• Sonuç bulunamadı

Para mensurar os diferentes níveis de proficiência da leitura no país, são utilizadas medidas e critérios padronizados, que, ao mesmo tempo, influenciam e refletem o modo como a sociedade interpreta e avalia o processo de apropriação da leitura e da escrita. Nos últimos anos, de acordo com as políticas públicas educacionais adotadas, foram instituídos programas nacionais de avaliação, como o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (SAEB), que têm como objetivo acompanhar a evolução da qualidade da educação ao longo dos anos. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP),17 as informações obtidas pelos levantamentos do SAEB são utilizadas principalmente pelo Ministério da Educação e secretarias estaduais e municipais de educação na definição de ações voltadas para a solução dos problemas

16

Este ano de 2011 termina o prazo para que os estados brasileiros se ajustem à Lei de Diretrizes e Bases, que prevê a universalização do Ensino Fundamental de nove anos.

17

O INEP é um órgão vinculado ao MEC, cujo objetivo é organizar e manter em funcionamento o sistema de informações e estatísticas educacionais.

identificados. Um dos principais problemas evidenciados por esses exames é o baixo nível de proficiência da leitura dos alunos avaliados.

Segundo Rojo (2009), o SAEB se aproxima de uma concepção discursiva de leitura, pois incorpora descritores ou habilidades que dizem respeito ao conteúdo, à materialidade linguística do texto, e abordam ainda a situação de produção do texto. Apesar dessa ampliação no entendimento do processo de leitura, os resultados obtidos demonstram inúmeros problemas. As médias alcançadas pelos alunos da 4ª série do EF mostram que, de 1995 a 2005, houve uma queda na proficiência em língua portuguesa, como podemos visualizar no gráfico a seguir:

GRÁFICO 1 – Médias de Proficiência SAEB Fonte: INEP, Brasil – 2005

Os dados apontam, ainda, que em 2003 somente 4,42% das crianças da 4° série haviam alcançado um estágio adequado ao ní vel de ensino a que pertencem. A grande maioria demonstrou desempenho em língua portuguesa bem abaixo do desejado; 22% dos alunos não desenvolveram habilidades de leitura compatíveis com esse patamar de escolaridade e 37% aprimoraram algumas competências, mas permaneceram aquém do nível exigido para a 4a série. Isso

significa que 59% dos avaliados não conseguem ler um texto simples e se encontram em um estágio crítico.18 Além disso, não são capazes também de localizar no material escrito duas informações colocadas de maneira separada e não identificam o tema central de um texto.

No estado de Minas Gerais, foi desenvolvido outro instrumento significativo de avaliação, realizado anualmente com os alunos da fase de alfabetização. Todos os alunos que estão cursando o 3º ano do Ensino Fundamental de 9 anos nas escolas estaduais e municipais de Minas Gerais participam do Programa de Avaliação da Alfabetização (Proalfa).19 Em 2006, quando a primeira avaliação foi realizada, o percentual das crianças da rede estadual no nível recomendável de leitura para o 3º ano era de 48,7%. Já em 2009, na última edição do Proalfa, esse índice cresceu para 72,6%. Outro dado importante foi a redução dos alunos no nível baixo de desempenho, que caiu de 30,8% em 2006 para 11,9% em 2009.

Os resultados do SAEB e do Proalfa mostram que muitos alunos ainda apresentam domínio limitado das capacidades necessárias para desempenhar com sucesso atividades diversas na esfera social. Os dados do PISA 2009 não são muito diferentes. Apesar da adoção de uma concepção cognitiva (ROJO, 2009) que visa avaliar a aquisição de capacidades básicas de leitura,20 como: localização, identificação e recuperação de informação, interpretação e reflexão, os resultados apresentados no Relatório Pisa 2009 também são bastante impactantes. Dentre os alunos de 15 anos de 65 países diferentes, os brasileiros obtiveram um dos piores resultados na avaliação das capacidades de leitura, ocupando a 53° posição. A pontuação média do exame é de cerca de 500 pontos; a pontuação obtida pelo Brasil foi de 412. O desempenho é semelhante ao de países como Trinidad e Tobago, Colômbia, Montenegro e Jordânia. Apenas 1,2% dos alunos avaliados atingiram o nível 5, em que o estudante é considerado capaz de: organizar informações contidas, inferindo a informação relevante para o texto; avaliar

18

De acordo com o estágio de construção de competências proposto pelo SAEB, os níveis estabelecidos são: muito crítico, crítico, intermediário e adequado.

