A partir das últimas décadas do século passado, houve uma transformação na maneira de se compreender a leitura e a escrita. A linguagem passou a ser vista como um processo dinâmico e o letramento começaram a ser debatido no cenário educacional brasileiro. O termo letramento foi usado pela 1ª vez, no Brasil, por Mary Kato, em 1986, no texto No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística, publicado pela editora Ática. Dois anos depois, passou a representar um referencial no discurso da educação, ao ser definido por Tfouni (1986) em Adultos não alfabetizados: o avesso do avesso e retomado em publicações posteriores. Alguns anos antes, os conceitos subjacentes ao termo brasileiro letramento já eram discutidos pela escola de pensamento e pesquisa intitulada New Literacy Studies (Novos Estudos do Letramento), principalmente, nos países de língua inglesa. (SOARES, 2009)
O fenômeno do letramento constitui, em nossa compreensão, uma discussão que ganhou substancialmente espaço no Brasil ao longo da década de 1990, e as autoras Leda Tfouni, Ângela Kleiman e Magda Soares, entre outros estudiosos do tema no país, contribuíram com publicações de ampla repercussão nacional.
Soares (2003) define o letramento como “resultado da ação de ensinar a ler e escrever. É o estado ou a condição que adquire um grupo social ou um indivíduo como consequência de ter-se apropriado da escrita” (SOARES, 2003, p. 34).
Kleiman (1995) define letramento como umas das vertentes que busca unir interesses teóricos com interesses sociais, a fim de que a situação de indivíduos marginalizados por não dominarem a escrita possa mudar. A autora ressalta que
[...] o conceito de letramento começou a ser usado nos meios acadêmicos numa tentativa de separar os estudos sobre o ‘impacto social da escrita’ dos estudos sobre a alfabetização, cujas conotações escolares destacam as competências individuais no uso e na prática da escrita (KLEIMAN, 1995, p. 15).
Para contrapor esse modelo de letramento veiculado nas escolas, Street (1984), a fim de encontrar alternativas para as questões de ensino que envolve, principalmente, a escrita,
propõe um modelo ideológico, destacando que “[...] todas as práticas de letramento são aspectos não apenas da cultura, mas também das estruturas de poder numa sociedade” (KLEIMAN, 1995, p. 38).
Kleiman considera que o letramento são práticas de leitura e escrita, e analisa duas concepções dominantes de letramento, relacionando o termo com a situação de ensino e aprendizagem da língua escrita por parte de crianças, adolescentes e adultos.
Podemos definir hoje o letramento como um conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos [...]. As práticas específicas da escola, que forneciam o parâmetro de prática social segundo a qual o letramento era definido, e segundo a qual os sujeitos eram classificados ao longo da dicotomia alfabetizado ou não alfabetizado, passam a ser, em função dessa definição, apenas um tipo de prática – de fato, dominante – que desenvolve alguns tipos de habilidades, mas não outros, e que determina uma forma de utilizar o conhecimento sobre a escrita. (KLEIMAN, 1995, p. 19).
Segundo Tfouni (1995), letramento pode ser entendido como o processo que “focaliza os aspectos sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma sociedade.” (TFOUNI, 1995, p.20). Nesta perspectiva, o letramento apresenta-se como um processo mais abrangente que a alfabetização, que advém de uma leitura crítica de mundo, capaz de fazer com que o sujeito consiga construir conhecimentos, na complexidade das relações históricas construídas no contexto societário.
Portanto, o letramento é um processo que acontece durante a vida inteira, mas que deve ir alcançando graus de complexidade maior, na medida em que a pessoa procura compreender as situações concretas que estão sendo vivenciadas, em uma profundidade investigativa, que visa ir além das sensações aparentes, buscando, na sua relação com toda a sociedade, as co-relações entre a particularidade do vivido e a totalidade das relações estabelecidas no e com o mundo.
O letramento é um processo contínuo, que, inclusive, não se trata de decodificação de letras, sons e sinais, mas sim, de algo que está sempre em movimento e acontece ao longo da vida. Com relação aos modos de abordagem do letramento, Street (2003) aponta dois modelos: o “autônomo” e o “ideológico”. O modelo “autônomo” de letramento funciona com base na suposição de que, em si mesmo, o letramento, de forma autônoma, terá efeitos sobre outras práticas sociais e cognitivas. Entretanto, o modelo disfarça as suposições culturais e ideológicas sobre as quais se baseiam, que podem então ser apresentadas como se fossem neutras e universais.
