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1. KUR’AN’DA HZ İBRAHİM

1.7. Kâbe’nin İnşası

As mudanças de paradigma econômico pelas quais passou o mundo nos últimos 150 anos, apresentadas rapidamente na seção anterior, alteraram drasticamente o papel dos Estados nos projetos e metas de crescimento e desenvolvimento.

Alternando tendências liberais e intervencionistas, no entanto, a economia mundial conheceu no século XX um desenvolvimento inédito, acompanhado pela má distribuição (interna e entre países) da enorme riqueza produzida, assim como pela manutenção de números alarmantes de habitantes que vivem abaixo da linha da pobreza. Frente a esse cenário, Sachs (1998) afirma ser o “mau desenvolvimento” o fenômeno marcante do século passado.

Durante o intenso debate desenvolvimentista que ocorreu após o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, o crescimento econômico foi amplamente entendido como sinônimo de desenvolvimento, o que explica o domínio profissional de economistas nos estudos sobre o tema (BOISIER, 2001). Em paralelo, emergiram conceitos de desenvolvimento mais amplos, que buscam reverter essa tendência ao valorizar direitos sociais, participação e liberdade, como apresentado na “Declaração Universal pelos Direitos Humanos” da ONU (1948) e no documento “Uma agenda para o desenvolvimento” (1995), elaborado pelo secretário-geral das Nações Unidas, Boutros Boutros-Gali.

Em 1970, o economista britânico Dudley Seers, fortemente influenciado pelo pensamento de Mahatma Gandhi, publicou um importante artigo que apontava para o caráter normativo do conceito de desenvolvimento, relacionando-o às condições necessárias para a realização do potencial humano, como a alimentação, o emprego, a igualdade e a equidade – já introduzindo elementos subjetivos e intangíveis que só se fortaleceriam no debate estabelecido décadas depois (BOISIER, 2001).

14 Disponível em: <http://www.nytimes.com/2003/12/24/opinion/24iht-eddavid_ed3_.html>. Acessado em 8 jan.

Buscando refletir sobre a origem e o conceito de desenvolvimento que permeiam a análise da presente pesquisa, são apresentadas duas abordagens acerca de seu entendimento mais básico. A primeira versa sobre seu caráter econômico e o vincula ao crescimento econômico, como postulado por Bresser-Pereira (2008); e a segunda apresenta os argumentos de Robert Flammang (1979), que diferencia crescimento econômico de desenvolvimento.

Bresser-Pereira (2008) afirma que, normativamente, o desenvolvimento econômico está para além do crescimento econômico, mas não desvincula a melhora de índices macroeconômicos à qualidade de vida: “O desenvolvimento econômico de um país ou Estados- nação é o processo de acumulação de capital e incorporação de progresso técnico ao trabalho e ao capital que leva ao aumento da produtividade, dos salários e do padrão médio de vida da população” (BRESSER-PEREIRA, 2008, p.1-2).

O autor apresenta alguns dos limites da conceituação tradicional de desenvolvimento baseada no crescimento econômico, e que tem como medida geral a relação entre riqueza produzida e o tamanho da população, exemplificando com o caso de países produtores de petróleo. Bresser-Pereira (2008) afirma que esses países podem rapidamente ampliar sua renda, aumentando consequentemente sua renda per capta, mas não têm qualquer capacidade produtiva para além do petróleo. Sem capacidade industrial e tecnológica, seriam países desenvolvidos? E se contassem, ainda, com enorme desigualdade na distribuição de renda, de modo que a maioria de sua população não desfrutasse de uma qualidade de vida razoável? Ou, ainda, se enfrentasse um cenário de massacre étnico e religioso, esses países seriam desenvolvidos ainda que registrassem alta renda per capta?

Ancorando-se primeiro na obra Teoria do desenvolvimento econômico, de Joseph A. Schumpeter (1911), Bresser-Pereira (2008) assume que desenvolvimento, diferentemente do crescimento, acontece sob mudanças estruturais, culturais e institucionais. Mas, em seguida, o autor toma Celso Furtado (1967)15 como fonte para afirmar que seria historicamente pouco provável que houvesse expansão simultânea de todos os setores produtivos (desenvolvimento econômico) sem qualquer aumento da produtividade (crescimento econômico), e que só haveria aumento da produtividade de uma sociedade como um todo – o que levaria ao aumento da riqueza e consequente aumento da renda per capta – sob uma situação de mudança estrutural.

Bresser-Pereira procura sustentar seus argumentos numa perspectiva histórica, afirmando que não se verifica uma separação entre os conceitos, uma vez que sem aumento

15 Bresser-Pereira ancora-se na emblemática obra Teoria e política do desenvolvimento econômico, publicada

salarial (capacidade de compra) e qualidade de vida da população o crescimento econômico torna-se insustentável. O autor conclui que, por consequência, o conceito de crescimento está diretamente relacionado ao bem-estar da sociedade: “Nas situações normais, as mudanças tecnológicas e de divisão do trabalho que ocorrem com o aumento da produtividade são acompanhadas por mudanças no plano das instituições, da cultura, e das próprias estruturas básicas da sociedade” (BRESSER-PEREIRA, 2008, p. 4).

