Passamos agora a descrever as razões que nos levaram à escolha de cada um dos instrumentos de coleta utilizados. Primeiramente, explicaremos a opção por gravar, ouvir e realizar levantamento dos programas radiofônicos, para, em seguida, proceder a uma justificativa sobre o uso da observação participante na investigação, que teve caráter etnográfico. Por fim, demonstraremos que a análise precisaria ser complementada por entrevistas em profundidade, a fim de captar dados ainda não obtidos com os procedimentos anteriores.
3.4.1 Gravação e Escuta Radiofônica
A escuta radiofônica visou o recorte do objeto para definição da amostra e o levantamento de informações acerca dos radiojornais para elaboração do roteiro das entrevistas. Os procedimentos utilizados nessa fase foram:
a) escuta da programação das rádios comerciais de Natal-RN;
b) consulta aos sites das emissoras, para conhecer a programação geral; c) identificação dos programas do tipo radiojornal;
d) escuta dos referidos programas, a fim de conhecer o estilo de cada um deles, especialmente no que se refere à utilização de “diversas formas jornalísticas” (FERRARETTO, 2014);
e) gravação dos radiojornais selecionados pelo período de uma semana, sem feriados;
f) decupagem dos referidos programas, com anotação, em uma planilha, de dados sobre formato, área de cobertura, assunto e locução, o que permitiu ter uma noção de como se processa a execução de cada programa;
g) relatório quantitativo dos formatos identificados nos programas;
h) análise da quantidade de cada formato, calculando o percentual de reportagens; i) identificadas oito radiorreportagens nos relatórios, procedemos à sua transcrição, a fim de perceber os elementos que as caracterizam.
3.4.2 Pesquisa Etnográfica a partir da Observação Participante
A etnografia é, para Geertz (1997, p. 15 apud TRAVANCAS, 2012), “um processo de interpretação que pretende, e espera-se que consiga, dar conta das estruturas significantes que estão por trás do menor gesto humano” (p. 98), porque permite “sair da descrição superficial dos fatos” (p. 99). Entendemos que a pesquisa etnográfica surge, para o nosso trabalho, como uma experiência capaz de transcender uma descrição limitada à escuta dos programas radiofônicos.
Partimos do pressuposto de que entender a radiorreportagem no contexto das rádios comerciais de Natal-RN exige que conheçamos o ambiente onde o jornalismo radiofônico efetivamente acontece, para que consigamos obter resultados ampliados e profícuos. Conforme destaca Travancas (2012, p. 100), “a etnografia faz parte do trabalho de campo do pesquisador. E é entendida como um método de pesquisa qualitativa e empírica que apresenta características específicas. Ela exige um ‘mergulho’ do pesquisador”
Assim como entendem Bonin (2008) e Stumpf (2012), a pesquisa etnográfica também parte de um levantamento sobre o que já se pesquisou naquela seara, “porque o pesquisador precisa estar minimamente ‘iniciado’ no seu tema. Precisa saber o que já se disse
e escreveu sobre o grupo escolhido antes de ‘entrar’ nele. Saber quais as dificuldades e riscos que vai encontrar” (TRAVANCAS, 2012, p. 100).
Realizamos esse trabalho de pesquisa da pesquisa, pesquisa teórica e pesquisa de contextualização (BONIN, 2008) com a consulta aos bancos de teses e dissertações, o levantamento bibliográfico e a escuta radiofônica dos radiojornais das emissoras comerciais de Natal-RN. Apenas depois de conhecer minimamente a teorização sobre o espaço onde adentraríamos é que conseguiríamos avançar para as etapas seguintes da pesquisa etnográfica: a elaboração do caderno de campo e a entrada no campo propriamente dita.
Travancas (2012) destaca que há dois instrumentos importantes para a coleta de dados na pesquisa etnográfica. São eles a observação participante e a entrevista em profundidade. A observação participante “consiste na inserção do pesquisador no ambiente natural de ocorrência do fenômeno e de sua interação com a situação investigada” (PERUZZO, 2012, p. 125, ênfases da autora) e tem como principais características a incursão do pesquisador no grupo pesquisado, o acompanhamento e a vivência concreta que abriga o objeto investigado e uma definição clara de que o pesquisador não é membro do grupo, agindo de forma autônoma.
Peruzzo (2012) destaca que “o pesquisador pode aplicar técnicas complementares de coleta de dados como a entrevista (...), a análise documental e o estudo de dados” (p. 139) e alerta para a importância da pesquisa bibliográfica antecedendo a entrada no campo: “se a pesquisa for fundamentada em teorias previamente selecionadas, concorrerá mais naturalmente para resultados fidedignos” (op. cit., p. 141, ênfase nossa).
A necessidade de cautela do pesquisador é um aspecto que também precisa ser ressaltado na observação participante. Isso porque é possível que o pesquisador modifique o contexto que pretende investigar ou seja influenciado pelo ambiente. Em nossa inserção nas emissoras de rádio, tivemos o cuidado de não provocar perturbações ou mutações no desenrolar dos programas, nem nos objetivos da pesquisa, visando não comprometer o estudo. Uma classificação da autora sobre o papel do pesquisador divide o perfil da inserção no campo em integral ou periférica. Esta pesquisa se enquadra na segunda opção, porque só acompanhamos “as partes às sessões de trabalho que têm relação direta com o objeto de estudo” (PERUZZO, 2012, p. 142), não sendo necessário observar programas diferentes dos selecionados para análise.