O modelo “ideológico” alternativo de letramento oferece uma visão com maior sensibilidade cultural das práticas de letramento, na medida em que elas variam de um contexto para outro. Esse modelo parte de premissas diferentes das adotadas pelo modelo “autônomo”, propondo, por outro lado, que o letramento é uma prática de cunho social, e não meramente uma habilidade técnica e neutra, e que aparece sempre envolto em princípios epistemológicos socialmente construídos.
De acordo com Jung (2003), a respeito do modelo autônomo de letramento proposto por Street (1984):
[...] a escrita é um produto completo em si mesmo. Ao conceber a escrita dessa forma, o leitor não precisa considerar o contexto de sua produção para a interpretação. O processo de interpretação está determinado pelo funcionamento lógico interno do texto escrito. Assim, a escrita e a oralidade representam ordens diferentes de comunicação, pois enquanto a escrita é, em princípio, um produto completo em si mesmo, a oralidade está ligada mais diretamente à função interpessoal da linguagem, às identidades e às relações que as pessoas constroem na interação. (JUNG, 2003, p.59)
Segundo essa autora, é a adoção do modelo autônomo de letramento pela escola que a leva a atribuir ao alunado a responsabilidade por seu fracasso no que concerne à aprendizagem da escrita e o domínio de sua utilização.
A escola, nesse sentido, é autônoma, um modelo à parte da sociedade, o que lhe garante o título de detentora dominante do saber, uma vez que suas leis estão relacionadas com o prestígio social que um indivíduo possui perante a sociedade, pois é considerado “culto” o indivíduo que domina o saber adquirido na escola.
Assim, longe da prática social, a escola abrange uma concepção de currículo rígida e segmentada de conteúdos que são organizados sequencialmente, do mais fácil para o mais difícil, o que é incompatível com o desenvolvimento linguístico-discursivo do estudante, pois essa realidade não considera a bagagem cultural diversificada que um indivíduo possui antes de entrar na escola, visto que ele já nasce sendo participante de atividades corriqueiras de uma sociedade tecnologizada e letrada (KLEIMAN, 2007).
No modelo ideológico de letramento, o sentido de um texto não está atrelado em sua forma, no modo de organização de suas palavras, dos parágrafos e outros elementos de textualidade, porque depende dos contextos e das instituições em que a escrita é adquirida e praticada. Por isso, as práticas de letramento construídas nos eventos de letramento são aspectos da cultura e das estruturas de poder. Nesse modelo, portanto, são consideradas as
práticas de letramento adquiridas pelos indivíduos antes mesmo de seu ingresso no universo escolar.
Segundo Marcuschi (2001), Street busca, com o modelo ideológico de letramento, inserir as questões técnicas, culturais, cognitivas e sociais envolvidas no letramento, isto é, no conjunto das relações de poder em que operam. Para ele, até mesmo o trabalho desenvolvido no modelo autônomo de letramento, apontado como o dominante na escola, estaria inserido no interior do modelo ideológico como uma das formas de se tratar o letramento. Além disso, Street (2006) considera as variáveis oralidade e escrita, em seus estudos, e sugere que tais variáveis sejam tratadas como práticas que diferem de um contexto sociocultural para outro.
O modelo ideológico de letramento é teoricamente sensível à diversidade local nas práticas de letramento e propicia a compreensão que as pessoas têm dos próprios usos e dos significados da leitura e da escrita. Esse modelo não deve ser entendido como uma negação ao que propõe a vertente autônoma da escola, ao contrário, as práticas de letramento estariam vinculadas aos aspectos sociais e culturais e por eles determinadas, o que, em outras palavras, refere-se à amplitude de significados que a escrita assume, nos diferentes contextos em que ela se faz presente. Jung complementa esta ideia, esclarecendo que:
[...] o modelo ideológico propõe observar o processo de socialização das pessoas na construção de significado pelos participantes. Além disso, esse modelo está interessado nas instituições sociais gerais e não apenas nas educacionais, como se observa no modelo autônomo (JUNG, 2003, p. 60).
Em síntese, o modelo ideológico sustenta que o letramento é o processo interno entre o indivíduo e o social, em um movimento de compartilhamento cognitivo, o qual envolve ideologias que podem estar ligadas a ações políticas, econômicas e sociais.