses pretextos, também há aqueles que pressupondo uma seqüência temporal de atividades, como no caso das novenas, é necessário realizar visitas sucessivas e seqüenciadas que não podem ser concentradas num único dia. Além das novenas, votos como acender velas no santuário durante um período de dias também podem impelir os devotos a realizar suas visitas necessariamente em períodos distintos da festa.
No que tange às práticas rituais, aquilo que se faz no santuário em dias comuns não se diferencia muito das ações executadas em dias de festa. Os romeiros costumam fazer orações individuais e coletivas, de acordo com a conjuntura da visita, na cova, no altar e no cruzeiro. Rezam terços, rosários, ladainhas e nos casos próprios, fazem novenas dedicadas a algum santo em especial. Além disso, reproduzem a prática de apresentar seus ex-votos na cova ou no altar, de fazer o uso da água reservada no fosso e de acender velas.
Não obstante, as ofertas nesse período são dirigidas estritamente às Meninas sob a forma de mamadeiras, chupetas, brinquedos e garrafas d‟água. Além dessa, outra modalidade pode ser a contribuição com recursos financeiros entregues à Seu Bento para melhoria e manutenção do santuário. Já a oferta de presentes, mesmo quando sua distribuição era um dos pontos altos da festa, ela não se realizava durante o calendário comum, a não ser quando a visita acontecia em período que antecedia proximamente a festa e os presentes podiam ser entregues a Seu Bento para distribuí-los na solenidade.
Exceto no dia da festa não acontecem no santuário atividades dirigidas ou assistidas pelo padre ou equipe leiga ligada à paróquia. Serviços como batizados,
casamentos, missas e celebrações não são realizadas na capela pelo simples fato de essa não ser uma estrutura da Igreja, mas figurar em última instância como um templo particular. Além do aspecto formal de pertença, que impede por meio de orientações pastorais e canônicas a realização dos serviços mencionados, existe uma pública disputa entre o padre que atende no município e Seu Bento, articulador e mantenedor da capela. Assim, o primeiro se recusa expressamente a realizar quaisquer atividades no santuário, à exceção da missa celebrada no dia da festa, enquanto as Covinhas não pertencerem à Igreja.
Mediante a querela, multiplicam-se as queixas registradas entre os devotos, pois eles costumam se comprometer com as Meninas de “mandar rezar uma missa na capela” pelas suas almas ou em agradecimento pela saúde/cura de alguém ou ainda por uma graça alcançada etc. Independentemente dos motivos, todos são reincidentemente negados pela autoridade paroquial e com isso a contraprestação da promessa não se cumpre.
Diante do cenário, embora o sacerdote busque contornar esses episódios com saídas possíveis, como rezar a missa na igreja matriz de Rodolfo Fernandes ao invés de na capela, as alternativas freqüentemente não são acolhidas ou quando são, rescendem nos devotos o peso do compromisso incompleto. Tal como as missas, os batizados também são, amiúde, objeto de controvérsias, ainda que seja as missas o alvo mais freqüente.