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A metodologia LABLITA constitui uma abordagem inovadora para o estudo de ilocuções por aliar uma fase empírica de identificação das ilocuções em corpus a uma fase experimental para descrição de suas formas prosódicas. A fase empírica conta com uma análise pragmático- cognitiva que considera um pequeno número de fatores para explicar as diferenças entre as

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A autora usa os símbolos [1A] e [D], de ‘t Hart et al. (1990) para caracterizar a configuração de f0 das ilocuções.

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119 ilocuções. Esse procedimento permite discriminar, dentre todas as propriedades contextuais que caracterizam um evento de fala, quais são aquelas pertinentes para compreender em que medida as ilocuções se diferenciam. Além disso, o trabalho em corpus permite que o pesquisador identifique um número significativo de ilocuções que não poderiam nem mesmo ser concebidas a partir de um critério lógico-lexical como o de Searle (1979), como as ilocuções que não se associam a um verbo performativo (Dêixis, Chamamento, Cumprimento e outras). Outro grande mérito do trabalho empírico é o de garantir que o pesquisador observe diretamente os perfis efetivamente usados pelos falantes na comunicação cotidiana.

A fase experimental da metodologia também é de grande relevância. A criação de cenas de eliciação para cada ilocução permite que se controlem os fatores linguísticos e extralinguísticos que podem influenciar na realização prosódica do enunciado. Além disso – e aqui está o seu caráter mais inovador –, as cenas garantem (a) que os perfis analisados correspondam, de fato, àqueles das ilocuções que se deseja estudar e (b) que o pesquisador saiba com precisão qual é a função que esses perfis cumprem na comunicação. Sendo assim, evita-se que se descrevam perfis que existem em uma língua, mas que não se sabe ao certo como são usados pelos falantes ou perfis que não tenham valor paradigmático. Por esse motivo, a metodologia defende que o trabalho de eliciação dos perfis prosódicos seja indissociável do trabalho de coleta e análise pragmática dos exemplos de corpus.

Apesar de seus expressivos méritos, a metodologia lida com a categoria de atitude de uma forma que acreditamos ser insuficiente, comprometendo os resultados a que pretende chegar. Como premissa para essa discussão, chamamos a atenção para o fato de que a metodologia foi elaborada anteriormente ao trabalho de Mello e Raso (2011) que formula o conceito de atitude como a maneira pela qual a ação é realizada, expressa prosodicamente em toda a unidade tonal.

Uma interpretação dessa definição é a de que toda ilocução é veiculada com alguma atitude e, consequentemente, todo enunciado carrega marcas prosódicas ilocucionárias e atitudinais. Sendo assim, não seria possível falar de enunciados com atitude em contraposição a enunciados sem atitude, ou enunciados com atitude não marcada, no sentido de não possuírem marcas prosódicas atitudinais.35F

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Nesse sentido, a atitude tem um estatuto muito diferente do da emoção, que também é expressa pela prosódia, embora de maneira não convencionalizada. Segundo Scherer (2014), “a emoção é um episódio de mudanças inter-relacionadas e sincronizadas no estado de todos ou da maior parte dos cinco subsistemas do organismo (...), em resposta à avaliação de que um estímulo interno ou externo é relevante para as principais preocupações do organismo”. De acordo com essa definição, é possível pensar que existam enunciados sem emoção (produzidos com o organismo em seu estado normal) e enunciados com emoção (produzidos com o organismo perturbado).

120 Todavia, essa perspectiva não impede de se considerar que uma ilocução se associe preferencialmente a uma atitude em particular, de modo que essa atitude seja percebida como neutra, não marcada ou prototípica pelos falantes da língua, desde que se considere que essa atitude é sempre expressa prosodicamente. De fato, é de se esperar que a ilocução de Ordem se associe mais prototipicamente a uma atitude mais “impositiva” que a ilocução de Pergunta Polar, que possivelmente se associa mais prototipicamente a uma atitude mais “polida”.

