Os direitos educativos dos jovens e adultos estão assegurados pela Constituição Federal de 1988, que garante a provisão pública de ensino fundamental obrigatório e gratuito. A Lei nº 9394 de 1996 dispõe sobre as Diretrizes e Bases da Educação (LDB), que prevê a organização do sistema educativo, também contempla a educação básica desse grupo social, determinando que os sistemas de ensino assegurem a oferta de cursos e exames que proporcionem oportunidades educacionais apropriadas aos interesses e condições de vida e trabalho dos jovens e adultos (Di Pierro, 2003). Vargas (2010) acrescenta, ainda, que há vários instrumentos internacionais que legitimam e ratificam a garantia do direito à educação dos jovens e adultos. A autora destaca, em seu trabalho, a Declaração
Mundial sobre Educação para Todos, realizada em Jomtien, na Tailândia, no ano de
1990, e a V Conferência Internacional de Educação de Adultos (CONFINTEA),9 realizada em 1997, na cidade de Hamburgo, Alemanha. Na declaração produzida pelos participantes da conferência, a participação ativa e consciente de homens e mulheres é apresentada como requisito fundamental para que a humanidade sobreviva e seja capaz de enfrentar os desafios do futuro. Nesse contexto, a educação de adultos
torna-se mais que um direito: é a chave para o século XXI; é tanto consequência do exercício da cidadania como condição para uma plena participação na sociedade. Além do mais, é um poderoso argumento em favor do desenvolvimento ecológico sustentável, da democracia, da justiça da igualdade entre os sexos, do desenvolvimento socioeconômico e científico, além de ser um requisito fundamental para a construção de um mundo onde a violência cede lugar ao diálogo e à cultura de paz baseada na justiça(...). A educação ao longo da vida implica repensar o conteúdo que reflita certos fatores, como idade, igualdade entre os sexos, necessidades especiais, idioma, cultura e disparidades econômicas (DECLARAÇÃO DE HAMBURGO, 1999, p. 2).
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A Conferência Internacional de Educação de Adultos (CONFINTEA) constitui um evento mundial promovido pela organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e realizado a cada doze anos.
Apesar das recomendações internacionais que os governos se comprometeram a adotar e da constatação da necessidade, relevância e obrigatoriedade de oferta dessa modalidade de educação, a esfera governamental ainda não foi capaz de exercer com competência seu papel na função redistributiva dos recursos, e também na coordenação e indução de políticas públicas educacionais que assegurassem o acesso, a permanência e a ampliação do ensino de qualidade direcionado à população jovem e adulta. Nessa perspectiva, Haddad (2009) afirma que:
Apenas para falar da história recente, transitamos da omissão do governo FHC, que transferiu recursos públicos destinados à alfabetização para a ONG Alfabetização Solidária, criada e dirigida pela primeira-dama Ruth Cardoso, para o programa Brasil Alfabetizado do governo Lula, que apesar de trazer para a responsabilidade desta oferta para o poder público, ainda não conseguiu chegar com qualidade aos que demandam estes serviços, nem conseguiu garantir a continuidade dos alfabetizados em programas de EJA10 (Haddad, 2009, p. 2).
Vargas (2010) acrescenta que, além do programa Brasil Alfabetizado,11 atualmente, a oferta da educação de jovens e adultos desenvolvida por órgãos do governo federal tem sido conduzida por diversas frentes. Destacamos as seguintes: Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica da Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) e Programa Nacional de Inclusão de Jovens (PROJOVEM). Essas medidas de apoio técnico e financeiro - com destaque para a criação do Fundo de Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (FUNDEF) – têm desencadeado um processo de municipalização da EJA, especialmente nos primeiros anos do Ensino Fundamental, deixando os demais níveis sob a responsabilidade do governo estadual, conforme prescrito na legislação nacional.
Entretanto, Haddad (2009) argumenta que os governos municipais e estaduais têm mostrado pouco empenho no que diz respeito à adequação do
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Educação de Jovens e Adultos.
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O MEC realiza, desde 2003, o Programa Brasil Alfabetizado (PBA), voltado para a alfabetização de jovens, adultos e idosos. O programa é uma porta de acesso à cidadania e o despertar do interesse pela elevação da escolaridade. O Brasil Alfabetizado é desenvolvido em todo o território nacional, com o atendimento prioritário a 1928 municípios, que apresentam taxa de analfabetismo igual ou superior a 25%.
atendimento de jovens e adultos, pois a maior parte das vagas ofertadas não se adaptam às necessidades dos alunos. Essa afirmação pode ser referendada pelos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)12 2007, que mostram os principais motivos pelos quais os alunos não são capazes de concluir o curso de EJA. Em primeiro lugar aparece a incompatibilidade de horário entre as aulas e o trabalho remunerado, com 27,9%; a mesma incompatibilidade de tempo aparece novamente relacionada desta vez ao horário dos afazeres domésticos, com 13,6%. Outro impedimento encontrado pelos alunos refere-se à dificuldade de acompanhar o curso, representando 15,6%. Figuram ainda a inexistência de cursos próximos ao seu local de residência 5,5% e de trabalho 1,1%. Contudo, o número que mais chamou a nossa atenção e que proporcionou o levantamento de inúmeras questões perfaz um total de 15,6% e diz respeito à falta de interesse dos alunos em fazer o curso. A principal pergunta, dessa forma, é: por que os alunos não se sentem interessados pelo curso?
