Uma ocupação aristocrática, inicialmente concentrada na elite nobiliar-senatória, que passa também às mãos dos cavaleiros, mas não perde por isso seu caráter de elite, conservando a maioria dos traços aristocráticos que permeiam a atuação dos juristas.
Um deles é a gratuidade. Arisocratas não trabalham por dinheiro,243 a uma porque
não necessitam, a outra por ser algo considerado desonroso.244 É gratuitamente que eles
241 Pomp. l. s. ench. D. 1,2,2,44.
242 Giuristi e politica, in F.MILAZZO (org.), Ius Controversum e Auctoritas Principis – Giuristi Principe e
Diritto nel Primo Impero – Atti del Convegno internazionale di diritto romano e del IV Premio romanístico ‘G. Boulvert’ – Copanell 11-13 giugno 1998, Napoli, Edizioni Scientifiche Italiane, 2003, p. 106-107. E para
o autor, trata-se de uma iniciativa doὅ pὄὰpὄiὁὅ juὄiὅtaὅμ “Non furono i leader che, ala ricerca di consensi,
cercarono di portar dalla loro il (presunto) prestigio sociale dei giuristi. Furono questi (taluni, ovviamente) che, privati della dignatio tradizionale, tentarono di acquistarne uma nuova fondata sul privilegiato rapporto col capo della fazione ritenuta prevalenteέ”
243 F.SCHULZ, Storia cit., p. 49.
244 Como destaca H.M.F.MADEIRA (História da advocacia – origens da profissão de advogado no direito
romano, São Paulo, RT, 2002, pp. 49-5ί, “a mὁὄal ὄὁmaὀa ὄἷpugὀava ὁ tὄabalhὁ livὄἷ mἷἶiaὀtἷ ὄἷmuὀἷὄaçãὁέ Viver de paga alheia igualava o homem livre ao escravo, e havia quem pensasse até que a subordinação voluntária a alguém fosse mais torpe do que a forçada. O escravo, com quem o dono esperava contar para sempre, merecia mais cuidados do que aquele que, por pouco tempo, e por dinheiro, se subordinasse a um poder alheio. As atividades consideradas apropriadas para um homem livre, civis Romanus, foram aquelas designadas como artes liberales, sem nenhuma possibilidade de ser atribuído a elas um valor pecuniário. Estas atividades de natureza intelectual foram consideradas serviços de amicitia, portanto gratuitas, até final da República. Se existia uma contraprestação do beneficiado pelo serviço, ou seja, se fossem pagos
exercem as magistraturas, que patrocinam as causas de seus clientes em juízo e se colocam à disposição dos cidadãos para aconselhá-los como juristas. Trata-se de uma concepção que permanecerá até os tempos do império, quando, talvez descolada da realidade (já que muitos juristas integravam a administração imperial e recebiam por isso), será invocada por Ulpiano para afirmar que, embora não seja desonroso para o professor de direito receber algo por seu serviço, o é ira a juízo cobrar tal valor:
An et philosophi professorum numero sint? et non putem, non quia non religiosa res est, sed quia hoc primum profiteri eos oportet mercennariam operam spernere.
5. Proinde ne iuris quidem civilis
professoribus ius dicent: est quidem res sanctissima civilis sapientia, sed quae pretio nummario non sit aestimanda nec dehonestanda, dum in iudicio honor petitur, qui in ingressu sacramenti offerri debuit. quaedam enim tametsi honeste accipiantur, inhoneste tamen petuntur.245
Os filósofos devem ser tidos como professores? Assim não creio, não porque não seja coisa religiosa, mas porque eles devem professar, em primeiro lugar, o desprezo pelo trabalho remunerado. 5. Assim sendo, também não se julgará para os professores de direito; é uma coisa santíssima a sapiência civil, mas não pode ser estimada em dinheiro nem desonrada, pois em juízo se pedem os honorários que se deve oferecer no início do julgamento; pois ainda que se possam receber de forma honrosa, não se pode pedi-los da mesma forma.
