Todo esse percurso empreendido pelos estudantes pelas fases de sua trajetória dentro do Projeto vai levando-os a se tornarem mais experientes, pois já vivenciaram muitas situações e oportunidades de atuação, protagonismo, enfrentamentos, adquirindo muitos
aprendizados em espaços diversos de ação política com as famílias, os colegas e os professores do Projeto, em espaços de reflexão, debates, apoio, acolhimento e trocas de vivências, e com as lideranças comunitárias, compartilhando experiências com outros coletivos engajados nas demandas das populações pobres. Foram momentos significativos que possibilitaram, cada vez mais, a identificação e o vínculo amoroso com os sujeitos e com seus ideais. A cada experiência vivida, as ações tornam-se mais conhecidas, e eles compreendem melhor a proposta da Educação Popular e sua atuação ligada ao campo da saúde. Nesse momento de suas trajetórias, é possível falar de um engajamento maior, mais profundo e mais significativo para esses estudantes, numa relação amorosa com características bem específicas.
Essa relação amorosa desenvolvida entre o estudante e o mundo popular pode ser bem mais compreendida através de um conceito pouco usual para esse tipo de relação, definido como uma espécie de conversão, que alguns autores buscam compreender mais detalhadamente para explicar esse processo subjetivo vivido por muitos trabalhadores do campo da saúde, quando convivem mais proximamente com parcelas subalternizadas da população. Valla (2009) é um desses autores que vai refletir sobre esse conceito de conversão. Ele baseou-se nas experiências de Richard Schaull, pastor, professor e missionário presbiteriano, que, durante a segunda metade do século passado, trabalhou com comunidades populares em países da América Latina. Schaull incentivava seus seminaristas a irem conviver com essas pessoas das classes populares, morando com elas, para entender, mais profundamente, o jeito de viver e de agir dos sujeitos para os quais os missionários dirigiam suas ações. Schaull compreendia esse ato de convivência como uma maneira de incorporar o olhar das classes populares no mundo e na realidade, como uma condição fundamental para uma atuação verdadeira no sentido de enfrentar a profunda desigualdade e o sofrimento trazidos pela questão da pobreza nesses países. A essa convivência direta com o mundo popular, com a incorporação do seu olhar sobre a realidade, Schaull (CÉSAR E SCHAULL, 2001 apud VALLA, 2009) chamou de conversão, num sentido não convencional do termo, mas como a adoção de um novo lugar sobre o qual seria possível compreender profundamente os problemas fundamentais para os quais se buscam resoluções. Essa convivência e essa adoção de um novo lugar refletem o compromisso com as classes populares que passam a reestruturar a vida das pessoas engajadas, principalmente aquelas vindas das classes mais abastadas. Sob essa perspectiva, a conversão, no sentido pleno do termo, significaria exclusivamente a conversão à questão da pobreza, como centro dos debates e dos
posicionamentos para enfrentamentos dos demais problemas postos como desafios para as sociedades atuais e futuras (VALLA, 2009).
Valla (2009) faz, ainda, uma análise da ideia de conversão, mencionando algumas propostas de atuação pertencentes aos campos político e religioso. Em termos religiosos, a figura mais conhecida sob essa perspectiva de conversão foi São Francisco e seu legado, como renúncia ao mundo da riqueza e da ostentação. Relacionadas ao campo político, aparecem práticas de inserção de militantes na realidade de vida e de trabalho das classes populares, com a intenção de realizar, através dos contatos cotidianos, a conversão dos pobres a um projeto político previamente organizado sem a participação popular. Esses sujeitos adentram o mundo popular na tentativa de modificar a visão das pessoas pobres, e não, modificar sua visão desse mundo no convívio com elas. Segundo esse autor, essas perspectivas dadas à percepção de conversão não corresponderiam ao que ele compreendia, de fato, com o que seria o conceito de conversão.
Dessa forma, a ideia de conversão defendida por Schaull e assumida por Valla compreende um movimento de descentramento, de mudança fundamental nas formas de enxergar as possibilidades de entender o mundo, as possibilidades de ação e construção de um mundo possível para todos. Assim, a conversão significaria esse movimento de confrontarmos nossas experiências submetendo-as à centralidade da experiência do outro, acolhendo a experiência do outro como referência para pensar o mundo, numa conversão de sentidos habitualmente dada para significar as coisas. Com isso, ganham novos sentidos tipo de noções já naturalizadas como justiça, direitos, urbanização, conhecimento etc., se forem pensadas sob a perspectiva dos contextos de escassez e pobreza. Portanto, na compreensão de Valla (2009), isso representaria uma conversão à experiência de vida e de mundo do outro, tendo um compromisso profundo que ressignifica e reestrutura a própria vida daqueles que se abrem para esse convívio. Seria, assim, uma conversão à pobreza.