Esses dados demonstram que, dos poucos atendidos até 2007, 42,7% largaram os estudos. Quando dizemos que são poucos os atendidos, voltamos o nosso olhar para outro dado importante apontado pelo PNAD 2007: do total da população pesquisada com quinze anos ou mais, apenas 2%, 2.9 milhões de pessoas, estavam estudando na EJA. Esse número é bastante pequeno se comparado ao número de analfabetos e analfabetos funcionais existentes no país, que somados chegam a aproximadamente 34 milhões de pessoas, segundo os dados do PNAD.
Concordamos com Vargas (2010) ao afirmar que a garantia do direito à Educação de Jovens e Adultos ainda constitui um desafio tanto para o poder público quanto para a sociedade civil. A autora lembra que os agentes da sociedade têm desempenhado um papel importante no cumprimento ao compromisso com o ensino de qualidade. Nessa direção, cita como exemplo asgestões colegiadas; a criação de propostas educacionais nos conselhos políticos e a constituição de espaços de encontro para articulação, troca de informações e atualização, denominados Fóruns de EJA. Esses fóruns se organizam em instâncias estaduais e distritais e contam com a participação de diversos atores sociais. A criação dos Fóruns de EJA foi uma das estratégias encontradas pelo movimento da EJA durante o processo
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A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) é realizada pelo IBGE para levantar informações sobre a situação socioeconômica do Brasil.
preparatório da V CONFINTEA, para reafirmar seu compromisso em contribuir com a promoção de ações educativas e com a democratização da cultura escrita no Brasil. Esse momento foi marcado por divergências e conflitos entre representantes de vários segmentos da sociedade civil e governo federal. A autora relata que a relação entre poder público e sociedade civil tem vivido inúmeros momentos de tensão.
Esses momentos de divergência, porém, podem proporcionar novos debates que surgem da necessidade e impõem o estabelecimento de parcerias, pois o objetivo de ambos os segmentos deve ser a defesa da educação de qualidade para esses jovens e adultos que têm sua vida marcada por condições de exclusão e não saber. Os pesquisadores acadêmicos, os participantes dos movimentos sociais, os próprios estudantes e os professores da EJA, bem como os representantes governamentais são responsáveis pela criação de estratégias de colaboração e inovação, que viabilizem que o conhecimento e as experiências acumuladas sejam aplicados de maneira efetiva onde é necessário.
A VI CONFINTEA, realizada em Belém do Pará, no período de 1º a 4 de dezembro de 2009, pode ser apontada como um caso expressivo de avanço nesse diálogo entre diferentes atores sociais e esfera governamental, pois dela resultou um documento,13 síntese das discussões em pauta, em que os países se comprometeram a ampliar as parcerias entre governos e sociedade civil, com o objetivo de melhorar a qualidade do ensino destinado aos jovens e adultos, de modo que o direito de ler e escrever seja garantido a todos os cidadãos do mundo (Vargas, 2010).
Talvez o Parecer do Conselho Nacional de Educação (CNE) e da Câmara de Educação Básica (CBA) 11/2000, que dispôs sobre as diretrizes curriculares nacionais para a Educação de Jovens e Adultos, possa também ser apontado como outro exemplo importante de parceria. Não tão atual, mas de importância largamente reconhecida, esse parecer reafirma as especificidades desta etapa da Educação, ao estabelecer que
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Marco de Ação de Belém, esse documento assinala que a educação e aprendizagem de adultos permanecem cronicamente desvalorizadas e sem os recursos financeiros necessários, e afirma que o reconhecimento alcançado com a CONFINTEA V não abriu o caminho para uma ação política eficaz em termos de priorização, integração e alocação de recursos adequados, seja em âmbito nacional ou internacional.
a identidade própria da Educação de Jovens e Adultos considerará as situações, os perfis dos estudantes, as faixas etárias e se pautará pelos princípios de equidade, diferença e proporcionalidade na apropriação e contextualização das diretrizes curriculares nacionais e na proposição de um modelo pedagógico próprio (BRASIL, 2002, p. 1).
Diante do exposto, é possível perceber que, apesar dos avanços conquistados no campo da educação de jovens e adultos, ainda são muitos os desafios. Para enfrentá-los, a Rede Municipal de Educação de Belo Horizonte definiu diferentes formas de atendimento às pessoas jovens e adultas. Além das turmas de EJA, que funcionam nas Escolas Municipais, o acompanhamento desses grupos ainda ocorre, simultaneamente, através do Programa Brasil Alfabetizado, do Projeto EJA/BH e do Ensino Fundamental Regular Noturno. Esta pesquisa se refere, pois, à EJA na sua modalidade regulamentada pela Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte (XAVIER, 2009). Com este estudo, será possível contribuir para que o processo de ensino-aprendizagem se torne mais significativo, pautado pelo reconhecimento das características próprias e necessidades dos estudantes que se formam em contextos de aprendizagem, que são ao mesmo tempo semelhantes e diferentes.
A seguir, serão discutidos alguns aspectos relacionados às crianças de seis anos na escola, a partir da ampliação do tempo de escolarização obrigatória no Ensino Fundamental.