Os amplissimi et clarissimi viri certamente não atuavam como jurisconsultos para
enriquecer,246 mas a gratuidade não significa que a atividade consultiva fosse puramente
desinteressada. Ainda que possam ter agido movidos por uma espécie de senso de dever cívico, preocupados apenas em dar a resposta correta e preparar e indicar os meios técnicos hὁὀὁὄáὄiὁὅ, ἷὄam ἷὅtἷὅ viὅtὁὅ cὁmὁ libἷὄaliἶaἶἷ, cὁmὁ ὁbjἷtὁὅ ἶἷ gὄatiἶãὁέ”
245 Ulp. 8 de omn. trib. D. 50,13,1,4-5. Sobre esta passagem, veja-se V.SCARANO USSANI, L’ars dei giuristi.
Considerazioni sullo statuto epistemologico della giurisprudenza romana, Torino, Giappichelli, 1997, pp.
132-133.
246 G. BRAGA DA CRUZ, O jurisconsultus cit., p. 158, afirma que, se os juristas visassem o lucro,
provavelmente dariam suas consultas em segredo, para evitar que a concorrência tomasse conhecimento de suas opiniões. Mas não, faziam-no em público, perante uma audiência de interessados que poderia suscitar dúvidas e trazer novas hipóteses para que o jurista respondesse sobre elas. F.SCHULZ, Storia cit., p. 84, por sua vez, sustenta que juristas pouco conhecidos e de origem social mais humilde como Lucílio Balbo, mestre de Sérvio, Cornélio Máximo (nem mesmo mencionado por Pompônio), mestre de Trebácio, e alguns discípulos de Sérvio como Tito Césio, Aufídio Tuca, Aufídio Namusa, Flávio Prisco, Caio Ateio, Cinna e Públio Gélio, não faziam parte da classe que servia gratuitamente ao Estado e eram remunerados por seus serviços profissionais.
adequados à situação do interessado, ou pelo simples orgulho que representa para o nobre
ser esperado pelas manhãs para ser consultado pelos cidadãos, 247 o exercício da atividade
consultiva era para o jurista uma forma de ampliar seu círculo de amigos e clientes e de
ganhar fama e reconhecimento social, alavancando assim suas pretensões eleitorais.248
O reconhecimento social obtido pelos juristas pode ser percebido nas honrarias concedidas a alguns deles. É o caso de Públio Semprônio, contemporâneo de Tibério
Coruncânio e que ganhou do povo a qualificação de sofos,249 assim como Lúcio Acílio foi
chamado sapiens em virtude de seu conhecimento jurídico.250 Públio Cornélio Cipião
Násica Córculo recebeu do Senado o título de optimus e do povo uma casa na Via Sacra
para que pudesse ser mais facilmente consultado.251 Sexto Élio, propter hanc iuris civilis
scientiam é chamado por Ênio de egregie cordatus homo, catus.252 Sérvio Sulpício Rufo,
após sua morte, é homenageado pelo povo como uma estátua nos rostros.253
Uma passagem de Aulo Gélio, relativa a Públio Licínio Crasso Dives Muciano, demonstra o alto grau de reconhecimento social de que gozava a jurisprudência, elencada dentre as cinco maiores qualidades que um homem romano poderia ter (rerum bonarum
