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Kad›n›n Siyasete Kat›l›m›ndaki Engeller

No final do capítulo anterior, mencionou-se como a abertura do saber jurídico foi apenas relativa, pois que o exercício da jurisprudência permaneceu nas mãos da elite, da aristocracia romana, embora ela não mais se limitasse aos patrícios. Trata-se agora de uma aristocracia ampliada, a nobilitas, uma aristocracia derivada do exercício de cargos políticos.

De fato, tanto as fontes romanas quanto a análise prosopográfica dos juristas revelam que a jurisprudência, assim como no tempo dos pontífices, era uma ocupação a que se dedicavam apenas os homens mais ilustres da cidade.

Cícero, no livro I do seu diálogo De oratore, apresenta duas visões sobre a gama de conhecimentos que o orador deveria possuir. A primeira, representada no diálogo por Crasso, advoga que ele deve possuir conhecimentos amplíssimos e aprofundados, dentre os quais o do direito, imprescindível para o exercício de sua tarefa na defesa dos interesses dos clientes. Já Antônio defende que o conhecimento do direito não precisa ser aprofundado, pois o orador, além de não ter tempo para explorar com profundidade todas as matérias, sempre pode consultar um jurista ou um livro para conhecer o direito aplicável

ao caso que defende.186

Os gregos, segundo Antonio, buscavam satisfazer essa necessidade de consultoria jurídica no caso concreto recorrendo aos pragmatikoi, que Antonio chama de iuris periti em seu discurso. Mas os romanos foram mais sábios, confiando essa tarefa a homens ilustres (clarissimi) e fazendo com que leges et iura estivessem abrigados, defendidos pela

autoridade desses homens.187

186 Cic. de orat. 1,59,252: iuris utilitas ad quamque causam quamvis repente vel a peritis vel de libris

depromi potestέ “a iὀfὁὄmaçãὁ juὄíἶica ὀἷcἷὅὅáὄia a caἶa cauὅa pὁἶἷ ὅἷὄ ὁbtiἶa ὀa mἷὅma hὁὄa cὁm um jurista, ὁu ὀὁὅ livὄὁὅέ” Tradução livre do autor.

187 Cic. de orat. 1,59,253: Itaque illi disertissimi homines ministros habent in causis iuris peritos, cum ipsi

sint imperitissimi, ei qui, ut abs te paulo ante dictum est, pragmatici vocantur; in quo nostri omnino melius multo, quod clarissimorum hominum auctoritate leges et iura tecta esse voluerunt. “E assim aqueles homens tão eloquentes (os gregos), mas não versados no direito, tinham como conselheitos alguns peritos no direito, que, como disseste há pouco, são chamados de pragmáticos. No que os romanos são muito melhores, pois quiὅἷὄam quἷ a lἷi ἷ ὁ ἶiὄἷitὁ ἷὅtivἷὅὅἷm aὁ abὄigὁ ἶa autὁὄiἶaἶἷ ἶἷ hὁmἷὀὅ iluὅtὄíὅὅimὁὅέ” Tradução livre do autor.

Antes mesmo, Crasso, ao afirmar a superioridade do direito romano e sua ciência frente a outros povos, já havia trazido essa comparação com a Grécia, afirmando que se na Hélade homens de baixa condição social auxiliavam os oradores em matéria de direito, em Roma isso ficava a cargo de amplissimi et clarissimi viri, num texto fundamental para destacar a elevada consideração social em que se tinham os juristas e a jurisprudência:

Iam vero ipsa per sese quantum adferat eis, qui ei praesunt, honoris, gratiae, dignitatis, quis ignorat? Itaque, ut apud Graecos infimi homines mercedula adducti ministros se praebent in iudiciis oratoribus, ei, qui apud illos pragmatikoi vocantur, sic in nostra civitate contra amplissimus quisque et clarissimus vir, ut ille, qui propter hanc iuris civilis scientiam sic appellatus a summo poeta est: “egregie cordatus homo, catus Aelius Sextus,” multique praeterea, qui, cum ingenio sibi auctore dignitatem peperissent, perfecerunt ut in respondendo iure auctoritate plus etiam quam ipso ingenio valerent.

