O trabalho em jornada extraordinária, sem recebimento de contraprestação financeira, é uma prática comum no mundo do trabalho contemporâneo. Trata-se, claramente, de uma estratégia patronal, à medida em que explora e expropria-se da força de trabalho do operário por período superior ao admitido pela legislação. Muito embora a legislação expressamente preveja remuneração superior para o trabalho extraordinário, o inadimplemento tem-se tornado uma prática comum. Ciente que inúmeras questões jurídicas poderão beneficiá-lo para o não pagamento, como a ausência de efetiva fiscalização pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a possibilidade de prescrição, o receio de o trabalhador comparecer ao Poder Judiciário e não obter novo emprego, a dificuldade de prova pelo trabalhador do labor extraordinário, entre outros, estimulam a adoção desta prática.
No contexto jurídico, estabelece a Constituição Federal de 198859 que a jornada máxima diária será de oito horas e a semanal, de quarenta e quatro horas. Ademais, o artigo 59 da CLT60 prescreve que a duração normal do trabalho poderá ser acrescida, desde que mediante acordo escrito entre empregador e empregado.
Conclui-se, portanto, que o trabalhador não está obrigado a laborar em sobrejornada. No atual contexto contemporâneo de trabalho precarizado, com altas taxas de desemprego, raramente o trabalhador se opõe ao trabalho extraordinário, mesmo porque, quando efetivamente remunerado, representa acréscimo na renda do trabalhador, que já sobrevive com baixos salários. Acontece que a jornada máxima de trabalho já fora fixada em observância aos limites físicos do trabalhador. Excesso de labor torna-se fator desencadeante para o surgimento de doenças, além de aumentar significativamente a probabilidade de ocorrência de acidentes típicos, ante a fadiga do trabalhador. É necessário considerar, ainda, que os tempos sociais do trabalho (ritmos, intensidade, regimes de turnos, hora extra, banco de horas, etc.) encontram-se em contradição com os biorritmos dos indivíduos, gerando acidentes e adoecimentos, destacando-se, internacionalmente, o crescimento de dois grupos de patologias - o das LER/DORT e o dos transtornos mentais (FRANCO, 2010).
59
Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: XIII - duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho (BRASIL, 1988).
60
Art. 59 - A duração normal do trabalho poderá ser acrescida de horas suplementares, em número não excedente de 2 (duas), mediante acordo escrito entre empregador e empregado, ou mediante contrato coletivo de trabalho (BRASIL, 1943).
Há, portanto, estreita relação entre o labor extraordinário e o assédio moral. O trabalhador sente-se obrigado a realizar sobrejornada, mesmo quando ciente que nada receberá. Promessas como promoções são adotadas para estimular o trabalho extraordinário, como é possível observar nos casos a seguir:
―(...) que havia também constante pressão para que trabalhassem em serões; refere que o supervisor vinha e já referia ‗posso contar contigo para o serão, né?‘, sendo que, em caso de recusa, era anotado em uma folha própria nas quais constava em vermelho quando o empregado não viesse, amarelo quando chegasse mais tarde ou saísse antecipado e verde quando vinha; que aconteceu de o depoente recusar serão sendo que então notou diferença no tratamento por parte do supervisor, principalmente no que tange à receptividade deste; que os registros na folha em questão eram depois utilizados pelo supervisor como critério para apreciar eventual requerimento do empregado, esclarecendo o depoente que uma vez pediu aumento e lhe foi negado porque faltou um serão e saiu mais cedo em uma ocasião; que o depoente não teve faltas injustificadas‖ (trabalhador, Caso 10).