247 Cf. V.ARANGIO-RUIZ, Storia del Diritto Romano, 7ª ed., Napoli, Jovene, 1984, pp. 124-125.
248 Cf. L.CAPOGROSSI COLOGNESI, Lezioni cit., p. 161; G.BRAGA DA CRUZ, O jurisconsultus cit., p. 157; R.
A. BAUMAN, Lawyers in Roman Republican Politics, München, C.H. Beck, 1983, p. 2; A. GUARINO, Storiadel Diritto Romano, 12ª ed., Napoli, 2001, p. 329;
249 Pomp. l. s. ench. D. 1,2,2,37: Fuit post eos maximae scientiae sempronius, quem populus romanus sofon
appellavit, nec quisquam ante hunc aut post hunc hoc nomine cognominatus est. Para A.C.SAENZ, Cicerón cit., p. 138, o título de sofos exprime o reconhecimento popular da certeza de seus responsa jurídicos. F. D’IPPOLITO, I giuristi e la città – Ricerche sulla giurisprudenza della repubblica, Napoli, Edizioni
Scientifiche Italiane, 1994, p. 09, afirma que o título pode ter vários significados mas que provavelmente indica uma abertura à cultura grega por parte de Semprônio, em contraposição a sapiens, mais ligado à cultura romana.
250 É a ele que, segundo F.D’IPPOLITO, I giuristi cit., p. 10, se refere como Públio Atílio em Pomp. l. s. ench.
D. 1,2,2,38: deinde sextus aelius et frater eius publius aelius et publius atilius maximam scientiam in
profitendo habuerunt, ut duo aelii etiam consules fuerint, atilius autem primus a populo sapiens appellatus est. Em Cic. Lael. 2,6, a relação entre o título de sapiens e o exercício da profissão jurídica é mais explícita,
quando ali se afirma que Catão recebera o mesmo título, mas em virtude de uma atuação mais ampla (quia
multarum rerum usum habebat), dentro da qual se inserem suas agudas respostas no senado e no foro (multa eius et in senatu et in foro vel provisa prudenter vel acta constanter vel responsa acute ferebantur) , enquanto
Lúcio Acílio o obteve quia prudens esse in iure civili putabatur.
251 Pomp. l. s. ench. D. 1,2,2,37: Gaius Scipio Nasica, qui optimus a senatu appellatus est: cui etiam publice
domus in sacra via data est, quo facilius consuli posset. Apesar do prenome, trata-se na verdade, conforme F.
D’IPPOLITO, I giuristi cit., p. 09, nt. 9, de Públio Cornélio Cipião, cônsul em 162 e 155, censor e pontífice máximo (Cic. Cato 14,50).
252 Cic. de orat. 1,45,198.
253 Pomp. l. s. ench. D. 1,2,2,43: hic cum in legatione perisset, statuam ei populus romanus pro rostris posuit,
maxima et precipua) e das quais tal jurista era dotado: grande autoridade (ditissimus),
nobreza, eloquência, ser grande jurista (iuris consultissimus) e pontífice máximo.254
Para se referir ao fenômeno das recompensas obtidas com o exercício da jurisprudência, o léxico latino apresenta dois termos muito importantes, gratia e dignitas, que aparecem ambos associados à iuris civilis cognitio em dois textos ciceronianos.
O primeiro, já citado anteriormente, encontra-se no De oratore e introduz o elogio que Cícero faz dos antigos romanos, que alocaram na aristocracia a função de prestar consultas jurídicas:
Iam vero ipsa per sese quantum adferat eis, qui ei praesunt, honoris, gratiae, dignitatis, quis ignorat?
Na verdade, quem ignora o quanto o conhecimento do direito, por si só, traz de honra, favor e prestígio àqueles que estão
à frente desse saber? 255
A outra passagem é extraída do Brutus, na parte em que Cícero discorre sobre as qualidades de Sérvio Sulpício Rufo e os benefícios colhidos a partir do desempenho das duas artes civis:
Itaque ut Crassus mihi videtur sapientius fecisse quam Scaevola—hic enim causas studiose recipiebat, in quibus a Crasso superabatur; ille se consuli nolebat, ne qua in re inferior esset quam Scaevola —, sic Servius sapientissume, cum duae civiles artes ac forenses plurimum et laudis haberent et gratiae, perfecit ut altera praestaret omnibus, ex altera tantum adsumeret, quantum esset et ad tuendum ius civile et ad obtinendam
E assim, como me parece que Crasso tenha agido de forma mais sábia que
Cévola – este aceitava conduzir as causas
com empenho, mas nelas era superado por Crasso; este não queria ser consultado, para que nisto não se mostrasse inferior a Cévola -, assim Sérvio agiu ainda mais sabiamente, em relação às duas artes civis
que mais conferem fama e
reconhecimento: numa delas destacou-se acima de todos e, da outra, tomou para si apenas o suficiente para conservar o
254 Gell. 1,13,10: Is Crassus a Sempronio Asellione et plerisque aliis historiae Romanae scriptoribus traditur
habuisse quinque rerum bonarum maxima et praecipua: quod esset ditissimus, quod nobilissimus, quod eloquentissimus, quod iurisconsultissimus, quod pontifex maximus.
