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KADIN HAKLARI, A‹LE VE EVL‹L‹K

Em estudos internacionais16 já foi provado que é possível introduzir modificações no espaço urbano que modifiquem a temperatura, a umidade do ar e a ventilação, amenizando condições climáticas extremas. Os mouros já faziam isso há séculos na Andaluzia, intuitivamente, por tentativa e erro.17 Porém, embora se afirme que é possível melhorar os microclimas urbanos manipulando uso e ocupação do solo, o grau de correlação entre a temperatura do ar e algumas variáveis diretamente aplicáveis ao planejamento não foi estabelecido. Seguindo um dos caminhos que KUHN (1994, p.45-55) usa para explicar o que motiva o cientista a perseguir suas escolhas até chegar a uma conclusão, esta tese busca realizar um trabalho empírico para articular a teoria ao paradigma, resolvendo algumas de suas ambiguidades residuais e permitindo a solução de problemas para os quais ela anteriormente só tinha chamado a atenção.

Os modelos de clima urbano existentes18 geralmente tratam da cidade como um todo para prever a intensidade máxima da ilha de calor (que não é objeto desta pesquisa) em função:

• do tamanho da cidade, usando o parâmetro população, às vezes com a interferência da velocidade regional de vento;

• da relação H/W (height/width) ou do fator de céu visível (sky view factor) nos canyons urbanos;

• ou ainda do balanço de energia, com variáveis familiares aos climatologistas, mas não diretamente aplicáveis ao planejamento urbano.

Parte-se do princípio já aceito pela comunidade científica de que há uma correlação entre microclimas urbanos e condições de uso e ocupação do solo. O que a tese está fazendo pela primeira vez é estabelecer uma correlação numérica entre a temperatura do ar e alguns parâmetros de uso e ocupação do solo, não para a cidade como um todo, mas em diferentes pontos do espaço construído que são representativos dos

16 ver capítulo 3 sobre o tratamento dos espaços abertos da EXPO’92, em Sevilha. 17 ver capítulo 3.

Introdução 16

diferentes padrões de ocupação, usando variáveis de planejamento que podem ser regulamentadas pela legislação municipal.

A inovação também está no modelo de pesquisa para sistematizar essa correlação e no uso de variáveis familiares ao planejador urbano e que podem ser regulamentadas. Com o estabelecimento do grau de correlação entre a temperatura do ar e cada parâmetro relacionado à ocupação urbana, pode-se saber qual a associação de cada um deles com a temperatura e quais os seus períodos de maior influência, pois os fenômenos climáticos urbanos são diferentes para o período diurno e noturno; a ilha de calor é um fenômeno tipicamente noturno, mas é preciso investigar melhor o stress térmico que acontece durante o dia.

Os resultados podem ser utilizados no planejamento de novas áreas de ocupação para que elas respondam melhor às condições do clima. As conclusões podem trazer informações para subsidiar códigos de obras, leis de uso do solo, o planejamento de cidades novas ou de novos bairros, o assentamento de conjuntos habitacionais que se multiplicam na periferia, geralmente sem nenhuma preocupação com questões de conforto higrotérmico, arrasando terrenos sem respeitar a topografia e sem preservar a vegetação existente.

O estabelecimento de tal correlação já foi tentado por SAMPAIO (1981), cujo objetivo era sistematizar metodologicamente um caminho que permitisse aferir e explicitar possíveis correlações entre as variáveis uso do solo e as ilhas de calor para o caso de Salvador, verificando a existência da correlação e determinando o grau de associação entre as variáveis. Sampaio usou como variável dependente a temperatura do ar e como variáveis independentes o uso do solo e as condições do meio físico. Quantificou densidade populacional, taxa de ocupação, volume edificado, coeficiente de aproveitamento, área de vias e área edificada por habitante. Escolheu como pontos amostrais áreas significativas em termos de arranjo espacial, sendo cinco delas construídas e outras três livres. De hora em hora foram feitas três leituras em cada ponto, em intervalos de cinco minutos, a uma altura de 0,80m do solo, das 6 às 18h, em um único dia. Pelos resultados encontrados, Sampaio concluiu que a intensidade de uso do solo não poderia ser apontada como tendo uma correlação linear com a variação de temperatura na cidade de Salvador, invalidando a hipótese inicial em termos de significação numérica; o autor afirma ainda que Salvador não se encaixa no modelo de OKE (1973a) para relacionar a intensidade da ilha de calor à população. Apesar disso, Sampaio conseguiu comprovar contrastes entre áreas edificadas e áreas livres nas temperaturas máximas e médias.

O resultado do trabalho de Sampaio mostra a dificuldade de se isolar a variável uso do solo para demonstrar a ocorrência da ilha de calor. Na época o autor não conseguiu comprovar a hipótese para o caso de Salvador com os dados de microclimas urbanos medidos e os índices urbanísticos utilizados, talvez por condições climáticas atípicas durante o curto período de medições, por ter medido somente no período diurno e, principalmente, pelo fato de que cidades litorâneas, sujeitas a ventos de grande intensidade que aumentam as trocas térmicas por convecção, são menos sujeitas à influência da forma urbana (SERRA, 1987) sobre a temperatura do ar, o que não acontece em cidades tropicais continentais, sob condições de céu claro e calmaria. Com o aumento da velocidade do vento diminui a

Introdução 17

tendência da temperatura na zona urbana ser superior à dos arredores (GIVONI, 1998, p.257).

Como subproduto da tese foi proposto um índice relacionando a massa edificada com a área de arborização e superfícies d’água que, após ser testado em outras cidades e validado, pode ser usado para ajustar a proporção recomendada entre o espaço construído e os elementos naturais em cidades existentes ou para o planejamento de novas áreas de ocupação, bairro a bairro.