No entanto, ressalta que desenvolvimento econômico não é o mesmo que desenvolvimento da sociedade como um todo, o que incluiria o avanço também nas áreas de segurança, liberdade, justiça social e proteção ambiental, de forma equilibrada. E esse é um ponto-chave. Bresser-Pereira diferencia o desenvolvimento como fenômeno histórico (pelo qual argumenta) do desenvolvimento normativo, ou ideológico, que aponta para um desenvolvimento ideal. O caráter normativo do desenvolvimento de que fala o autor vem recentemente ganhando espaço frente ao cenário que prioriza o crescimento econômico. Dentre seus principais representantes estão autores citados anteriormente no debate sobre pobreza: John Friedmann, que aponta para a importância de dotar a teoria econômica de uma finalidade moral; Amartya Sen, para quem desenvolvimento econômico implica expansão das capacidades humanas e aumento da liberdade; e Ignacy Sachs, que além de diferenciar os conceitos, os adjetiva como podendo ser socialmente includentes ou excludentes, propondo uma visão holística de desenvolvimento sustentável baseado em cinco pilares: social, ambiental, territorial, econômico e político.

Bresser-Pereira (2008) acredita ser possível conciliar as abordagens histórica e normativa, desde que sejam diferenciadas. O autor reforça: “Identificar o processo histórico do desenvolvimento econômico com crescimento econômico ou com aumento do valor adicionado

per capita não implica apenas dar um sentido econômico claro ao conceito, mas,

adicionalmente, identificá-lo com a realização de um dos objetivos políticos fundamentais das sociedades modernas [o desenvolvimento econômico]” (BRESSER-PEREIRA, 2008, p. 8). Sen (1999), inclusive, não minimiza o crescimento econômico como fator preponderante para o desenvolvimento humano, mas reforça a importância do caráter normativo na orientação da ação pública para o desenvolvimento.

Um outro viés de análise do processo de desenvolvimento é apresentado por Flammang (1979), que diferencia crescimento e desenvolvimento a partir de sua natureza: quantitativo, quando se refere a crescimento; e qualitativo, ao abordar o desenvolvimento. Alinhado à Bresser-Pereira, o autor afirma que crescimento se atém ao aumento numérico de algo, enquanto desenvolvimento pressupõe um processo de mudança estrutural. No entanto, afirma

que o crescimento econômico pode se originar tanto de mudanças estruturais – como realocação de recursos de produção, pesquisa de novos recursos ou a criação de novos e/ou diferentes empregos – quanto de ajustes para fazer melhor uma atividade já realizada, o que se relaciona ao conceito de crescimento sem mudanças estruturais.

Nessa perspectiva, a mudança de foco recai, por exemplo, na análise de impactos das políticas sociais. Quando se fala de redução da pobreza, essas políticas podem ser puramente redistributivas, não tendo origem no desenvolvimento social, ou seja, em uma mudança estrutural – o que não significa que não tenham a mudança como consequência. Nesse sentido, ações estritamente focadas no aumento da renda se enquadrariam no conceito de crescimento econômico; já políticas voltadas à promoção de mudanças estruturais (como educacionais, culturais, de acesso a direitos, e inclusão social no mercado), estariam mais relacionadas ao conceito de desenvolvimento. Robert Flammang (1979) não aponta para uma prevalência valorativa de uma ou outra característica. Ao contrário, ele afirma que são processos alternativos: o desenvolvimento gera crescimento e o crescimento subsidia o desenvolvimento – raciocínio próximo ao que Natasha Sugiyama e Wendy Hunter apontam em seu trabalho

“Whither clientelism? Good governance and Brazil's Bolsa Família Program”, de 2013, como

consequências positivas não intencionadas do Programa Bolsa Família.

Flammang não diferencia características normativas ou ideológicas desses conceitos. Ele classifica como desenvolvimento, por exemplo, qualquer cenário de mudança estrutural, seja ele avaliado ideologicamente como “bom” ou “ruim”, propondo uma reflexão global acerca desse tipo de avaliação a partir do exemplo do desenvolvimento da indústria têxtil britânica. Segundo o autor, ela melhorou os rendimentos britânicos, mas corroeu a produção têxtil artesanal da Índia. Da mesma forma como o ponto de vista pode alterar uma avaliação, Flammang (1979) afirma que o nível de análise para classificar uma mudança pode alterar a forma como ela é classificada. Individualmente ou em nível local, mudanças estruturais podem ser percebidas como crescimento quando vistas por um ângulo mais amplo.

Outra importante constatação sobre a diferença no foco de análise dos diferentes processos de crescimento e desenvolvimento versa sobre o período de tempo que se está estudado, que influencia na análise. As características complementares do processo, apresentadas anteriormente, se expressam com maior clareza ao pesquisador no longo prazo. Já no curto prazo, os processos se apresentam como concorrentes. O autor explica que o modelo de crescimento sobre as atuais bases concorre por recursos escassos de uma sociedade na disputa pelo investimento destes mesmos recursos no processo de desenvolvimento inovador. Ou seja, “[...] enfatizar o crescimento implica, no curto prazo, a desaceleração de mudanças,

enquanto priorizar o desenvolvimento representa, no mesmo curto prazo, frear o crescimento” (FLAMMANG, 1979, p. 58). Nesse sentido, é possível haver períodos de desenvolvimento sem crescimento, e vice-versa.

A partir dessas constatações, o autor afirma que sua distinção entre crescimento e desenvolvimento tem implicações não somente teóricas, mas de precisão de análise, não suficientemente explicitadas pela academia. Em relação às políticas públicas, objeto deste trabalho, por exemplo, ele afirma que ações que visam uma melhor distribuição de renda devem prever mais mudanças estruturais do que o simples aumento da renda, na medida em que a distribuição está mais propensa a se alterar quando a estrutura básica da economia passa por reformas.