consularem dignitatem satis. direito civil e manter sua dignidade
consular. 256
Gratia é um termo do léxico político romano que designa a relação instaurada entre
aquele que desenvolveu uma atividade (officium) e aquele que disso recebeu alguma
vantagem.257 Há nessa relação um polo ativo, que é aquele que recebeu o benefício e agora
mostra boa disposição para com o benfeitor, e outro passivo, aquele que em virtude do
benefício é objeto de reconhecimento por parte do beneficiário.Em sentido mais eleitoral,
designa a relação entre o candidato que prestou algum serviço ao eleitor e o eleitor que está
disposto a prestar-lhe um serviço, dando-lhe seu voto.258
Esse favor junto ao povo podia ser conseguido de diversas maneiras, como as
largitiones, o oferecimento de jogos edilícios, a construção de estátuas e templos, o
patrocínio das causas em juízo como orador ou o exercício da jurisprudência.
O jurista, que se encontrava numa posição privilegiada, por oferecer ao povo
beneficia de caráter mais honroso do que as formas legalizadas de corrupção, atuava tanto
no nível pessoal, com o respondere, quanto em âmbito mais geral, conferindo ao povo um
beneficium como a divulgação das ações por Gneu Flávio, que lhe rende o cargo de edil, ou
a redação dos Tripertita por Sexto Élio, facilitando o conhecimento do direito. Outro meio para um jurista conseguir gratia seria a redação ou o patrocínio de certas leis, como fizeram Catão, Públio Múcio Cévola, Públio Licínio Crasso Muciano, Quinto Múcio
Cévola e Públio Rutílio Rufo. 259
Em diversos textos, ao tratar de juristas específicos, Cícero menciona a gratia como recompensa pela dedicação ao estudo do direito e à atividade consultiva, além da retórica.
256 Cic. Brut. 42,155.
257 Cic. inv. 2,66: gratiam, quae in memoria et remuneratione officiorum et honoris et amicitiarum
observantiam teneat.
258 Cf. D.MANTOVANI, Iuris Scientia e honores. Contributo allo studio dei fattori sociali nella formazione
giurisprudenziale del diritto romano (III-I sec. a.C.), in S. Romano (ed.), Nozione formazione e interpretazione del diritto dall'età romana alle esperienze moderne. Ricerche dedicate al professor Filippo Gallo, 1, Napoli, Jovene, 1997, p. 625, segundo o qual, com relação ao primeiro sentido de gratia, essa
relação vai além da troca de prestações correspectivas, apresentando um caráter aberto. Mais do que à contraprestação, o benefício dado visa à instauração de uma disponibilidade mútua, substancialmente ilimitada. - p. 625, nt. 18
259 R.A.BAUMAN, Lawyers in Roman Republican cit. pp. 3-4. Segundo o autor, o jurista que era procurado no
fórum ou em casa para ser consultado acabava por operar numa escala ampla, pois constituía para si uma clientela especial, constituída não de uma constelação de famílias inferiores orbitando em torno de um nobre, mas de uma multidão de cidadãos que depositavam nele a confiança e a consideração que um cliente normalmente tem por seu conselheiro jurídico. Esse contato com o cliente podia gerar um grande número de votos, baseando-se sempre no elemento pessoal.
