A participação das entidades subnacionais como atores internacionais ainda é estudada de forma teórica, mas com objetivo de fazer uma contribuição de análise prática, este trabalho se propôs a analisar um projeto de cooperação internacional entre estes diferentes entes das Relações Internacionais. Além disto, a proposta deste trabalho foi de demonstrar os dois tipos de cooperação desenvolvidos, centralizada e descentralizada, verificando então se estes fatores de centralização, contribuíram de alguma forma nos resultados de projeto implantado. Com base em todos os dados aferidos ao longo deste trabalho foi possível concluir que o Projeto de Polícia Comunitária – Sistema KOBAN, exemplo escolhido como estudo de caso, que teve como parceiros a JICA e a ,PMESP, em sua primeira etapa (2005-2007) ,caracterizando-se como cooperação descentralizada, teve resultados mais favoráveis e avaliações mais altas quanto ao cumprimento de seus indicadores.
Diante das perspectivas teóricas que foram analisadas e do exemplo estudado podemos afirmar que a atuação internacional dos entes subnacionais é ainda realizada de forma muito desconexa do governo central. O Projeto KOBAN, em sua primeira etapa é executado pela JICA e a PMESP de forma direta, seguindo as diretrizes da própria polícia do estado de São Paulo, sem participação do governo central no processo de tomada de decisão. Desta forma, o escopo do projeto é
delimitado conforme as necessidades regionais e não em conformidade com Políticas de Segurança Pública Nacionais.
Ademais, em sua segunda etapa, o projeto envolve uma quantidade de tomadores de decisão tão grande que acaba por não atender os interesses de nenhuma das partes, nem do governo central, nem das regiões que deveriam ser atendidas. Se pensarmos neste ponto sob a perspectiva teórica podemos inferir, que neste caso, o Estado nacional acaba sim por perder espaço de atuação dentro de políticas básicas de segurança, em detrimento do governo regional, que procura soluções para seus conflitos por outros meios que não o auxílio federal.
Outra reflexão importante é sobre o Brasil enquanto federação, este projeto exemplifica que esta característica ímpar brasileira tem sim um reflexo direto sobre os projetos de cooperação, posto que possibilita a atuação internacional direta de órgão do Governo regional como a PMESP.
Já em uma perspectiva mais prática de análise do projeto, ambas as etapas possuem resultados satisfatórios e avaliações positivas por parte de seus participantes, contudo alguns critérios adotados na execução destas etapas podem ser considerados diferenciais para as avaliações finais.
Como por exemplo, a participação ativa da JICA durante a administração do projeto. Na primeira etapa, a agência possui como objetivo treinar os policiais e auxiliar na reformulação do policiamento comunitário da PMESP. Fazendo com que a JICA esteja no controle da execução do projeto, oferecendo estrutura e administração, além de controle e fiscalização do desempenho do projeto como um todo.
Já na segunda etapa, o objetivo principal da JICA é divulgar a filosofia do sistema KOBAN, agora contando com multiplicadores e fazendo um papel mais passivo dentro da administração do projeto. Esse fator é relevante porque uma das características principais que fazem os projetos brasileiros terem pouco sucesso é a falta de fiscalização e supervisão durante a execução dos projetos, e o Japão é notório por ser uma contraparte atenta ao cumprimento de prazos e objetivos.
A participação direta e constante da contraparte internacional ao longo do projeto é importante e traz resultados interessantes, como uma maior fiscalização da utilização de recursos, confiabilidade de datas e ainda, em casos como este, a participação da JICA em esquema follow-up no projeto, foi um diferencial para a sustentabilidade do projeto. Isso demonstra também que uma relação mais próxima
entre o parte estrangeira e a parte nacional, traz resultados mais próximos do escopo inicial planejado, posto que a elaboração inicial é feita de forma conjunta. Essa atuação mais próxima é facilitada pela cooperação descentralizada, já que o número de atores envolvidos no processo é menor e mais seleto.
Essa característica de rigor nas avaliações foi uma das razões dadas pela Prefeitura de São Paulo durante a recomendação do Projeto de Polícia Comunitária para ser avaliado durante este projeto, pois uma rígida apuração dos dados permite uma crítica de aprendizado sobre o projeto.
Diante dos resultados é possível concluir também que algumas razões que levaram a primeira etapa a ser mais bem sucedida que a segunda não tiveram conexão com escolhas administrativas ou com gerenciamento do projeto, mas sim com questões intrínsecas às burocracias e possibilidades dos formatos de cooperação internacional.
Na primeira etapa, é firmado um acordo direto com a PMESP, de execução de um projeto dentro do território de atuação da mesma, e sob a gerência direta de partes envolvidas no projeto. Ou seja, um projeto acordado para se executado dentro de São Paulo, com análises feitas sobre o caso específico de São Paulo, tanto a cidade como Estado, fazendo as adaptações necessárias para a realidade daquela região e principalmente onde a contraparte brasileira, no caso a própria PMESP, teve plena liberdade de escolha das localidades que seriam atendidas, desde os pilotos até as fases mais avançadas do projeto, permitindo que houvesse inclusive uma consulta à população sobre quais regiões seriam atendidas.
