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Em 1992, a Polícia Militar do Estado de São Paulo – PMESP identificou a cooperação internacional como alternativa para auxiliar na resolução de alguns de suas deficiências, e também, para encontrar novos métodos de aprimoramento de

suas técnicas de policiamento.69

                                                                                                                         

68 Agência de Cooperação Internacional Japonesa – JICA –

http://www.jica.go.jp/brazil/portuguese/office/about/index.html. Consultado pela última vez 24/08/2013. Às 12h21. 69

Foram investigadas algumas formas de policiamento em países diferentes,

dentre ele Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, Cingapura e Japão70. E então o

projeto que possuía mais flexibilidade de adaptação à realidade brasileira foi escolhido.

De acordo com o Coronel Tardochi71, da PMESP (Diretor do Departamento

de Polícia Comunitária e Direitos Humanos em 2011), o formato do projeto KOBAN possui não só diretrizes pré-estabelecidas de forma rigorosa e coerente, mas a experiência com situações de gerência de grandes populações concentradas em pequenos espaços, foi fator determinante para escolha do Japão.

Além das características específicas da escolha, a longevidade da cooperação entre Brasil e Japão e a vasta experiência da JICA em projetos de cooperação técnica foram facilitadores no estabelecimento e na execução do projeto. Outro fator muito importante é que, na mesma época em que a pesquisa por novas alternativas de modelos de policiamento estava sendo feita, tinham sido recém-criados os Conselhos Comunitários de Segurança – CONSEG – que possuíam como objetivo uma gestão participativa da comunidade nas questões de

segurança pública.72

O modelo de policiamento comunitário KOBAN é praticado no Japão desde 1874 e baseia-se na visualização do policiamento por meio dos postos policiais e, na interligação deste policiamento por meio de patrulhas a pé, em bicicleta, embarcações e veículos motorizados. E em 2011, com cerca de mais de 150 milhões de habitantes e dimensões pouco maiores que o estado de São Paulo, o

Japão possuía 1.300 delegacias, 6.600 KOBANs e 7.800 chuzaishos73.

Os KOBANs remontam antigas instalações japonesas denominadas KOBANsho, e que eram guarnecidas por 12 (doze) policias, trabalhando em três turnos (24h por 48h), quatro policiais por turno. O termo KOBAN significa vigilância por troca (ko=troca; ban=vigilância).

Já os chuzaishos são postos, com um policial designado, que são estabelecidos em subáreas, geralmente em localidades mais remotas como áreas rurais e nas quais o policial no cargo, mora com a sua família. Chuzaisho significa                                                                                                                          

70

Polícia Militar do Estado de São Paulo. Projeto Brasil – Japão Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp.7. 71 Tenente Coronel Sérgio Tardochi. Chefe do Departamento de Polícia Comunitária e Direitos Humanos na Polícia Militar do Estado de São Paulo. Ocorrida na Diretoria de Polícia Comunitária e Direitos Humanos. Av. Cruzeiro do Sul – 260, Canindé, São Paulo – SP; dia 02 de julho de 2012, às 10h.

72 Polícia Militar do Estado de São Paulo. Projeto Brasil – Japão Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp.4. 73

Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011.

local de residência e de trabalho (chuzai= residência onde trabalha; sho= local). Existem ambos os modelos KOBAN e chuzaisho espalhados por todo território japonês.

Em complemento às duas estruturas físicas e seus modelos de patrulhamento, existe ainda uma parte complementar do modelo KOBAN que aborda as visitas comunitárias. Para realização destas visitas, é feita uma divisão territorial em relação ao efetivo de policiais fixado, onde cada policial terá uma parcela da comunidade a ele confiado, realizando visitas mensais às famílias e aos estabelecimentos da região. Estas visitas estabelecem um cadastro dos moradores e comerciantes da região, sendo obrigação de cada policial manter sua parcela do

banco de dados sempre atualizada.74

Para que o projeto fosse estabelecido no Brasil, foram feitas algumas adaptações do modelo original à realidade brasileira, criando em 1999 uma frente de bases comunitárias inspiradas no sistema KOBAN. Foi instalada a Base Comunitária de Segurança – BCS, que constitui em uma edificação policial-militar fixa, que é edificada de acordo com critérios de acessibilidade, visibilidade e existência de comunidade que necessite de atendimento 24 horas.

