Para o desenvolvimento da presente pesquisa, levamos em consideração os pressupostos teórico-metodológicos tanto da teoria dialógica do discurso quanto das ciências do trabalho, ambas perspectivas que se preocupam com o estudo de diferentes atividades humanas, dentre as quais estão as atividades de trabalho. De acordo com Di Fanti (2005, p.20), valer-se da perspectiva dialógica para refletir sobre o trabalho significa “considerar a atividade humana a partir de um princípio relacional, que se constitui [...] pelo não-esgotamento, pela não-exaustividade e pela não-completude do sentido”. Sendo assim, não buscamos, neste estudo, apresentar sentidos e verdades absolutas, mas sim discutir a complexidade que envolve a atividade do professor no ensino de Língua
Portuguesa, o que pode ser posto em destaque a partir da análise dialógica da linguagem e da atividade.
Partindo desse lugar teórico, optamos por selecionar o material e organizar as análises a partir de temas considerados pertinentes para a nossa reflexão a fim de atingir aos objetivos propostos neste estudo. Esses temas foram constituídos a partir de enunciados produzidos em diferentes momentos de verbalização sobre o trabalho docente pelas professoras participantes da pesquisa, já formadas e em formação. Na abordagem bakhtiniana (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 1929/ 2006), o tema, apesar de sua recorrência, é sempre dinâmico, visto que se materializa discursivamente de diferentes formas e apresenta sentidos e valorações diversas. Ele é considerado concreto e irrepetível, assim como a enunciação, e sempre procura “adaptar-se adequadamente às condições de um dado momento da evolução” (p. 134). Os temas selecionados serão analisados a partir dos enunciados que os constituem, que apresentam pistas discursivas para que possamos compreender o movimento de sentidos construído, o que engloba os diferentes interlocutores, espaço, tempo, aspectos histórico-sociais, posições ideológicas e acentos valorativos.
Nessa perspectiva, destacamos que em relação a cada um dos temas selecionados, analisaremos discursivamente trechos do material constituído nas entrevistas individuais realizadas com as duas professoras efetivas da escola em questão, bem como o material dos questionários e os enunciados resultantes do encontro do grupo de discussão, etapas que tiveram a participação das três professoras em formação participantes desta pesquisa, a fim de verificar pontos de convergência e divergência, o que irá colaborar para que possamos atingir aos objetivos aos quais nos propusemos, a seguir retomados.
Temos como objetivo geral investigar como se dá, no discurso dos professores participantes do estudo, o estabelecimento do diálogo entre os saberes instituídos (acadêmicos) e os saberes investidos (práticos) na atividade do professor de LP. Como objetivos específicos propomos: (a) dar visibilidade, via análise discursiva, ao debate de normas que constitui o trabalho do professor de Língua Portuguesa, em especial o debate entre as normas antecedentes e as renormalizações, buscando compreender facetas da complexidade de sua atividade laboral, (b) investigar que concepções de linguagem norteiam a prática do professor de Língua Portuguesa (já formado ou em formação) e (c) apreender características da atividade do professor de Língua Portuguesa, de modo a compreender de que maneira essa atividade é conduzida em sala de aula.
A partir das discussões e reflexões que envolvem os objetivos propostos, pretendemos contribuir para o (re)conhecimento acerca da complexidade da atividade docente. A fim de atingir os objetivos deste estudo, os três temas selecionados para análise e discussão são: A constituição da atividade laboral do professor de Língua Portuguesa:
gramatical e discursivae Dificuldades no trabalho docente e no processo de formação inicial e continuada.