Nesse ponto, lembramos que a forma prosódica ilocucionária, enquanto uma configuração de parâmetros prosódicos associada a um tipo ilocucionário, é uma entidade abstrata que, ao ser expressa concretamente no enunciado, sofre necessariamente interferência de fatores linguísticos (tamanho e estrutura acentual do enunciado) e extralinguísticos (fatores fisiológicos como sexo, idade, idiossincrasias do falante, etc.). Uma metodologia para o estudo de ilocuções deve ter a preocupação de controlar esses fatores para evitar que alguma propriedade prosódica devida a eles seja vista como parte da forma prosódica ilocucionária. A esse conjunto de fatores, acrescentamos a atitude, como um elemento convencionalizado (portanto, um elemento linguístico) que influi sistematicamente na realização prosódica do enunciado e que, por esse motivo, deve ser controlado. Todavia, assim como cada ilocução pode se associar mais prototipicamente a atitudes diferentes, sustentamos que o fator atitude

não pode ser controlado simplesmente analisando enunciados que veiculam uma ilocução com uma atitude percebida como não marcada pelos falantes da língua.

Os principais trabalhos que explicam a metodologia LABLITA (FIRENZUOLI, 2003; MONEGLIA, 2011) não mencionam a categoria atitude em suas descrições. Todavia, ao

usarem o termo “forma prosódica prototípica”, parecem assumir que a forma prosódica

prototípica é aquela realizada com a atitude que mais prototipicamente se associa àquela ilocução. Desse modo, ao comparar formas prosódicas prototípicas de ilocuções diferentes, o fator atitude não está sendo controlado de forma adequada.

A nosso ver, o fato de a metodologia LABLITA não controlar a variável atitude não só a impede de distinguir as propriedades ilocucionárias daquelas atitudinais em um enunciado, mas também invalida o teste de substituição da forma com que ele foi originalmente proposto. Conforme explicado em 4.3.6, esse teste é feito para verificar se duas ilocuções compartilham a mesma forma prosódica ou se possuem formas diferentes. Ele consiste na troca do enunciado obtido na cena de eliciação de uma ilocução pelo enunciado obtido na cena de outra ilocução. Se a substituição é vista como inadequada por falantes nativos, significa que a forma prosódica das ilocuções é diferente. A explicação para isso seria a de que quaisquer

121 variações prosódicas significativas entre os perfis prosódicos eliciados por cenas diferentes refletiriam formas prosódicas ilocucionárias diferentes, visto que, nas cenas, os perfis são produzidos sempre pelo mesmo falante e possuem sempre o mesmo conteúdo locutivo.

Ao estudar as ilocuções de Ordem e Instrução, Firenzuoli (2003) conclui, por meio do teste de substituição, que elas possuem formas prosódicas diferentes. Moneglia (2011) justifica o resultado do teste por meio de uma imagem da FIG. 4.6 (anteriormente apresentada como FIG. 4.5) em que mostra a sobreposição dos perfis prosódicos obtidos para essas ilocuções.

FIGURA 4.6 – Sobreposição do perfil de f0 das ilocuções de Instrução (cinza) e Ordem (preto) – gira a destra (“vire à direita”)

Fonte: MONEGLIA, 2011, p.501

De fato, as diferenças entre os perfis de Ordem e de Instrução eliciados pelas cenas de Firenzuoli (2003) são evidentes. Todavia, sustentamos que elas possam se dever não necessariamente a questões de ordem ilocucionária, mas também – ou simplesmente – ao fato de os enunciados expressarem atitudes diferentes, visto que a última categoria também se exprime por marcas prosódicas nos enunciados.

Essa reflexão se originou a partir da tentativa de Rocha e Raso (2014) de replicar os resultados de Firenzuoli com dados do Português Brasileiro. Para tanto, foram produzidas cenas de eliciação de Ordem e Instrução (vídeo pb_ordem, pb_instrução) e foi conduzido, com um número reduzido de sujeitos, um teste de substituição em caráter preliminar (vídeo pb_ordem_com_instrução, pb_instrução_com_ordem). Cada cena foi elaborada a partir dos parâmetros de eliciação apontados pelo grupo LABLITA para as ilocuções de Ordem e Instrução (QUADRO 4.4, a seguir). Na cena de Ordem criada pelos autores, um homem recebe um amigo que chega de carro em seu prédio e guia até o local onde deve parar o carro.