Estes critérios são aferidos pela Polícia Militar com base em seus próprios dados, mas também com base em relatórios fornecidos pelo CONSEG regional, no qual a população pode opinar pela localidade mais adequada da base. A BCS possui ainda uma viatura a disposição e um efetivo de 10 (dez) a 20 (vinte) policiais

militares, incluídas as patrulhas comunitárias que operam em viaturas de apoio.75

Esta formula é interessante de ser analisada diante das perspectivas conceituais da paradiplomacia e da teoria Construtivista, porque é um exemplo claro do envolvimento da comunidade nas decisões de políticas públicas e também de um pensamento estratégico estabelecido quanto às delimitações do projeto, para que esta cooperação atenda as necessidades específicas da região e não só cumpra com os interesses da política externa.

A definição da localização das bases foi feita com embasamento estratégico da polícia, mas também seguindo a opinião das comunidades afetadas, que foi aferida por meio do CONSEG regional. Este modelo de consulta só foi estabelecido                                                                                                                          

74

Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp. 93-95.

75

Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp. 93-95.

devido ao formato do projeto que se firmou diretamente com a Polícia Militar, perpassando assim interesses e burocracias de outros órgãos governamentais.

Além das BCS, foram criadas também as Bases Comunitárias de Segurança Distritais – BCSD. Uma variante da BCS que é aplicável às regiões mais afastadas, como áreas rurais ou interior em que 01 (um) policial militar reside no local. O policial possui uma carga horária de trabalho de no mínimo 40 (quarenta) horas semanais e deve comunicar aos seus superiores caso deseje se afastar da base por qualquer

motivo.76

Contudo, apesar das bases terem direcionado de forma mais objetiva os policiais, elas não cumpriram com seu papel e não atenderam as expectativas. Isso devido ao curto espaço de tempo de implementação das bases; falta de sistematização do emprego efetivo de recursos materiais e da falta de padronização da forma de atuação.

De acordo com relatório de análise do projeto fornecido pela JICA, a agência ofereceu no ano 2000, treinamento focado na realidade brasileira e profissionais treinados trazidos para treinamentos de curto período. A agência afirmou ainda que, a falta de sucesso das BCS se devia ao fato de que o formato implementado divergia demais do projeto KOBAN original no qual havia sido inspirado e que a

administração das bases carecia de mais padronização e material de divulgação.77

Até aquele momento, PMESP apenas havia feito consultas aos países sobre projetos de polícia comunitária, tentando assim estabelecer de forma independente um modelo com base no Sistema KOBAN. Entretanto não havia sido firmado nenhum tipo de acordo formal, entre a JICA e a PMESP, sobre a adaptação formal do modelo japonês à realidade brasileira.

Devido a falta de estrutura para finalizar a execução do projeto e adaptá-lo corretamente aos padrões da polícia local, a PMESP então solicitou e a JICA um projeto formal de instituição da polícia comunitária no Brasil e após as etapas de análise e planejamento em janeiro de 2005, foi assinado o acordo para cooperação técnica em segurança pública, entre a JICA e PMESP, com duração de 3 (três) anos e previsão de implementação de 20 (vinte) bases piloto (este número era inicialmente 8 (oito) e foi aumentado para 20 (vinte) em setembro de 2007.

                                                                                                                         

76 Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp. 93-95.

77 JICA – Agência de Cooperação Internacional Japonesa. Relatório de Avaliação Final Conjunta sobre a Cooperação Técnica Japonesa para o Projeto de Policiamento Comunitário na República Federativa do Brasil. São Paulo, dezembro de 2007.