Na verdade, quem ignora o quanto o conhecimento do direito, por si só, traz de honra, favor e prestígio àqueles que estão à frente desse saber? De maneira que, enquanto na Grécia homens de baixa

condição, chamados de “pὄagmáticὁὅ”, se

ofereciam para ajudar os oradores nos processos em busca de uma pequena remuneração, em Roma essa função era exercida, por exemplo, por um homem de grande importância e ilustríssimo como

aquele que, por causa de seu

conhecimento do direito civil foi chamado pἷlὁ maiὁὄ pὁὄἷta ἶἷ “hὁmἷm distintamente sensato, o agudo Sexto Éliὁ”, ἷ pὁὄ muitὁὅ ὁutὄὁὅ quἷ, aὀgaὄiaὀἶὁ prestígio por suas qualidades, faziam valer, ao dar consultas jurídicas, mais a

autoridade do que o próprio engenho. 188

No De legibus essa ideia também aparece, quando Cícero declara que grandes homens (summos viros) exerceram a jurisprudência, embora ele acabe de certa forma desqualificando sua atuação por se limitar a questões menores relativas ao ius civile, o que se explica pelo contexto do diálogo, em que Cícero compara o direito civil com o direito natural, por ele tido como mais elevado do que as questões que advém da necessidade

188 Cic. de orat. 1,45,198. A elevada posição social dos juristas também aparece no discurso de Antonio (Cic.

de orat. 1,ἃἃ,ἀἁἃ), quaὀἶὁ afiὄma quἷ a juὄiὅpὄuἶêὀcia “summo in honore semper fuit et clarissimi cives ei

studio etiam hodie praesuntέ” “ὅἷmpὄἷ gὁὐὁu ἶa maiὁὄ hὁὀὄa ἷ hὁjἷ tἷm à ὅua fὄἷὀtἷ ὁὅ maiὅ iluὅtὄἷὅ ciἶaἶãὁὅέ”

prática, e do qual pretende tratar.189 Ainda no mesmo diálogo, há a referência ao exercício da consultoria jurídica por homens ilustres (clari viri) e, na época de Cícero, por Sérvio

Sulpício Rufo, de suma autoridade.190 Por fim, ao lamentar a decadência de seu tempo,

Cícero, no De Officis, afirma que o conhecimento e a interpretação do direito, altamente estimados (summo in honore), estavam outrora nas mãos dos mais elevados cidadãos, os

principes civitatis.191

Escrevendo muito mais tarde, e referindo-se não apenas aos juristas da época republicana, Pompônio afirma no Enchiridion que plurimi et maximi viri professaram a ciência do direito, ainda que apenas alguns tenham obtido junto ao povo a máxima

dignatio.192

Durante os séculos III e II, a imagem do sacerdote-sapiente perdera suas cores até quase desaparecer completamente e seu lugar foi ocupado pela imagem do nobre-sapiente. Nesse contexto, responder às consultas dos particulares assume o caráter de um privilégio aristocrático, ligado à hegemonia da nobilitas surgida após o compromisso patrício-plebeu.

189 Cic. leg. 1,4,14: Summos fuisse in civitate nostra viros, qui id interpretari populo et responsitare soliti

sint, sed eos magna professos in parvis esse uersatos. Quid enim est tantum quantum ius civitatis? Quid autem tam exiguum quam est munus hoc eorum qui consuluntur? Quam<quam> est [populo] necessarium, nec vero eos, qui ei muneri praefuerunt, universi iuris fuisse expertis existimo, sed hoc civile quod vocant eatenus exercuerunt, quoad populo praestare voluerunt. “ώὁuvἷ ἷm ὀὁὅὅa ciἶaἶἷ hὁmἷὀὅ ἷlἷvaἶὁs, que costumavam interpretar o direito para o povo e atuar como consultores, mas embora prometessem grandes coisas, se dedicaram às pequenas. Pois o que vale tanto como o direito da cidade? Mas, ao mesmo tempo, o que é tão exíguo como a tarefa de dar consultas a respeito? Ainda que seja necessário para o povo, e que os que desempenharam essa tarefa não fossem ignorantes do direito universal, eles trataram do que chamam de ἶiὄἷitὁ civil apἷὀaὅ até aὁὀἶἷ fὁi ήtil aὁ pὁvὁέ” A fala de Ático em Cic. leg. 1,5,17 deixa claro o objetivo e a visão de Cícero : Non ergo a praetoris edicto, ut plerique nunc, neque a duodecim tabulis, ut superiores, sed

penitus ex intima philosophia hauriendam iuris disciplinam putas? “ἑὁὀὅiἶἷὄaὅ, ἷὀtãὁ, quἷ a ciêὀcia ἶὁ direito não deve ser buscada no do edito do pretor, como hoje muitos dizem, nem nas XII Tábuas, como se ἶiὐia, maὅ ὅὁbὄἷtuἶὁ ὀὁ íὀtimὁ ἶa filὁὅὁfiaς”