―(...) que quanto ao intervalo era o tempo de fazer a refeição e retornar ao trabalho; que a partir de 2008/2009 continuou o plantão a cada 08 semanas e ao mesmo tempo era obrigado a ficar com o celular ligado 24 horas; que quando era chamado no plantão oficial recebia as horas extras, mas não as recebia quando era acionado fora desse período; que a cobrança para que fizesse horas extras sob pena de ser dispensado, partia do coordenador técnico [...], que foi seu superior em 2008/2009; que numa ocasião [...] disse que não via com ‗bons olhos‘ o processo judicial movido pelo Sindicato; que os colegas comentavam que esse processo estaria ou poderia trazer problemas para o empregado e percebeu esse fato pelas demissões que foram ocorrendo e pelo que era falado na ‗rádio peão‘; que alguns colegas pediram a desistência da ação movida pelo Sindicato; que se não atendesse aos chamados fora do seu horário de trabalho, se sentiria sem o comprometimento com a empresa mesmo porque o setor que supervisionava era essencial para a fábrica, mas não chegou a ser ameaçado de punição quanto a isso‖ (trabalhador, Caso 12).
É comum a adoção de estratégias álibis. Criam-se regras e orientações internas
“recomendando” o cumprimento regular da jornada de trabalho e proibindo a prática de horas
extraordinárias. Por outro lado, na realidade, as cobranças excessivas por produtividade impõem ao trabalhador a obrigação do trabalho extraordinário.
―(...) que havia uma ordem formal para que fosse observado o intervalo intrajornada, mas na prática isso não acontecia para supervisores, técnicos e algumas outras funções‖ (testemunha trabalhador,
Caso 12).
―(...) a depoente afirma que era cobrada para não realizar horas extras mas que tinha excesso de serviços e por isso muitas vezes anotava o horário de saída no sistema eletrônico e continuava a trabalhar; 6. os primeiros quinze dias do mês são considerados ‗dias de pico‘ e que neste período é que ocorria da depoente ‗algumas vezes‘ anotar o horário de trabalho e voltar a trabalhar, mencionando que isto devia ocorrer em sete a dez dias de trabalho no mês, ocasiões nas quais trabalhava até por volta das 19:30 horas em média‖ (trabalhador, Caso 17).
Constata-se que a dúbia regra de exigir excessiva produção e ao mesmo tempo não
“recomendar”, mas não impedir o trabalho extraordinário, retira do trabalhador seu direito ao
lazer, a desconexão com o trabalho, e o pagamento das horas extras. Assim, suas relações sociais são comprometidas, uma vez que as horas extraordinárias não são previamente programadas.
―(...) alega que passou a prestar serviços ao requerido em 22.04.1985, quando gozava de plena capacidade física e mental, sendo afastada por doença em 19.07.2005, quando exercia a função de Gerente Administrativo, em cujo exercício passou a sofrer forte pressão psicológica por parte de seus superiores hierárquicos, deixando de lado sua família para cumprir as metas determinadas pelos prepostos do banco demandado, realizando jornada excessiva, o que perdurou por um longo período, culminando com seu afastamento por abalo psicológico, mais precisamente por assédio moral. Prosseguindo sustenta que era ofendida verbalmente, com ameaça de demissão caso as metas não fossem cumpridas, sendo desferidas palavras como ‗incompetente‘ e ‗imprestável‘ na presença de outros funcionários‖ (trabalhador, Caso 5).
―(...) quando há necessidade de horas extras, às vezes os empregados são avisados em cima da hora‖
(trabalhador, Caso 14).
A questão da obrigatoriedade de jornada extraordinária como uma das faces da violência laboral também é encontrada na literatura.
As perspectivas de solidariedade entre desempregados, terceirizados e todos aqueles que vivem do trabalho precisam ser resgatadas – reduzindo as barreiras entre sujeitos coletivos que atuam em defesa dos direitos sociais – para afirmar uma razão social do trabalho. Estas perspectivas passam pela necessidade de se reduzir jornadas de trabalho, sem prejuízo do salário para começarmos a trilhar dois caminhos na reconstrução do tecido social: a) desnaturalizar o recurso antissocial à hora extra e/ou às jornadas de trabalho prolongadas que levam ao adoecimento, respeitando biorritmos; b) enfrentar o empobrecimento e o desemprego – forma extrema de precarização, de negação social do indivíduo, forte geradora de adoecimento mental (FRANCO, 2010, p. 244).
As ordens devem ser recebidas passivamente como sinal de integração à política da empresa. Deve-se trabalhar em silêncio e quase invisivelmente, fazer horas extras ou produzir o determinado, sem se lastimar. Negar ou contestar as ordens é desobediência que deve ser punida, servindo de exemplo para outros companheiros que devem continuar produzindo (BARRETO, 2013).
