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A força coercitiva para o cumprimento de metas e resultados atingiu níveis irracionais. Tamanha é a pressão para alcançar os objetivos patronais que o trabalhador precisa de autorização para deixar seu posto até mesmo para realizar suas necessidades fisiológicas. Sob a alegação de que a linha produtiva não pode ser interrompida, os funcionários não recebem autorização para ir ao banheiro.

―(...) trabalhou nas reclamadas de 01/02/2006 até 13/04/2007, exercendo a função de agente de atendimento junior ; trabalho juntamente com a reclamante, na mesma célula; antes de ser registrada passou por treinamento de cerca de 01 mês, ministrado no auditório da [...]; no período de treinamento não fez nenhum atendimento, mas apenas a observação de 01 agente de atendimento, sendo o treinamento basicamente teórico; no mural não havia nome de empregados, mas apenas as orientações para o atendimento; possuíam 15 minutos para ginástica laboral, 15 minutos de intervalo para alimentação e 05 minutos para ir ao banheiro, sendo que se no atendimento houvesse fila e já tivessem usado os 05 minutos do banheiro, precisavam fazer todos os atendimentos para poder ir ao banheiro novamente‖ (testemunha, Caso 13).

Essa prática de limitação ao uso do banheiro tem sido rechaçada pelo Judiciário, ante o reconhecimento do assédio moral pela violação do princípio da dignidade humana do trabalhador.

―Como se vê, as testemunhas discorreram acerca de cobranças e rigor excessivos para o atingimento de metas, bem como impedimento de ir ao banheiro a qualquer hora. Ou seja, resta demonstrado que o ambiente de trabalho na reclamada extrapolava a mera cobrança e fiscalização dos serviços prestados. Outro aspecto importante de ser salientado é que as testemunhas referem que os empregados por vezes eram proibidos de ir ao banheiro. Ora, tal fato corrobora com a tese de imposição de metas exageradas e a cobrança por resultados, sendo que, por si só, já é circunstância que viola a esfera dos direitos de personalidade do empregado, submetendo-o a situação de extremo desconforto físico‖ (julgador, Caso 10).

É possível confirmar o entendimento majoritário do TST sobre a questão através do cotejo com outras decisões que não fizeram parte da pesquisa empírica:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. RESTRIÇÃO E CONTROLE NO USO DO BANHEIRO. Caracterizada possível violação do art. 1º, III, da Constituição Federal, cabível o processamento do recurso de revista. Agravo de instrumento provido. RECURSO DE REVISTA.

INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. RESTRIÇÃO E CONTROLE NO USO DO BANHEIRO. A restrição ao uso de banheiros pela empresa não pode ser considerada conduta razoável, pois configura afronta à dignidade da pessoa humana e à privacidade, aliada ao abuso do poder diretivo do empregador. A conduta patronal, caracterizada pela restrição e fiscalização do uso dos toaletes, expõe o trabalhador a constrangimento desnecessário, ensejando a condenação ao pagamento da indenização por dano moral. Há precedentes. Recurso de revista conhecido e provido. (TST - RR: 1295005620135130009 Data de Julgamento: 24/09/2014, Data de Publicação: DEJT 10/10/2014)

"RECURSO DE REVISTA - PROCESSO ELETRÔNICO - INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. RESTRIÇÃO AO USO DE BANHEIRO . A restrição do uso de banheiro expõe indevidamente a privacidade do empregado, ofendendo sua dignidade, visto que não se pode objetivamente controlar a periodicidade da satisfação de necessidades fisiológicas que se apresentam em diferentes níveis em cada indivíduo. Tal procedimento revela abuso aos limites do poder diretivo do empregador passível de indenização por dano moral. Recurso de Revista conhecido e provido." (RR 1764000620135130007, Relator: Márcio Eurico Vitral Amaro, Data de Julgamento: 11/02/2015, 8ª Turma, Data de Publicação: DEJT 20/02/2015) "RECURSO DE REVISTA. DANO MORAL. RESTRIÇÃO AO USO DO BANHEIRO. INDENIZAÇÃO DEVIDA. O poder diretivo do empregador está limitado pela lei, sendo cediço que a ele cabe a direção da prestação de serviços pelo empregado, o que demanda controle e fiscalização, a fim de viabilizar a produtividade. Entretanto, a limitação ao uso de toaletes ao empregado não configura conduta razoável do empregador, pois expõe o trabalhador a constrangimento desnecessário e degradante, violando a sua privacidade e ofendendo a sua dignidade. Precedentes. Recurso de revista conhecido e provido." (RR 1917000520135130008, Relator: Delaíde Miranda Arantes, Data de Julgamento: 25/02/2015, 2ª Turma, Data de Publicação: DEJT 06/03/2015)