Inicia-se então a busca por padronização de procedimentos, onde 8 (oito) Bases Comunitárias de Segurança - BCS foram selecionadas e estabelecidas como

pontos iniciais do sistema de padronização e sistematização metodológica.78 Essa

padronização era uma das dificuldades encontradas pela PMESP antes do estabelecimento do acordo, desta forma, foi realizado um estudo para que a caracterização das bases, tal como o seu funcionamento e o metodologia de treinamento fossem corretamente adaptados à realidade brasileira e então sistematizados e padronizados.

Foi enviado a São Paulo um policial japonês que participou de Grupos de Trabalho formados pelos comandantes das Companhias das BCS Piloto, por Oficiais do Comando de Policiamento da Capital e da Divisão de Polícia Comunitária e Direitos Humanos, com o objetivo de auxiliar na adaptação do Projeto à nossa realidade. O policial definiu a padronização conforme os níveis de criminalidade brasileiros e nos moldes do Sistema da Polícia Militar. Foram verificadas as implementações de serviços nas BCS; a padronização da escrituração,

equipamentos e formas de abordagem da comunidade.79

Ao final de 2006, os resultados oferecidos pelas bases pilotos excedia as expectativas, tanto da PMESP quanto da JICA e, em razão dos bons resultados o Projeto Piloto, foi expandido em mais 12 (doze) Bases Comunitárias de Segurança, sendo 8 (oito) na capital do estado de São Paulo, 2 (duas) na região metropolitana (Taboão da Serra e Suzano) e 2 (duas) no interior (São José dos Campos e Santos). Em março de 2008 mais uma ampliação das Bases Piloto foi feita, de forma que até

o ano de 2011 era 54 (cinquenta e quatro) BCS atuando conforme o Projeto.80

Ainda no de 2008, encerrou-se o Acordo de Cooperação Técnica e, após análise e auditoria conjunta dos integrantes dos grupos de trabalho da PMESP, integrantes da JICA e integrantes da Polícia Nacional do Japão, a PMESP foi credenciada como polo difusor do Policiamento Comunitário no modelo Japonês. A difusão por meio de polos é uma estratégia utilizada pelo governo japonês na propagação de projetos. Desta forma, o treinamento é continuado por meio de multiplicadores e alguns obstáculos podem ser ultrapassados com mais facilidade,                                                                                                                          

78

Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp. 93-95.

79 JICA – Agência de Cooperação Internacional Japonesa. Relatório de Avaliação Final Conjunta sobre a Cooperação Técnica Japonesa para o Projeto de Policiamento Comunitário na República Federativa do Brasil. São Paulo, dezembro de 2007, pp.2.

80

Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania – PRONASCI. Curso Internacional de Multiplicador de Polícia Comunitária. São Paulo, 2011, pp. 93-95.

como a adaptação para outros estados ou da diminuição de barreiras culturais no caso de outros países. Neste caso, a PMESP foi credenciada como polo difusor tanto para o Estado brasileiro quanto para outros países da América Latina, América

Central e África.81

Em novembro de 2008, foi firmado o 2º Acordo de Cooperação Técnica entre a JICA e a PMESP. Com igual duração de 3 (três) anos, esse novo acordo tinha o intuito de expandir e divulgar o Policiamento Comunitário para outras Polícias brasileiras. Para tal, este acordo foi firmado em conjunto com a Secretária Nacional de Segurança Pública (SENASP) e a Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

Como parte do Acordo, a SENASP ficou incumbida de implantar o modelo japonês nos estados brasileiros e a ABC, de se responsabilizar pelas relações com os países da América Latina envolvidos nesta etapa. A PMESP desenvolveu o material didático, currículo e instrução do Curso Internacional de Multiplicadores de Polícia Comunitária – Sistema KOBAN.

Foi realizada a formação de policiais de 11 (onze) estados brasileiros e oficiais de 5 (cinco) países da América Central. Este treinamento foi feito dentro das estruturas da PMESP, contudo a ABC e SENASP ficaram responsáveis pelos

custeios de transporte e hospedagem.82