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2.4 Özgülemenin Gerçekleşmesi ve Özgülemede Esas Alınan Değerler

2.4.1 Özgülemenin Gerçekleşmesi

2.4.1.1 Özgüleme Kararı

2.4.1.1.1 İradî Özgüleme

Neste tópico, focaremos a narrativa das experiências no trabalho das educadoras, o cotidiano de trabalhos com a rotina, regras, o funcionamento das escolas, a carga horária, as normas e renormalizações geridas dentro do contexto da atividade de trabalho e os sentidos, de uma forma em geral, que elas deram a toda essa trama.

Surge então, aqui, a relação das mesmas com o trabalho no contexto escolar, assim como o sentido atribuído a ele, as mobilizações necessárias para que prescrições e normas vindas ou não de fora da escola, quer dizer, da Secretaria de Educação, ou de padrões políticos estabelecidos dentro do contexto escolar não prejudicassem o saber-fazer no trabalho. Em virtude dessa análise, cabe aqui o conceito de Charlot sobre o que significa a palavra “mobilização”, bastante utilizada nesta dissertação. Para ele:

O conceito de mobilização implica a idéia de movimento. Mobilizar é pôr em movimento; mobilizar-se é pôr-se em movimento. Para insistir nessa

dinâmica interna é que utilizamos o termo “mobilização”, de preferência ao de “motivação”. A mobilização implica mobilizar-se (“de dentro”),

enquanto que a motivação enfatiza o fato de que se é motivado por alguém

ou por algo (“de fora”). É verdade que, no fim da análise, esses conceitos

convergem: poder-se-ia dizer que eu me mobilizo para alcançar um objetivo que me motiva e que sou motivado por algo que pode mobilizar- me. Mas o termo mobilização tem a vantagem de insistir sobre a dinâmica do movimento (2000, pp. 54-5).

Nessa perspectiva, encontram-se diversas formas de mobilização no cotidiano dessas professoras na década de 1970. O perfil da escola pública naquele período variou do início da década para o fim da mesma, segundo a fala das próprias entrevistadas. Os relatos demonstram que o Estado estava em processo de sucateamento e desvalorização do profissional da educação, processo esse que vinha desde a década de 1960, após o golpe militar, em que o governo parou de fazer concursos públicos e os professores eram empregados com contratos precários, que lhes davam poucos direitos no que tange a questões trabalhistas.

Segundo o Jornal Diário de Minas62, de 2 de junho de 1979, em reportagem a

respeito da greve de professores de 1979, nesse ano existiam cerca de 37.000 professores não efetivados, em condição de contratado. Já no município, com a LDB 5.692/71, foram criadas diversas escolas em Belo Horizonte para atender aos critérios de profissionalização exigidos pela nova lei. Inicialmente, tais escolas, segundo as entrevistadas, tinham boas condições físicas e materiais, fato que se foi esvaindo no final da década por falta de manutenção ou de recursos, ou pelos dois.

Pelo que foi relatado, as rotinas eram cansativas, todas trabalharam em mais de um turno, duas delas justificaram a necessidade e/ou vontade de obter mais recursos financeiros, uma justificou que pelo fato de ser formada não pensava em trabalhar somente em um turno, disse que a questão salarial era importante mas tinha como sobreviver se desse aulas somente em um turno em virtude das condições financeiras da família, uma não comentou o porquê da necessidade de trabalhar em três turnos e com carga horária tão extensa.

Observa-se que nos tempos de trabalho os sujeitos compõem e recompõem a rotina diária em práticas que reordenam a jornada de trabalho, o calendário, a metodologia e a política, ajustando e administrando de acordo com as necessidades e interesses que surgem, o que envolve escolhas dramáticas e usos de si em diversas situações cotidianas. Lígia conta um pouco da rotina de trabalho na escola, uma fala extensa que demonstra a grande carga dessa professora que administrava diversas tarefas com a intensidade de três turnos diários. Assim, expõe um pouco do trabalho com riqueza de detalhes:

Menina… eu trabalhava era assim: é… eu trabalhava sábado, domingo, feriado, sabe? Porque eu levava muita coisa pra ser feita em casa, lá na prefeitura nós chegávamos 7 horas da manhã, depois eu afastei do Estado, tirei licença sem vencimento e fiquei dedicando só à prefeitura. Então, era um trabalho muito [dando ênfase à palavra] grande mesmo. Ia às escolas, fazia reunião com diretora, fazia atendimento das supervisoras, atendimento de professor, atendimento dos (...). A gente fazia assim um trabalho global, de todo mundo. Fizemos curso, tinha as leigas em Contagem [município], ainda tinha um grupo de leigas do tempo

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que Contagem era rural e eles não sabiam o que é que faziam com as leigas. Então, nós bolamos o aproveitamento das leigas, elas ajudando na cantina, olhando as merendas, assistindo os alunos nessa parte, dando curso para elas terem um diploma, e elas ficaram muito satisfeitas de ter melhorado na carreira e tudo… Sabe, foi muito bom e teve muito empenho das coisas. (...) Foi muito bom esse trabalho, mas quando foi em 79… [pausa pensativa] como é que foi? Uma diretora deixou a escola porque teve um problema com uma professora, uma coisa assim, aí o secretário pediu para eu ficar nessa escola durante um certo tempo, porque a escola ficou um pouco sofrida com o problema que houve lá. Aí eu fui lá para essa escola, eu esqueci o nome da escola… e fiquei lá… e essa escola… tinha problema de pessoal na escola, problema interpessoal (...). Mas nós criamos umas atividades para as mães, um clube de mães para poder começar a trabalhar, pegamos aqueles meninos maiores para serem monitores, criamos umas coisas lá para vê se ia melhorando o ambiente. Depois, essa escola passou para a Escola M, mas quando eu aceitei ir para lá eu falei com o secretário que eu gostaria então, a partir dali, ficar numa escola e não voltasse para secretaria. Mas no princípio ele não deixou, não. Eu estava na escola e eu tinha que ir à prefeitura umas duas vezes por semana cuidar da correspondência dele, fazer algumas coisas que eu já estava enfronhada e tudo. Mas, com o tempo, ele foi arrumando outras pessoas e pôs outras colegas lá, gente trabalhadora e muito boas e tudo e ele me deu oportunidade, fez uma troca lá de pessoal, me chamou e me perguntou se eu aceitava ir para a Escola S, lá no bairro I, aí eu já gostava muito do bairro e voltei para lá tranquila. Lá eu fiquei, e foi assim um trabalho muito bom que eu tive lá, 2.400 alunos, cento e tantos professores, mas era uma escola que não tinha problema. Era uma escola muito boa, o povo muito esforçado, muito interessado, uma escola que apesar do tamanho e tudo era uma escola light, sabe. A gente conseguiu fazer um bom trabalho lá, fazíamos bons trabalhos… festa junina, a comunidade se interessava muito em participar. Tinha os Alcoólicos Anônimos que funcionava lá na escola e ajudavam, era uma coisa boa mesmo, sabe…

(...)

Trabalhei no Estado, na Escola Estadual Q, de 70 a 77 na década de 1970, concomitantemente com o município de Contagem. Eu ia de ônibus… Eu saía de casa… outro dia mesmo mamãe tava falando: “Lígia, você saía que horas?” Eu falei assim: “Mãe, 4 e meia.” [risos] Quatro e meia eu saía! Porque eu nunca dirigi, né? Então, eu sempre andei de ônibus. Então, a minha situação era difícil.

(...)

Eu trabalhava muito mesmo, a escola do Estado era aqui em Belo Horizonte perto da PUC. Eu tinha uma capacidade de trabalho muito grande. Em Belo Horizonte trabalhei na Escola Q e em Contagem em diversas: nas escolas S, D, F, H, P, lá eu tive diversas escolas e ainda teve esses trabalhos gerais aqui de coordenadora.

(...)

Trabalho intenso na escola de reuniões, conversava com as professoras daquele turno, eu dava aquela orientação para todas elas e olhando a parte administrativa também e tudo. Aí, quando fosse meio dia, eu levava marmita e já almoçava lá mesmo, no Dom Cabral. Eu carreguei marmita doze anos. 63

Essa fala demonstra a grande carga de trabalho dessa professora, que se tornou diretora e atendia um grande público em diversas escolas. Saía às 4 e meia da manhã e trabalhava em três períodos diariamente. Em toda a fala a respeito do trabalho dentro das escolas diversas vezes aparece a palavra “luta”, mas também muito a palavra “entusiasmo”, que advém, segundo ela, das relações firmadas dentro do trabalho, cuja significação para as entrevistadas será relatada mais adiante.