É o caso de Catão, o grande,260 Públio Licínio Crasso,261 e Públio Rutílio Rufo.262 Sem mencionar nomes, o arpinate deixa clara a relação entre a consultoria jurídica e a gratia, numa passagem do De officis, em que se podem enxergar, com grande nitidez, os contornos de uma sociedade permeada pelo clientelismo e a função exercida pela jurisprudência na obtenção de apoio político:
Quae autem opera, non largitione beneficia dantur, haec tum in universam rem publicam tum in singulos cives conferuntur. Nam in iure cavere, consilio iuvare atque hoc scientiae genere prodesse quam plurimis vehementer et ad opes augendas pertinet et ad gratiam. Itaque cum multa praeclara maiorum, tum quod optime constituti iuris civilis summo semper in honore fuit cognitio atque interpretatio; quam quidem ante hanc confusionem temporum in possessione sua principes retinuerunt, nunc, ut honores, ut omnes dignitatis gradus, sic huius scientiae splendor deletus est, idque eo indignius, quod eo tempore hoc contigit, cum is esset, qui omnes superiores, quibus honore par esset, scientia facile vicisset. Haec igitur opera grata multis et ad beneficiis obstringendos homines accommodata.
Os benefícios, por sua vez, que se dão não por meio de liberalidades, mas pelo serviço, são dirigidos ora a toda a república, ora aos particulares. Pois acautelar os homens em matéria de direito, ser útil ao maior número de pessoas com seu conselho e com esse tipo de conhecimento serve para aumentar tanto o poder como a popularidade. E assim, dentre muitas das coisas admiráveis de nossos antepassados, o que de melhor fizeram foi ter sempre na mais alta consideração o conhecimento e a interpretação do direito civil, que, antes destes tempos conturbados, os principais homens mantiveram em seu poder; mas agora, como ocorre com as honras e todo grau de dignidade, também o esplendor dessa ciência foi arrasado, o que se torna mais indigno pelo fato de ter ocorrido enquanto vive aquele que, igual a seus antecessores em dignidade, superou-os na ciência. Serviços que, portanto, encontram a gratidão de muitos e servem para ligar
260 Cic. De orat. 3,33,135: propter hanc ex privatorum negotiis conlectam gratiam.
261 Cic. Brut. 26,98: Domi ius civile cognoverat. In eo industriam constat summam fuisse maximamque
gratiam, cum et consuleretur plurimum et diceret.
262 Cic. Brut. 30,113: multaque opera multaque industria Rutilius fuit, quae erat propterea gratior, quod idem
os homens a nós pelos benefícios que
recebem. 263
Cícero escreve numa época em que as instituições republicanas estavam em crise e os meios tradicionais de se fazer política eram frequentemente desprezados, em face da maior efetividade da força militar ou da demagogia. Mas mesmo nesse contexto, a jurisprudência não deixa de ser fonte de gratia e continua servindo ao objetivo de aumentar o poder do cidadão romano.
Essa espécie de troca de favores é um dos aspectos que evidenciam o caráter eminentemente pessoal da política romana, em que o sucesso eleitoral é determinado pela origem social, pelas relações de amizade que se conserva, pelas alianças familiares realizadas por meio de casamento e adoções, pelo sucesso em construir clientelas. Num cὁὀtἷxtὁ ἷm quἷ ὀãὁ há “paὄtiἶὁὅ pὁlíticὁὅ”, ὁu ὅἷja, ὁὄgaὀiὐaçὴἷὅ uὀiἶaὅ ἷm tὁὄὀὁ ἶἷ um programa, não é este que importa, nem as convicções pessoais do candidato, mas sim suas
qualidades pessoais, seu prestígio, sua dignitas.264
Esse vocábulo do léxico político romano, embora apareça conjugado com gratia, é dela distinto. Se gratia diz respeito aos elementos do tipo do ut des que garantem apoio eleitoral ao candidato, a dignitas está ligada à estima de que ele goza como pessoa, à impressão que causa nos outros. Ter dignitas significa ser digno da posição que se ocupa
ou se quer ocupar; em termos eleitorais, ser digno de assumir uma magistratura.265