"RECURSO DE REVISTA. 1. RESTRIÇÃO AO USO DE BANHEIROS. ABUSO NO EXERCÍCIO DO PODER DIRETIVO. ATO ILÍCITO. DANO MORAL CONFIGURADO. O cerne da controvérsia é saber se o condicionamento do uso de banheiros durante a jornada de trabalho à autorização prévia do empregador configura dano moral. Este colendo Tribunal Superior do Trabalho tem entendido que a submissão do uso de banheiros à autorização prévia fere o princípio da dignidade da pessoa humana (artigo 1º, III, da Constituição Federal), traduzindo-se em verdadeiro abuso no exercício do poder diretivo da empresa (artigo 2º da CLT), o que configura ato ilícito, sendo, assim, indenizável o dano moral. Precedentes desta Corte. Recurso de revista não conhecido." (RR 1300-49.2008.5.15.0074, Relator Ministro: Caputo Bastos, Data de Julgamento: 23/02/2011, 2ª Turma, Data de Publicação: 11/03/2011)

Todavia, infelizmente a questão ainda não é pacífica, pois recentemente o Tribunal se posicionou em sentido contrário.

AGRAVO DE INSTRUMENTO. RECURSO DE REVISTA. AGRAVO DE INSTRUMENTO. DANO MORAL. OPERADOR DE TELEMARKETING. CONTROLE DO USO DO BANHEIRO. Dá-se provimento ao agravo de instrumento quando configurada no recurso de revista a hipótese da alínea c do art. 896 da CLT. Agravo provido. RECURSO DE REVISTA. OPERADOR DE TELEMARKETING. CONTROLE DO USO DO BANHEIRO. PODER DIRETIVO DO EMPREGADOR. DANO MORAL. NÃO CONFIGURAÇÃO. A restrição do uso do banheiro , quando feita de modo razoável e sem abuso, está compreendida no poder diretivo e organizacional do empregador. Recurso de revista

não conhecido. (TST - RR: 1292009420135130009 Data de Julgamento: 04/03/2015, Data de Publicação: DEJT 13/03/2015)

No Caso 13, observa-se interessante situação vivenciada por uma operadora de teleatendimento (call center), e como a compreensão da limitação ao uso do banheiro como uma prática de assédio moral ainda é objeto de divergência de reconhecimento pelo Judiciário. Alegando sofrer cobrança excessiva por metas e resultados, bem como sofrer restrições ao uso de sanitário, a trabalhadora postulou na Justiça o reconhecimento da violência vivenciada como assédio moral. Nas instâncias ordinárias (primeiro e segundo grau), a autora não obteve êxito em seu pleito. Entenderam os julgadores que a empresa estava correta em sua postura, não havendo que se falar em violação de direitos da personalidade da trabalhadora. Vejamos as argumentações dos Julgadores:

―Quanto à restrição ao uso dos banheiros, de fato a prova oral revela que eram disponibilizados cinco minutos para tanto, mas também havia a concessão de outros intervalos de quinze minutos, a exemplo da ginástica laboral e intervalo para lanche. Embora houvesse a necessidade de solicitar autorização ao supervisor, isso não era imprescindível, pois houve caso de atendentes irem ao banheiro mesmo sem autorização conforme afirmou a testemunha [...]‖ (julgador, Caso 13).

―O fato de serem adotados métodos ou regras um tanto rígidas na execução da prestação laboral não induz à conclusão da existência de agressão à dignidade da trabalhadora de molde a justificar indenização de ordem moral. Vale anotar, por oportuno, que o direito de a empregadora estabelecer e fiscalizar as pausas na execução da prestação laboral nada mais constitui do que uma dimensão do próprio poder de direção empresarial legitimado pela Constituição (art. 5º, incisos XIII, XXII e XXII e 170, II e III) e pela CLT (art. 2º), desde que sejam obedecidas as normas de regência e não haja abuso no exercício dessas faculdades.

No caso concreto, a prova oral não evidencia rigor excessivo por parte da empresa que apenas envidava esforços com o fito de obter a máxima produtividade de seus trabalhadores, sem lhes ferir, no entanto, quaisquer dos valores componentes da dignidade humana‖ (julgador do TRT, Caso 13).