Pode-se perceber que o profissional da educação nos anos 1970 já era, segundo a fala, um trabalhador que acordava cedo, trabalhava o dia todo em vários turnos e em escolas diferentes, almoçava fora de casa – às vezes de marmita – e ainda levava trabalho para casa, abalando a imagem do professor enquanto missionário, trabalhador diferenciado de outros trabalhadores, contudo ratificando a imagem do trabalhador como de todos os outros trabalhadores, com grande carga horária e salário nem sempre satisfatório (ARROYO, 2004). Quando utilizamos a expressão “já era”, referimo-nos à tese de doutorado de Teixeira (1998), que analisa os tempos de trabalho docente, tempos que vão além dos muros da escola e precisam ser conjugados com os diversos tempos do professor, como família, lazer, cidade…, na qual a autora demonstra a intensa cadência nos tempos de trabalho docente, em que até mesmo os tempos de folga desses trabalhadores se tornam tempo de trabalho.

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Outros fatores fazem também com que esses professores e professoras fiquem sobrecarregados nos tempos de escola e trabalho visto que surge o empenho subjetivo maior desses profissionais em sua atividade, o que faz com que as mobilizações desses trabalhadores e trabalhadoras sejam por vezes muito intensas. Quer dizer, esses profissionais acreditam no trabalho que fazem e com poucas condições mobilizam energia e mais trabalho para atividades extras que estavam dispostas a fazer no cotidiano com o intuito de melhoria na qualidade do ensino, tal sejam: trabalho nos fins de semana com ensaios de peça de teatro, reuniões nos fins de semana, mobilizações com rifas para arrecadar recursos, jantares e festinhas também para arrecadar recursos e outras diversas mobilizações.

Marta fala do ritmo do cotidiano dentro da escola e das mobilizações necessárias para dar segmento ao trabalho escolar:

A gente ficava na escola todos os dias de 7 às 11 e meia. Eu era aquela professora que dava todas as matérias, né, mas tinham umas aulas especializadas de Educação Física, de Biblioteca, Educação Artística, essas coisas assim. Mas nesse horário a gente ficava na escola planejando o trabalho, corrigindo prova e nesse horário a gente tinha a liberdade de fazer o que a gente quisesse lá dentro e da tarefa que a gente fazia em casa a gente fazia uma parte lá.

(...)

Bom, os primeiros anos que eu trabalhei com criança pequena e acho que por isso os meninos atendiam mais a gente porque eles eram menores e trabalhei com pré, trabalhei com 1º ano... aí chegava na escola, tocava os sinos, os alunos faziam as filas, entravam pra sala de aula e aí a gente tinha tipo um horariozinho assim pra seguir: primeiro Português, depois Matemática... e a gente fazia tipo um horariozinho pra seguir.

Quando perguntada se seguia os horários, Marta responde:

Mais ou menos [risos]. O horário era da gente mesmo, não tinha esse negócio de sinal e nem nada. De 1ª a 4ª só tinha o intervalo do recreio e, quando tinha, uma aula especializada, mas o tempo todo a gente ficava com eles. Tentava fazer um horário assim... mas... e seguia esse horário. Aí

tinha duas aulas de Educação Física por semana, uma de Biblioteca e eu acho que tinha uma de Educação Artística também, e nesse horário, igual eu te falei, a gente fazia as atividades... fazia plano de aula, na época de prova a gente corrigia prova, às vezes trocava experiência com uma outra colega que também estava com aula especializada, ou a orientadora quando precisava conversar com a gente vinha conversar, sabe, era assim. No final dava o “para casa”, pra levar pra casa. Tinha o mimeógrafo naquela época e tinha muita atividade que a gente fazia na matriz e passava no mimeógrafo.

(...)