19

O Proalfa foi implantado pela Secretaria Estadual de Educação em 2006, em parceria com o Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (CEALE), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com o Centro de Políticas Públicas e Avaliação da Educação (CAED), da Universidade Federal de Juiz de Fora.

20

criticamente um texto; demonstrar uma compreensão global e detalhada de um texto com conteúdo ou forma não familiar.

Fora do âmbito escolar, os dados do Indicador de Alfabetismo21 Funcional – INAF22 – também apontam números preocupantes. Segundo a pesquisa realizada em 2009, somente 25% da população tem domínio pleno das habilidades de leitura e escrita. Esse contingente representa o equivalente a aproximadamente 48 milhões de um total de mais de 191 milhões de pessoas. Vejamos o QUADRO 1, que exibe a evolução dos níveis de alfabetismo entre 2005 e 2009:

QUADRO 1

Evolução dos Níveis de Alfabetismo – INAF (2005-2009)

EVOLUÇÃO DOS NÍVEIS DE ALFABETISMO

2005 2007 2009

Analfabeto 11% 9% 7%

Alfabetizado nível

rudimentar 26% 25% 21%

Alfabetizado nível básico 38% 38% 47%

Alfabetizado nível pleno 26% 28% 25%

Cabe esclarecer os níveis de alfabetismo, tal como definidos pelo INAF:

analfabeto – corresponde à condição dos que não conseguem realizar tarefas simples que envolvam a leitura de palavras e frases [...]

alfabetismo nível rudimentar – corresponde à capacidade de localizar uma informação explícita em textos curtos e familiares (como um anúncio ou pequena carta) [...]

alfabetismo nível básico – as pessoas classificadas nesse nível podem ser consideradas funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos de média extensão, localizam informação mesmo que seja necessário realizar pequenas inferências [...]

alfabetismo nível pleno – classificadas nesse nível estão as pessoas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar elementos usuais da sociedade letrada: leem textos mais longos

21

Alfabetismo é, segundo Rojo (2009), um conceito que disputa espaço com o conceito de letramento, que será melhor discutido no capítulo 2 desta dissertação.

22

Os dados são referentes à pesquisa do ano de 2009. O objetivo principal do nosso estudo é investigar os aspectos relacionados à leitura, portanto consideramos apenas os índices e as classificações de letramento da população.

relacionando suas partes, comparam e interpretam informações, distinguem fato de opinião, realizam inferências e sínteses [...] (INAF, 2007, p. 7, grifo do autor).

Como pode ser visto no QUADRO 1, apesar de a taxa de analfabetismo ter caído de 9% em 2007 para 7% em 2009, 28% da população de 15 a 64 anos ainda é composta por analfabetos funcionais. Ou seja, são pessoas que sabem ler e escrever, mas não possuem as habilidades de leitura, escrita e cálculos necessários ao seu desenvolvimento pessoal e profissional (VARGAS, 2010).

Nesse sentido, os resultados concretos e mensuráveis das avaliações apresentadas demonstram que a superação das dificuldades de aprendizagem da leitura, e ainda a garantia de acesso e permanência dos jovens, adultos e crianças na escola está longe de se tornar uma realidade, mas não podemos perder de vista que as mudanças estão se processando, ainda que de forma lenta e gradual. Nosso estudo vai mostrar como essas configurações se apresentam dentro de duas salas de aula no processo de interação entre crianças e adultos alfabetizandos e suas professoras, evidenciando a importância da leitura para a inserção desses sujeitos na cultura escrita.

Em síntese, neste capítulo, foram abordadas a delimitação do problema de pesquisa, as configurações atuais da EJA e do EFNA e as avaliações em larga escala e sua relação com o objeto de estudo pretendido: a apropriação da leitura de crianças e adultos por meio da linguagem em uso.

No próximo capítulo, será apresentado o referencial teórico-metodológico e as considerações a respeito da lógica de investigação em uso na pesquisa, destacando o caráter interativo-responsivo da pesquisa etnográfica.