É notório que a carga extra de trabalho influencia no sofrimento do trabalhador, especialmente quando não há a efetiva contraprestação financeira. Além de se sentir obrigado a trabalhador além da jornada, mesmo sem remuneração, sob pena de perder o emprego, deixa de desfrutar de horas de lazer e de convívio familiar. A exigência de trabalho extraordinário está claramente relacionada, portanto, à estratégia empresarial de redução de despesas. Prolonga-se a jornada, expropriando-se a força de trabalho, sem efetivamente remunerar o trabalhador.
A estratégia da jornada extraordinária é alcançada à medida em que o trabalhador sente-se obrigado a “cooperar”, caso contrário será considerado “fora do time”, pois “não
―(...) que se encontrava com o reclamante com alguma frequência pela fábrica e pode dizer que tal com os demais supervisores o reclamante ‗esticava muito o seu horário‘, ou seja ficava até às 18/19 horas, podendo ficar até às 20 horas ou mesmo passar desse horário em algumas situações; que às vezes almoçava com o reclamante e em muitas ocasiões era o tempo de fazer as refeições e retornar ao trabalho; que o reclamante tinha um celular da empresa e a ordem era para que ficasse ligado 24 horas; que havia muita ‗pressão‘ para fazer horas extras e quem as recusava era considerado como ‗fora do time‘ ou que não estava comprometido com a empresa; que se o reclamante não atendesse ao chamado via celular poderia ficam ‗mal visto‘" (testemunha do trabalhador, Caso 12).
Nesse contexto, a exigência de trabalho extraordinário relaciona-se com a precarização do mundo do trabalho. Ciente da legião de desempregados prontos a aceitar qualquer emprego, independentemente da remuneração e das condições oferecidas, o patronato utiliza- se desse cenário para intensificar o assédio moral. O pano de fundo, portanto, é a redução de despesas para o aumento da margem de lucro. Se o trabalhador laborar em hora extra, será alcançada maior produtividade com menor custo; se o trabalhar não suportar a pressão, pedirá demissão, oportunidade em que poderá dispensá-lo por um baixo valor rescisório e recontratar outro trabalhador por remuneração inferior.
―(...) o autor alega que, nas reuniões, o Diretor comercial Sr. [...] ofendia os empregados, dentre eles o reclamante em específico. Ameaçava de demissão a todo instante, com cobranças de metas e objetivos, citando o nome do reclamante e de outros os quais ele o direto, gostaria de demitir‖ (trabalhador - Caso 1).
―(...) que trabalhou por um ano e pouco, teve alguns atestados, sem produção satisfatória; que foi aconselhado por [...], gerente da produção, a pedir as contas, para evitar despedida por justa causa; que não estava produzindo porque não conseguia; que ninguém presenciou a conversa com [...]; que [...] também o ameaçou que se não tirasse a produção naquele dia estaria na rua; que nesse dia não conseguiu tirar a produção; que não foi despedido porque era membro da CIPA; que depois [...] disse que não poderia demitir porque era da CIPA; que depois de uma série de ameaças, [...] disse ao reclamante que o caso dele era de justa causa mesmo‖ (trabalhador, Caso 2).
Ao lado da recontratação por remuneração inferior, há as novas formas de precarização decorrente de contratações terceirizadas. Nessas, a forma de contratação e remuneração normalmente é ainda mais inferior, pois o terceiro intermediador também aufere lucros. Nessa toada, cria-se um cenário vicioso de precarização.
A terceirização tem sido adotada como estratégia empresarial para redução de despesas. Contrata-se empresa interposta para o fornecimento de mão de obra, para a
realização de atividades consideradas secundárias, de “meio”, não relacionadas à atividade
fim, principal do empregador. Serviços de recepção, como atendimento, limpeza, vigilância, cobrança via teleatendimento, entre outros, estão entre os mais presentes. O próprio Estado, em todas suas esferas, tem adotado esta prática precarizante. Ao invés de realizar contratação regular por concurso público, terceiriza atividades consideradas secundárias.