A gente tinha algumas reuniões, mas a gente não tinha muita voz ativa, não. A gente tinha reunião e algumas vezes a gente até falava e era acatado, mas o negócio já vinha mais ou menos pronto da prefeitura. As orientadoras faziam reuniões lá, vinham e a gente fazia uma reunião mensal e tudo, mas a gente não tinha muito poder de decisão, não. (...) Entre nós a gente tentava [renormalizar o que vinha pronto]. No princípio não foi muito assim, não. Porque assim, depois é que começou o entrosamento das professoras, eu falo no meu caso porque elas também tinha entrado há pouco. A nossa escola tinha uma particularidade que era assim: as alunas do Magistério do Colégio V é que davam aula lá, não tinha professora da prefeitura, eu acho que a prefeitura só disponibilizou o prédio, o resto da turma entrou um pouco antes, e eu entrei com o concurso. Então, a princípio não era muito assim, não, e depois a gente começou a pensar que aquilo não tava dando muito certo e começou a fazer esse tipo de coisa. Por conta da gente mesmo, a gente não falava com orientadora. Essas coisas ela via e não falava nada, não. Fingia que não via... o problema dela era assim, ela tinha medo de chegar alguém da prefeitura e ver que a coisa não estava andando do jeito que eles queriam, né. Mas sempre deu certo né.64

“Esse tipo de coisa” de que fala a professora diz respeito às reorganizações feitas, por conta própria, dentro do cotidiano de trabalho dela. Foram aulas trocadas, horários ajustados, material didático utilizado que não estava nas normas prescritas pela Secretaria de Educação ou mesmo pela escola, compra de material com recurso próprio e diversas outras atitudes extras que foram fundamentais para que o trabalho fosse consumado. Assim, a fala demonstra que existia uma organização escolar, com

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critérios estabelecidos, horários, disciplinas e hierarquias bem definidas no contexto escolar, mas o trabalho das professoras dentro de sala de aula era, se assim se pode dizer, mais autônomo, dado que se reorganizavam e reestruturavam os planejamentos escolares e os próprios planejamento objetivando maior qualidade e melhoria nas atividades diárias de trabalho, o que facilitava e até mesmo lhes dava certa independência no trabalho. Ressalta-se que essa “certa independência” era fruto da experiência e do trato que davam ao trabalho, o que fazia com que as professoras pudessem organizar os tempos de trabalho da maneira com que os tempos ficassem mais leves na carga diária, como relata Marta ao ser questionada se levava muito trabalho para casa:

Olha, nos primeiros anos eu levava um pouco [de trabalho para casa], levava prova e tudo. Depois eu comecei a trabalhar no Estado também e ficou mais difícil, mas aí eu já tinha um pouco mais de experiência e já fazia na escola mesmo.65

Cecília também relata a experiência quando perguntada se levava muito trabalho para casa da seguinte maneira:

Ah! Muita coisa. Na rede municipal tinham as 24 horas que a gente tinha que ficar lá, mas durou pouco. Eu te falei que nós entramos na Justiça e ganhamos a equiparação, pronto, acabou isso. E no Estado nós tínhamos o módulo 2, que era pra essas coisas, mas era cumprido em casa. Se quisesse ficar na escola corrigindo prova eu ficava, mas eu preferia levar pra casa. Então, levava. Levava prova pra corrigir, trabalhos pra preparar, aulas, né… levava coisas. 66

Ainda nessa perspectiva, Clarice relata como se estruturava a organização do trabalho na escola, ratificando que tal organização era rígida, estruturada e compartimentada:

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Entrevista cedida em 08 de outubro de 2009.

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A escola… a organização dos tempos da escola, da antiga escola primária – tanto no Estado, como na prefeitura – era a mesma coisa. Quatro horas e meia de aula, e a gente tinha quatro horas e meia com o professor dando aula. Era a mesma coisa. E tinha algumas especializações, que era Educação Física, Artes e Biblioteca. Então, quando a escola tinha esse profissional, fazia um horário e pegava sua turma e dava aquela aula que se chamava aula especializada. Entendeu? E, quando a escola não tinha essas especializações, você ficava o tempo integral trabalhando… (...) Era Artes, Biblioteca e Educação Física. Aí, chegava uma professora de Educação Física e dava uma aula por semana em cada turma, por exemplo, de quarenta a cinquenta minutos. Ela pegava os alunos porque tinha essa hora- aula, mas não era toda escola que tinha, aí [o professor] ficava com a carga horária integral. A década de 70 foi toda assim. Sem muita modificação. Com relação ao tempo. (...) Com relação ao tempo, você era a professora daquela turma, daquela série… de 1ª a 4ª, que era minha experiência, e você ficava com a turma o tempo todo e quando tinha aula especializada… se a escola tinha uma… difícil a escola que tinha as três, né? Não tinha muita divergência [dando ênfase à palavra] entre a prefeitura e o Estado, não.