Na continuidade desse debate, Vasconcelos (2013) traz novos olhares, juntamente aos discutidos por Valla, sobre a perspectiva da conversão à pobreza, relacionados ao campo da saúde. Ele vai afirmar que o que move, muitas vezes, diversos trabalhadores que se inserem na realidade comunitária é o fascínio com o dinamismo e a vitalidade surpreendentes presentes nas pessoas pobres, quando é construído um contexto em que floresce uma relação igualitária e respeitadora de seus saberes e valores. Embora o referido autor dirija sua explanação aos trabalhadores da área de saúde, ela traz aspectos que descrevem bem o processo aqui analisado com os estudantes. Nesse contexto constitui-se a presença desse vínculo amoroso, muito mais do que um dever profissional. Assim, essa conversão não é
somente com a condição de pobreza, mas, essencialmente, com aqueles considerados pobres, oprimidos e marginalizados. Sobre esse aspecto, o autor aponta:
O encantamento com o vigor humano que, de forma surpreendente, manifesta-se em situações tão precárias, aponta para um conceito de justiça social diferente do habitualmente referido entre as pessoas envolvidas nas políticas sociais que enfatizam a superação das desigualdades sem valorizar as importantes contribuições proporcionadas pelo diálogo entre setores tão desiguais para a construção de uma sociedade alegre e solidária. Funda também uma ética em que o dever e a obrigação de ajudar e de militar são substituídos pela paixão e pelo encantamento de ajudar e de militar (VASCONCELOS, 2013, p. 4).
Assim, essa perspectiva de militância e de engajamento com a causa do pobre vai além do dever e da obrigação de ajudar e militar. O que vai mover esses trabalhadores, em nosso caso específico, os estudantes, é esse encantamento com o vigor e a potência das pessoas pobres, incentivados pela metodologia dialógica do Projeto a perceberem e a valorizarem, com suas experiências, as contribuições importantes do diálogo com as pessoas do mundo popular e a relação amorosa, comprometida e responsável que se constrói entre elas. Assim, para Vasconcelos (2013), a força do trabalho por amor é a sua própria vivência, que é capaz de dar uma sensação de paz e dar um sentido pleno à vida e uma certeza do caminho a ser tomado. Para o autor, o desafio é manter-se nessa vivência de amor, pois podem acontecer rancores, medos, cansaços e seduções individualistas de competitividade e consumo para muitos trabalhadores de saúde engajados.
No itinerário dos estudantes dentro do PEPASF, analisado ao longo da presente pesquisa, constatamos, nos exemplos analisados nessa dimensão e com base nas discussões empreendidas pelos autores, que alguns conseguiram se aproximar dessa tendência à ideia de conversão à causa dos pobres, oprimidos e marginalizados. Eles conseguiram, de certa forma, conscientizar-se do processo de transformação interior que vivenciaram e dos aprendizados significativos que adquiriram com toda a gama de experiências proporcionadas por sua relação com o mundo popular, através desse vínculo amoroso significativo com as pessoas pobres e suas demandas por mudanças sociais. Com isso, o estudante começa a perceber que pode criar algo para mudar sua vida pessoal e profissional e fazer escolhas sobre o que realizar, tornando-se protagonista de sua própria caminhada, numa perspectiva de construção da nação de forma emancipatória. Desta forma, com os processos vividos, alguns deles compreendem que podem agir sobre a sua realidade para modificá-la, assumindo a causa da luta pela transformação social e política das populações mais pobres como sua própria luta, dando um sentido à sua vida. De maneira geral, esta é uma fase em que boa parte dos
estudantes busca novos caminhos para si mesmo, com muitos deles deixando o Projeto neste estágio de transformação, indo para outras frentes de luta com as propostas ali aprendidas.
Assim, muitos estudantes saem do PEPASF nesse estágio, com o objetivo de buscar novas experiências e oportunidades de aprendizados dentro e fora da universidade. A repercussão de todas as vivências, dos aprendizados e das transformações experimentadas em suas trajetórias no Projeto é uma aposta esperançosa que eles fazem diante da existência, mas dependerá de quais os novos caminhos que empreenderão na sua formação e caminhada profissional, visto que, apesar dos novos desafios, das dificuldades que terão que enfrentar e das desconstruções de valores, terão acesso a muitos novos aprendizados, alegrias, entusiasmo e motivações, que farão parte de suas novas buscas por sentidos na vida, e terão experimentado o efeito do amor sobre o seu trabalho em saúde e sobre sua existência.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS – AO FINAL DA CAMINHADA, UM OLHAR PARA