190 Cic. leg. 1,5,17: Marcvs: Non enim id quaerimus hoc sermone, Pomponi, quem ad modum caveamus in

iure, aut quid de quaque consultatione respondeamus. Sit ista res magna, sicut est, quae quondam a multis claris viris, nunc ab uno summa auctoritate et scientia sustinetur. “ἢὁiὅ ὀἷὅta ἶiὅcuὅὅãὁ, ἢὁmpὲὀiὁ, ὀãὁ indagaremos sobre como precaver os clientes em matéria de direito, ou sobre como responder a uma consulta ou outra. Ainda que se trata de uma grande ocupação, exercida até certo momento por muitos homens ilustres ἷ agὁὄa pὁὄ alguém ἶa máxima autὁὄiἶaἶἷ ἷ cὁὀhἷcimἷὀtὁέ”

191 Cic. off. 2,19,65: Itaque cum multa praeclara maiorum, tum quod optime constituti iuris civilis summo

semper in honore fuit cognitio atque interpretatio; quam quidem ante hanc confusionem temporum in possessione sua principes retinuerunt. “E aὅὅim, cὁmὁ muitaὅ ἶaὅ cὁiὅaὅ aἶmiὄávἷiὅ ἶἷ ὀὁὅὅὁὅ aὀtἷpaὅὅaἶὁὅ, o que de melhor fizeram foi ter sempre na mais alta consideração o conhecimento e a interpretação do direito civil, quἷ aὀtἷὅ ἶἷὅtἷὅ tἷmpὁὅ cὁὀtuὄbaἶὁὅ ὁὅ pὄiὀcipaiὅ hὁmἷὀὅ maὀtivἷὄam ἷm ὅua pὁὅὅἷέ” A expressão

principes civitatis é empregada por W.KUNKEL, Die Römischen Juristen cit., p. 42. F.SCHULZ, por sua vez

(Storia cit., p. 47), empregando uma expressão weberiana, fala em honoratiores.

Atuar como jurisconsulto era a ocupação mais honrosa que a nobreza podia se dedicar e

um dos ideais aos quais um nobre aspirava.193

Essa aspiração pode ser identificada na obra de Cícero, que revela como, durante a

velhice, melhor do que reclamar é exercer atividades honradas como a jurisprudência,194 a

que ele pretende se dedicar195 e que, com a afluência dos clientes, evitam a solidão que

pode acompanhar os últimos anos de um homem. É glorioso, segundo ele, após desempenhar os cargos e deveres (honores et munera) de cidadão, poder ser conselheiro dos seus concidadãos e se vangloriar disso como faz o deus Apolo num verso de Ênio. É o desejo que ele expressa pela boca de Crasso:

Senectuti vero celebrandae et ornandae quod honestius potest esse perfugium quam iuris interpretatio? Equidem mihi hoc subsidium iam inde ab adulescentia comparavi, non solum ad causarum usum forensem, sed etiam ad decus atque ornamentum senectutis, ut, cum me vires, quod fere iam tempus adventat, deficere coepissent, ista ab solitudine domum meam vindicarem. Quid est enim praeclarius quam honoribus et rei publicae muneribus perfunctum senem posse suo iure dicere idem, quod apud Ennium dicat ille Pythius Apollo, se esse

Que ocupação pode ser mais honrada que a interpretação do direito para uma velhice acompanhada e adornada? Quanto a mim, já desde a adolescência busquei ajuntar para mim esse sustentáculo, não apenas para utilizá-lo nas causas forenses, mas também para glória e ornamento da velhice, a fim de que, quando as forças começarem a me abandonar, tempo este que se aproxima, eu livre minha casa da solidão. O que é, pois, mais cintilante que um velho poder dizer de si, após o exercício das magistraturas e deveres da república, o mesmo que Apolo Pítio em

193 Cf. A.SCHIAVONE, Linee cit., p. 31, e G.BRAGA DA CRUZ, O jurisconsultus romano, in Obras Esparsas,

vol. 1. Estudos de História do Direito Antigo, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1979, p. 156.