(...)

A supervisora chegava no turno – eu vou falar da minha experiência, não é das pessoas da década de 70. (…) Eu chegava na escola. Pontualmente eu dava o sinal. Todos [dando ênfase à palavra] os alunos faziam fila no pátio. Uma professora na frente de cada fila. Todo [dando ênfase à palavra] mundo por ordem de tamanho e de uniforme, no diurno. Tanto no Estado como na prefeitura era assim. Todo mundo fazia fila, a gente dava as notícias, chamava as atenções que tinham que chamar. Fazia oração coletiva ou um canto, ou… Todos [dando ênfase à palavra] os dias! E depois, ia subindo cada professora levando sua turma pra sala de aula. Aí, eu ia pra minha sala de coordenação, chegava lá tinha uma professora eventual pra substituir faltas e eu olhava. Se tinha uma falta, era ela que ia, se tinha duas, ia uma das professoras especializadas. Aqui na prefeitura tinha Educação Física, (...) tinha as três, as três áreas que eram próprias da época. E aí, cada qual ia dar sua aula, e tinha assim… e eu dividia, gastava minha primeira hora dividindo o trabalho que cada um ia

fazer. Eu ia e distribuía as atividades todas que estavam rodadas… eu ia…. era assim, sabe? 67

Como se pode perceber na fala, a organização era estruturada e de certa forma controladora dos “trabalhadores pensantes” da organização escolar, pode-se perceber também o papel que a supervisora escolar tinha no período, de supervisionar o trabalho, em especial o trabalho do professor, traços da educação tecnicista da época, herança da racionalização e divisão do trabalho, ratificando o processo de taylorização na educação.

Apesar de não ter sido comentada por nenhuma das educadoras, a organização do ensino escolar em seriação, historicamente, tem também a intencionalidade de controle, além de classificação e disciplinamento. Faria Filho (2001) fez uma análise sucinta a respeito da questão da organização do trabalho pedagógico em seriação, que só surgiu no ensino mineiro em 1906, com a Reforma João Pinheiro. Segundo o autor, a instrução pública era isolada, na qual normalmente havia um professor para uma turma de cerca de 45 alunos. Antes das séries, as escolas eram organizadas em turmas nas quais, geralmente, havia alunos com idade bastante diferenciada que eram subdivididos em classes respeitando o adiantamento dos alunos que frequentavam as aulas, o que possibilitava ao professor dar aulas numa mesma turma para classes diferentes. Não eram classes multisseriadas, pois não havia a classificação de série, e a organização dos alunos dentro de sala de aula se dava por meio da sensibilidade e competência do professor em perceber os diferentes níveis de conhecimento dentro de tais turmas para assim dar prosseguimento ao processo de ensino.

Ainda segundo Faria Filho (2001), o surgimento dos grupos escolares veio como forma de organizar e reinventar a escola com o objetivo de contribuir com a homogeneização cultural e política da sociedade pretendida pelas elites de Minas Gerais. Para Faria Filho:

reinventar a escola significava, dentre outras coisas, organizar o ensino, suas metodologias e conteúdos; formar, controlar e fiscalizar os professores; adequar espaços e tempos ao ensino; repensar a relação com as crianças, famílias e com a própria cidade (2010, p. 43).

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Assim, o ensino seriado surgiu como inovação na Reforma João Pinheiro complexificando o trabalho dos professores, pois o maior desafio era homogeneizar um grande número de alunos heterogêneos. O que interessa aqui é que, depois de anos de adaptação, afinal de contas o objeto está instaurado nos anos de 1970, essa organização escolar de seriação era a que predominava na escola e talvez não tenha