Cria-se, com a terceirização, uma segregação, uma pirâmide hierárquica onde os terceirizados são inferiorizados e, muitas vezes, humilhados.
―(...) ouviu por uma vez o tenente [...] se referir ao setor de atendimento no qual trabalhavam mais mulheres como ‗galinheiro‘, presenciou, por uma vez um incidente entre a reclamante e o sargento [...], ouvindo o sargento [...] dizer à reclamante para calar a boca e ordenar que ela se sentasse; havia muita pressão por parte dos militares quanto às instruções e registros das ocorrências e muitas cobranças; era frequente as cadeiras do local de trabalho estarem quebradas; houve comentários no setor de trabalho, no sentido de que um militar chamou a reclamante por telefone, de ‗desgraça‘‖(testemunha do trabalhador, Caso 24).
Intensifica-se o trabalho de forma dobrada. Além das exigências impostas pelo empregador direto, o trabalhador terceirizado muitas vezes responde também ao próprio tomador de serviços, quando se encontra alocado em seu ambiente de trabalho.
"O sr [...], atualmente aposentado, era chefe de serviço da gráfica, sendo responsável pelo setor, tendo contato direto com os empregados das prestadoras. Não chegou ao conhecimento da direção qualquer denúncia no sentido de assédio por parte do Sr. [...]‖ (trabalhador, Caso 27).
Práticas assediantes como a limitação do uso do banheiro são costumeiras, em especial no setor de teleatendimento. Os treinamentos são realizados pela tomadora, inclusive quanto às regras internas de atendimentos e pausas.
―(...) trabalhou nas reclamadas de 01/02/2006 até 13/04/2007, exercendo a função de agente de atendimento junior ; trabalho juntamente com a reclamante, na mesma célula; antes de ser registrada passou por treinamento de cerca de 01 mês, ministrado no auditório da empresa tomadora [...]; no período de treinamento não fez nenhum atendimento, mas apenas a observação de 01 agente de atendimento, sendo o treinamento basicamente teórico; no mural não havia nome de empregados, mas apenas as orientações para o atendimento; possuíam 15 minutos para ginástica laboral, 15 minutos de intervalo para alimentação e 05 minutos para ir ao banheiro, sendo que se no atendimento houvesse fila e já tivessem usado os 05 minutos do banheiro, precisavam fazer todos os atendimentos para poder ir ao banheiro novamente‖ (trabalhadora, Caso 13).
Além da segregação imposta entre os funcionários terceirizados e aqueles contratados diretamente pelo tomador, a constante rotatividade dos postos de trabalho impede que o trabalhador crie laços de amizade e solidariedade. O trabalhador não se identifica com o ambiente de trabalho, pois constantemente é designado para outro local. Sequer é capaz de criar expectativas quanto ao local de trabalho a ser designado.
―(...) que foi contratada pela [...] e inicialmente prestou serviços a tomadora [...]; que afastou-se por cerca de 2 anos e meio para tratamento de doença ocupacional e quando retornou a [...] estava prestando serviços para outra tomadora, a empresa [...]‖ (trabalhadora, Caso 19).
Nesse sentido, é notória a relação da precarização do trabalho através da terceirização com o assédio moral. Dupla cobrança por metas e resultados (empregador e tomador), restrição ao uso do banheiro, constante rotatividade de postos de trabalho, designação para trabalhos em ambientes com estruturas físicas precárias, tratamento discriminatório, entre ouras práticas, demonstram que a violência moral se intensifica em ambientes já precarizados pela terceirização.
Fato relevante a ser ressaltado também é que, em todos os casos analisados em que há relatos de assédio em trabalho terceirizado, há tentativa patronal de esquivar-se do cumprimento das obrigações trabalhistas. O tomador de serviços, em especial o Estado, conforme resultados apontados, maneja recursos até as últimas Instâncias da Justiça do Trabalho para afastar sua responsabilidade subsidiária pelas obrigações devidas ao trabalhador. Claro está, portanto, que a terceirização nada mais traz do que precarização ao mundo do trabalho.
Ultrapassada a análise de caracterização e motivação para a prática do assédio, cumpre compreender quem são os trabalhadores que vivenciam a violência moral no trabalho.