• Sonuç bulunamadı

Após a definição dos processos a analisar, realizou-se nova pesquisa documental, extraindo do sítio eletrônico de cada TRT a ata da audiência de instrução e julgamento de cada caso. Com isso, comparou-se a análise dos depoimentos realizados pelos Ministros do TST ao proferirem os acórdãos, com a íntegra dos depoimentos pessoais dos trabalhadores, dos prepostos dos empregadores, bem como das testemunhas das partes.

Realizada a coleta dos dados, com os acórdãos e as atas de instrução, iniciou-se a análise dos dados, para o que se seguiu os ensinamentos de Minayo. Segundo a autora, a análise hermenêutica-dialética se apresenta como melhor técnica em relação às tradicionais análises de conteúdo e análise de discurso:

A crítica básica a respeito da Análise de Conteúdo tradicional (nas suas mais diferentes modalidades) é a sua fraca capacidade explicativa. Sua ênfase quase absoluta na fala como material de análise, transforma a questão da descoberta e da validade, na habilidade de manipulação de instrumentos técnicos, a moda positivista e caudatária das abordagens quantitativas. (...)

Da mesma forma, a Análise do Discurso que tenta ultrapassar a Análise de Conteúdo Tradicional, como o próprio nome indica, também coloca sua tônica na fala. (...) No entanto, o rigor formal de que se reveste costuma sacrificar a riqueza dos detalhes e a multidimensionalidade da pesquisa empírica – características que constituem a aura e o mérito da abordagem antropológica. (...)

A abordagem que mais se coaduna à interpretação consistente dos dados é a marxista, na medida em que ela se propõe a captar o movimento, as contradições e os condicionamentos históricos. (...)

Apesar das constatações feitas e a partir das dificuldades apresentadas na prática teórica é o método hermenêutico-dialético que apresentamos aqui como o mais

obrigação se torna irrecorrível. Segundo o Artigo 467 do Código de Processo Civil, “Denomina-se coisa julgada material a eficácia, que torna imutável e indiscutível a sentença, não mais sujeita a recurso ordinário ou extraordinário”.

capaz de dar conta de uma interpretação aproximada da realidade. Ele coloca a fala em seu contexto para entendê-la a partir do seu interior e no campo da especificidade histórica e totalizante em que é produzida (MINAYO, 2014, p. 229/231).

Os documentos analisados apresentam conteúdos distintos, fato que trouxe algumas dificuldades para a análise e classificação do material. Em alguns documentos, há riqueza de detalhes fáticos. Em outros, há resumos ou sínteses do próprio julgador.

Primeiramente, foi feita uma organização dos casos, separando os julgados por número de processo, órgão julgador, origem do processo, nome do trabalhador e do empregador, nome do Ministro Relator, tipo de recurso, existência de análise do mérito do pedido, existência de modificação do julgado pelo TST, existência de modificação específica do pedido de assédio moral pelo TST, parte autora do recurso, valor arbitrado a título de indenização por assédio moral, espécie de assédio identificada, doença relatada pelo trabalhador, condutas que caracterizaram o assédio e função exercida pelo trabalhador. Em segundo momento, classificaram-se os julgados pela categoria econômica do empregador e pelo gênero dos trabalhadores.

Após essa organização, iniciou-se a análise propriamente dita com leituras flutuantes das falas50, destacando-se os pré-indicadores, ou palavras-chaves, para construção das futuras categorias. Posteriormente, realizou-se a sistematização dos indicadores, buscando uma aproximação de significados constituídos pelos sujeitos através da elaboração de categorias analíticas. Por fim, construíram-se categorias empíricas, em que comparamos as falas dos trabalhadores e as apreensões pelo Poder Judiciário, relacionando-as no contexto social e histórico, bem como seus efeitos na saúde dos trabalhadores.

As categorias foram classificadas em relação à caracterização do assédio, a motivação para assediar, a identificação e características dos sujeitos assediados, a monetarização do fenômeno pelo Judiciário e por derradeiro, os impactos do assédio moral na saúde dos trabalhadores.

No contexto ético, a pesquisa desenvolveu-se respeitando as normas estabelecidas pelo Conselho Nacional de Saúde (Resolução de 466/2012), envolvendo pesquisas com seres humanos. Todos os procedimentos de investigação foram iniciados após aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina da UNESP, com parecer número 773.297. Considerando tratar-se de pesquisa documental, sem participação direta de seres humanos,

50

Optou-se pela utilização do termo “fala” para referir-se ao conteúdo relativo aos registros de depoimentos ou aos textos de petições ou do julgador, existente nos documentos, que expressassem concepções e posicionamento dos mesmos.

autorizou-se o estudo, recomendando-se não utilizar os números dos processos como referência para não identificação dos sujeitos envolvidos.

Cumpre ressaltar que a restrição imposta pelo Comitê de Ética, impedindo a divulgação dos números dos processos, colide com as técnicas de pesquisa adotadas na área jurídica, uma vez que a jurisprudência (decisão proferidas pelos Tribunais), além de ser uma fonte de acesso público, é considerada fonte jurídica, sendo costume a indicação do número dos processos, órgão julgador, relator e data de publicação oficial da decisão51. Ainda assim, respeitou-se a decisão do Comitê, omitindo-se a numeração dos processos.

51CLT, Art. 8º, “caput”: As autoridades administrativas e a Justiça do Trabalho, na falta de disposições legais ou contratuais,

decidirão, conforme o caso, pela jurisprudência, por analogia, por equidade e outros princípios e normas gerais de direito, principalmente do direito do trabalho, e, ainda, de acordo com os usos e costumes, o direito comparado, mas sempre de maneira que nenhum interesse de classe ou particular prevaleça sobre o interesse público.

CAPÍTULO 4 - OS MÉTODOS DE DOMINAÇÃO: O ASSÉDIO MORAL NA