As análises enunciativo-discursivas desses temas são desenvolvidas com base nos pressupostos da teoria dialógica do discurso. Bakhtin/Volochinov (1929/2006) apresenta uma orientação metodológica para a realização de análises de práticas linguageiras: (a) estudo das formas e tipos de interação verbal e sua relação com as condições em que são realizadas, (b) análise dos enunciados no processo de interação verbal e (c) análise da materialidade linguística. Essa “ordem” metodológica de análise é considerada neste estudo no sentido de levarmos em conta o entorno constitutivo da enunciação em uma situação de pesquisa (enunciados produzidos em entrevistas, questionários e grupo de discussão) e a constituição dialógica desses enunciados, sempre relacionados com outros sujeitos e outros discursos. Além disso, a construção de sentidos é depreendida por meio de análises da materialidade linguística, baseando-se em noções como signo ideológico, enunciado, vozes discursivas, acento de valor, dentre outras, no que diz respeito à abordagem dialógica, e nos conceitos de atividade de trabalho, normas antecedentes, renormalizações, uso de si, saberes instituídos e saberes investidos, no que se refere à perspectiva ergológica.
Nesse contexto, é importante destacar o que afirma Amorim (2004, p.26) em relação ao ato de pesquisar: “todo trabalho de pesquisa seria uma tradução do que é estranho para algo familiar (...). Para que alguma coisa possa se tornar objeto de pesquisa, é preciso torná-la estranha de início para poder retraduzi-la no final: do familiar ao estranho e vice-versa, sucessivamente”. Dessa forma, o trabalho do pesquisador envolve aproximações e distanciamentos em relação ao seu objeto de pesquisa. Aproximar-se é necessário para escutar o outro, e distanciar-se é fundamental para que essa escuta seja traduzida e transformada em conhecimento científico.
No texto O autor e a personagem na atividade estética (BAKHTIN, 1922- 1924/2003, p. 22), há uma importante discussão que diz respeito à relação eu/outro na produção e compreensão de discursos, que pode fundamentar o processo de pesquisa e de análises. De acordo com o autor, a noção de excedente de visão é fundamental na relação com o outro e consiste em
entrar em empatia com esse outro indivíduo, ver axiologicamente o mundo de dentro dele tal qual ele o vê, colocar-me no lugar dele e, depois de ter retornado ao meu lugar, completar o horizonte dele com o excedente de visão que desse meu lugar se descortina fora dele, convertê-lo, criar para ele um ambiente concludente a partir desse excedente da minha visão, do meu conhecimento, da minha vontade e do meu sentimento ” (BAKHTIN, 2003, p. 23).
De acordo com essa abordagem teórica, o processo de análise necessita desse importante movimento entre a empatia e a exotopia. Dito de outra forma, há, por parte do pesquisador, uma constante alternância entre a aproximação, sempre temporária, em relação ao outro, ou seja, ao sujeito pesquisado, a fim de tentar compreender os discursos produzidos por ele (empatia) e o distanciamento (exotopia), a partir do qual o processo de compreensão passa a ser efetivado. Nesse contexto, o eu, na perspectiva bakhtiniana, é sempre único, singular, mas sua constituição se dá sempre na relação com o outro.
A partir das etapas de coleta de material e de análise discursiva, buscamos investigar como se dá, no discurso dos professores participantes desta pesquisa, o diálogo entre os saberes acadêmicos (instituídos) e práticos (investidos) no desenvolvimento do trabalho do professor de LP. Para tanto, cabe destacar que, conforme Amorim (2004, p.50), “o outro, copresente na situação de campo, torna-se ausente na cena da escrita e essa mudança nos lugares enunciativos instaura condições específicas para o trabalho do texto”. Isso significa que, de acordo com a perspectiva teórica adotada, necessariamente, as análises realizadas pelo pesquisador ocorrem sempre a partir de um lugar exotópico e singular.
Nesse contexto, por fim, esperamos que haja uma maior compreensão acerca da complexidade constitutiva dessa atividade para que possamos, a partir da interface entre os estudos da linguagem e do trabalho, oportunizar a criação de saberes sobre o fazer laboral do professor de Língua Portuguesa do Ensino Médio. Após a conclusão deste estudo, pretendemos apresentar os resultados ao grupo de participantes da pesquisa, a fim de que haja uma maior visibilidade acerca da complexidade da atividade que desenvolvem. Buscaremos tornar essa complexidade mais perceptível no próximo capítulo, em que discutiremos como se dá a relação entre os saberes instituídos e os saberes investidos na realização do trabalho docente.
3. SABERES INSTITUÍDOS E SABERES INVESTIDOS: ANÁLISE DIALÓGICA