122 vaga correta (vídeo pb_ordem). Na cena de Instrução, um homem está na garagem de seu prédio e é chamado por uma mulher que, de dentro de um carro, lhe pergunta onde é a vaga

para visitantes. O homem aponta o corredor ao fundo e profere a instrução “vira à direita”

(vídeo pb_instrução). No teste de substituição realizado por Rocha e Raso, os sujeitos afirmaram que o perfil produzido na cena de Ordem é incompatível com a cena de Instrução, mas, diferentemente do esperado, o perfil produzido na cena de Instrução era compatível com a cena de Ordem.

QUADRO 4.4

Parâmetros de eliciação das ilocuções de Ordem e Instrução

Parâmetro Ordem Instrução

Canal de comunicação Aberto Aberto

Atenção Compartilhada Compartilhada

Proxêmica Interação direta Interação direta

Propriedades intensionais do processo Comportamental Cognitiva

Efeitos Mudança de mundo Modificação nos

conhecimentos

Modificações no interlocutor Operativa Cognitiva

Características perceptuais no objeto ontológico referido no contexto pragmático/cognitivo

Presente Possibilidade de explorar o contexto

Condição preparatória do falante Habilidade pragmática Conhecimento

Condição preparatória do interlocutor Possibilidade de intervir na

situação Necessidade de know-how

Em face disso, Rocha e Raso (2014) examinam as cenas de Ordem (vídeo LABLITA_ordem) e Instrução (vídeo LABLITA_instrução) de Firenzuoli (2003) e notam que a primeira delas possui um caráter de urgência ausente na segunda: na cena de Ordem, o homem deve agir de forma emergencial para evitar que a mulher não bata na parede. Esse caráter de urgência pode ter motivado uma atitude diferente daquela da cena de Instrução. O fato de que as ilocuções não expressam a mesma atitude poderia ser o bastante para explicar a existência de diferenças prosódicas significativas entre os enunciados. Portanto, com relação aos testes de percepção de Firenzuoli (2003), é possível conceber que os sujeitos tenham julgado como inaceitável a colocação do perfil de Ordem na cena de Instrução e vice-versa não necessariamente porque essas ilocuções não possuem a mesma forma prosódica, mas sim porque a atitude com a qual a ilocução foi veiculada em uma cena não é aceitável na outra.

123 Para dar suporte a essa argumentação, na seção 5.2 desse trabalho serão apresentados 4 perfis prosódicos da ilocução de Ordem realizados com atitudes distintas, os quais apresentam diferenças prosódicas mais expressivas que aquelas ilustradas por Moneglia (2011) na FIG. 4.6. Além disso, serão apresentados os resultados de um teste de percepção que mostram como a substituição de enunciados que indubitavelmente veiculam a mesma ilocução em atitudes diferentes nem sempre é vista como aceitável pelos falantes da língua.

Em face de toda essa discussão, defendemos que os pontos fortes da metodologia LABLITA sejam:

a. a identificação dos tipos ilocucionários em corpus de fala espontânea; b. a caracterização pragmático-cognitiva das ilocuções;

c. o estudo da forma prosódica ilocucionária a partir de enunciados produzidos em contextos de eliciação baseados nas características pragmático-cognitivas da ilocução.

Em contrapartida, as principais limitações da metodologia LABLITA para o estudo de ilocuções podem ser resumidas pelos seguintes pontos:

a. a metodologia visa descrever uma forma prosódica a partir de uma realização prototípica, sem considerar que as ilocuções se associam prototipicamente a atitudes diferentes (limitação teórica);

b. a metodologia não fornece meios para discriminar as propriedades prosódicas ilocucionárias daquelas atitudinais (limitação metodológica);

c. o teste de substituição não consegue determinar se duas ilocuções possuem formas prosódicas diferentes, pois a inadequação em uma substituição pode se dever a questões de ordem atitudinal (a realização concreta de uma forma) e não ilocucionária (a forma em si) (limitação metodológica);

d. o conceito de forma prosódica não é concebido de modo suficientemente abstrato, pois não se verifica como uma forma pode se realizar concretamente em função de diferentes atitudes e quais são as propriedades em comum entre essas realizações (limitação teórica);

e. a metodologia não descreve a forma prosódica da ilocução, mas sim a forma de uma de suas realizações possíveis (limitação metodológica consequente das limitações

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