Inconformada, a autora recorreu ao TST que, em brilhante decisão, reformou as decisões anteriores e reconheceu a violência vivenciada pela trabalhadora, como abaixo:

―Ora, a higidez física, mental e emocional do ser humano são bens fundamentais de sua vida privada e pública, de sua intimidade, de sua autoestima e afirmação social e, nessa medida, também de sua honra. São bens, portanto, inquestionavelmente tutelados, regra geral, pela Constituição Federal (artigo 5º, V e X). Agredidos em face de circunstâncias laborativas, passam a merecer tutela ainda mais forte e específica da Carta Magna, que se agrega à genérica anterior (artigo 7º, XXVIII, da CF). Considera-se que a Reclamada, ao adotar um sistema de fiscalização que englobava o controle dos empregados quando faziam uso do banheiro, ultrapassou os limites de atuação do seu poder diretivo para atingir, inclusive, a liberdade do empregado de satisfazer suas necessidades fisiológicas, afrontando normas de proteção à saúde e impondo-lhe uma situação degradante e vexatória‖ (julgador, Caso nº 13).

Observa-se nos discursos analisados forte influência de pensamentos conflitantes (capital vs. trabalho). As decisões de origem reconheceram os fatos como condutas legítimas

do empregador que possui total autonomia para empregar mecanismos para alcançar os resultados de produção. Desse modo, a Suprema Corte Trabalhista, sensível aos reclamos da trabalhadora, entendeu que a limitação ao uso de sanitário violava sua dignidade, caracterizando excesso de poder praticado pelo empregador.

Cumpre ressaltar que a atividade de operador de telemarketing possui regulamentação própria no tocante à segurança e saúde do ambiente laboral. Trata-se da NR nº 17 que, em seu Anexo II, item 5.7, expressamente disciplina a questão do uso do sanitário, como a seguir:

5.7. Com o fim de permitir a satisfação das necessidades fisiológicas, as empresas devem permitir que os operadores saiam de seus postos de trabalho a qualquer momento da jornada, sem repercussões sobre suas avaliações e remunerações.

Observa-se, portanto, que as queixas da trabalhadora possuíam respaldo específico na legislação, considerando a peculiaridade de sua atividade profissional. Ainda assim, somente na mais alta Corte da Justiça Laboral obteve êxito em sua demanda.

É notório o constrangimento do trabalhador que está inserido em um ambiente de trabalho em que há limitação ao uso do sanitário. Visto como uma forma de defesa, como uma estratégia para burlar a produção e descansar, a prática de limitar o acesso ao banheiro claramente viola comezinhos direitos fundamentais do trabalhador. Sua condição de cidadão é expropriada, pois noções básicas de higiene e saúde lhe são retiradas.

Nessas condições, o trabalhador deve ser “senhor absoluto” de seu corpo, controlando suas necessidades fisiológicas, pois estas jamais poderão se sujeitar às regras da produção. Essa falácia trata-se de uma das maiores afrontas à dignidade do trabalhador.

―As características da atividade empresarial da ré (fabricação de automóveis), nos moldes e contextos atuais, pressupõem a mecanização e automatização da linha produtiva. Cada empregado tem atividades que, na linha de produção, não permitem a ele ausentar-se do posto de trabalho sem ser substituído pelo facilitador. A necessidade industrial, todavia, não se sobrepõe à dignidade da pessoa humana e ao fato de que o empregado nem sempre consegue ―programar‖ ou controlar o fluxo de suas necessidades biológicas até que o facilitador esteja disponível. Do mesmo modo, o fato de que algumas ocasiões o empregado tenha deixado seu posto, sem substituição ou interrupção na linha de montagem, não pode ser considerado como norma, como regra, mas sim como sorte. E o direito (especialmente o do trabalho), não se regula pela sorte, pela ausência de infortúnios. Absolutamente desnecessário afirmar que se a linha de montagem for interrompida, a responsabilidade recairá sobre o empregado que se ausentou e ele é quem sofrerá penas administrativas variadas, em tese, passíveis até mesmo de despedida por justa causa. O medo dessas sanções, assim como o efetivo dever de subordinação ao empregador, o impedem de ―tentar a sorte‖, indo ao sanitário mesmo sem facilitador‖ (julgador, Caso

10).

A caracterização do assédio moral, portanto, na perspectiva do trabalhador e do poder Judiciário Trabalhista, restou demonstrada através da prática de condutas ofensivas,

humilhantes e vexatórias de forma sistemática, através de cobranças excessivas por metas e resultados, bem como em decorrência de afronta a direitos básicos do trabalhador, atrelados a sua higiene e saúde, como a limitação ao uso do banheiro.

Ocorre que a caracterização do assédio moral traz à baila outra indagação, de fundamental importância: por que assediar? Quais os motivos que levam à prática do assédio moral no trabalho? Procuraremos responder a essas questões na seção seguinte.