194 Em Cic. Cato 9,27, Cícero critica Milon de Crotona por lamentar a velhice ao observar os atletas que se

exercitavam. Jamais reclamaram juὄiὅtaὅ cὁmὁ Sἷxtὁ Éliὁ, ἦibéὄiὁ ἑὁὄuὀcâὀiὁ ὁu ἢήbliὁ ἑὄaὅὅὁ, “a quibus

iura civibus praescribebantur, quorum usque ad extremum spiritum est provecta prudentia.” A juὄiὅpὄuἶêὀcia é apresentada como saber da velhice também em Cic. Cato 14,50: Quid de P. Licini Crassi et pontifici et

civilis iuris studio loquar aut de huius P. Scipionis qui his paucis diebus pontifex maximus factus est? Atque eos omnis, quos commemoravi, his studiis flagrantis senes vidimus. “ἡ quἷ ἶiὐἷὄ ἶa ἶἷἶicaçãὁ ἶἷ ἢήbliὁ Licínio Crasso ao direito pontifical e civil, ou de Públio Cipião, que recentemente se tornou pontífice máximὁς E tὁἶὁὅ ἷὅὅἷὅ quἷ citἷi, ὀὰὅ ὁὅ vimὁὅ bὄilhaὄ ὀἷὅὅaὅ ἶiὅcipliὀaὅέ”

195 Cf. Cic. leg. 1,3,10: Ego vero aetatis potius uacationi confidebam, cum praesertim non recusarem,

quominus more patrio sedens in solio consulentibus responderem senectutisque non inertis grato atque honesto fungerer munere. “Eu cὁὀfiaὄia, ὀa vἷὄἶaἶἷ, ὀὁ ἶἷὅcaὀὅὁ ἶa iἶaἶἷ, quaὀἶὁ ἷὀtãὁ, ὅἷguὀἶὁ ὁ cὁὅtumἷ dos antepassados, não me recusaria a responder aos consulentes assentado na cadeira paterna e exercer o ἶἷvἷὄ hὁὀὄὁὅὁ ἷ gὄatὁ ἶa vἷlhicἷέ”

eum, unde sibi, si non populi et reges, at omnes sui cives consilium expetant, “summarum rerum incerti: quos ego ope mea/ ex incertis certos compotesque consili/ dimitto, ut ne res temere tractent turbidas.”

Ênio, ou seja, que ele é aquele do qual, se não povos e reis, todos os cidadãos ἷὅpἷὄam ὁ cὁὀὅἷlhὁ, “iὀcἷὄtὁὅ quaὀtὁ àὅ maiores questões: aos quais eu, com meu socorro/antes incertos, agora certos e na posse dos conselhos/despeço, para que não temam enfrentar as questões mais

obscuras. 196

Por ser uma atividade exercida pela aristocracia que domina o governo da civitas, a jurisprudência não é uma ocupação exclusiva, mas sim cumulada com o exercício das magistraturas e com o interesse pelas outras disciplinas que compõem o ideal romano e

aristocrático de saber unitário e integral.197

Mas ainda que o conhecimento do direito seja parte do saber aristocrático unitário, que continha vários saberes diversos, já nos encontramos diante de experts, para os quais a sapiência jurídica e a atividade respondente podem se tornar uma urbana militia, o centro

de uma prestigiosa e intensa presença pública.198 Embora interligado com os demais, é um

saber específico, que não se confunde com eles, ainda que possam ser exercidos pela

mesma pessoa.199

196 Cic. de orat. 1,45,199. Tradução livre do autor. Mais adiante no diálogo (Cic. de orat. 1,50,225), Antonio

contesta essa afirmação de Crasso, dizendo que a casa de um homem ilustre jamais fica vazia e que a jurisprudência não é a melhor atividade para o senes, pois que a multidão de clientes imede justamente o repouso, este sim o melhor da velhice.