Considerados esses elementos, nossa incursão nas rádios comerciais para acompanhar uma edição de cada um dos quatro radiojornais em estudo serviu para captar detalhes que não seriam possíveis apenas com a escuta radiofônica e a entrevista, como
sabermos, por exemplo, de onde são lidas as informações veiculadas, se o programa tem script, se os apresentadores fazem anotações, dentre outros.
Todas as informações que considerávamos relevantes na execução dos radiojornais eram devidamente anotadas no caderno de campo, para que, assim, pudéssemos construir uma descrição mais completa de cada radiojornal. Além disso, acompanhar os programas possibilitou elaborar ou excluir perguntas que estavam previstas para a entrevista em profundidade.
3.4.3 Entrevistas em Profundidade
O passo seguinte à observação participante é a entrevista em profundidade. Para Duarte (2012, p. 63), “por meio da entrevista em profundidade, é possível, por exemplo, (...) explicar a produção da notícia em um veículo de comunicação”. Esse exemplo se aplica especificamente a esta pesquisa porque se pretende conhecer também a forma como se produzem os radiojornais em Natal-RN.
O autor faz uma advertência importante que nos ajuda a tomar precauções durante a pesquisa:
A entrevista, vista como técnica de pesquisa, entretanto, exige elaboração e explicitação de procedimentos metodológicos específicos: o marco conceitual no qual se origina, os critérios de seleção das fontes, os aspectos de realização e o uso adequado das informações são essenciais para dar validade e estabelecer as limitações que os resultados possuirão. (DUARTE, 2012, p. 64)
A observação do autor é pertinente para entender que é impossível a utilização da técnica de entrevista em profundidade sem uma pesquisa bibliográfica que norteie a elaboração dos instrumentos de pesquisa, a saber, o roteiro ou questionário, além da escolha dos personagens entrevistados, que deve ser realizada com critérios bem definidos. Nossa seleção privilegiou responsáveis pelo programa analisado, especificamente os envolvidos com a produção, redação e/ou edição.
A entrevista pode ser classificada em três tipos: aberta, semiaberta ou fechada. As duas primeiras são consideradas em profundidade, por terem caráter mais qualitativo que quantitativo. A diferenciação que Duarte faz dos tipos justifica a escolha da semiaberta para as entrevistas aos profissionais que produzem os radiojornais em Natal-RN. A entrevista
totalmente aberta acontece a partir de um tema central e sem um itinerário bem delimitado. A semiaberta, por sua vez, também é flexível, mas parte de um roteiro específico de temas.
Duarte destaca a vantagem dessa técnica: “criar uma estrutura para comparação de respostas e articulação de resultados, auxiliando na sistematização das informações fornecidas por diferentes informantes. O roteiro de questões-chave serve, então, como base para a descrição e análise em categorias” (2012, p. 67). O esboço de questões que utilizamos foi formatado a partir dos pressupostos teóricos que emergiram da pesquisa bibliográfica, assim como dos relatórios apresentados pela escuta radiofônica.
O instrumento que desenvolvemos para as entrevistas parte de questões mais objetivas que visam à descrição do radiojornal produzido pelo profissional entrevistado, para, em seguida, partir para indagações mais subjetivas, como a concepção de reportagem que possuem e as limitações apresentadas pelo veículo de comunicação na execução da radiorreportagem. Em síntese, há um primeiro bloco de perguntas que trata da execução do radiojornal, com perguntas que tratam de estrutura para funcionamento e definições editoriais; o segundo bloco trata de conteúdo, incluindo questões sobre a presença/ausência da radiorreportagem, com devidas justificativas; e o último bloco trata de avaliação do programa e do cenário do jornalismo de rádio em Natal-RN.
Os principais aspectos da pesquisa e os objetivos das entrevistas foram apresentados aos entrevistados, antecedendo a aplicação da técnica. Depois de realizadas as entrevistas com os profissionais que produzem radiojornais em Natal, a reflexão ficou concentrada nas características do radiojornalismo praticado pelas emissoras comerciais.
4 A REPORTAGEM RADIOFÔNICA EM NATAL-RN
Depois de compreendidos os conceitos básicos sobre a radiorreportagem e definido um padrão de referência para guiar esta investigação, bem como descritas as principais técnicas de pesquisa utilizadas, cumpre-nos analisar o modo como se apresenta a radiorreportagem nas emissoras comerciais de Natal-RN. Para tanto, detalharemos o perfil radiofônico das emissoras e programas jornalísticos do tipo radiojornal encontrados nas grades de programação locais e descreveremos, com base na experiência de ouvinte, na escuta radiofônica, na observação participante e nas entrevistas em profundidade, os programas enquadrados no recorte da pesquisa.
Em seguida à descrição dos radiojornais, comentaremos aspectos técnicos dos programas, demonstrando semelhanças e diferenças, para debruçarmo-nos na análise de material informativo detectado em um dos programas, cuja narrativa se assemelha a uma radiorreportagem do tipo mista. Por fim, fazemos reflexões acerca do cenário radiojornalístico local, tomando por base a utilização da reportagem radiofônica.