Já na segunda etapa, como o Acordo foi estabelecido para atender a SENASP, com auxílio da PMESP como multiplicadora do treinamento, a SENASP selecionou os estados brasileiros a serem atendidos, o treinamento teve proporções menores, onde um estudo piloto não foi estabelecido, e o critério de escolha dos policiais participantes foi mais generalizado. Neste caso, a utilização de multiplicadores tem um efeito positivo sobre os aspectos de fomento e sustentabilidade do projeto, ao mesmo que tempo que pode ter um impacto negativo de não oferecer uma oportunidade de análise mais aprofundada da adaptação do modelo brasileiro à região. Considerando que este modelo já tinha sido adaptado à realidade “brasileira” de São Paulo.
Outro fator interessante ressaltado pelo Coronel Tardochi em entrevista, fio a escolha dos Oficiais que iriam participar do treinamento na primeira Etapa, foi de
decisão mútua das partes que os não só os Oficiais das bases participariam do treinamento no Japão, como também Oficiais do alto comando da PMESP, e dos projetos envolvidos no policiamento comunitário, permitindo assim que o projeto se beneficiasse da linha hierárquica da polícia, ao ter seus ensinamentos transmitidos não só de forma horizontal, mas também vertical.
Neste mesmo critério, é possível analisar que ao repassar o processo decisório de caracterização do projeto para um órgão federal, as polícias dos outros estados que participaram da segunda etapa, também sofreram com a participação de oficiais que não trabalhavam com o policiamento comunitário em suas regiões e logo não se beneficiariam tanto do treinamento quanto os que participam. Além de terem tido problemas com financiamentos de execução do treinamento como tratado acima devido a processos burocráticos de aplicabilidade à financiamento mas também de problemas com gestão administrativa.
Como exemplo da participação da população nas escolhas do posicionamento das bases, além de ser um bom exemplo de resultados positivos para o projeto, o Coronel Tardochi citou a BCS do Jardim Ranieri em São Paulo, e a mesma base é destacada no material do Projeto de Polícia Comunitária Brasil/Japão.
“Está localizada no extremo sul da capital paulista, no distrito do Jardim Ângela, local que foi considerado pela Organização das Nações Unidas, em 1998 como o lugar mais violento do mundo, em vista do constante cometimento de delitos contra a vida, homicídios múltiplos (chacinas). (...)
A principal ação adotada pela BCS do Jardim Ranieri, foi a “Operação Bares”, resultado da união de diversos órgãos públicos e comunidade, intitulado “Grupo Organizado de Valorização da Vida” (GOVV).”93
A ação previa o fechamento dos bares da região às 22h00. O fechamento foi decidido devido à comprovação estatística de que a maior incidência de crimes ocorria entre 23h00 e 02h00. Como não existe legislação específica sobre o fechamento de bares no Município de São Paulo, a Polícia fez um acordo com os comerciantes para que eles se comprometessem a fechar as portas no horário acordado, enquanto paralelamente a polícia realizadas ações noturnas na região, buscando por armas, drogas e criminosos. A presença constante da polícia tornou a atuação constante dos criminosos inviável, e em uma primeira avaliação após seis meses a redução de crimes tinha sido de 52%.
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A análise deste projeto é um pequeno vislumbre das possibilidades da cooperação internacional descentralizada e suas facilidades logísticas diante da complexidade da política externa nacional. O “Manual de Cooperação Internacional e Políticas Locais de Combate à Pobreza” da URB-AL afirma:
“Estamos convencidos de que en la medida en que los gobiernos municipales tengan mayor capacitación en la formulación y gestión de proyectos de cooperación podrán contar con más apoyos para atender las necesidades de la población y que sus programas tengan mayor impacto. La presentación de propuestas de proyectos utilizando la metodología adecuada es un requisito indispensable para la formulación de proyectos financiables por instituciones internacionales o por otros municipios interesados en proporcionar cooperación.
Vincular sus proyectos estratégicos con la cooperación internacional (sea técnica, tecnológica o financiamiento a fondo perdido) permitirá a los gobiernos locales no solo conocer las mejores prácticas para solucionar problemas concretos sino cometer también menos errores”
Como afirmado no texto da URB-AL, os governos subnacionais possuem um escopo de atuação extenso no Sistema Internacional, possibilitando que novas soluções sejam dadas a problemas estruturais de algumas regiões como transporte, segurança, alimentação e educação. Ainda que este trabalho tenha se proposto ao aprofundamento de apenas um projeto, de modo que seus resultados possam estar limitados a seu próprio e, os resultados observados são claro indicativo de uma conclusão geral efetivamente mais ampla: as inúmeras possibilidades que um projeto de cooperação descentralizada tem em comparação a uma mesma cooperação, com o mesmo parceiro e os mesmo limite temporal dentro de um escopo centralizado. Outra contribuição relevante é que uma análise prática de um projeto existente acrescenta a perspectiva teórica, elucidando questionamentos da atuação internacional dos entes subnacionais na realidade, considerando que muitas vezes a sua análise teórica ou legal é inexistente.
Espera-se que o esforço de análise da paradiplomacia brasileira não diminua, já que as atuações internacionais dos entes subnacionais não o fazem. E assim precisamos acompanhar o desenvolvimento desta temática, tanto nas Relações Internacionais como por meio de análises práticas.