197 Cf. A.C.SAENZ, Ciceron cit. p. 106, que insiste na figura do romano integral, o totus romanus. Segundo

M. BRETONE, Giurisprudenza e oratoria nella tarda Repubblica, in J. PARICIO (org.), Poder político y

derecho en la Roma clássica, Madrid, Complutense, 1996, p. 62, para a concepção tradicional romana de

saber aὄiὅtὁcὄáticὁ, “l’ὁὄatὁὄἷ è aὀchἷ giuὄiὅta (ἷ il giuὄiὅta, ὁὄatὁὄἷ), ἷ filὁὅὁfὁ ἷ uὁmὁ ἶi gὁvἷὄὀὁ, ἷὅpἷὄtὁ cuὅtὁἶἷ ἶἷlἷ tὄaἶiὐiὁὀi ἷ iὅtituὐiὁὀi ἶἷlla cittàέ”

198 Cf. A.SCHIAVONE, Linee cit., p. 32.

199 Essa ideia está bem expressa em Cic. de orat. 1,49, 216, onde Antonio afirma que não é porque Crasso

domina todo tipo de saber e é orador, que todos esses saberes fazem parte da oratória. Falando ἷὅpἷcificamἷὀtἷ acἷὄca ἶὁ ἶiὄἷitὁ, ἷlἷ ἶiὐ “nec, si P. Crassus idem fuit eloquens et iuris peritus, ob eam

causam inest in facultate dicendi iuris civilis scientia.” “ἷ ὀἷm mἷὅmὁ, ὅἷ ἢέ ἑὄaὅὅὁ fὁi aὁ mἷὅmὁ tἷmpὁ ὁὄaἶὁὄ ἷ juὄiὅpἷὄitὁ, pὁὄ tal ὄaὐãὁ a ciêὀcia ἶὁ ἶiὄἷitὁ civil ἷὅtá iὀὅἷὄiἶa ὀa ὁὄatὰὄiaέ” Dá também o exemplo de Quinto Múcio Cévola, que jogava muito bem a pila e o jogo das doze marcas, e nem por isso tal habilidade era necessária aos jurisconsultos no geral. Cic. de orat. 1,49,217: Nam si ut quisque in aliqua arte

et facultate excellens aliam quoque artem sibi adsumpserit, is perficiet ut, quod praeterea sciet, id eius, in quo excellet, pars quaedam esse videatur, licet ista ratione dicamus pila bene et duodecim scriptis ludere proprium esse iuris civilis, quoniam utrumque eorum P. Mucius optime fecerit “De fato, se cada um que é excelente em alguma arte e faculdade e que também tenha arrogado para si outra arte conseguir que o que sabe a mais pareça ser uma parte daquilo em que é excelente, será possível, com esse raciocínio, dizer que jogar bem a péla e o jogo das doze linhas é próprio do direito civil, uma vez que P. Múcio se saiu muito bem

O ideal de integralidade foi plasmado por Cícero numa passagem do De oratore em que ele, pela boca de Crasso, ao lamentar a fragmentação dos saberes, faz o eleogio dos antepassados romanos, que souberam reunir em si uma vasta gama de conhecimentos, dentre eles o direito, que compartilhavam com os cidadãos aconselhando-os sobre diversas matérias:

Equidem saepe hoc audivi de patre et de socero meo, nostros quoque homines, qui excellere sapientiae gloria vellent, omnia, quae quidem tum haec civitas nosset, solitos esse complecti. Meminerant illi Sex. Aelium; M. vero Manilium nos etiam vidimus transverso ambulantem foro; quod erat insigne eum, qui id faceret, facere civibus suis omnibus consili sui copiam; ad quos olim et ita ambulantis et in solio sedentis domi sic adibatur, non solum ut de iure civili ad eos, verum etiam de filia conlocanda, de fundo emendo, de agro colendo, de omni denique aut officio aut negotio referretur. 134. Haec fuit P. Crassi illius veteris, haec Ti. Coruncani, haec proavi generi mei Scipionis prudentissimi hominis sapientia, qui omnes pontifices maximi fuerunt, ut ad eos de omnibus divinis atque humanis rebus referretur; eidemque in senatu et apud populum et in causis amicorum et domi et militiae consilium suum fidemque