263 Cic. off. 2,19,65. Tradução livre do autor.
264 N. ROULAND, Roma cit., pp. 180-183. Segundo o autor, se o candidato expusesse suas convicções
pessoais, dividiria o eleitorado, perdendo o voto daqueles que não comungassem com suas ideias. O importante, então, era enfatizar suas qualidades pessoais e a estima que goza junto a um grande número de pessoas, conseguindo assim o apoio de eleitores com interesses diversos e até mesmo contraditórios. Daí porque, se fosse necessário dizer algo nos discursos eleitorais, ele se limitava a mostrar como era digno de ἷὅtima, “mencionando a antiguidade da sua família, a glória das suas campanhas militares, os cargos
importantes já ocupados, a amplitude do apoio de que se goza”, além ἶἷ lἷmbὄaὄ quaiὅ aὅ pἷὅὅὁaὅ quἷ lhἷ são próximas. (p. 184)
265 Cf. D. MANTOVANI, Iuris Scientia cit., pp. 625-626. Após afirmar que gratia pode indicar relações de
benevolência instauradas por meios reprováveis, o autor traça uma distinção clara entre ela e a dignitasμ “Mi
pare si possa aggiungere, come considerazione conclusiva in mérito ai rapporti social posti sotto l’egida di dignitas e gratia, che essi possono essere rappresentati da cerchi concentrici: quello interno, minore, rappresenta l’insieme dei soggetti legati al candidato da gratia, in quanto diretti destinatari di beneficia; quello esterno rappresenta l’insieme, più ampio, di coloro che gli riconoscono dignitas (ovviamente, quando egli la meriti), in quanto, pur senza essere entrati in contato diretto com lui, ne apprezzano (per così dire, spontaneamente) la personalità e lo stile.” (pέ ἄἀἄ, nt. 22)
Para obtê-la, a jurisprudência era útil, assim como em relação à gratia. Essa ideia
está expressa no De oratore266 e, segundo D.MANTOVANI,267 de forma implícita na oração
que Cícero pronuncia perante o Senado após seu retorno do exílio. Ali, ao denegrir a imagem de Lúcio Calpúrnio Pisão, ele afirma que nenhuma qualidade o recomendava aos cidadãos; dentre as que faltam, está a iuris scientia, que juntamente com a oratória e a arte militar forma uma tríade tradicional, responsável, segundo as fontes, por alavancar a
carreira política de um cidadão.268
Essa tríade é mencionada por Tito Lívio, que ao comentar a eleição de Catão para o consulado em 189 a.C., na qual ele prevaleceu sobre homens com origens familiares muito mais prestigiosas, afirma:
Ad summos honores alios scientia iuris, alios eloquentia, alios gloria militaris prouexit: huic uersatile ingenium sic pariter ad omnia fuit, ut natum ad id unum diceres, quodcumque ageret: in bello manu fortissimus multisque insignibus clarus pugnis, idem postquam ad magnos honores peruenit, summus imperator, idem in pace, si ius consuleres, peritissimus, si causa oranda esset, eloquentissimus (...)269
Uns alcançam as maiores honrarias por sua proficiência no direito, outros por sua eleoquência, outros ainda pelo brilho da glória militar. Catão possuía um gênio flexível, e de tal maneira se distinguia em tudo que parecia nascido exclusivamente para aquilo de que se ocupava no momento. Na guerra, mostrava-se o mais
esforçado, ilustrando-se por feitos
notáveis; e, quando chegou ao comando supremo, saiu-se como general eminente. Em tempo de paz atuava como hábil jurisconsulto e orador de fama (...)
Ao afirmar que Catão tinha excelência nas três artes, o historiador não quer dizer