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A construção do objeto empírico decorreu da observação atenta à programação das rádios comerciais de Natal-RN. Como profissional da área, acompanhamos cotidianamente o conteúdo jornalístico veiculado pelas emissoras de rádio, a fim de mantermos uma prática refletida em nosso ambiente laboral. A escuta diária dos radiojornais locais levou-nos a perceber a ausência da voz não oficial nos programas jornalísticos, sendo a pauta desses programas oriunda prioritariamente de outros veículos de comunicação, como jornais impressos, revistas e internet.

Em consequência, observamos com mais detalhes cada programa e verificamos que cada radiojornal veiculado em Natal-RN possui estilo diferente, o que acaba por atrair públicos igualmente diversos. Foi preciso, então, conhecer o contexto radiofônico local para a elaboração da nossa problemática.

Esse esforço de contextualização nos levou a identificar não apenas radiojornais com estilos diferentes, mas também programações jornalísticas diversificadas. Ao conhecer as grades de programação das emissoras radiofônicas, verificamos que em algumas das rádios de Natal-RN o conteúdo jornalístico é limitado a boletins informativos – ou sínteses noticiosas, para usar o termo de Ferraretto (2014) –, que apenas reproduzem informações veiculadas em outros meios de comunicação, o que já indicia menos esforço e menor investimento na produção jornalística.

Nas emissoras que dedicam horários mais amplos para o noticiário, nas quais percebemos a existência de radiojornais, debruçamo-nos a conhecer os conteúdos e sentimos a ausência da reunião de “várias formas jornalísticas (boletins, comentários, editoriais, seções fixas – meteorologia, trânsito, mercado financeiro... – e até mesmo entrevistas)” (FERRARETTO, 2014, p. 73), característica que esperávamos confirmar nos programas. O formato da radiorreportagem foi um dos menos percebidos.

Assim, entendemos que essas diferenças fazem parte da estratégia de cada emissora e que não produzir a radiorreportagem poderia ser uma opção com justificativas variáveis, como a falta de recursos, ou mesmo, a compreensão de que o formato não agregaria valor aos programas. Como as estratégias são diferentes, optamos por trabalhar com emissoras cujos objetivos sejam similares.

Levantamos, então, o perfil das emissoras locais e encontramos, no dial FM, três rádios vinculadas a órgãos públicos (Universitária FM – UFRN; Rádio Marinha e Rádio Senado); três mantidas por igrejas evangélicas (rádios Feliz FM, Nacional Gospel RN e Rede

Aleluia); uma com programação jornalística exclusivamente nacional (Jovem Pan); e seis comerciais, além da faixa destinada a rádios comunitárias.

Escolhemos trabalhar com as emissoras que visam, entre outros objetivos, o lucro: as rádios comerciais. Na disputa por audiência, e em consequência, por anunciantes, as emissoras almejam conquistar mais recursos financeiros. Por dedução, entende-se que essas rádios devem atuar de forma similar na distribuição de conteúdo do tripé jornalismo, esporte e entretenimento (SILVA, 2012).

Observamos a programação jornalística dessas seis emissoras e verificamos que em duas delas não havia programas do tipo radiojornal. Portanto, o escopo ficou limitado a quatro emissoras (rádios Cidade FM, 95 FM, Reis Magos FM e 98 FM). Percebemos, nessas rádios, seis programas cujos formatos se aproximam do que consideramos radiojornal, mas, dois deles funcionam como se fossem mesas redondas, não incluindo, inclusive, o termo “jornal” ou “radiojornal” em seus títulos. Acabamos por fechar nosso corpus de análise em quatro programas, os quais se definem, diretamente nos títulos, como jornais: Jornal da Cidade, Jornal 96, Jornal da Noite e Jornal das Seis, sendo dois veiculados no turno matutino e dois no turno noturno.

Definidos os programas a serem analisados, precisávamos definir um recorte temporal de análise. Primeiramente, delimitamos o período de tempo em que analisaríamos cada um. Partimos do princípio de que a análise de uma edição de cada programa seria insuficiente para notar a presença ou ausência dos formatos predominantes. É comum perceber quadros que são veiculados apenas em um dia da semana, por exemplo. Nesses quadros, é possível também a utilização de formatos especiais. Por este motivo, concluímos que o recorte temporal de uma semana demonstra melhor o perfil de cada radiojornal. Um tempo superior a uma semana seria redundante, porque a lógica de trabalho acaba se repetindo de uma semana para outra. Depois de definido o tempo de análise, precisava ser escolhido o período.

Alguns aspectos influenciaram nessa decisão: (1) era necessário que o escopo teórico da dissertação tivesse sido definido e escolhido um conceito chave para detectar a radiorreportagem nos programas. Se o período captado fosse anterior a essa decisão, a análise poderia ficar ultrapassada e correríamos o risco dos radiojornais sofrerem mudanças bruscas de estilo; (2) o período de análise não deveria comportar datas comemorativas, efemérides ou eventos que deslocam a atenção dos veículos para realização de coberturas especiais, porque, nesse caso, não se reflete a prática cotidiana e não seria possível alcançar resultados gerais ao caso estudado, haja vista que nossa pesquisa não pretendia refletir a radiorreportagem apenas

em coberturas específicas; e (3) como os jornais ocorrem simultaneamente (dois pela manhã e dois à noite), era necessária uma tecnologia de gravação igualmente simultânea, cujo domínio não possuíamos na formulação da ideia inicial.

O primeiro aspecto foi sanado em fevereiro de 2015. Nos meses que se seguiam, surgiriam eventos como carnaval e semana santa, portanto definimos que a coleta ocorreria depois desses períodos, atendendo ao segundo critério. No final de abril, tivemos conhecimento de empresas que gravam as programações das emissoras radiofônicas locais, sanando a terceira condição. Atendidos todos os critérios estabelecidos, definimos que os programas analisados deveriam ser gravados no período de 11 a 15 de maio de 2015.