De minha parte, ouvi muitas vezes de meu pai e de meu sogro que também os nossos conterrâneos, por desejarem sobressair-se pela glória da sabedoria, costumavam abarcar tudo que esta cidade conhecia. Citavam Sexto Élio, mas também nós vimos Mânio Manílio andando pelo fórum, o que era sinal de que aquele que o fazia colocava à disposição de todos os seus concidadãos o seu discernimento. Outrora, estando eles passeando dessa forma ou sentados numa poltrona, em casa, as pessoas os procuravam não apenas para consultá-los a respeito do direito civil, mas também do acerto do casamento de uma filha, da compra de uma propriedade, do cultivo do campo, em suma, de qualquer dever ou atividade. 134. Tal era a sabedoria do antigo Públio

Crasso, 200 tal a de Tibério Coruncânio, tal

a do bisavô de meu genro, Cipião, um homem extremamente sábio (todos eles foram pontífices máximos), que eram em ambos os casos.” A respeito disso, M. BRETONE, Giurisprudenza cit., p. 62, afirma que o jurista,

enquando especialista, é um personagem social distinto e tem uma fisionomia social inconfundível com a do orador, filósofo, gramático, poeta, musico ou general, embora esses diversos papéis sociais possam coexistir na mesma pessoa.

200 Públio Licínio Crasso, que não se confunde com o jurista posterior de mesmo nome (data), encarnava o

modelo de homem romano integral e era dotado, segundo Liv. 30,1,4-6, de todas as qualidades desejáveis num cidadão.

praestabant. 135. Quid enim M. Catoni praeter hanc politissimam doctrinam transmarinam atque adventiciam defuit? Num, quia ius civile didicerat, causas non dicebat? Aut quia poterat dicere, iuris scientiam neglegebat? Utroque in genere et elaboravit et praestitit. Num propter hanc ex privatorum negotiis conlectam gratiam tardior in re publica capessenda fuit? Nemo apud populum fortior, nemo melior senator; et idem facile optimus imperator; denique nihil in hac civitate temporibus illis sciri discive potuit, quod ille non cum investigarit et scierit tum etiam conscripserit.

consultados a respeito de todos os assuntos divinos e humanos, colocando à disposição seu discernimento e lealdade tanto no senado quanto diante do povo, bem como nas causas dos amigos, na paz e na guerra. 135. Na verdade, o que faltou a Marco Catão além desta refinadíssima doutrina de além-mar e estrangeira? Acaso, pelo fato de ter estudado o direito civil, não defendia causas? Ou, por ser capaz de defendê-las, desprezava o conhecimento do direito? Aplicou-se a um e outro gênero, sobressaindo-se nos dois. Acaso, devido ao prestígio adquirido nas atividades de cidadãos privados, era mais indolente em seu envolvimento na política? Ninguém era mais corajoso diante do povo, ninguém era melhor senador e, ao mesmo tempo, sem dúvida o melhor comandante. Em suma: nada havia nesta cidade, naquela época, que pudesse ser conhecido ou aprendido, que ele não apenas não tivesse investigado e conhecido, mas também usado em seus escritos. 201

Com o tempo, ocorrerá uma série de mudanças nessa caracterização geral da jurisprudência. Em primeiro lugar, a origem social dos juristas, cada vez mais oriundos da ordem equestre, e não apenas dos nobiles e senatoriais. Além disso, a concepção de saber unitário progressivamente se desfaz, assim como a cumulação de atividades, de modo que os juristas acabarão por se concentrar no estudo do direito, deixando de lado outras disciplinas e até mesmo o exercício das magistraturas.

201 Cic. de orat. 3,33,133-135. Tradução de A.SCATOLIN, com ligeiras modificações em relação aos nomes

Esse percurso pode ser bem percebido atentando-se para a carreira de diversos juristas republicanos, em que se revelam paulatinamente as mudanças mencionadas no parágrafo acima, assim como os fluxos e refluxos no processo de especialização.

Tibério Coruncânio, cônsul em 304 a.C., e que, como pontífice peritissimus202

(cargo assumido em 300 .C.), inicia a prática de publice respondere, foi chamado sapiens,

vir bonus,203 e tinha a arte de se exprimir, embora menos douto que os gregos, mas

parecido no impetu mentis e na vontade. 204 Trata-se de uma sapientia que não implica em

renúncia à participação no governo da coisa pública, ao contrário do que ocorria com os